O
zazen não é uma tarefa de sentar para sofrer, a tarefa é sentar para descobrir
quem você é. Nem Buda, nem eu e nem nenhum professor entrega essa resposta, porque
ela não pode ser dada. É você quem tem que ir lá e desmontar passado, futuro e
quem você acredita que é. Por
isso há koans como: “me mostre sua face antes dos seus pais terem nascido”. Quando
o Mestre pede isso ao aluno, o que ele está pedindo? Está pedindo que o aluno
mostre de verdade quem é ele, além de nome e forma, além do rosto que seus pais
lhe deram, além da sua crença em si mesmo. Ninguém pode entregar a resposta
para outra pessoa, porque a resposta é um insight interno. Você tem que sentar
o aluno e mandá-lo enfrentar o problema de verdade. Não adianta ler os Sutras,
ou os textos, vir às palestras e achar que assim você vai alcançar a sabedoria.
Não vai. Você vai receber pistas e até um certo ponto é possível explicar, mas
não mais que isso. Esse é o problema: não tem ninguém para lhe dar uma
resposta, ninguém lhe dirá: “está aqui a resposta, acredite nisso e essa é o despertar”. O despertar não depende disso, não depende de acreditar ou de fé,
depende só da confiança de que vale a pena praticar para chegar lá. (continua)
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sexta-feira, 13 de maio de 2016
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Cortar a raiz
5) Eu vejo muita dificuldade em cortar a raiz.
Saikawa Roshi – Eu vi num noticiário que há um conflito no Paquistão. Alguém deu um coração da filha morta para transplante. Se você assim o desejar pode dar o coração para qualquer pessoa, mesmo seu inimigo. O problema é o conceito de inimigo que o impede.
** Comentário de Monge Genshô – O que Roshi está querendo dizer é que se amanhã judeus e palestinos perdessem suas memórias, seus conceitos, tudo estaria resolvido, pois quando se olha para uma pessoa sem saber sua nacionalidade ou religião, elas são iguais.
Os ensinamentos de Buda tentam disseminar paz e harmonia ensinando a ver a realidade, ver a raiz da realidade. Costumamos dizer que nascemos, nós não nascemos, é a vida que nasce, porem a vida não nasce do nada, é pura transmissão, na verdade sua vida é infinita. É difícil viver no mundo dessa maneira, as pessoas não entenderiam, pois esse mundo é dualista. Por isso dizemos “eu nasci em tal data”.
6) Eu não entendo muito bem essa parte, nós já existíamos antes como parte do todo, ou passamos a existir a partir da união dos pais?
Roshi – Shakyamuni Buda foi perguntado sobre passado e futuro e ele não deu resposta. Algumas poucas vezes ele respondeu em outras ficou em silêncio. Para nós o que importa é esse momento, prestar atenção somente a esse momento é o que realmente importa.
** Comentário de Monge Genshô – Sua pergunta seria, “eu existia separado antes de meus pais”? Esse é o desejo do ego, ter existência própria. Ter existido antes e continuar a existir depois.
A separação existe, eu sou separado de Genshô e ele é separado de mim e de vocês. E somos todos diferentes. Esse mundo é dualístico. Mas ao ver a divisão você perde de vista a unidade.
7) Embora já existíssemos antes, o momento da concepção é quando se juntam pai e mãe, então, como é isso de verdade? Existíamos antes, mas passamos a existir de fato no momento da concepção, como isso funciona?
Roshi – Essa idéia de eu e os outros é que não é boa. Não há eu e os outros, começo ou fim. Se você entende como nascimento, você irá morrer. Mas no círculo não existem nascimentos ou mortes, em todos os pontos há nascimento e há morte, então de verdade não há nascimento ou morte, vida ou destruição.
** Comentário de Monge Genshô – O que ele está explicando é que na dimensão histórica existem nascimento e morte, vida e destruição, certo e errado, bom e ruim. Mas na dimensão suprema não, é como ele acabou de explicar no Sutra do Coração, na parte em que nega a existência de tudo, no mundo do Dharma nada é puro ou impuro, nada nasce ou morre, justamente para que não surja esse tipo de pergunta, não existe começo ou fim. Onde estava você antes das duas células se juntarem?
O koan, “qual a sua face antes de seus pais nascerem?” parece falar sobre passado e futuro, mas não é isso. Quase todos os koans não podem ser respondidos através da mente racional e dualística. É impossível. Se você se concentrar nesse koan não conseguirá respondê-lo com sua mente racional. Para respondê-lo você deve entrar no mundo não dual. O koan irá guiá-lo para o mundo não dual.
** Comentário de Monge Genshô – De certa forma, seus avós e seus pais estão aqui. Roshi please, Do you understand? It’s ok?
Roshi – Anyway it’s ok, I don’t understand. (De qualquer jeito está bem, eu não entendo mesmo)
(Final)
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Qual a sua face antes dos seus pais terem nascido?
(continuação)
O Zen é um método de estudar o budismo, que se utiliza da mesma prática que Buda usou, que é a meditação. Mas a meditação e o Dharma não são propriedades do budismo nem do Zen. Eles estão aí no mundo, existem múltiplos métodos para serem praticados, pois as pessoas são diferentes e, assim, precisam de diferentes métodos. Por isso que nós temos que jamais dizer “eu tenho a verdade, ou este é o caminho e os outros estão todos errados”. Até o conceito de certo e errado, como eu explico no livro “O Pico da Montanha é onde estão os meus pés”, é um engano no campo do absoluto, pois também está no campo da dualidade. Eu não posso dizer, senão relativamente, que isso é certo, e aquilo é errado. Nós temos o dharma, a sabedoria. E nós temos ignorância, é claro. Mas nós podemos sair da margem da ignorância e atravessar para a margem da sabedoria. Isso significa prajna paramita (prajna = sabedoria / paramita = a outra margem). Agora se eu pego o barco, ou um veículo dado – que é uma forma de espiritualidade qualquer –, atravesso o rio da ignorância e chego à outra margem, se eu for um bodhisatva (ser iluminado, repleto de compaixão) eu retorno para ajudar os seres que estão na margem da ignorância. Porque eu não posso ir sozinho, e aquele barco eu não posso carregar nas costas. Por isso os bodhisatvas permanecem aqui. (Final da palestra)
Perguntas
Pergunta: Monge, quando se fala naquela diferença entre atman e anatman, me vem à mente aquela pergunta “como era a sua face antes do seu pai nascer?”. Afinal, existe alguma “raiz” para essa natureza búdica?
Monge Genshô – Então, este é um famoso koan que não comporta uma resposta simples. A pessoa não pode “mostrar a sua face antes dos seus pais terem nascido”. Não há uma resposta lógica para isso, e então a pessoa tem que enxergar a resposta além da resposta. Se ele conseguir isso, ele entrará na sala [do mestre que o fez tal pergunta] como se estivesse carregando uma coisa preciosa. – “Mestre, eu achei! É esta minha face antes dos meus pais terem nascido”. Se você conseguir fazer isso, é um grande passo no despertar. E é por isso que esta pergunta existe. Mas enquanto se procura reponde-la com a mente racional e lógica, ainda não se entendeu a pergunta, já que se trata de uma provocação não lógica. É como se me dissessem para mostrar uma árvore sem raiz. Para esta questão, Joshu respondeu: - “O cipreste do jardim”. Mas daí se você vem com a mente lógica, vai logo dizer que os ciprestes têm raiz. – “Que pergunta absurda é esta?”. E o mestre olha para você e o manda embora. Vá sentar para meditar e só volte para dizer qual é a árvore sem raiz. E por que o cipreste no jardim é árvore sem raiz? Responda... Isso é um koan! Trata-se de um dos instrumentos de prática que se usa no zen, mas é muito difícil... é um tema que gera uma discussão muito profunda, e não se aplica, por exemplo, a uma palestra para um público iniciante na prática. Embora no zen nós termos a tradição de aceitar todas as perguntas que nos são feitas. Nenhuma pergunta pode deixar de ser respondida. Agora, se você não entende a resposta, azar o seu, pratique mais (risos).
quinta-feira, 21 de março de 2013
A mente que se agita
(texto) “O celebre koan da flâmula batida pelo vento de Hui Neng, é uma clara ilustração do tema. Um dia, quando escutava uma leitura sobre o budismo em outros tempos, se levantou subitamente um vento que começou a tremular a flâmula da porta do templo, então teve lugar um incidente relatado no koan. Quando estava ali o sexto patriarca. “
(comentário) O sexto patriarca chinês, o sexto patriarca depois de Bodhidharma, nós o recitamos pela manhã, na linhagem, o nome de Hui Neng.
(texto)“O vento começou a tremular a flâmula, dois monges começaram a discutir sobre aquele fato. Um apontou e disse – Olhe, a flâmula se agita! – respondeu o outro – Não, é o vento que agita! - discutiram interminavelmente sem poder alcançar a verdade. Bruscamente Huing Neng pôs fim a estéril discussão – Não é o vento que se agita, tão pouco a flâmula, honoráveis irmãos, são vossas mentes que se agitam! – e os monges calaram-se. A meu ver, aqui temos o caso mais claro de interiorização do exterior. O vento sopra na mente, a flâmula tremula na mente, tudo sucede na mente, nada fica no exterior da mente. A flâmula batendo ao vento, deixa de constituir um acontecimento que sucede no mundo exterior, o acontecimento inteiro e, implicitamente, o universo inteiro, se interioriza e se representa como constitutivo do espaço interior.
Tao Shu perguntou ao seu Mestre Nan Chuan quando ainda era um noviço – Qual é o caminho? – ou - Qual é a realidade absoluta? – o mestre respondeu – A mente comum, este é o caminho. – desta celebre formula o Mestre Wu Neng deu uma interpretação poética em seu comentário ao koan – As flores perfumadas na primavera, a lua prateada no outono, a brisa fresca no verão, a branca neve no inverno, se a mente não se turva perante perguntas banais, cada dia será um instante feliz na vida dos homens.”
(comentário) Nós podemos, agora, pensar sobre o que tem acontecido nesses zazen que vocês tem feito aqui. Zazen de uma hora e meia, duros, cansativos, doloridos. Eles são propositais, fazem parte do treinamento de sesshin. Não é para ser fácil, é para ser duro, porque se for agradável e fácil, mais espaço ainda tem a mente. Por que nós usamos costumeiramente essas palavras, “vamos nos divertir”, “vamos nos distrair", não é? Divertir significa diversificar, fazer coisa diferente do que você esta acostumado a fazer. Estou acostumado a trabalhar no escritório, então vou me divertir fazendo jardinagem, isso chama-se divertir. E vamos nos distrair é exatamente o contrário de vamos nos concentrar. Vamos nos distrair e deixar nossa mente voar. É necessário alguma coisa para ocupar nossa mente senão ficamos entediados, chateados, não sabemos mais o que fazer. O sesshin é o contrário disso tudo. Tudo é propositalmente feito de forma a ser entediante. Andar em kihin é meio passo cada vez, para, respira. Se o ritmo da respiração estiver correto, serão quatro a seis passos, de 20 cm por minuto. A meditação é imóvel, corpo parado, a instrução é “tente não se mover” para que a mente não se distraia com nada, para que o corpo não informe nada à mente. Um cheiro uniforme de incenso na sala, nada de música, nem instrumentos musicais, nem revistas, nem livros. Essa distração nos é roubada no sesshin, quando sentamos para comer as refeições são iguais, vocês ainda não sentiram isso exatamente, mas imaginem repetir as refeições com o mesmo ritual do oryoki, exatamente o mesmo, semanas. A comida tem menos sabor, são só três pratos e muitas vezes está fria. Se a gente não pensa, não interrompe, colocam comida demais para nós e nos arrependemos de ter tanta comida, porque nada se pode deixar. Não há líquidos durante a refeição. Não esqueçam de beber água ou chá durante os intervalos para evitar desidratação. A ausência de líquidos tem o objetivo de manter a atenção no mastigar, depois de lavar as tigelas você pode beber a água. E essa água tem o sabor “do alimento dos deuses”. Por que? Por que nossa mente pode fazer com que tenha. Se dissermos – Essa água com que lavamos nossas tigelas tem o sabor do néctar celestial! – então, tem. Por isso tem uma lição inclusa, que está contida nisso que estamos falando, que é que nossa mente tem a capacidade de transformar todo o mundo, basta que nós queiramos fazer essa transformação.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
A árvore sem raiz
A Árvore sem Raiz
Tantas coisas a dizer sobre koan.
Até a definição do que é koan varia.
.........................................
Sem a realização.
A pessoa não pode ser realmente compreendida.
Então,como nós realmente estudamos o self?
A fim de estudar o self
nós usamos koans.
.....................
Os koans que usamos, são os assim chamados
Koans kosoku, pois já foram originados
por outras pessoas e colocados em uma certa ordem
para serem estudados.Dogen Zenji fala sobre koans
de maneira um pouquinho diferente, não é?
Na verdade, essa era sua objeção quando foi à China.
A prática de koan, como estudos na China naquela época,
na Dinastia Sung, ele não achava que era a maneira correta,
não achava a maneira adequada de praticar koans.
Então, depois que voltou da China, Dogen
começou a apresentar sua própria maneira de apreciar um koan.
O Shoboghenzo, na verdade, é isso.
Seus escritos mais refinados,
conhecidos como Kaji Shobogenzo, distinguindo
mais de um tipo de Shobogenzo, são uma coleção de koans.
Mas o koan que estou pensando dividir com vocês
neste sesshin não é da coleção de koans de Dogen Zenji,
chamada de Shinji Shobogenzo, o Shobogenzo chinês,
mas de outro de seus escritos em chinês, o Eihei Koroku.
No primeiro volume esse koan é encontrado.
Na verdade ele compõe koans.É isso o que eu quero partilhar com vocês,
dividindo esse único koan em três partes.
No Eihei Koruku,Dogen Zenji cita um trecho de um sutra
e então faz um koan a partir dali.
E faz comentários a respeito.
...................................
Conta-se que ele (Indra) fez uma chuva de pétalas
Com fragrância, em celebração.
Ele desceu até elas e lhes disse:
“Vocês são maravilhosas!
Gostaria de lhes dar algo como prêmio.
O que vocês desejam?”
Essas damas eram de famílias ricas,
nascidas em uma classe muito alta.
De modo que disseram a Indra:
“Temos praticamente tudo.
Com relação à nossa vida nada nos falta.
Temos jóias suficientes.
Não desejamos nada particularmente.
Mas se você realmente quer nos dar algo,
gostaríamos de ter três coisas,
Se puder nos dar.”
E Indra disse: “Claro, digam.”
Então elas disseram: “Primeiro, por favor, nos dê
a árvore sem raiz.
Segundo, por favor, nos dê
o pedaço de terra onde não há yin e yang.
Yin e yang aqui é como dizer positivo e negativo.(Comentário de Monge Genshô)
Nem dia, nem noite,
nem mulher, nem homem,
nenhum par de opostos.
Esta é a terra que gostaríamos de ter.
E terceiro, nós gostaríamos de ter
um vale sem eco.
Essas três coisas gostaríamos de ter.”
Então Indra disse:”Não posso fazer isso,
e mesmo shravaka e pratyekabudas, os Iluminados, Arhats,
Shravakas são aqueles que se iluminam por ouvir o ensinamento e pratyekabudas são os que praticam sozinhos para si mesmos...são três tipos.Shravakas, pratyekabudas e budas que se iluminam para os outros.(Comentário de Monge Genshô)
.................
não podem fazer isto.
Apenas grandes bodisatvas sabem o que elas são,
e apenas Buda sabe como conseguí-las.
Então por que não vamos a Buda pedir a ele?”
Na tradição budista os deuses são colocados abaixo de Buda.Então, na verdade aqui tem um fenômeno cultural do budismo que surgiu e se apropriou das simbologias hindus e as colocou como inferiores.(Comentário de Monge Genshô)
Dogen Zenji interrompe a história nesse ponto
e cria um koan.
“Como Indra não respondeu, vou falar
tomando o lugar de Indra.
O que é uma árvore sem raiz?”
diz Dogen Zenji.
Aqui há uma resposta de koan.(Comentário de Monge Genshô)
“O Cipreste no Jardim,
isso é que é.”
Alguns de vocês, tenho certeza,
já devem ter ouvido falar nesse koan,
...
O Cipreste de Joshu.
De qualquer forma, essa foi a primeira resposta de Dogen.
A Árvore sem Raiz é o Cipreste no Jardim.
Ele então disse: “ Se vocês não compreendem,
eu apanho meu bastão e digo:” É isso,
a Árvore sem Raiz viva.”
O que essa Árvore sem Raiz significa?
Podemos dizer todo tipo de coisas, como liberdade, libertação,
podemos até dizer que é nirvana
não fincado em lugar nenhum.
É fácil falar, mas quão difícil é
O Cipreste no Jardim!
Um monge perguntou a Joshu:
Joshu é muito famoso mestre Zen. Joshu viveu aproximadamente 120 anos. Então, um mestre que viveu muito velho, (778–897) D.C na China.(Comentário de Monge Genshô)
“Qual é a coisa mais importante no ensinamento de Buda.
Qual o ensinamento fundamental do Desperto?”
Ele responde: “Isso é o que é O Cipreste no Jardim.”
O monge continua a pergunta:
“não, não me responda
com esse tipo de dicotomia
de relação sujeito-objeto.
Não me mostre, tratando com o objeto.”
O monge olha para as árvores em jardins como objetos.
É assim que fazemos
então Joshu disse:
“não estou mostrando a você, tratando com o objeto.”
Então o monge coloca a mesma questão:
“qual é o princípio fundamental dos Budas?”
E joshu diz:
“O Cipreste no Jardim.”
E Dogen Zenji disse:
“Essa é a Árvore sem Raiz.”
Algumas pessoas imaginam que podem responder aos koans dizendo coisas sem sentido que vem na cabeça. Isso não vai funcionar.(Comentário de Monge Genshô)
..........................
Algumas pessoas dizem que este é um texto Mahayana,
que sequer é um ensinamento de Buda.
..............................
Nós tomamos tudo como ensinamento de Buda.
Essa é a nossa tradição.
Na nossa tradição (zen) Buda continua falando pela boca dos mestres.É tudo ensinamento de Buda.E é bobagem dizer que só o que foi escrito naquela época é ensinamento de Buda (isto é apenas a verdade histórica não a verdade mística). Não, os sutras Mahayanas são ensinamento de Budas, surgiram da boca de Budas, mestres iluminados.(Comentário de Monge Genshô)
No Denkoroku, Transmissão da Luz,
Denkoroku é uma coletânea de 52 episódios de transmissão.Exatamente episódios de transmissão ligados aos nomes que nós recitamos na cerimônia da manhã, mestre para mestre, como aconteceu nas transmissões.(Comentário de Monge Genshô)
Denkoroku, Trasmissão da Luz,
está escrito que Shakyamuni Buda,
olhando o planeta Vênus,
atingiu o caminho e disse:
“Eu e todos os seres, a grande terra,
simultaneamente atingimos a iluminação.”
Como você entende esse koan?
É exatamente o mesmo
o que Buda está falando
e o que Joshu está falando
e o que Dogen Zenji está falando.
Eles estão falando exatamente sobre a mesma coisa.
Sobre o que eles estão falando?
Claro que estão falando sobre a Árvore sem Raiz?
O que é esse koan ?
O que é isso?
Se vocês não sabem,
eu ergo este bastão e digo:
“É isso!”
Aquele ali, este aqui,
o que é tudo isso, afinal?
Eu, você,
meu, de outra pessoa,
o que é isso?
“É isso!”
Sobre o que Dogen Zenji está falando –
A mesma coisa ou uma coisa diferente?
Se você disser a mesma coisa
você erra.
Se disser uma coisa diferente
você também erra.
Como você cuida
dessas duas expressões diferentes
“Cipreste no Jardim”
e
“é isso!”?
De qualquer modo que o diga,
está errado.
Então, o que é que você faria?
Com sua próprias palavras,
o que é que você diria?
Se alguém me pergunta, eu digo:
“Árvore sem Raiz tem raízes maravilhosas”,
simplesmente assim.
Não uma boa resposta tão boa,
com certeza.
De qualquer modo, onde está aquela raiz?
Quão profunda e firmemente ela está enraizada?
Todos esses pontos de teste do koan
São parte da prática do koan.
É uma prática maravilhosa,
o koan.
................................
É isso que é o koan.
É sobre isso que eles estão falando,
e Dogen Zenji, ele se opõe à prática do koan,
no entanto ele próprio
sempre fala sobre koan.
(Extratos de Texto de Maezumi Roshi)
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Níveis
Pergunta: A iluminação tem diferentes níveis?
Resposta: Há diferentes níveis. Mesmo que você consiga uma realização espiritual o mestre pode dizer: você conseguiu, agora vou lhe dar esse koan. Por exemplo:você obteve uma noção clara da vacuidade – primeiro nível. Quer dizer que você respondeu todos os koans? Não.Os koans ligados a isso você consegue responder, mas os koans ligados a outros temas você não consegue responder ainda. O Koan Mu, o cachorro de Joshu é primeiro nível. O que é mu? Mostre-me o mu. Não é nem um pouco fácil porque na frente do professor olhando para você e pedindo a resposta instantânea, normalmente você não sabe, você trava, gagueja, ou tenta achar uma resposta com a sua mente, mas não funciona. Está claro que está errado. Não é uma resposta que veio das entranhas. A resposta correta ela vem de imediato, não precisa procurar, não tem raciocínio.É resposta de quem sabe. Neste nível que estamos, qual é a cor das folhas? Vocês já sabem, é conhecido, mas se começar a pensar já sai outra coisa.
Antigamente, no modelo oriental, esperava-se que o aluno estivesse mergulhado na cultura. Quando você tem um aluno que pratica artes marciais, por exemplo, eu noto que o treinamento é mais fácil porque o aluno já se habituou com a disciplina e para quem não passou por isso é mais complicado porque precisa aprender que tem que ouvir primeiro e não ficar questionando quando está começando.O questionamento é para depois. Quando os atletas praticam esporte também fica facilitado porque eles não ficam questionando e sabem que não dá para explicar todos os detalhes. O aluno que fica perguntando é o aluno que leva mais tempo. E os professores na tradição oriental nem respondem. Um mestre como Saikawa Roshi, na posição dele como superior da América do Sul não fala, chama um monge mais graduado e manda falar com o aluno e se o aluno não aceita e diz “quem é você para me dar dicas, eu só aceito se for o mestre”, isso complica tudo porque na tradição oriental é assim. Então neste caso o aluno é abandonado e o mestre não faz nada enquanto ele não abandonar aquele ego. Por exemplo, na cozinha tem uma tenzo. A responsabilidade dela é treinar as pessoas para trabalhar na cozinha. Se alguém não gosta da instrução dela na cozinha o que se vai fazer? Tem que ir lá para servir e esse é um grande privilégio servir os outros.(Comentário de Monge Genshô)
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segunda-feira, 6 de agosto de 2012
O Koan
Palestra Proferida por Monge Genshô
Sesshin de Carnaval: 17 a 20 de fevereiro de 2007
Título: Comentários sobre Teishôs de Taizan Maezume Roshi
Tema: A árvore sem raiz
Decupada da gravação, digitada, editada e revisada por Denkô
Taizan vai falar sobre koan.
Muitas pessoas pensam que a escola Soto Zen não usa koan,isto é um engano. A diferença é que a escola Rinzai põe ênfase nos koans. E a escola Soto põe ênfase no shikantaza, a meditação sentada, e deixa o koan como uma coisa auxiliar. No entanto, os mestres Soto costumam usar koan. Aquela pergunta quem é você? Não é um koan,aquilo é umhua-t''ou (jap. watô). É outra técnica, questões que pressionam. Mesmo os praticantes que estão há anos praticando têm muita dificuldade para responder essa pergunta de forma satisfatória.
Koan significa caso público, caso registrado. É um diálogo entre mestre e discípulo, que foi registrado, sobre o qual você pode pensar e tentar responder. Por exemplo, os discípulos estavam disputando por um gato. Normalmente não existem ou não é para existir animais de estimação nos mosteiros, mas de repente aparece um e é adotado. Então, havia um grupo de monges no mosteiro disputando um gato. O mestre chegou na sala, pegou o gato, levantou-o no ar, tirou a navalha que serve para cortar a barba e disse:digam uma palavra Zen e o gato se salvará. Um monge falou: o gato é meu, o outro: compaixão! não mate o gato! O mestre cortou o gato ao meio. Isto no budismo é absurdo. Mas, ele matou, assumiu o risco de fazer isto em benefício de muitos outros seres porque até hoje estamos falando nisso. À noite chegou um monge que estava viajando. O mestre relatou a história. O monge pegou as sandálias e as colocou sobre a cabeça e saiu, e o mestre disse: se você estivesse aqui teria salvado o gato. O koan é assim: me diga o que você teria dito para salvar o gato. Até hoje eu vi uma pessoa que salvou o gato, metaforicamente. Ele levou um ano tentando,mas conseguiu. É como a resposta quem é você? Se alguém dá uma resposta que ele aprendeu filosoficamente, na hora você vê que esta resposta é uma resposta só da sua cabeça.Traga-me uma resposta das suas entranhas. E esse é um dos problemas do koan porque originalmente aconteciam diálogos entre mestres e discípulos, na época de ouro do Zen, e eram muito fortes estes diálogos, verdadeiras as respostas. Com o tempo isto foi sendo escrito e tornou-se caso público como essa história do gato que eu estou contando. Mas vocês não estavam lá nem estavam disputando o gato. Então não era a sua vivência pessoal. É agora uma referência a um caso passado.
O melhor koan é o koan da vida da pessoa, mas precisa um professor realmente bom para isso. Então de certa forma burocratizou-se, institucionalizou-se o koan e começou-se a ter respostas codificadas e isso foi o enfraquecimento da escola Rinzai porque precisa muito bom professor para lidar com este problema. Tem que brigar com o aluno e precisa um aluno forte também, um aluno que pode ser esbofeteado. Quando Dogen foi para a China, ele tinha sido criado, era monge desde os doze anos de idade, na escola Tendai ou Tientai que é uma escola do Vajrayana japonês. Hoje a grande corrente Vajrayana que nós conhecemos é a Tibetana. Mas existe o Vajrayana japonês como as escolas Tendai e Shingon. Então Dogen quando chegou na China ele viu um Rinzai decadente, modificado, não gostou e foi procurando até encontrar Tendo Nyojo que representava a Escola Caodong de Zen, que é a escola Soto, uma escola que se originou do sexto patriarca (em nossa linhagem) da China. (Comentário de Monge Genshô)
(continua)
(continua)
terça-feira, 24 de julho de 2012
Nada, não...
Este prajna e os cem gramas
são sinônimos de Mu-ji e, definitivamente,
Mu-ji é uma referência ao primeiro koan de mumonkan. Mumonkan é uma coletânea de koans e o primeiro é o cachorro de Joshu. Um monge perguntou para Joshu: o cachorro tem natureza búdica? Joshu respondeu: mu. Mu significa nada, não, literalmente.Mas esse koan é resolvido perguntado assim: o que é mu? Onde está mu? Mostre-me mu agora nesta cadeira, mostre-me mu no seu sapato. (Comentário de Monge Genshô)
Pergunta: Mu significa nada não?
Resposta: Literalmente, nada não. Mu é uma partícula negativa. Há muitas considerações. O comentário no Mumonkan diz: se você resolver esse koan ganhará uma grande espada e com ela você poderá cortar a cabeça do seu mestre e de todos os patriarcas. Este é o estado de libertação também.
Kannon Bodisatva também é,
como são cachorros e gatos
e nós mesmos.
Aqui e agora,
quero que vocês realmente apreciem a si mesmos
como Bodisatva Avalokiteshvera.
Vocês fazem shikantaza?Isso é ótimo.
Shikantaza é o que estamos fazendo, apenas percebendo, apenas sendo junto com todas as coisas.(Comentário de Monge Genshô)
É koan?Isso é ótimo.
Seja quem você for
ou o que quer que faça,
você pode apreciar sua vida como
Bodisatva Avalokisteshvera.
Dogen Zenji diz, no Bendowa
mesmo que uma pessoa sente
em shikantaza, zazen,
imprimindo o selo de Buda sobre
corpo e boca e mente,
todo céu, todo o espaço,
em outras palavras, o universo inteiro,
tudo se torna o selo de Buda.
(Maezume Roshi)
O que ele está tentando dizer é que se sentamos em shikatanza, colocamos o selo de Buda em todas as coisas. Então, elas todas manifestam o absoluto, porque se sentamos e percebemos sem julgamento, as coisas podem mostrar a sua talidade, porque o que nos impede de ver a talidade é nossa opinião. Por isso é tão fácil ver o estado dos alunos quando eles se manifestam, porque a manifestação tem ou não tem ego, quanto tem de ego, quanto é desejo de aparecer, opinião, quanto é eu, fica fácil.Uma vez estava com um grupo de alunos do Zen e pedi que cada um falasse sobre a sua experiência, eles falaram, alguns de forma bem bonita. Mas um disse: eu precisava dar uns comunicados sobre coisas que estava fazendo para a Sangha, falou e calou. Eu pensei: que mente maravilhosa, porque quando pedimos para ele falar ele não estava pensando nele, ele estava pensando na comunidade, então naturalmente da sua boca saiu o que ele estava fazendo e não deu nenhuma opinião pessoal. Ele realmente mostrou sem querer uma qualidade.(Comentário de Monge Genshô)
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