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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Plena atenção e os desejos

                                                       O grande mestre Saikawa Roshi

" Cinco. Plena atenção. Conservar os ensinamentos sem esquecimento é chamado de plena atenção e também lembrança perseverante. Buda disse, ”Praticantes, se vocês procuram um bom mestre protetor, nada se compara a plena atenção. Aqueles que mantêm a plena atenção não são invadidos pelas aflições e permanecem livres de várias ilusões, portanto vocês deveriam se manter plenamente atentos, pois aqueles que perdem a plena atenção, perdem as virtudes e seus méritos. Se vocês mantiverem a plena atenção se manterão ilesos mesmo quando cercados pelos desejos. " Porque você verá o desejo surgindo, não há porque se culpar pelo surgimento de um desejo, não é pecaminoso, se o desejo surgir apenas o identifique e identifique sua causa. Essa é a raiz do meu sofrimento, eu sofro porque cultivo esses desejos, eles é que escravizam. Devo entender como eles surgem dentro de mim, porque esse é o meu carma, são as minhas marcas se manifestando, se manifestam em mim dessa forma, estou sendo prisioneiro disso. Para quebrar esse ciclo tenho que enxergá-lo, ver como surge e praticar, pelo simples fato de ser reconhecido ele perde forças.

Pergunta – Se a gente ficar totalmente ausente de desejos não correria riscos de viver sem rumo?

Monge Gensho – Aqui há um problema. Em sânscrito existem várias palavras para desejo. Tanha é o desejo do tipo apego, desejo teimoso que sempre volta. Em termos de alimentos. Tanha seria a força que faz com que a pessoa fique gorda, atacar a geladeira e comer um quilo de sorvete. A pessoa sabe que não pode fazer, mas continua fazendo. Esse desejo, esse apego, leva ao sofrimento. Outras formas de desejo tem palavras especificas em sânscrito. Por exemplo, ditti é o desejo de defender opiniões, dou minha opinião e quero que ela seja aceita. Quando a pessoa está em uma conversa e dá uma opinião, essa opinião é dela, e por ser dela, se alguém disser algo ao contrario inicia-se uma discussão ferrenha, onde qualquer artifício é válido para que sua opinião seja aceita. Então ditti é o desejo de ter, manifestar e defender opiniões. Isso aparece em todos os lugares, inclusive na sangha.

No sesshin (retiro) o que a gente faz? O professor está dando uma palestra, lendo um texto, nós ouvimos, mas não manifestamos opiniões, justamente para treinar o fim de ditti, o nosso apego e desejo por defender e manter opiniões próprias. Em vez de se procurar a verdade, se agarrar a primeira idéia que surge em nossa mente. Existe o desejo de realizar coisas boas alcançar realizações espirituais, desejo de felicidade. Só que o desejo de atingir a felicidade não é alcançado através da obtenção de bens, ficar rico ou coisas desse tipo. Obter a felicidade é obter uma mente correta que sabe usar as benesses do mundo. Não é necessário ver a riqueza ou o dinheiro como uma coisa errada, é um instrumento e pode ser usado. No budismo não existe a idéia de que, em si, apenas a pobreza leva a uma realização espiritual. Para isso temos o famoso sutra de Vilamakirti, que era no tempo de Buda, um poderoso comerciante. Ele era muito sábio e vencia todos os discípulos em discussões do Dharma.

Os discípulos de Buda tinham problemas com ele quando se tratava de discussões do Dharma, ele sempre dava respostas que os discípulos não conseguiam contradizer. No sutra de Vilamakirti, ele está doente e se pede aos discípulos visitá-lo. Cada discípulo, então, apresenta como motivo o fato de ter sido derrotado em discussões do dharma, para não visitá-lo. Até que aparece Manjushri. Nós temos no Zendo uma estatua de Manjushri, discípulo de Buda que é representado sentado em meditação em cima de um leão, segurando uma espada. A espada de Manjushri corta em um. Manjushri vai então ver Vilamakirti , (em outra ocasião Vilamakirti já havia dado uma resposta forte aos discípulos , ele estava voltando de uma visita à Buda e encontra com os discípulos que perguntam,”aonde vais?”, Vilamakirti responde, “Vou ao mosteiro”. E os discípulos dizem, “Como assim, o mosteiro fica na outra direção!” e Vilamakirti responde, “Vocês estão indo para o mosteiro de vocês, o meu mosteiro fica na cidade, é a cidade, onde existem pessoas que precisam de comida, empregos, habitação e pessoas que precisam de ajuda e é onde eu trabalho, lá é meu mosteiro”. Então Manjushri pergunta, “Você é um Bodhisathava, por que está doente?” e Vilamakirti responde, “Todo o mundo está doente, todos os seres, por isso eu estou doente”. Vilamakirti é o exemplo de Bodhisathava para os leigos. Aquele que trabalhando no mundo, adoece pelo mundo, trabalha todo o tempo para os outros, não trabalha para si. Ele é rico, mas a riqueza dele não é para ele, a sua riqueza é para ajudar todos os seres. O modelo do leigo.