Follow by Email

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Árvores juntas crescem retas



Acho que preciso aclarar que existe o budista cultural, o budista de convicção, o budista de formação familiar e o que já pertenceu a uma Sangha quando esteve num mosteiro. Porem, se ele não pratica junto a um grupo, ele não é um budista no conceito de refúgio, que é mais exigente. Mesmo que não gostemos é exatamente por isso que precisamos estar junto a um grupo. Há duas imagens fortes para isso: o arroz é pilado junto com outros, para perder suas cascas, é o atrito que faz isto. Na Soto Zen o símbolo do monge é uma folha de pinheiro, porque os pinheiros crescem retos se estão juntos com outros, assim, com estes pode se fazer mastros de navios, retos e direitos, os pinheiros que nascem isolados ficam tortos. Assim, os praticantes que acham que podem crescer sozinhos desprezam a ajuda que a crítica e desconforto dos outros produz em nós.
Acham melhor não pertencer a grupos e permanecer sozinhos, nada é mais característico da dificuldade de perceber a unidade, e nada marca mais o sentido de separação, de individualidade, “eu aqui, os outros, esses pertubadores” que fiquem lá,como desenvolver uma mente tolerante e paciente evitando a comunidade?
É claro, que os praticantes budistas, os budistas de verdade, são poucos, e 90%, ou mais, dos budistas do mundo pouco sabem dos ensinamentos de Buddha, são budistas como 90% dos cristãos, nasceram e se sentem cristãos, mas não seguem os mandamentos e só relembram de Deus quando estão em crise, não são praticantes, são pessoas com um senso de pertencimento a algo. É interessante notar que, originalmente, só os que adentravam na Sangha eram os discípulos de Buddha, os outros eram os simpatizantes, o movimento Mahayana ampliou isso, podemos chamar os simpatizantes de budistas, mas pertencentes a Sangha só os que tomam refúgio nela, estes sim, são os praticantes budistas.
Assim repito que Buddha tinha sérios motivos para fazer seus monges viverem em comunidade, e há um grande motivo para as Três Jóias serem o Buddha, o Dharma e a Sangha, e o refúgio ser recitado em todas as cerimônias, se tirarmos uma destas três coisas podemos ter um budista, mas não um praticante budista no modelo de Buddha. Podemos até obter um iluminado pela prática solitária, porem a ele falta uma ação extremamente prezada no Zen, a atitude compassiva, que entende que ajudar os outros com sua presença e enfrentar os problemas de estar em comunidade é a grande prova da prática real.
Conta-se que um monge praticou sozinho, durante anos, numa montanha, achou-se iluminado e desceu até uma cidade, na praça do mercado, aqueles seres sonhadores, que ele olhou com superioridade. De repente, no aperto da multidão, um homem lhe pisou o pé com um tamanco de madeira, o monge sentiu-se invadido pela dor e raiva e empurrou o homem com ódio. Naquele momento ele percebeu que sua prática budista só era suficiente na solidão dos montes.