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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Zen e os Detalhes




A ação correta é muito treinada na Soto Zen. A teoria no treinamento da Soto Zen é que o cérebro e o corpo estão tão intimamente ligados que você pode atingir um com o outro. Então, uma postura correta influencia sua mente; o fato de como você pega a xícara influencia a sua mente. Depois, quando ao passar a bandeja para colocarmos as xícaras vazias, não é correto colocar a xícara de qualquer jeito, mas sim o mais fundo na bandeja possível para que as próximas pessoas tenham a frente para colocar a xícara. 

A sua ação tem que considerar sempre as repercussões sobre as outras pessoas, nos menores detalhes. Lembro-me a primeira vez em que fui repreendido por deixar um guardanapo numa bandeja. Anos atrás, eu recebi um doce no templo Busshinji. Comi o doce, tomei o chá, dobrei o guardanapo e quando passou a bandeja eu coloquei o guardanapo sujo na bandeja, bem dobrado abaixo da xícara. Em seguida veio um Sensei e me falou:

- “O senhor cometeu um erro gravíssimo! O senhor devolveu o lixo para a cozinha. Seu lixo você coloca na sua manga e leva junto com você e coloca fora. Porque se devolver para a cozinha alguém vai ter o trabalho de pegar seu lixo e botar na lixeira”.

Você tem que sempre pensar no trabalho que está dando aos outros. Por isso, no sesshin, quando nós comemos diz-se: limpe o prato com pão de modo que ele fique o mais limpo possível, porque alguém vai ter que lavar. Se tiver um grão de arroz sobrando no prato, alguém vai ter que colocar no lixo ou vai para o cano, e lá atrapalhará a natureza. Esse tipo de educação vai tão longe que no Japão você não encontra mais um local para jogar lixo na rua e as ruas estão perfeitamente limpas. Então, se você comeu algo e sobrou embalagem, você tem que guardar e levar com você para casa, porque o lixo não é um problema da nação ou do serviço público, mas seu. Bem ao contrário do Brasil, onde quando encontramos lixo na rua a culpa é da prefeitura. No Japão, o lixo é problema seu, e na Alemanha também as pessoas cuidam de seu lixo. Quando varrem a casa, varrem as calçadas e as ruas em frente às suas casas, porque uma rua suja na frente da sua casa é sinal de que você não cuida da sua rua.

Eu não sei quanto tempo vamos levar para ter uma noção como essa, mas a civilização provém disso, ela vem de muitos pequenos detalhes de comportamento. Por isso, no Zen, nós treinamos as pequenas ações.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Não mais de uma dúzia


Pergunta: Dentro do tema que o senhor estava colocando, realmente as experiências podem se chamar samadhi? Existe algo maior ou mais prolongado? E isto seria a transmissão?

Monge Genshô: Varia de pessoa para pessoa. Há pessoas que amadurecem lentamente e há pessoas que têm uma grande evolução, uma grande experiência. Só para corrigir algumas palavras, “samadhi” é concentração, não é kensho. Samadhi é você estar sentado em zazen e penetrar num estado de “estou aqui presente, realmente ouvindo tudo e não estou sendo arrastado por pensamentos, emoções, eventos, isso não está acontecendo, estou realmente aqui”. No momento em que você pensar “ah, samadhi! Eu estou...”, já perdeu, já não é mais samadhi.

A segunda correção é sobre a transmissão. Transmissão no Soto Zen é um “reconhecimento”. Seu mestre reconheceu em você uma experiência, uma qualidade. Você conseguiu mostrar para ele isso, então, ele diz: “Eu estou transmitindo para você essa lâmpada, você agora também é um portador da lâmpada então, transmita essa lâmpada, essa luz pra outros, faça os outros despertarem e dê a eles a lâmpada também, para que nossa linhagem continue.”

Temos 2600 anos de transmissão viva. Isso é tão importante no Zen que, de manhã, nós recitamos os nomes de todos, desde Shakyamuni Buda: “SHĂKĂMŬNĬBŬTSŬ DĀIŎSHŌ. “Butsu” é Buda. MĂKĂKĂSHŌ DĀIŎSHŌ, ĂNĀNDĂ DĀIŎSHŌ, SHŌNĂWĂSHŬ DĀIŎSHŌ, ŬBĂKĬKŬTĂ DĀIŎSHŌ. Recitamos os nomes de cada um que foi passando a lâmpada pro outro. Hoje de manhã recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHO. Normalmente, nós paramos em Keizan, porque depois de Keizan as linhagens se dividem no Japão. Então, recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ que é Saikawa Roshi. “Saikawa” é o nome de família dele. O nome de Monge é TĀI·GĀN,  TĀI·GĀN DŌ·SHŌ. Se eu conseguir dar a transmissão para alguém, então vamos ter na lista após a minha morte, TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHŌ, MEIHÔ GENSHÔ DĀIŎSHŌ. E vamos recitar até ali. Se eu não der a transmissão para ninguém, meu nome está apagado da história das linhagens. E isso é um evento bastante comum. Muitos professores não conseguiram dar a transmissão para nenhum aluno. Então, isso que é a transmissão no Soto Zen, um reconhecimento.

Você pode ter um aluno leigo que se iluminou e não existe a cerimônia de “shihô”, de transmissão para ele, só existe de monges para monges. Então, embora esteja iluminado fica entre nós. Fica entre nós, porque ninguém sai dizendo isso. Há pessoas que saem dizendo, “eu sou iluminado”, vocês podem achar facilmente na Internet, mestres iluminados. Esses dias alguém me falou que havia uma pessoa num fim de semana dando um curso de três dias para a iluminação e que custava cinco mil. Alguma coisa assim.
..................

Monge Genshô:  Bem barato. Se somarmos os sesshins aqui... ainda não dá isso e não tem garantia. Então isso existe bastante, mas aqui no Soto Zen não há garantia alguma. E se alguém diz “eu sou iluminado”, nós já sabemos que não é, porque a própria declaração “eu sou” é uma declaração de separação - eu e não os outros. Então, essa declaração jamais é dita. Shunryu Suzuki, autor daquele famoso livro “Mente Zen, Mente de Principiante”, conta-se que um aluno chegou para ele e perguntou: “O senhor é iluminado?” E ele olhou para o aluno e disse: “Não.” E o aluno estava olhando nos olhos dele e começou a chorar, essa história é interessante.

Alguém também perguntou: “Há muitos graus de iluminação, né”?  Alguém conseguiu uma compreensão, alguma coisa, o Mestre reconhece isso, dá a ele a transmissão para continuação da linhagem, e diz: “Continue, você precisa praticar ainda mais 40 anos”.

Estamos cheios de histórias nos Sutras, de monges que se iluminaram, despertaram e aí então ficaram mais vinte anos treinando junto com o mestre, antes de começar a ensinar. Isso é que é a prática. Então existe essa iluminação que eu disse, iluminação bem rasa. Pouca coisa. Conseguiu pouca coisa, mas já foi reconhecido, recebeu a transmissão. Mas alguém perguntou para Shunryu: Suzuki “Quantos mestres verdadeiramente, completamente iluminados, há no mundo?” Aí Shunryu Suzuki disse para ele: “Não mais de uma dúzia.” No mundo todo. Não mais de uma dúzia! Isso nós temos que levar em conta. Qualquer experiência iluminada que vocês tenham é extraordinária em si, mas também é muito simples, não é grande coisa. Porque quando você recebe a transmissão, aí o Mestre diz: “bom, agora que começa, agora que começa seu treinamento”. Antes foi só preparação. Você sempre vai ter essa sensação de que está começando.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Não acalente um objetivo



Pergunta - Mas ao sentar para meditar, a gente senta sem um objetivo de responder à essas perguntas, a própria pratica  vai trazer essas respostas,. Eu não pratico tanto quanto deveria, e percebo que a gente senta e permanece a mesma coisa, os pensamentos vem e passam, alguns momentos parece que não pensa nada daí vem aquela coisa – Óh, consegui não pensar em nada – e aí pronto, já voltou tudo, mas é isso mesmo, é isso que vai acontecendo? O que eu percebi com o tempo, é que antes eu sentava e ficava agitada, louca que terminasse logo, agora eu sento e sinto já até um certo prazer, um pensamento de que é bom. Eu sinto que o grupo é muito importante, em casa parece que é uma mentira as vezes...É isso mesmo, é assim mesmo?

Monge Genshô – Está certo. Porem eu diria que sentar tentando não pensar em nada é tentar alcançar algo não real, afinal estar consciente do momento presente é uma forma de pensamento, porem sem elaborações. De modo que o praticante do Zen em seus estágios iniciais  deve sentar apenas tentando não seguir os pensamentos, deixar que os pensamentos passem, e há momentos em que tudo ficou tranqüilo simplesmente porque ficou tranqüilo, mas para não festejar isso é necessário não ter esse objetivo. Então como apontei no inicio, o erro aí é o objetivo. Por isso essa técnica de sentar no Soto Zen é chamada da Shikantaza – apenas sentar – não acalente um objetivo, não tente alcançar nada, isso é bastante importante. Se você medita, insights surgem. Mas esses entendimentos, também não podem ser o objetivo, eles surgem naturalmente, coisas que nós não entendíamos e passamos a entender. 

Quando a gente vê os praticantes é fácil perceber como são os alunos, é fácil entender o que está acontecendo com o treinamento deles pela maneira como eles perguntam. Primeiro querem manifestar opiniões, depois fazem perguntas mais difíceis, depois não fazem mais perguntas, quando deixam de fazer perguntas a gente sabe que o aluno passou um determinado ponto. É como se as questões tivessem se dissolvido. Quando ele chega na frente do professor, mesmo que ele pense – Acho que vou perguntar isso –  ele pensa – Não, não é preciso – ele sente que não tem sentido fazer a pergunta, então essa já é uma outra fase. Mas é lógico que isso não pode ser fingido, então quem sente necessidade de fazer perguntas, faz perguntas, e o professor responde. É necessário esse contato, mas sem a prática não acontece nada. 

 É necessário ter esforço, mas esforçar-se também não leva a nada. Se a gente pratica começa a entender, se eu me esforço não funciona, se eu não me esforçar não vou a lugar nenhum. Quando a gente começa a sentir prazer em ficar sentado já foi um grande progresso. Porque o pior estado é o daquela pessoa que não consegue parar, um estado muito agitado, muito turbulento. Na realidade  um mundo infernal.

terça-feira, 20 de março de 2012

Não odeie os pensamentos, nem os ame


Vamos comentar agora o Samadhi do Celeiro da Grande Sabedoria de Koun Ejo Daioshô.

Não procure a iluminação. Não tente escutar os fenômenos ilusórios. Não odeie os pensamentos que surgirão, nem os ame, e sobretudo não os guarde. (TEXTO). Então não procure a iluminação, isto estamos repetindo sempre. Sentamos sem uma busca ambiciosa. Isto é característico da escola Soto. Nem todo o Zen pratica desta forma. Há mesmo prática com procura ativa da iluminação. Mas na nossa escola o nosso fundador Dogen disse que isto atrapalhava demais porque as pessoas ficavam orgulhosas e ambiciosas de alcançá-la, então era necessário desarmar isto e perceber que esta iluminação está agora presente, aqui, como naquela estória do discípulo que pergunta para o mestre - aonde é a porta para a iluminação - e ele diz - você escuta o barulho do regato? E o discípulo disse: sim, e o mestre disse - é ali a porta. Para nós aqui, talvez as cigarras, agora, a porta é ali. Ouçam esta cigarra, onde está o som? Como o mestre Saikawa Roshi pergunta, onde está? Quem pode responder? Um aluno respondeu: na minha mente. O Mestre prosseguiu: na realidade não é assim porque você percebe com a sua mente, mas o som não está lá, ele está também lá com as cigarras. Então não é lá nem aqui, esta pergunta é capciosa. Onde está o som? Os alunos vão ouvindo sobre a mente e respondem naturalmente: está na minha mente, como tudo está na mente, os sentimentos estão na nossa mente, tudo o que está acontecendo, nossa felicidade e a infelicidade estão na nossa mente, então é natural responder está na minha mente, mas não é isto porque a sua mente não está separada da cigarra, na realidade apenas há este som, nem lá nem cá. Simultaneamente lá, cá e no universo inteiro. Não é? Só. É só isto, paz, mais nada. Não odeie os pensamentos que surgirão, nem os ame, e sobretudo não os guarde. Isto significa também não se esforce para expulsar da sua mente os pensamentos que surgem. (COMENTÁRIO)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Situações invasoras


P. Não devemos dar oportunidade a certas situações para não sermos arrastados por elas. Mas às vezes a oportunidade não pede licença, é invasora. O que fazer?

Monge Genshô: Como no texto de Uchiyama Roshi pode-se evitar uma situação de escolha, posso evitar um filme de vingança. Agora se estamos numa situação na vida em que isto aparece inevitavelmente vamos ter que saber lidar com esta situação com a melhor mente que possível e a melhor mente é a mente que identifica. Eu estou com raiva. De onde vem a minha raiva? Ela vem da minha mente. Não é esta pessoa, mas é a minha mente que produz este sentimento. Os sentimentos são muito poderosos, sentimento de raiva, de ciúme, de inveja. Todos estes sentimentos podem surgir. Se nós deixamos ou cultivamos, eles tomam conta de nós. Por isto treinamos na almofada sentados de frente para a parede porque quando eles surgem, a pessoa não está ali, nós só imaginamos aquela pessoa de que nós não gostamos. Aí ela surge e aí é a nossa oportunidade de transformar, identificar este sentimento na minha mente. Eu vou voltar para aqui agora, só para a minha respiração. Não vou julgar. Foi bom, ruim que isto acontecesse, não vou lutar contra a minha mente, não vou tentar substituir este pensamento por um pensamento bondoso. Não vou fazer isto. Vou voltar para a realidade última, agora, sem raciocínio e não vou me sentir culpado por isto que surgiu. Simplesmente descartar, deixar cair. Assim praticamos no Soto. Existem outras formas de prática no budismo, viáveis também, de visualizaçâo, de treinamento em sentimentos bons. Elas também são funcionais, mas não são a prática do Soto Zen. Praticamos descartando, nos livrando. Não criamos outras coisas. Uma prática difícil, mas bem efetiva.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O líder ocidental do Soto Zen na América do Norte


Alto e anguloso, seu nome mesmo, como me contou quando fui seu aluno nos EUA, significa grande montanha. Perfeitamente fluente em japonês é um tradutor excelente e um professor severo embora afável, pede desculpas por esta aparência dura com um sorriso pesaroso. Sua liderança é um marco pois é o primeiro norte americano a ocupar esta posição, seu antecessor, Akiba Roshi, atualmente se aposentou permanecendo em Oakland onde tem um templo.

Daigaku Rumme Roshi é o Sookan atual na Soto Zen na América do Norte e abade do Soto Zen International Center em San Francisco, California. Ordenado por Sekkei Harada Roshi, Rumme nasceu em Mason City, Iowa e esteve pela primeira vez no Japão com dez anos com seus pais, que eram missionários luteranos. A família viveu em Tokyo por dois anos.

Daigaku Rumme foi ordenado na Soto Zen em Abril de 1978 em Hosshinji que fica ao norte de Kyoto em Obama. Hosshinji foi a casa de Rumme Roshi por mais de trinta anos. Ele acompanhou seu mestre, Sekkei Harada Roshi, em viagens para a América do Norte e Europa, servindo como tradutor. Hoje, Sekkei Harada é o representante oficial da Soto Zen na Europa e Daigaku Rumme Roshi é o primeiro ocidental nesta posição na América do Norte, ele retornou aos EUA em 2003.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Transmissão do Dharma



Manto marrom que simboliza a transmissão e manto amarelo que é usado após o Zuise (cerimônia para os ancestrais). Os monges os usam indiferentemente dependendo da formalidade.

Extratos do texto de Monja Isshin, publicado em seu blog.

A Transmissão de Darma (denpô, 伝法) representa a finalização do treinamento formal de um monge no Soto Zen (o treinamento “verdadeiro” continua durante toda a vida). O “zagen” (monge-aprendiz) passa para a graduação de “rikishô“, ou monge plenamente formado.

Nesta graduação, o monge possui a autoridade plena necessária para oficiar casamentos, batizados, benções em geral, enterros, e outras cerimônias religiosas.

Em princípio, a Transmissão do Dharma significa o reconhecimento, por parte do professor, de “realização” e compreensão/aplicação do Dharma, por parte do aluno. Representa uma declaração “pessoal” do professor da qualificação do aluno e sua entrada na Linhagem no Dharma (hôkei, 法系) de sucessão do professor.
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Como parte do processo de transmissão, o aluno reverencia os ancestrais de sua linhagem, escreve certos documentos e recebe vários ensinamentos – geralmente num retiro individual de sete dias (chamado “Shihô” 嗣法) – finalizando com duas cerimônias (não abertas ao público): a Transmissão dos Preceitos do Bodistava, (“Denkai” 伝戒) e a Transmissão do Dharma (“Denpô” ou “Denbô” 伝法), propriamente dito, no qual o aluno torna-se herdeiro do dharma do seu professor e sucessor dele.

No Soto Zen, há três etapas importantes no treinamento de um monge. O aluno pode ter, oficialmente, um professor diferente para cada etapa ou pode realizar todas as três etapas com o mesmo professor. O primeiro professor é o Professor de Ordenação (“jugôshi” ou “shishô“). O segundo é o Professor do Levantamento da Bandeira do Darma, que oficia a Cerminônia de Combate de Darma do aluno (“hôdôshi“), e o terceiro é o Professor de Transmissão de Dharma, que é considerado o “Professor Verdadeiro” (“honshi“).

Nas cerimônias de shihô, o aluno presta homenagem ao professor, com numerosas reverências. Mas há um momento no qual o professor presta homenagem ao aluno, numa certa “inversão” dos papéis.

Por isso, é indispensável que haja afinidade, respeito e confiança mútua entre o professor de transmissão e o aluno. Caso contrário, não poderá haver uma transmissão verdadeira, uma vez que, simbolicamente, passa a circular o mesmo sangue nas veias do professor e aluno (que também seria o mesmo sangue de todos os mestres da linhagem). Quando há uma transmissão verdadeira, os dois passam as ser, simbolicamente, iguais no despertar – e “Unos” com todos os mestres da linhagem.
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Também é definida, na hora do “Zuise“, a sua graduação como Professor de Dharma (“Sensei” 先生), de acordo com o seu tempo de prática em mosteiro de treinamento oficialmente reconhecido.

Passa a possuir, agora, a qualificação mínima que lhe dá a possibilidade de seguir para a próxima graduação monástica (Oshô 和尚) ou assumir a plena responsabilidade por um templo, tornando-se Monge Titular ou Jûshoku (住職).

Traduzindo um texto da Internet:


“Shihô (嗣法) refere-se a uma série de cerimônias no Soto Zen Budismo em que um monge-aprendiz (zagen) recebe a plena ordenação como herdeiro do Dharma de seu mestre com poderes para transmitir os preceitos e a linhagem para os outros. Uma cerimônia de shihô pode durar de uma a duas semanas, com a cerimônia final composta de duas cerimônias específicas. A primeira é a transmissão dos preceitos do mestre para o aluno, conhecido como denkai (伝戒), onde o mestre confirma que o aluno tenha manifestado os preceitos no seu dia-a-dia. Nesta cerimónia, o aluno torna-se, “o sangue de Buda”. A segunda, denpô (伝法), é a cerimônia de Transmissão do Dharma, onde o aluno herda o Dharma e se torna habilitado a transmitir a linhagem. Na cerimônia denpô, o aluno torna-se um ancestral da tradição e recebe um manto e a tigela, entre outros objetos. Também durante a cerimônia de denpô o aluno recebe um certificado de “Shoshike” (que lhe confere a autoridade de realizar Jukai) e também os documentos conhecidos como as “Três Insígnias de Transmissão” (Sanmotsu): “shisho” (certificado de herança), “odaiji” (um diagrama que simboliza o Assunto Grande) e “kechimyaku shoden” (linhagem de transmissão do Darma). Após a conclusão destas cerimônias o novo professor se torna independente.”

Texto original (em inglês) traduzido por Monja Isshin

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Qual a relação entre o Tantra e o Zen?


R: "O Tantra usa visualizações e mantras em suas práticas, o zen não faz isso, embora os dharanis, por exemplo sejam mantras longos, eles são incorporações, na verdade, dentro do zen. O Tantra só influiu no budismo uns mil anos depois de seu surgimento criando escolas Vajrayana como a Tibetana e o Tendai e Shingon japoneses, o fundador de nossa escola (Dogen) teve sua formação inicial no Tendai, portanto o Tantra não lhe era em absoluto desconhecido desde que ele se tornou mestre nesta escola antes de ir para o zen Rinzai e, posteriormente, para a China, de onde trouxe o Soto Zen."

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Como tatuamos por dentro


Sesshin de inverno, ou sobre como tatuamos por dentro...


Dois pernoites na casa Vila de Fátima, entre os dias 23 e 25, no alto de um morro entre o silêncio da lagoa do Peri e o som das ondas da praia da Armação. Totalizaram-se cerca de 9 horas intervaladas de meditação shikantaza (termo em japonês que significa “apenas sentar”), além de cerimônias e recitação de sutras. Estes primeiros dias são os piores, pois é como disciplinar o corpo e a mente para um novo comportamento e rotina, tão habituados ao comportamento automatizado do dia a dia. Um retiro budista da escola soto zen (ou sesshin) é algo único.
O único barulho que escutávamos, além dos miados, uivos, ronronados e latidos peristálticos característicos de cada um de nós (especialmente as 4 horas da manhã), era um tic de um relógio que marcava outro tempo estranho… seu ponteiro dos segundos se entregava à gravidade silenciosamente, e alertava apenas sua subida, para então cair de novo em silêncio. Comportava-se como o constante som das ondas do mar, marcado também pelo silêncio e pelo som. E passava a comportar-se como minha mente. Ou tudo isso de trás pra frente e vice-versa! O que quero dizer é que houve uma sintonia de silêncios e ruídos. E do lado, bem do lado mesmo, o absoluto zen da lagoa do peri. Como que um norte para a calma e a paz, o silêncio total existia ali por dentro e por fora.

Tudo no sesshin é feito em silêncio. O voto de silêncio é rompido apenas por uns sorrisos ou palavras que escapam, meio que acompanhando a insistência da mente em querer se manifestar a todo custo.

Nesta casa de retiros, compartilhávamos nosso tempo, mas não nosso espaço, com um retiro de praticantes de yoga. Achei graça de uma refeição que fizemos no início. O refeitório dividido: de um lado o silêncio quase comparável a um velório (para um olhar desinformado), de outro, gargalhadas orgásticas. Introversão e extroversão lado a lado.

As refeições no zen são rituais, e nunca se come a comida quente como ela chega. E o tempo para se comer é outro… rápido, por incrível que pareça. No desjejum e almoço, as refeições são feitas em um oryoki (“apenas o suficiente”).Abrir e fechar um oryoki exige sincronicidade e atenção, e seguem um procedimento único. Comer, acordar, levantar, meditar… tudo é sincrônico. Como o monge Genshô lembrou, o grupo comporta-se como um cardume de peixes ou um bando de pássaros no ar: todos se movimentam juntos, como um organismo apenas. A atenção é total.

O sutras são escrituras sagradas recitadas em coro. Um em particular, o sutra do coração, contém a essência do pensamento budista. Particularmente acho gostoso cantá-lo em japonês, a partir do livro de sutras de onde acompanham-se as recitações. Tem um efeito especial. Mas em uma refeição recitamos sua tradução. Confesso que cantá-lo assim, traduzido, foi doloroso…. É como cantar “garota de ipanema” em japonês. Perde-se não apenas a musicalidade, mas talvez uma força histórica contida naquelas palavras centenárias contidas no sutra. Essa força eu sinto quando estou meditando, e digo para mim mesmo “zazen!” quando o macaco louco que todos temos em nossas cabeças insiste em agarrar-se nos galhos que vão passando. O macaco respeita essa palavra, e aquieta por alguns segundos (é, ainda domestico esse bicho!). E é muito diferente de quando digo “medite!”, ou então “silêncio!”… A palavra “Zazen” parece carregar força, intenção. Pode parecer meio místico, mas percebo que essa “força da palavra” existe em sua forma original, e não em sua tradução. No centro Zen Budista que pude participar na Nova Zelândia, os sutras eram recitados em inglês. A sensação foi a mesma. Penso que os sutras esterilizam-se quando são traduzidos…

Uma resposta adequada a pergunta “foi bom pra você” ao final de um retiro sempre ficou como um mistério pra mim… O retiro em si não é algo prazeiroso. Aliás, está longe disso. Um retiro é como fazer uma tatuagem: enquanto não acaba, dói. Mas não sofremos com isso. É pura dor física com hora pra acabar. Quando terminamos a tatuagem, fica aquela sensação de leveza, de alívio. O final de um retiro é igualmente um alívio, que perdura por dias. E se na tatuagem é a pele que fica marcada pra sempre, no retiro é algo aqui dentro de nós que guardamos pra sempre. E é uma tatuagem ao contrário. Em vez de preencher, ela esvazia.

E outra…. como uma tatuagem, quando terminamos um retiro, já estamos pensando no próximo.

Gasshô!
Thales

terça-feira, 20 de julho de 2010

Genpo Roshi


Genpo Roshi encaminha-se para dar uma de suas aulas aos alunos do Angô de certificação de professores em Yokoji, 2010.

"Genpo Roshi é formado em educação pela University of Southern California e ordenou-se monge Zen em 1973. Recebeu Inka – o selo final de aprovação como um Mestre Zen – em 1996, tornando-se assim um dos poucos ocidentais reconhecidos como Mestre das tradições Zen Soto e Rinzai. Em 1982 Genpo Roshi começou a ensinar pela Europa e fundou a Kanzeon Sangha, uma comunidade Zen com sede em Salt Lake, com centros na França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Polónia, Inglaterra e Malta. É igualmente presidente da White Plum Asanga, uma comunidade que compreende todos os sucessores de Taizan Maezumi Roshi.

Em 1999 desenvolveu o Big Mind Process, um método directo e poderoso para mudar a perspectiva de uma visão egoísta limitada para uma perspectiva sem ego. Genpo Roshi escreveu cinco livros: The Eye Never Sleeps, Striking to the Heart of Zen; Beyond Sanity and Madness, The Way of Zen Master Dogen; 24/7 Dharma, Impermanence, No-Self, Nirvana; The Path of the Human Being e Big Mind, Big Heart."
(Blog Bigmind)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Patricia Dai-En Bennage Roshi



Rev. Patricia Dai-En Bennage foi "vice abadessa" do angô oficial da SotoShu nos EUA,uma impressionante mestre zen, com palavras cheias de emoção e uma gentileza exemplar.
Ela achou o A Manual of Zen by D. T. Suzuki em 1958 e assim tornou-se uma estudante do zen. Residiu no Japão por 23 anos, primeiro treinou com o Mestre Rinzai, Omori Sogen Roshi. Posteriormente fez os votos da Soto Zen como monja e treinou no Mosteiro Soto Zen em Nagoya, Japão, recebendo a Transmissão e fazendo o Zuise, então entrou no treinamento senior para fazer o Shike ou ( programa para Roshi) , sendo certificada em 1990. Imediatamente depois, ela praticou com o Ven. Thich Nhat Hanh na França, recebendo os 14 Preceitos da Ordem do Interser. Ela foi a tradutora da Abadessa Shundo Aoyama Roshi's no livro Zen Seeds. Em, 2005, cerimônias assistidas por 36 sacerdotes Soto Zen do Japão, Europa e U.S., instalaram a Rev. Bennage como abadessa do Mt. Equity Zendo, Jihoji.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Moriyama Roshi em P. Alegre



Moriyama Roshi em visita à Sangha Águas da Compaixão, praticantes das várias Sanghas de P. Alegre estãp presentes, no fundo à esquerda, com barba branca e óculos, Celso Marques, um pioneiro do zen brasileiro, à frente da comunidade Monja Isshin ladeada pelo Roshi, este foi Superintendente Geral da América do Sul da Sotoshu em período anterior ao de Saikawa Roshi, a organização mundial do zen. À direita do Roshi, o primeiro é o Monge Prof. Joaquim Monteiro, da escola Terra Pura, em trajes leigos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Programação da cerimônia do cinquentenário do Templo Busshinji


Em novembro será inaugurado o Centro de Treinamento localizado atrás do Templo Busshinji, simultâneamente com o Cinquentenário do Templo. Há um convite a todos os que desejarem participar desta festividade que contará com a presença de autoridades do Soto Zen de todo o mundo.

Programação da cerimônia do cinquentenário do Templo Busshinji

Dia 13 de novembro

10:00 - Recepção do Shumo Socho
Corte da Faixa de Inauguração e Descerramento da Placa
Apresentação do novo prédio
11:00 - Cerimônia de Abertura da Imagem do Fundador
11:30 - Cerimônia dos 600 volumes do Sutra Prajna Paramita
12:30 - Banquete no Salão do Pavilhão Dai Kankaku

Dia 14 de Novembro

13:00 - Cerimônia de Abertura do Monumento
13:30 - Palestra
14:30 - Cerimônia Memorial dos Fundadores
15:30 - Cerimônia de Abertura dos Olhos das Imagens Daiguen Shuri Bosatsu e
Daruma Soshi
16:30 - Cerimônia Memorial dos Antepassados
17:30 - Cerimônia do Manto Kuyo (Milhões de Luzes)

Dia 15 de Novembro

08:30 - Cerimônia de Recepção do Shumo Socho
09:00 - Cerimônia Memoria dos Monges e Professores falecidos da América do Sul
10:00 - Cerimônia Comemorativa do Cinquentenário do Templo Busshinji
Entrega do Certificado de Honra ao Mérito de Shumocho para Convidados
11:00 - Cerimônia Memorial para todos os membros
Entrega do Certificado de Honra ao Mérito do Busshinji para Convidados

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Dharma com Pipoca


DHARMA COM PIPOCA
É como temos chamado, imitando outras comunidades zen budistas, as exibições de filmes que interessam aos praticantes budistas. No caso, o filme sobre Dogen, retrata um personagem interessantíssimo, viveu de 1200 a 1253, seus textos consolidaram a língua japonesa e são clássicos literários. Na época introduziu o banho obrigatório, de 4 em 4 dias, o hábito de lavar-se após usar os banheiros e até a escova de dentes, coisas que a Europa medieval desconhecia e que eram hábitos nacionais no Japão quando os europeus chegaram 400 anos depois.
O filme concentra-se na sua trajetória espiritual, especialmente após voltar da China em 1227.

EXIBIÇÃO PRIVADA, NÃO COMERCIAL, DO FILME “ZEN”

Título original: Zen
Diretor: Banmei Takahashi's
Língua original: Japonês
Legendas: português
Duração: 127 min.
Lançamento: 01/2009

SINOPSE
Filme baseado em fatos reais, ambientado no Japão e na China. Retrata a vida do mestre zen budista Dogen Zenji, durante o turbulento período Kamakura. Seus pais morreram quando ele ainda era muito jovem, e o último desejo de sua mãe era que ele se tornasse um monge e trabalhasse para o bem de todos os seres. A experiência de ter perdido seus pais, deu uma visão especial a Dogen para a natureza fugaz da vida e desencadeou a sua busca pela iluminação. Ele viajou para a China e treinou para se tornar um mestre budista, mas quando retornou ao Japão para difundir o que ele aprendera como uma forma nova de budismo, foi recebido com muita resistência e repressão.

Oportunidade única de assistir um dos mais belos filmes já produzidos sobre o Zen!

Assista o trailer: http://www.youtube.com/watch?v=94n2hDg-vTg

Local: Sala multimídia - Província Coração de Jesus (ao lado do Daissen Restaurante Vegetariano)

Data: 15 de Agosto

Horário: 16 horas

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Imitando Dogen



Nossos esforços de meditação imitam pobremente os de Dogen e dos monges que iniciaram a prática Soto Zen no Japão. No início do sec. XIII eles eram extremamente pobres, e às vêzes, em lugar de arroz, só tinham água fervida para substituir refeições.
Sábado, 15/8, às 16h, a Sangha de Florianópolis poderá assistir o filme Dogen legendado em português, a biografia do mestre é emocionante mas densa de tal modo que não passará em circuitos comerciais. Os diálogos diretamente tirados dos textos clássicos exigem comentários posteriores para serem melhor apreciados.
Ao vermos o budismo integral de Mestre Dogen, praticando como ele até morrer sentados em zazen, compreendemos o significado da degenerescência do Dharma, como de todas as coisas que os homens fazem, sempre tentando ficar com o que é confortável em lugar de praticar verdadeiramente.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Seshins em São Paulo


Mestre Saikawa Roshi faz meditação andando (kinhin) com monges e leigos no seshin de inverno de 2009 no Templo Busshinji. Saikawa Roshi é o Sookan, autoridade máxima da Soto Zen para a América do Sul.

Veja as datas dos próximos Seshins (retiros zen) no Templo Busshinji

Seshin da Primavera
16, 17, 18, 19 nov 2009
Colaboração: R$ 150,00

Seshin da Iluminação
13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20 dez 2009
Colaboração: R$ 200,00

Inscrições no local ou por telefone.

O retiro será coordenado pela equipe de monges do Templo Busshinji, tendo como responsável o Mestre Saikawa Roshi.

O Templo Busshinji fica na Rua São Joaquim, 285. Bairro da Liberdade, São Paulo - SP. Tels: (0xx11) 3208-4345/4515

Copiado do site Sangha Marga (link ao lado)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Rev. Prof. Dr. Eduardo Basto de Albuquerque


Caríssimos Irmãos no Dharma,

Cumpre-me o doloroso dever de comunicar o falecimento, ocorrido ontem na cidade de Rio Claro, SP, do Rev. Prof. Dr. Eduardo Basto de Albuquerque, da Comunidade Budista Soto Zenshu.
Historiador e Professor Livre-docente, especialista em História das Religiões, o Rev. Eduardo lecionava e pesquisava no Programa de Pós-Graduação em História da UNESP, Campus de Assis, SP.
Formado em História pela USP em meados dos anos sessenta, o Rev. Eduardo foi um dos primeiros historiadores brasileiros a se empenhar no estudo e na prática do Budismo Zen. doutorou-se em História Social pela USP, onde defendeu a tese "O Irmão e o Mestre - estudo comparativo do ideal da Pobreza em S. Francisco de Assis e Dôgen".

Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sempre sentamos no Soto Zen em frente a paredes?



Nem sempre...muitos monges no passado não tinham paredes disponíveis em suas peregrinações, Buddha, em sua iluminação, tinha o solo e as estrelas à sua frente, no momento de seu despertar via a estrela da manhã, uma boa confirmação do metodo de meditar zen de olhos abertos.
Um famoso mestre zen disse que um bom lugar era uma ponte com muitas pessoas passando, mas isso é para mestres, iniciantes precisam começar com o mínimo de estímulos. Em geral a natureza pode ser um bom lugar e grandemente inspirador.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Árvores juntas crescem retas



Acho que preciso aclarar que existe o budista cultural, o budista de convicção, o budista de formação familiar e o que já pertenceu a uma Sangha quando esteve num mosteiro. Porem, se ele não pratica junto a um grupo, ele não é um budista no conceito de refúgio, que é mais exigente. Mesmo que não gostemos é exatamente por isso que precisamos estar junto a um grupo. Há duas imagens fortes para isso: o arroz é pilado junto com outros, para perder suas cascas, é o atrito que faz isto. Na Soto Zen o símbolo do monge é uma folha de pinheiro, porque os pinheiros crescem retos se estão juntos com outros, assim, com estes pode se fazer mastros de navios, retos e direitos, os pinheiros que nascem isolados ficam tortos. Assim, os praticantes que acham que podem crescer sozinhos desprezam a ajuda que a crítica e desconforto dos outros produz em nós.
Acham melhor não pertencer a grupos e permanecer sozinhos, nada é mais característico da dificuldade de perceber a unidade, e nada marca mais o sentido de separação, de individualidade, “eu aqui, os outros, esses pertubadores” que fiquem lá,como desenvolver uma mente tolerante e paciente evitando a comunidade?
É claro, que os praticantes budistas, os budistas de verdade, são poucos, e 90%, ou mais, dos budistas do mundo pouco sabem dos ensinamentos de Buddha, são budistas como 90% dos cristãos, nasceram e se sentem cristãos, mas não seguem os mandamentos e só relembram de Deus quando estão em crise, não são praticantes, são pessoas com um senso de pertencimento a algo. É interessante notar que, originalmente, só os que adentravam na Sangha eram os discípulos de Buddha, os outros eram os simpatizantes, o movimento Mahayana ampliou isso, podemos chamar os simpatizantes de budistas, mas pertencentes a Sangha só os que tomam refúgio nela, estes sim, são os praticantes budistas.
Assim repito que Buddha tinha sérios motivos para fazer seus monges viverem em comunidade, e há um grande motivo para as Três Jóias serem o Buddha, o Dharma e a Sangha, e o refúgio ser recitado em todas as cerimônias, se tirarmos uma destas três coisas podemos ter um budista, mas não um praticante budista no modelo de Buddha. Podemos até obter um iluminado pela prática solitária, porem a ele falta uma ação extremamente prezada no Zen, a atitude compassiva, que entende que ajudar os outros com sua presença e enfrentar os problemas de estar em comunidade é a grande prova da prática real.
Conta-se que um monge praticou sozinho, durante anos, numa montanha, achou-se iluminado e desceu até uma cidade, na praça do mercado, aqueles seres sonhadores, que ele olhou com superioridade. De repente, no aperto da multidão, um homem lhe pisou o pé com um tamanco de madeira, o monge sentiu-se invadido pela dor e raiva e empurrou o homem com ódio. Naquele momento ele percebeu que sua prática budista só era suficiente na solidão dos montes.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Por quê há novas ordenações oficiais pela Escola Soto Zen?

O que sucedeu no Brasil e em outros países foi que pessoas foram ordenadas, privadamente, sem registro pela Soto Shu internacional, por monges que não tinham como registra-las, por, por exemplo, não terem um templo próprio, condição essencial.
A medida que o zen se organiza no ocidente faz-se um esforço para recomeçar seguindo as regras milenares estabelecidas por Buddha, registrando e dando treinamento apropriado aos que foram ordenados sem cumprir as regras mantidas desde os tempos de Buddha 2500 anos atrás e que são identificados por seu idealismo e trabalho. Regras tais com raspar os cabelos, documentação apropriada e cumprir certos requisitos de treinamento.
Até o momento, apenas aproximadamente 10 % dos ordenados privadamente tem sido aptos ao reconhecimento e ordenação oficiais.
No Brasil, o Colegiado Buddhista Brasileiro não reconhece os monges ordenados fora das regras oficiais, seja em que escola for, entende que seria como reconhecer o direito de ser chamado de doutor a um "advogado" que não houvesse estudado na faculdade, feito o exame da ordem, colado grau.