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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Penso, logo, penso que existo



Esse primeiro momento é de semear, depois de colher e amassar e fazer o pão. Como surge a identidade? Nossa noção de eu surge dos agregados, mas quem são esses agregados?

Segundo os sutras, os agregados são aquelas coisas que, juntas, nos dão a noção de um eu próprio. Em primeiro lugar, a forma. Temos uma forma e olhamos para ela, nossa manifestação fenomênica, cármica, nesse mundo. Essa forma - nosso corpo - nos dá a primeira sensação de que somos indivíduos separados. Depois temos nossos sentidos, temos o contato que esses sentidos fazem, as percepções geradas pelos sentidos em contato com as coisas. A soma dessas percepções dentro do nosso programa mental dá origem a nossas formações mentais.
Essas formações mentais em operação produzem consciência. A junção de todas essas coisas produz a noção de um eu. “Ah, eu sou porque eu penso, porque eu opero no mundo, porque eu percebo, por isso então, eu sou”. Como na declaração do Discurso do Método, de Descartes, “Cogito, ergo, Sum” ou “Penso, logo, existo”. Para o Zen, isso não está correto. Para o Zen, a declaração mais apropriada deveria ser “Penso, logo penso que existo”. Quando surge essa percepção, dizemos que vem do fato de haver um carma, que gerou forma, gerou fenômeno e todas essas coisas. Vejam que o carma também condiciona a interpretação, ou seja, nossas formações mentais. Nosso corpo percebe sentidos, percebe as coisas de forma parecida, não igual. Não há nenhuma garantia de que o Giovane, aqui ao meu lado, veja a cor gelo da parede do ViaZen exatamente da mesma maneira que eu. Mas é muito próxima, tanto que eu e ele podemos falar sobre ela, analisá-la de muitas formas; é até por isso que seres humanos podem trocar experiências, conversar.
 Por isso existe literatura, poesia e assim nós, vendo o que outros escreveram ao longo da história, podemos ver como os sentimentos deles são semelhantes aos nossos, pois vemos de forma bastante próxima. Portanto, partilhamos um carma que interpreta as coisas de forma parecida. Temos programações parecidas, mas não idênticas. Por isso os sentimentos que surgem de pessoa para pessoa face às mesmas experiências são diferentes, porque o programa de suas formações mentais é algo diverso, influenciado por suas marcas cármicas.

(Palestra sobre Identidades, primeira parte, continua)