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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Benevolência e doações


TEXTO (cont. de Shushogi)
Palavras amáveis são a fonte para superar o ódio de amargos inimigos e cultivar a harmonia entre os amigos. Ouvir diretamente palavras amorosas ilumina a face e aquece o coração. Uma impressão ainda mais profunda é feita ao ouvir palavras amáveis que foram ditas na sua ausência. Lembre-se de que palavras amáveis têm o poder de mover os céus. “Ações bondosas” significam encontrar um meio de ajudar os outros, sem se importar com sua posição social. Aqueles que ajudaram a tartaruga aprisionada ou o pássaro ferido não esperavam nada em retorno por sua ajuda; eles simplesmente agiram por benevolência. Os tolos pensam que seus interesses próprios irão sofrer se colocarem o beneficio alheio em primeiro lugar. Entretanto estão errados. Benevolência é como um círculo, beneficiando igualmente a nós mesmos e aos outros. “Identificação” significa não-diferenciação, não fazer diferença entre os outros seres. Por exemplo, é como um humano Tathagata que viveu a mesma vida que todos nós humanos. Identificamos os outros conosco mesmos e identificamos a nós mesmos com os outros. Nestes momentos os “nós mesmos” e os “outros” se tornarão um. Identificação é como o oceano, que não declina nenhuma água, sem importar qual a origem, todas as águas se juntando para formar o mar. Quietamente reflitam sobre o fato de que os ensinamentos precedentes são a prática de um Bodhisatva. Não a tratem levemente, venerem e respeitem seus méritos, que permitem libertar todos os seres.

Pergunta – É possível atingir a iluminação sem a preocupação de ajudar os outros a atravessar o rio da ignorância?

Monge Genshô – Sim, existem os que vencem solitariamente e atingem a iluminação.

Pergunta – Esses méritos que a pessoa acumula com a compaixão poderão ser creditados mais à frente, por exemplo, uma pessoa que acumulou muitos méritos e mais à frente na vida se depara com uma situação crítica, seja de qual natureza for, poderá se perguntar do porque de estar nessa situação se acumulou muito mérito com a compaixão.

Monge Genshô – Os méritos não são uma conta corrente e se você fizer com a intenção de acumular um tesouro é como um materialismo espiritual. Você não passará de um “ricaço de bens de mérito”.  É como a pessoa que vai anotando cada boa ação e num futuro se acontecer de ser mal tratado pela pessoa alvo de sua boa ação, ele irá questionar o porquê disso se no passado, está anotado no seu caderno, ele só fez o bem. Onde está meu retorno cármico? Acontece algumas vezes de você fazer um bem sem saber e ele retornar em um agradecimento que você não esperava. Um acontecimento que para você foi tão pequeno a ponto de passar despercebido, mas para quem recebeu foi muito significativo. Você deve fazer as coisas sem esperar retorno.

Pergunta – A nossa tradição judaico-cristã trabalha nesse sentido de acúmulo de méritos para no futuro ter uma vida mais feliz.

Monge Genshô – Esse é um sentido, no meu modo de ver, muito primitivo, pois considera os méritos espirituais como se fossem capital acumulado, a tal ponto de esperar que Deus dê uma recompensa àquele que fez uma doação. É como uma negociação, se eu der recebo de volta, se não der nada recebo. Há uma passagem no Antigo Testamento, no Livro de Malaquias que diz o seguinte: “em que me roubais?”, diz o Senhor, “nos dízimos e nas ofertas”. “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.”

O que significa isso? Se você pagar o dízimo Deus lhe concederá bênçãos de riqueza. Mas no Zen não é assim, temos um caixinha ali fora e você ajuda se quiser, mesmo que ajude ninguém saberá. Qual bênção irá receber? Apenas a satisfação de ajudar outras pessoas. Foi essa a resposta de Bodhidharma para o imperador Wu quando este lhe pergunta que méritos acumulou por construir templos e mosteiros para o budismo. “Mérito nenhum majestade”. Não se trata de um negócio, você deve fazer o bem pela satisfação do bem.

Você encontra uma pessoa na rua e lhe dá um prato de comida e depois sai à procura de uma divindade para cobrar seu mérito? Isso é vergonhoso. Vejam essa organização “Médicos sem Fronteiras”, pessoas que saem pelo mundo para ajudar pessoas miseráveis que nunca irão pagar. Esses são verdadeiros Bodhisattvas, nós é que não os enxergamos, mas existem muito mais Bodhisattvas no mundo do que imaginamos.