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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O Movimento Mahayana (Parte 01)



Gostaria de falar sobre o surgimento do movimento mahayana no budismo. Esse surgimento aconteceu porque o budismo havia se congelado dentro das ordens monásticas, então só os monges podiam despertar, se iluminar. Mas os monges, para isso, eram renunciantes completos, eram ascetas, cuja regra dizia até que eles não podiam amanhar a terra, comercializar, prestar serviços, trabalhar, não podiam fazer nada disso, tinham que se dedicar única e exclusivamente à prática espiritual, e para comer tinham que sair com a tigela para mendigar a comida, o que era possível dentro da cultura hindu.

Se você não desenvolver sua visão espiritual, e não souber viver na vida cotidiana, na vida moderna, se você não souber lidar com seu smartphone com sabedoria então o Zen é inútil. Ele tem que ser útil nessas ações, não fora delas. Não é útil isolado na montanha. Com isso surge uma grande distinção entre o mahayana e o movimento anterior que é chamado, para diminuí-lo, de hinayana. Os hinayanas jamais se chamaram dessa forma, porque essa palavra significa “caminho desprezível”, enquanto “maha” quer dizer grande. Então seria “o grande caminho” e “o pequeno caminho”. Evidentemente usar a palavra hinayana para se referir a uma escola é uma conduta sectária que deve ser evitada.

(CONTINUA)

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Bodisatva, o ideal do movimento Mahayana



Bodisatva é um termo que surgiu com o budismo Mahayana.
Os ensinamentos de Buda foram coletados no cânon páli, foram escritos no século III a.C, e foram coletados e repetidos oralmente durante muito tempo após a morte de Buda. Esta tradição oral é muito exata porque os sutras eram recitados como poesias, primeiro segmento, segundo segmento, em uma seqüência e essa repetição sempre é circular também. Se uma coisa é afirmada de uma forma, depois é afirmado o seu contrário, de forma a não haver confusão, mudanças naquilo que estava sendo dito. Então esses sutras consolidados e escritos em cânon páli formam o Triptaka, os três cestos. Esses três cestos, são os Sutras, discursos de Buda, depois o Vinaya, as regras para os monges, de comportamento para os monges e terceiro o Abhidharmma ou comentários que  haviam já sido feitos pelos primeiros mestres. Então surge o budismo Mahayana, já um movimento laicizante, levando o budismo para os leigos mais enfáticamente. O budismo Mahayana é um comentário do budismo anterior, do budismo do Triptaka. Então o que sucedeu é que ele começou a enfatizar o foco em libertar os outros seres. Esta é a grande distinção. No budismo dos primeiros tempos o foco era conseguir a minha iluminação, conseguir me aperfeiçoar. O movimento Mahayana é um movimento que diz mais vale abdicar da minha iluminação, da minha retirada completa do mundo para me dedicar aos outros seres por compaixão. Então o bodisatva é o ideal do Mahayana, o ideal da compaixão, por isto os votos do bodisatva que fazemos de manhã são votos paradoxais e dizem: embora os seres sejam inumeráveis eu faço votos de libertá-los todos, mesmo os piores, mesmo os criminosos, mesmo as pessoas mais terríveis. Eu não me iluminarei completamente, eu não abandonarei este mundo de manifestações enquanto houver um ser no inferno, o pior dos criminosos, eu voltarei até resgatar o último, até libertá-lo. Este é o voto do bodisatva. Eu sei que todos os praticantes começam praticando para si mesmos, então não são bodisatvas. Isto surge com o tempo.Todos os praticantes quando chegam querem obter alguma coisa para si mesmos. Esta é a armadilha que o Mahayana pretendia desarmar. O movimento Mahayana, no budismo, via esta postura como egóica, eu quero iluminar a mim mesmo. Agora, algumas pessoas entendem e praticam o Mahayana e quando lêem um texto, principalmente da escola Theravada, que é guardiã do cânon páli e não aceita os sutras Mahayanas, acusam o budismo anterior de Hinayana. Hinayana é uma palavra que quer dizer desprezível ou pequeno e Maha quer dizer grande. Esta é outra visão discriminativa, por que na verdade o Mahayana está contido nas escrituras páli. É mais uma postura sectária,lamentável, o que acontece com esses budistas Mahayanas.
 E do outro lado as escolas anteriores acusam os Mahayanas de terem adotado sutras que na realidade não foram ditos por Buda. São sutras que foram escritos mais tarde por outros professores e ao serem escritos foram sempre sendo atribuídos a Buda, num mesmo formato dos sutras anteriores. Os sutras do Triptaka são sutras muito simples e os sutras Mahayanas começam a ser míticos, com Buda falando para milhares e milhares de praticantes, de iluminados, em um ambiente celestial e com textos cheios de estórias milagrosas ou coisas assim. Eles começaram a aparecer quinhentos anos, após a morte de Buda, no entanto eles são obras muitas vezes lindas e nós temos que saber enxergar isto e evitar as visões sectárias ou errôneas e não nos deixar levar para nenhum dos dois extremos. Se fosse nos tempos de hoje esses textos teriam sido escritos de forma mais simples e seriam assinados por mestres, não seriam atribuídos a Buda como foram. Nós nem sabemos os autores dos sutras Mahayanas porque eles nunca foram assinados, sempre foram atribuídos a Buda.  O budismo de hoje é uma obra coletiva construída através dos tempos por muitos mestres. (Comentário de Monge Genshô)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Hinayana, Mahayana (cont)

Observações importantes do Prof Ricardo Sasaki sobre o tema:

" Permita-me alguns comentarios. Como vc percebeu, ambos os termos, hinayana e mahayana, surgiram numa epoca de disputas e tensoes ao norte da India, um periodo, como se pode ver pelos termos usados, predominado pelo orgulho e arrogancia (mana) com escolas acusando outras de inferiores, menores, etc. Hina, literalmente significa vil e mesquinho, e nao simplesmente `menor` como mais tarde mahayanistas tentaram suavisar.

O Theravada por sua vez nunca fez parte da classificacao de Hinayana. Isso eh um erro historico cometido apenas recentemente. Na historia passada, quando da ocasiao do surgimento dos termos hinayana e mahayana, as tais escolas hinayanas se referiam ao sarvastivada e ao sautrantika, principalmente. O Theravada de hoje se desenvolveu no Sri Lanka e distante do local onde tais conflitos surgiram.

Quanto a sua pergunta sobre um termo para o mahayana que nao remetesse a essa dicotomia, isso eh algo dificil pois, ao contrario do que muitos pensam, o Mahayana nao eh uma escola, da forma como theravada, sarvastivada, mahasanghika, etc, o eram, mas sim um movimento filosofico com caracteristicas especificas, caracteristicas essas que as escolas que surgiram posteriormente (como o zen, terra pura, etc) adotaram com maior ou menor grau e quantidade. Em minha opiniao ha tres caracteristicas fundamentais do Mahayana enquanto movimento: a predominancia dos ensinamentos dos mestres em relacao ao ensinamento direto do Buddha, a exclusividade do ideal do Bodhisattva e o uso de escrituras claramente posteriores (pos-canonicas).

1. As escolas que se colocam como dentro do Movimento Mahayana fazem uso, em maior ou menor grau de escrituras posteriores, e o material canonico antigo, seja escrito em pali ou em sanscrito hibrido, faz parte de seu canon apenas parcialmente e a titulo de obras historicas sem relevancia pratica. Tais obras "mahayanas" sao um desenvolvimento de ensinamentos contidos no canon antigo, sao posteriores e acrescentadas ou enfatizadas. Segundo essa caracteristica poderiamos chamar o Mahayana com o nome de Buddhismo Desenvolvido, Expandido ou Pós-canonico.

2. a exclusividade do ideal do Bodhisattva eh uma das marcas do Movimento Mahayana. Nas escolas antigas, pre-Mahayanas, tambem ha um ideal do Bodhisattva em maior ou menor grau, mas ele eh apresentado conjuntamente com outros ideais. Eh a marca do Mahayana dizer que ele eh o unico que deve ser seguido. Segundo essa caracteristica poderiamos chamar o Mahayana de Bodhisattvayana, enfatizando assim sua exclusividade na enfase deste ideal. Esse foi um nome que foi usado historicamente para defini-lo.

3. a preponderancia do ensinamento dos mestres sobre os ensinamentos do canon (ou seja, mais diretamente do Buddha), colocam as escolas mahayanas como um Acharyavada, ou seja, suas escolas surgem ao redor de um mestre e sua obra especificos. Esse termo tambem ja foi usado historicamente.

Para mim eh fundamental que uma pessoa que se dedique a entender historicamente o Buddhismo tenha essas tres caracteristicas em mente quando tenta entender o Movimento Mahayana surgido num periodo de grande complexidade. Espero que sejam uteis para suas indagacoes.

Prof.Ricardo Sasaki

Hinayana, Mahayana


"Pelo que sei através de mais de 50 anos de estudos de budismo, não existe nenhum termo alternativo para designar o Mahayana, a não ser, talvez, a expressão Bodhisattva-yana )Veículo dos Bodhisattvas) e a expressão Ekayana (Veículo Uno) que, entretanto, não são exatamente sinônimos de Mahayana, possuem um sentido ligeiramente diferente.Volto a isso mais adiante.
Quanto a questão do Hinayana/Theravada, a questão é bem mais complexa do que parece à primeira vista. Vejamos:

1.Realmente o termo Hinayana tem um sentido um tanto pejorativo e deve ser evitado.

2.Entretanto, Hinayana não é exatamente sinônimo de Theravada. A expressão Hinayana abrange, além do Theravada, uma série de escolas há muitos séculos desaparecidas, como Sarvastivada, Sautrantika e outras.

3.O que foi chamado de Hinayana é, na verdade, uma síntese de dois caminhos ou Veículos, o Veículo dos Pratyeka-buddhas (os que se iluminam sozinhos) e o Veículo dos Sravakas ou Auditores, isto é, os discípulos que se iluminam ouvindo as palavras do Buda. A esses dois Veículos se contrapõe um Terceiro Veículo, o dos Bodhisattvas, isto é, o caminho daqueles que por sua Sabedoria poderiam ingressar no Nirvana, mas que por sua Compaixão adiam indefinidamente esse ingresso para se dedicarem à salvação de todos os seres viventes. O Caminho dos Bodhisattvas é o alicerce do Mahayana, mas este último, evidentemente, é muito mais do que isso, pois compreende as Escolas filosóficas do Vazio e da Consciência e outros elementos. Já o Ekayana ou Veículo Uno, exposto no Sutra do Lótus da Lei Excelente (Saddharmapundarika, Hokkekyô) é uma síntese que engloba e transcende os três Veículos supracitados.

4.Uma solução para evitar o termo Hinayana seria, talvez, denominar os dois primeiros Veículos de Veículos Menores. Outra solução seria explicitar os nomes desse dois Veículos, sem adjetivá-los: Veículo dos Autoiluminados, Veículo dos Auditores.

5.Insisto ainda em lembrar que é historicamente errado considerar o Theravada uma forma arcaica de Budismo anterior ao Mahayana. Ainda que o Theravada conserve uma série de textos que remontam à fase mais antiga do Budismo, ele foi evoluindo através dos séculos e muitos dos textos hoje englobados no Cânone Pali são posteriores aos textos Mahayana mais antigos.

Como vê, a História do Budismo é bem mais complicada do que possa parecer à primeira vista.

Gasshô,

Shaku Riman"
(e mail do Prof. Ricardo M Gonçalves em resposta a indagação de um praticante)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O mito do Hinayana


Sarnath_Lion - Capital of Ashoka

O mito do Hinayana
por Kåre A. Lie
Nos séculos por volta do nascimento do Cristo, havia um desenvolvimento radical acontecendo no Buddhismo. Uma nova escola surgiu e seus adeptos a chamaram Mahayana [1]. Como essa nova escola se diferenciou das escolas mais antigas pode ser encontrado em qualquer história do Buddhismo. Aqui vamos nos concentrar em um dos resultados desse cisma: o termo Hinayana.

Os adeptos das escolas antigas criticaram os Mahayanistas, especialmente por criarem novos sutras, forjando a palavra do Buddha. Os Mahayanistas, por sua vez, reagiram a essa crítica acusando seus oponentes de não compreenderem completamente os ensinamentos do Buddha e de serem egoístas de mentalidade estreita. O debate esquentou e acusações fluíram de ambos os lados. Então algumas pessoas brilhantes do lado Mahayana do debate criaram o par de palavras Mahayana/Hinayana, e ele pegou. Eles chamaram seus oponentes de Hinayana, e essa palavra funcionou muito bem como um insulto - com uma simplicidade e paralelismo com o Mahayana que qualquer tolo poderia assimilar.

Hinayana, ou, mais corretamente, hiinayaana é um termo altamente depreciativo. Ele não significa simplesmente "o veículo menor" como geralmente é colocado. O segundo elemento de hina-yaana - que é yaana - significa veículo. Mas hiina raramente tem o simples significado de "menor"
ou "pequeno". Se fosse esse o caso, os textos páli (ou sânscrito) teriam usado-o em outras conexões como o oposto de mahaa - grande. Mas não o fizeram. O oposto de mahaa é cuu.la, assim essa é a palavra normal para "pequeno".

O termo Hinayana é o eco de um debate morto há muito tempo - ou ainda um debate onde um lado está morto e o outro está gritando aos ventos.

Quem eram os oponentes que foram rotulados como Hinayana? O Theravada? Provavelmente não. Na época em que o Mahayana surgiu, o Theravada havia "emigrado" principalmente para Sri Lanka, e dificilmente poderia ser contado entre as escolas dominantes nas terras continentais indianas - onde o debate Mahayana/Hinayana aconteceu. A mais influente das antigas escolas naquele tempo era a Sarvastivada, assim eles foram os mais prováveis - mas dificilmente os únicos - alvos das invectivas "Hinayana".

Agora a Sarvastivada e as outras escolas antigas da Índia estão mortas, exceto Theravada, mas o debate e os argumentos encontraram seu lugar nos sutras Mahayana, como, por exemplo, é aparente na propaganda anti-Hinayana do Sutra do Lótus - e continua ecoando nos ensinamentos Mahayana e Vajrayana.

Hoje há confusão, pelos Mahayanistas/Vajrayanistas usarem o termo Hinayana de três maneiras diferentes:

1.. No sentido histórico: escolas pré-Mahayanistas são chamadas Hinayana.
2.. O Theravada moderno é confundido com Hinayana.
3.. O termo Hinayana é usado para uma parte interna do ensinamento Mahayana/Vajrayana.

Vamos dar uma olhada mais de perto nesses três usos:

1. Alguns afirmam que a palavra Hinayana como um termo para as escolas mais antigas é um uso que pertence a um passado distante somente.
Isso não é correto. Pode ser encontrado em vários trabalhos modernos de referência, e em literatura mais especializada ele pode, por exemplo, ser encontrado em Buddhist Philosophy In Theory and Practice, de H.V. Guenther, citando trabalhos tibetanos dos séculos XVIII e XX.

2. Como um exemplo de confusão de Hinayana com Theravada, irei citar Buddha for Beginners, da bibliografia de Jane Hope (Jane Hope estudou com Chogyam Trungpa Rinpoche), impresso em 1995 (eu tenho somente a versão norueguesa disponível, assim espero que a minha tradução para o inglês não seja muito inacurada): "Buddhismo Hinayana. Uma boa introdução ao tradicional Buddhismo Hinayana é What the Buddha Taught, de Walpola Rahula... Com um ponto de vista atual e escrito por dois ocidentais treinados na tradição Theravada, é... Seeking the Heart of Wisdom, por Joseph Goldstein e Jack Kornfield..."

3. Agora sobre uma constante confusão que tem base no Buddhismo tibetano. Alguns dizem que Hinayana e Mahayana há muito são dois termos usados para descrever duas diferentes atitudes espirituais, e citam o sétimo capítulo ("Loving Kindness and Compassion") do clássico tibetano The Jewel Ornament of Liberation, escrito no século X, onde o autor, Jé Gampopa se refere a Hinayana como "menor capacidade" ("theg pa dman pa"). O parágrafo se lê como segue: "'Apego ao bem-estar de mera paz(1)' significa a atitude de menor capacidade(2) onde o desejo de transcender o sofrimento é focado somente em si. Isso obstrui a consideração com os outros e dessa forma há pouco desenvolvimento de altruísmo [...] Quando a bondade e a compaixão se tornam parte do ser, há tanto cuidado pelos outros seres conscientes que ele não poderia almejar a liberação somente para si. [...] Mestre Manjushriikiirti disse: 'Um seguidor do Mahayana não deveria estar sem bondade e compaixão por um momento sequer', e 'Não é a raiva e o ódio mas a bondade e a compaixão que concedem o bem-estar aos outros'."

As notas de rodapé dessa passagem indicam o seguinte: (1) o tibetano zhi.ba significa "paz". É traduzido como "mera paz" nessa seção do livro, já que é usado por Gampopa para denotar a paz relativamente sem compaixão que resulta do desenvolvimento somente da meditação de concentração. (2) Hinayana: "menor capacidade", muitas vezes traduzido como "veículo menor". O termo implica na capacidade de carregar um fardo. Nesse caso o fardo é o próprio ser, já que seu comprometimento é conduzir a si mesmo à liberação, não a todos os seres (como é o caso no Mahayana, a "maior capacidade").

O problema e confusão aqui é que obviamente essa análise não se refere diretamente à palavra hiinayaana em páli/sânscrito, mas à sua tradução tibetana "theg pa dman pa". Esse é um aspecto chave, como será mostrado abaixo.

A palavra Hinayana não é tibetano, não é chinês, inglês ou bantu.
É páli e sânscrito. Dessa maneira a única abordagem sensata para determinar o significado da palavra é estudar como a palavra hiinayaana é usada nos textos páli e sânscrito.

O segundo elemento, -yaana, significa veículo. Não há dissensão sobre isso.

Como é então usada "hiina" nos textos canônicos páli?

Todo buddhista conhece o primeiro sermão do Buddha gravado, o Dhammacakkappavattanasutta falado aos cinco ascetas que se tornaram os primeiro cinco bhikkhus [2]. Nele o Buddha diz: "Esses dois extremos, monges, não são praticados por aquele que transcendeu o mundo. Quais são os dois? Aquele conjugado com as paixões e luxúria, baixo (hiina), grosseiro, vulgar, ignóbil e danoso..."

Sabendo que o estilo do sutta muitas vezes usa cadeias de sinônimos dessa maneira, assim eles fortalecem e definem-se um ao outro, pode-se considerar "grosseiro, vulgar, ignóbil e danoso" como definições auxiliares de "hiina" nesse caso.

Aqui o Buddha claramente denota o caminho a não ser praticado como hiina.

Em outros textos e comentários páli hinna muitas vezes ocorrem na combinação hiina-majjhima-pa.niita, que é: ruim - médio - bom. No contexto de hiina - majjhima - pa.niita (ou algumas vezes somente hiina - pa.niita) a palavra hiina é sempre usada como um termo para qualidades indesejadas, como por exemplo o ódio, avareza e ignorância. Ela obviamente significa "baixo, indesejável, desprezível" - e não "pequeno" ou "menor".

O comentário Mahaniddesa-atthakatha, um dos textos onde a tríade ocorre, define a palavra assim: hiinattike hiinaati laamakaa (na tríade "hiina" é "laamakaa"). Agora laamaka é definida pelo PTS Dictionary dessa
maneira: "insignificante, pobre, inferior, mau, pecaminoso. O sinônimo comum é paapa". E paapa significa "ruim, mau". Assim parece que as definições vão de mal a pior. O comentário então dá exemplos e explica que os desejos que causam renascimento em niraya (inferno, purgatório) são hiina.

Agora para os textos em sânscrito. Em Lalitavistara encontramos uma versão do Dhammacakkappavattanasutta, onde a palavra "hiina" é usada exatamente como na citação acima da versão páli do sutta.

Em Mahayanasutralankara por Asanga, que é um texto Mahayana muito representativo, encontramos algo de interesse para nossa busca. Asanga diz:
"Há três grupos de pessoas: hiina-madhyama-vishishta... (ruins - médios - excelentes)." Essa expressão é paralela ao páli hiina-majjhima-pa.niita e vem mostrar que os Mahayanistas que cunharam o termo "hiinayaana"
consideraram "hiina" como um termo depreciativo, com o mesmo sentido dos textos páli.

Um texto muito interessante é uma edição do Catushparishatsutra onde o texto é apresentado em quatro colunas paralelas: sânscrito, páli (Mahavagga), tibetano e uma tradução alemã da versão chinesa. Aqui, novamente, encontramos o Dhammacakkappavattanasutta. Já observamos em páli e sânscrito. A versão alemã do chinês diz: "Erstens: Gefallen zu finden an und anzunehmen die niedrigen und üblen Sitten der gewöhnliche Personen..." É um tanto impreciso se aqui "niedrigen" (desprezível) ou "üblen" (mau, ruim) que corresponde a "hiina". Mas pelo menos é claro que a conotação fortemente negativa de "hiina" foi mantida na tradução chinesa. Nada mudou dos significados páli e sânscrito.

Na coluna tibetana, percebemos que a palavra "dman-pa" do tibetano toma o lugar correspondente ao sânscrito "hiina", coincidindo com a citação de Jé Gampopa acima. E aqui temos a causa de posteriores confusões e equívocos do termo hiinayaana. Vejamos o que dicionários tibetano-inglês dizem sobre "dman-pa": Sarat Chandra Das' Dictionary diz: "dman-pa: baixo, em referência a quantidade ou qualidade, pequeno". Jäschke's Dictionary é ainda mais esclarecedor: "dman-pa: 1. baixo, e referência a quantidade, pequeno. 2. em referência a qualidade: indiferente, inferior (sânscrito:
hiina)."

Dessa forma parece que a palavra do sânscrito hiina, que sem qualquer dúvida razoável significa "de baixa qualidade", foi traduzida pela palavra dman-pa do tibetano, que tem o duplo significado "baixa qualidade" e "baixa quantidade". E a citação acima de Jé Gampopa parece indicar que muitos tibetanos daí por diante lê somente o segundo dos dois significados, como "menor capacidade", "capacidade mais baixa", assim o significado foi distorcido de "baixa qualidade" para "baixa quantidade".

Assim vemos que a confusão se originou do fato que dman-pa tem dois significados em tibetano. Hinayana - originalmente significando "veículo de qualidade desprezível" - adquiriu o novo significado "veículo de menor capacidade". Mas isso é resultado de um método errado. É obviamente errado projetar o novo significado tibetano de volta à palavra sânscrito/páli e dizer que "esse é o significado de Hinayana, porque é assim que os mestres tibetanos explicam-na." O que os mestres tibetanos explicam é a palavra dman-pa do tibetano, não a palavra hiina do sânscrito.

Assim sendo é claro que não se pode afirmar que Hinayana tem o significado "brando" que a tradição tibetana lhe deu, através da palavra dman-pa do tibetano. Hinayana não é tibetano, é páli/sânscrito, e é ofensiva, o significado depreciativo permanece inalterado por quaisquer tentativas de suavização.

O que, então, é Hinayana? É o Buddhismo Theravada? Não, isso é tanto insultuoso quanto provavelmente é historicamente incorreto. É uma atitude espiritual dentro dos sistemas Mahayana e Vajrayana? Não, esse é o tibetano "theg pa dman pa", a atitude de menor capacidade, e não o sânscrito Hinayana, "o veículo inferior" [3]. Dessa forma, não há Hinayana. Hinayana não é nada além de um mito, ainda que confuso e destrutivo, e Buddhistas sábios deveriam deixar essa palavra repousar nas prateleiras do Museu dos Cismas, aonde ele certamente pertence, e encontrar outras palavras para denotar essas atitudes espirituais que eles desejam definir.

Traduzido e comentado por Flávio Costa.

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[1] Nesse ponto o texto não está muito claro, pois dá a impressão que Mahayana é uma escola, sendo que na verdade é um grupo de escolas, considerado um veículo do Buddhismo.
[2] Bhikkhu é a palavra páli que se refere a monge (masculino).
[3] Infelizmente essa tradução já se convencionou no Buddhismo tibetano, sendo pouco provável que ela deixe de ser empregada.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Origem dos textos budistas


Monges assistem aula de história budista em Yokoji no programa de certificação de professores da SotoShu.

Sobre a declaração de que os textos japoneses e chineses tenham sofrido acréscimos e modificações e os textos de origem tibetana não o tenham há alguns dados a considerar:

Afirmação: "É bom lembrar que as traduções ao chinês e japonês, ao contrário das
traduções ao tibetano e dos originais em sânscrito - muitas vezes foram corrompidas."

Resposta: Os sutras mahayana muitas vezes são textos compósitos, sendo o texto final uma superposição de camadas diferentes de diversas épocas, com aparência diversa, cada sutra individualmente não apresenta necessariamente um todo coerente. Daí surgiram tradições de exposição sendo que estas formaram escolas.. Este surgimento vai do sec 1DC até 600 -700DC.
A linguagem dos primeiros sutras Mahayana é a "MIA" Médio Indo-Ariana, e posteriormente transcritos para o sânscrito , originais sânscritos nem no Triptaka, o sânscrito era lingua morta a este tempo, (foi usado o Páli) foi ressuscitada no período Gupta (320-540 DC) que readotou o sânscrito, língua religiosa, como língua oficial.(Um equivalente moderno ocorre em Israel, a ressurreição do hebraico). As porções sobreviventes sobrevivem num misto MIA/sânscrito, chamado sânscrito budista híbrido, e a prosa explanatória normalmente em sânscrito puro, sugerindo já a interpolação.
O Mahayana não produziu um cânone mas normalmente incluiu o Triptaka aceitando-o. Muitos dos sutras mahayana se auto descrevem como vaipulya (expandido) expansão do ensinamento.
O Mahayana declara que estes sutras foram ensinados em um nível arquetípico e não para todos os seres, assim se declarando um ensinamento superior ao dos sutras do cânone antigo. Há mesmo uma tradição de um Primeiro concílio alternativo presidido pelo Bodisatva Manjusri e que teria ocorrido em um nível arquetípico e no qual Buda os teria recitado em seu tempo histórico, sec 6 AC. Mas a exegese não apoia tal tese fantástica, isto pois há crítica aberta a ensinamentos e prática Hinayana (erroneamente assim chamada) reconhecidamente anterior.
Cerca de 600 sutras Mahayana sobreviveram.
Agora, um sutra como o Sutra do Coração tem evidências de ter sido primeiramente produzido em chinês, e posteriormente traduzido para o sânscrito. É datável de entre 300 a 500 DC, antes da introdução do budismo no Tibete.
Os textos tântricos, caros a tradição tibetana são datáveis entre 500 a 1000 DC.
O Sutra do Lótus situa-se entre 100 AC a 100 DC, é um texto compósito. No capítulo XI um Buda ancestral surge para dizer que o sutra não é novo mas que já foi pregado em épocas passadas.
O Sutra Avatamsaka é longo e compósito também.Teve secções traduzidas para o chinês por Lokaksema no sec II DC, supõe-se ter chegado a forma atual pelo sec IV DC, contém dois sutras que circularam independentemente e sobreviveram no sânscrito o Dasabhumika e o Gandavyuha, baseou a escola Hua-yen.

O budismo tibetano tentou sínteses incorporando todos os sutras, por esta razão sua ênfase nos sastras (comentários) estes recebem primazia nos programas de educação monástica. Uma abordagem diferente da japonesa por exemplo, onde as escolas são em larga medida especialistas. No entanto a tradição tântrica entra aí com contraste introduzindo práticas já presentes na Índia e que foram firmemente recusadas na China por seu conteúdo sexual.
Alguns destes tantras yogini foram indubitavelmente transcritos dos tantras Saivitas e adaptados para propósitos budistas por algum redator.

Há muito mais dados a serem considerados e podem ser encontrados no já abundante material disponível, assim, sabendo as origens e transcrições cruzadas, e o fato de muito do material ter passado anteriormente pelo chinês, (e o sânscrito provir do ressurgimento Gupta), afinal o Tibete só viu o budismo realmente 1200 anos depois de seu surgimento, o alegar de uma superioridade dos textos tibetanos não se sustenta.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Em que nos concentramos no zazen?


Se EU ficar concentrado, como é que me libertarei deste EU? Se há alguém observando quem é este que observa? Como nos libertaremos do eu se estamos reforçando-o lhe dando um papel?

Eis porque o zazen não tem foco nem concentração em nada, porque isto serve como âncora para um eu se solidificar.

Naturalmente, no início da prática várias técnicas são usadas para ajudar a obter estabilidade, tais como contar respirações, no entanto este ainda não é o zazen propriamente dito. Abaixo um texto de 750 anos atrás explica melhor. (Atualmente o termo Hinayana não é mais usado por não haver mais nenhuma escola sobrevivente a que ele possa ser aplicado, a palavra Hinayana reflete um conflito existente 2000 anos atrás entre diferentes propostas de prática budistas. Dogen indica também que o zen não se enquadra como método Mahayana )

"Dogen Zenji (1200-1253) diz no Eihei-koroku (Coleção Formal de Discursos e Poemas de Dogen Zenji), vol.5: “Em nosso zazen, é de fundamental importância sentar-se na postura correta. A seguir, regular a respiração e se acalmar. Na Hinayana, há duas formas básicas (para a prática do iniciante): uma é contar as respirações, e a outra é contemplar a impureza (do corpo). Em outras palavras, um praticante Hinayana regula sua respiração ao contá-la. A prática dos budas e ancestrais, porém, é completamente diferente da prática Hinayana. Um mestre ancestral disse: ‘É melhor ter a mente de uma raposa enganosa do que seguir o caminho de auto-controle Hinayana’. Duas das escolas Hinayana (praticadas) no Japão hoje são a Shibunritsu (a escola dos preceitos) e a Kusha (a escola baseada no Abhidharma-kosa).

Existe também a maneira Mahayana para regular a respiração. E essa é saber que uma respiração longa é longa, e que uma curta é curta. A respiração atinge o tanden e se inicia ali. Apesar da inalação e da exalação serem diferentes, ambas passam pelo tanden. Quando você respira através do abdômem, é fácil perceber a transitoriedade (da vida), e harmonizar a mente.

Meu falecido mestre Tendo disse: ‘O ar inspirado atinge o tanden; porém, não é que esse ar venha de algum lugar. Por esse motivo, ele não é curto, nem longo. O ar exalado sai do tanden; porém, não é possível dizer para onde esse ar vai. Por esse motivo, ele não é longo, nem curto’. Meu professor explicou dessa forma, e se alguém me perguntasse como fazer para harmonizar a repiração, eu responderia dessa maneira: apesar de não ser Mahayana, é diferente da Hinayana; e apesar de não ser Hinayana, é diferente da Mahayana. E se eu fosse questionado mais além em relação ao que é em última instância, eu responderia que inalar ou exalar não são nem longos, nem curtos.”

Mais detalhes no site oficial da Soto Zen aqui