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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Do que é verificável


(continuação  de palestra pública)
Pergunta – Mas a pergunta é mais assim: como encontrar a resposta dentro de nós mesmos? Já que a gente compreende que não está fora, nem em livro, nem em outra pessoa?

Monge Genshô - Boa pergunta. A meditação ajuda muito, por quê? Porque quando você senta para fazer zazen, senta para meditar, joga fora o passado, joga fora o futuro, fica no momento presente, isso estabiliza a mente, e você começa a ver as coisas com mais clareza. Aquilo que parecia complicado para você de repente não é mais. É complicado porque você está agregando àquilo uma série de considerações e coisas do passado. Você carrega um enorme passado junto com você, e esse passado emaranha tudo. Então, aprender meditação é essencial para dar lucidez e clareza. É para isso que você começa praticando meditação.  Então  surge sabedoria.

Mas, esse é um sub-produto inicial da prática. Você começa a praticar e chega um momento que não há mais motivo para você estar sentado, para fazer meditação, porque você pratica, porque você está sentado? - Não sei mais. Monge eu não sei mais porque eu sento. Ah, quando alguém me dá essa resposta, gosto muito. Quando não sabe mais, ficou bom. Quem sabe você começa a pensar nos outros? Porque até agora, você sentou só pra resolver o SEU problema.

Isso acontece com alguns monges. Ah, eu quero ser monge. Para quê? Monge é aquele que começa a trabalhar pelos outros. Está trabalhando,  trabalhando e é leigo. E a gente diz assim: “trabalha como monge”. “Bom, você deve ser monge”. Este é que é o monge. No Brasil há muita gente que diz assim: “O que eu faço para ser monge”? É a primeira pergunta que ele faz. Se  tudo o que ele quer é que as pessoas façam reverências para ele é tolo, ele deveria sentir vergonha quando as pessoas fazem reverencia, porque você sabe que você não merece reverências.

Pergunta – O Senhor tocou no assunto da fé, e a fé é um produto ligado à nossa cultura cristã, então às vezes fica um pouco difícil. O que é fé sob a ótica budista? Se é que existe fé.

Monge Genshô - Posso pegar a definição de Hebreus 11.  Paulo em Hebreus diz: “a fé é a firme crença nas coisas que não se vêem e não se ouvem”. Isso não existe no budismo. Nós estávamos sentados eu, um rapaz e Saikawa Roshi meu mestre. E o rapaz perguntou para ele: “E Deus”? E Saikawa Roshi respondeu: “Bom, isso é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem. Se você não acredita,  está bem também”.

O budismo não trata de assuntos não verificáveis. Não dá pra verificar, não se coloca. O que se coloca é sabedoria. Você não sabe nada, e eu digo para você: “meditação é uma prática construtiva, que vai levar você a mais lucidez e clareza”. Tudo o que você precisa é confiar em mim. E aí você começa. Se tiver uma experiência positiva, pode continuar. Se você chegar e disser que acha que não funciona, não tem problema. Procure alguma coisa que funcione para você. Porque na realidade nós não temos uma fé pra oferecer. Só temos experiência para oferecer.
(Continua)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

"Morro porque não morro"



1) O Senhor foi muito gentil ao falar das crenças, mas no Cristianismo o Senhor não tocou.

Você sabe qual é a crença fundamental do Cristianismo? A ressurreição, não é? Cristo venceu a morte e isto é o que significa "salvar”. A igreja tinha um dístico em latim, “SINE ECCLESIA NULLA SALVATIO” – sem a igreja não há salvação. Você tem que estar dentro da igreja e, PORQUÊ Cristo venceu a morte e ressuscitou, então, todos os homens poderão ressuscitar, se seguirem a igreja, as regras.

Isso fez do Cristianismo uma solução muito bonita no momento do Império Romano. Porque antes, os Deuses Gregos e Romanos, eram Deuses humanos, ciumentos, guerreiros, traidores e você estava à mercê deles. O Cristianismo trouxe regras claras: Você faz tais e tais coisas, de tal e tal forma e está garantida a sua ressurreição. Claro que o Cristianismo teve momentos de grande degeneração. Chegou um momento por exemplo, 500 anos atrás em que a salvação era vendida. A venda das indulgências. Então você era salvo. Mas esta era uma questão da instituição em crise moral. O budismo também passou por coisas assim.

Agora, à parte das crenças,  o Cristianismo em si tem uma profundidade desconhecida dos que o conhecem superficialmente. A maioria dos Cristãos não sabe sobre isso. Por exemplo, eu vou citar uma frase de Paulo: “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim”. Esta é uma frase profunda. “Não sou mais eu quem vive”, eu morri pra mim mesmo. “Cristo que vive em mim”.

Agora dê uma olhada numa frase Budista, como a que eu disse a pouco: “Você não é um redemoinho, você é o céu azul”.

Você vê similaridades?

São João da Cruz, grande místico cristão, diz assim: “eu morro porque não morro”, em um de seus poemas. Eu morro, porque não morro para meu “eu”. Porque eu não morro para mim mesmo, então, eu não posso sentir a Deus. Deus não vive em mim, porque eu não morri. Então eu morro, porque não morro. Porque não morro para mim mesmo. 

Se nós pegarmos uma frase de um Mestre ZEN, do Seculo XIII, Dogen Zenji, que trouxe o ZEN da China para o Japão, ele diz assim: “Estudar o Zen, é estudar a si mesmo, estudar a si mesmo, é esquecer de si mesmo, e esquecer de si mesmo é ser iluminado pela miríade de todos os dharmas”.

Não estão todos estes falando a mesma coisa? Estão.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A mente compassiva



Pergunta – (...) O que é a compaixão?

Monge Genshô – A compaixão depende do esquecimento de nosso próprio ego. As pessoas têm um eu que, normalmente, nas mais primitivas pessoas, termina na sua pele. Tais pessoas cospem e jogam lixo no chão porque não enxergam que o mundo vai além de sua pele. Há pessoas cujo “eu” termina na superfície da tinta de seu automóvel, então jogam latas pelas janelas do carro, porque fora do automóvel já não é mais seu mundo. Podemos ver de que tamanho é o mundo de alguém. Se o mundo vai até a pele, até o carro, aos limites de sua casa. Nunca me esqueço do dia em que vi uma mulher na Alemanha varrendo a rua na frente de sua casa, porque há pessoas que varrem  além de sua casa. Neste caso, esse “eu” estava mais ampliado. Outros pensam que o mundo tem fronteiras, às vezes é sua raça, seu time de futebol ou a fronteira de seu país e os que estão além dessas fronteiras podem ser considerados inimigos. Outros, ainda, pensam assim em relação a sua religião. 

Tudo depende de como é seu ego. A compaixão surge à medida que você amplia os limites de si mesmo, se estendendo para chegar a abranger todo o universo. Se abranger todos os seres humanos, todos os animais, todos seres vegetais, será difícil quebrar uma pedra, porque não matar, como preceito, inclui não quebrar uma pedra quando não há necessidade, não destruir nada. Porque o mundo mental é mais amplo, a compaixão se expande. O crescimento da compaixão então compreende esquecer-se de si mesmo, o que significa morrer para si mesmo. Assim fazendo, podemos, então, abarcar tudo, e ao acontecer isso, existe a libertação, porque quando nós manifestamos a ignorância de nos acreditarmos separados de tudo - e os venenos da mente como o apego, a aversão, a raiva, enfim, todos eles dependem de eu acreditar em mim mesmo como ser separado – não temos compaixão. 

Esta é a ignorância fundamental, a de acreditar que somos um “eu” separado. Porque acreditamos que somos um ser separado de todos os outros, não temos compaixão. Quando morremos para nós mesmos, nasce um ser muito mais amplo e esse ser é naturalmente compassivo, porque a dor do outro dói nele. Na realidade, essa idéia – e isso nos mostra abrangência do Dharma – ela existe nos escritos de Paulo nos evangelhos, “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. Isso significa morte do “eu”. Também encontramos o Dharma nos poemas de São João da Cruz, “Morro porque não morro”. Ou seja, morro porque não consigo morrer para mim, e por isso eu não consigo conhecer Deus. Em termos budistas, porque não consigo morrer para mim mesmo, não me ilumino. É a mesma coisa, em outras palavras.