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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Monge Tokuda - Igarashi Roshi



Monge Tokuda, hoje Igarashi Roshi, foi quem me apresentou o Dharma 40 anos atrás, realizou extenso trabalho de difusão no Brasil fundando numerosos centros. Todos nós que o conhecemos nestes tempos guardamos enorme gratidão por seu ensinamento. Abaixo um trecho de palestra sua que mostra sua abordagem integradora do ocidente com o oriente:


"Nós precisamos mergulhar para nos encontrarmos conosco mesmo, naquela noite escura do espírito. Quando uma pessoa quer ter aquela experiência religiosa, ela precisa ter uma preparação. Rezar, afastar-se dos demais e começar a meditar em silêncio. Dentro de qualquer religião nós podemos encontrar aquele silêncio bem profundo, através deste silêncio é que começamos a nos preparar para uma purificação, para poder chegar até aquele estado místico. Como disse São João da Cruz: a noite dos sentidos, a noite do espírito, a noite da alma. Através desta viagem interna começamos a nos afastar do mundo exterior e começamos a trabalhar sobre o mundo interior, mergulhando, mergulhando dentro da nossa subconsciência, da inconsciência. Quando chegar ao fundo desta escuridão, há aquela união com Deus, com o amor. Para esta experiência, a escola Zen coloca uma palavra, a Iluminação, o satori.

 Este estado, um mestre o expressou da seguinte maneira: numa noite escura, quando escuto a voz do corvo sem cantar, tenho saudades do meu pai antes que eu tivesse nascido. Este verso mostra aquele encontro no fundo com o verdadeiro eu, a união com Deus. Numa noite escura, totalmente escura, não dá para ver nada, escuto a voz do corvo sem que este cante. O corvo é um pássaro preto, dentro da escuridão não se vê nada e ainda por cima, ele está sem cantar. E quando escuto a voz do corvo sem que ele cante, tenho saudades do meu pai antes que eu tivesse nascido. Pai é masculino, não tem aquela força de fazer nascer, só a mulher é que pode fazer isto. Mas quando escuto a voz do corvo sem que este cante, tenho saudades do meu pai. Esta experiência é muito especial, é uma coisa sagrada, uma coisa para nós seres humanos. 

Nos discursos de grandes místicos cristãos, podemos encontrar vários tipos de expressões parecidas. Eles falam sobre essa dificuldade de expressão: inefabilidade, difícil de expressar com palavras. Mas quando há aquela experiência, aquela felicidade, aquela alegria, a pessoa não pode manter-se calada, tem que procurar transmitir aquilo para os outros. O estado do êxtase, a dificuldade de expressão é momentânea, mas é muito forte e muito marcante, e, mesmo assim, os sábios não ficaram calados e sempre começaram a falar para outras pessoas; felizmente isto foi transmitido até hoje através de seus sermões e atos.  ( Trecho de palestra de Monge Tokuda)"

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A mente compassiva



Pergunta – (...) O que é a compaixão?

Monge Genshô – A compaixão depende do esquecimento de nosso próprio ego. As pessoas têm um eu que, normalmente, nas mais primitivas pessoas, termina na sua pele. Tais pessoas cospem e jogam lixo no chão porque não enxergam que o mundo vai além de sua pele. Há pessoas cujo “eu” termina na superfície da tinta de seu automóvel, então jogam latas pelas janelas do carro, porque fora do automóvel já não é mais seu mundo. Podemos ver de que tamanho é o mundo de alguém. Se o mundo vai até a pele, até o carro, aos limites de sua casa. Nunca me esqueço do dia em que vi uma mulher na Alemanha varrendo a rua na frente de sua casa, porque há pessoas que varrem  além de sua casa. Neste caso, esse “eu” estava mais ampliado. Outros pensam que o mundo tem fronteiras, às vezes é sua raça, seu time de futebol ou a fronteira de seu país e os que estão além dessas fronteiras podem ser considerados inimigos. Outros, ainda, pensam assim em relação a sua religião. 

Tudo depende de como é seu ego. A compaixão surge à medida que você amplia os limites de si mesmo, se estendendo para chegar a abranger todo o universo. Se abranger todos os seres humanos, todos os animais, todos seres vegetais, será difícil quebrar uma pedra, porque não matar, como preceito, inclui não quebrar uma pedra quando não há necessidade, não destruir nada. Porque o mundo mental é mais amplo, a compaixão se expande. O crescimento da compaixão então compreende esquecer-se de si mesmo, o que significa morrer para si mesmo. Assim fazendo, podemos, então, abarcar tudo, e ao acontecer isso, existe a libertação, porque quando nós manifestamos a ignorância de nos acreditarmos separados de tudo - e os venenos da mente como o apego, a aversão, a raiva, enfim, todos eles dependem de eu acreditar em mim mesmo como ser separado – não temos compaixão. 

Esta é a ignorância fundamental, a de acreditar que somos um “eu” separado. Porque acreditamos que somos um ser separado de todos os outros, não temos compaixão. Quando morremos para nós mesmos, nasce um ser muito mais amplo e esse ser é naturalmente compassivo, porque a dor do outro dói nele. Na realidade, essa idéia – e isso nos mostra abrangência do Dharma – ela existe nos escritos de Paulo nos evangelhos, “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. Isso significa morte do “eu”. Também encontramos o Dharma nos poemas de São João da Cruz, “Morro porque não morro”. Ou seja, morro porque não consigo morrer para mim, e por isso eu não consigo conhecer Deus. Em termos budistas, porque não consigo morrer para mim mesmo, não me ilumino. É a mesma coisa, em outras palavras.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A amplitude na compaixão


Hanamatsuri 2011

Pergunta – (...) O que é a compaixão?

Monge Genshô – A compaixão depende do esquecimento de nosso próprio ego. As pessoas têm um eu que, normalmente, nas mais primitivas pessoas, termina na sua pele. Tais pessoas cospem e jogam lixo no chão porque não enxergam que o mundo vai além de sua pele. Há pessoas cujo “eu” termina na superfície da tinta de seu automóvel, então jogam latas pelas janelas do carro, porque fora do automóvel já não é mais seu mundo. Paulatinamente, podemos ver de que tamanho é o mundo de alguém. Se o mundo vai até a pele, até o carro, aos limites de sua casa. Nunca me esqueço do dia em que vi uma mulher na Alemanha varrendo a rua na frente de sua casa, porque há pessoas que varrem um pouco além de sua casa. Neste caso, esse “eu” estava mais ampliado. Outros pensam que o mundo tem fronteiras, às vezes é sua raça, seu time de futebol ou a fronteira de seu país e os que estão além dessas fronteiras podem ser considerados inimigos. Outros, ainda, pensam assim em relação a sua religião. Tudo depende de como é seu ego. A compaixão surge à medida que você amplia os limites de si mesmo, se estendendo para chegar a abranger todo o universo. Se abranger todos os seres humanos, todos os animais, todos seres vegetais, será difícil quebrar uma pedra, porque não matar, como preceito, inclui não quebrar uma pedra quando não há necessidade, não destruir nada. Porque o mundo é mais amplo, a compaixão se expande. O crescimento da compaixão então compreende esquecer-se de si mesmo, o que significa morrer para si mesmo. Assim fazendo, podemos, então, abarcar tudo, e ao acontecer isso, existe a libertação, porque quando nós manifestamos a ignorância de nos acreditarmos separados de tudo - e os venenos da mente como o apego, a aversão, a raiva, enfim, todos eles dependem de eu acreditar em mim mesmo como ser separado – não temos compaixão. Esta é a ignorância fundamental, a de acreditar que somos um “eu” separado. Porque acreditamos que somos um ser separado de todos os outros, não temos compaixão. Quando morremos para nós mesmos, nasce um ser muito mais amplo e esse ser é naturalmente compassivo, porque a dor do outro dói nele. Na realidade, essa ideia – e isso nos mostra abrangência do Dharma – ela existe nos escritos de Paulo dos evangelhos, “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. Isso significa morte do “eu”. Também encontramos o Dharma nos poemas de São João da Cruz, “Morro porque não morro”. Ou seja, morro porque não consigo morrer para mim, e por isso eu não consigo conhecer Deus. Em termos budistas, porque não consigo morrer para mim mesmo, não me ilumino. É a mesma coisa, em outras palavras.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Diferenças entre o zen cristão e o budista



Uma diferença marcante na prática da meditação cristã e o zen é que na cristã (pelo menos em seu início) sempre há alguém aqui e o Senhor está em outro ponto, nós o invocamos "Maranatha" (Vinde Senhor) mas não perdemos a dualidade nem o eu. Indo mais longe, seria necessário , como S. João da Cruz, morrer para si mesmo, e assim, extinta a individualidade, não sermos mais nós quem vive , mas sim o Senhor que vive em nós, como falou S. Paulo, o apóstolo.
No caso de um praticante do zen a instrução seria: abandone tudo, e sente sem nenhum objetivo, não busque insights, tampouco a divindade, morra simplesmente para si mesmo e então o espaço se abrirá naturalmente.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Quem perder a sua vida...


P: Tenho aceito com dificuldades o fato de a personalidade ser transitória assim como a alma uma ilusão. Meu eu era meu chão e minha crença atual me deixa perdido e triste. Tento me agarrar a algo que faça sentido, apesar de ter aprendido que não devemos nos apegar a nada. Às vezes, angustiado, peço a Jesus que me ajude de alguma forma, mas não ouço nenhuma resposta. Aliás ele também diz coisas que parecem budistas: quem quiser salvar-se, negue-se a si mesmo; quem perder a sua vida salvá-la-a.


R: É assim mesmo, Paulo diz nos evangelhos: "Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim” traduzindo para o budismo: “a unidade que vive em mim”. É preciso abandonar corpo e mente, o que sofre em você? Seu apego a um eu. Por esta razão São João da Cruz diz em um verso: "morro porque não morro", ao resistirmos a desistir de um eu permanente morremos para a eternidade, porque só morrendo para a impermanência podemos reconhecer o sem fim nem começo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Qual a diferença entre a meditação zen e o "zen cristão"?

Uma diferença marcante na prática da meditação cristã e o zen é que na cristã (pelo menos em seu início) sempre há alguém aqui e o Senhor está em outro ponto, nós o invocamos "Maranatha" (Vinde Senhor) mas não perdemos a dualidade nem o eu.
Indo mais longe, seria necessário , como S. João da Cruz, morrer para si mesmo, e assim, extinta a individualidade, não sermos mais nós quem vive , mas sim o Senhor que vive em nós, como falou S. Paulo, o apóstolo.

No caso de um praticante do zen a instrução seria: abandone tudo, e sente sem nenhum objetivo, não busque insights, tampouco a divindade, morra simplesmente para si mesmo e então o espaço se abrirá naturalmente.