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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Abra a mão, deixe cair



Uma vez estive numa empresa em que a filha teve que fugir da justiça porque o pai tinha movido um processo contra ela e ela também tinha movido um processo contra o pai e assim por diante. Não posso imaginar situações mais infernais do que estas. As pessoas perderam a noção do que tem valor na vida. Não sabem mais o que é felicidade.

Então é esta a diferença entre samsara e nirvana, se você sente insatisfação pelo samsara, é natural, porque samsara é o mundo da insatisfação e nunca,  nunca estamos satisfeitos, porque é o mundo da competição, é o mundo da procura incessante por algo mais, são os espíritos famintos de que nós falamos na oração das refeições, eles estão sempre insatisfeitos e têm estômagos enormes e gargantas muito finas e não tem como comer, eles estão sempre morrendo de fome e nós nos apiedamos deles. Nós estamos rodeados de espíritos famintos neste nosso mundo, pessoas com a “mente” de espíritos famintos. 

Esta é a questão com a insatisfação do samsara, não é ela que move as pessoas para a prática, porque não é por desejar algo que você vem praticar, se você vier praticar e sentar em zazen dizendo, “eu quero alcançar algo aqui e agora, eu quero ganhar uma medalha chamada iluminação, eu quero ser reconhecido como uma pessoa iluminada” ou coisas assim, você não vai conseguir nada, esse “eu” vai atrapalhar tudo porque de novo, é a mente aquisitiva lá de fora que foi trazida aqui para dentro. Assim como você queria um carro novo, você quer uma iluminação melhor, superior a dos outros, você não vai conseguir, você tem que sentar em zazen desistindo de alcançar qualquer coisa e, se você desistir, aí sim você começa a melhorar a prática.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O mundo da perambulação


(Palestra em Goiânia)
Tathagata,  é um dos nomes de Buda. Significa aquele que assim como vai, assim ele vem. Isso tem um significado para nós meditarmos, porque nós vivemos em mundos de perambulação, em que estamos continuamente alterando a nós mesmos. Nós mesmos nos alteramos internamente e os mundos em volta se alteram junto conosco. Chamamos o perambular, o mundo da perambulação de samsara, o mundo do samsara.

O que caracteriza o mundo do samsara é a procura incessante. Nós queremos achar algo que nos falte. Na verdade, nós todos estamos aqui porque vivemos no mundo do samsara, senão, não iríamos ouvir uma palestra. Se tudo estivesse perfeito, completamente perfeito, não tinha porque ouvir uma palestra. Temos que nos conscientizar – ah, eu vivo no mundo da perambulação. Nós perambulamos procurando felicidades, vamos a uma banca de revista e vemos a revista dos “felizes”.  As pessoas vão lá, lêem esse tipo de revista sobre famosos, que têm dinheiro, vivem em ilhas, têm iates ou qualquer coisa assim, achando que a felicidade é alcançada através da prosperidade, que vão alcançar a felicidade através de ter coisas. Mas isto é o próprio mundo do Samsara. Perambulo atrás de uma coisa a mais. Aquela coisa que vejo não é suficiente. Então procuro aquela outra coisa.

Qualquer pessoa que está nesse mundo de perambulação olha em volta e se compara com os que estão em volta. Os que estão na favela olham em volta e vêem os outros da favela. E ele vai se sentir próspero, vai se sentir melhor se tiver mais do que o vizinho. Então compra uma televisão melhor do que a do outro, assim então ele acha que se destacou do grupo. Só que se ele continua crescendo e sai da favela, tem outro grupo, outro grupo e outro grupo.

Uma vez tive a oportunidade de passar em Mônaco. Mônaco tem um porto e nesse porto estão estacionados iates. Mas quem tem um iate de 15 metros é um pobretão, coitado dele. O cara não é ninguém, tem apenas um iate de 15 metros. Ao lado há um iate de um sheik de 150 metros, 3 vezes maior, muito mais alto, com torneiras de ouro. Ele se vê pequeno no mundo da comparação. Então o que acontece quando vemos essas revistas por onde comecei, é que as pessoas olham para a revista para se comparar. Elas olham e vêem a comparação. Olham e imaginam que existe um outro mundo. Um mundo mais abundante do que o seu mundo próprio. E atrás de coisas materiais as pessoas fazem isso. Mas as pessoas fazem isso em outras áreas também.

As pessoas dizem - ah se eu tivesse um amor. A pessoa perambula de amor em amor. Este amor não deu certo, esse não é suficiente, essa pessoa não tem tudo que eu queria. Tem falhas nessa pessoa. Aí ela vai  para outra, outra pessoa, outra pessoa. Isto é também um perambular. Perambula achando que logo a seguir vai achar. É como se andasse sem rumo num mundo de um lado para o outro, procurando algo que fosse, enfim, o satisfatório. Agora o que o mundo do samsara ensina para nós é que não existe na verdade o satisfatório. Foi isso que Buda ensinou. Essa é a primeira nobre verdade, não existe o satisfatório. O satisfatório é inalcançável, pois a característica da vida é Dukkha, é ser insatisfatória. (continua)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Busquem a libertação



Aluno - No caso do terrorista se a pessoa vai lá e simplesmente o mata para salvar as pessoas, gera um tipo de carma. Agora se ele o mata com ódio no coração, o carma gerado é diferente?

Monge Genshô – Você teria que agir com a compaixão de impedir que ele fique com o carma de matar quinhentas pessoas, matá-lo por ele também, com a intenção de salvá-lo. Isso é freqüente, claro, neste exemplo radical estamos em uma situação limite, mas isso é muito freqüente na vida. Eu sou pai, tenho um filho. É certo ou errado dar um grito com uma criança? Depende, as vezes pode ser muito bom dar uma bronca tremenda, quando ela for a maneira correta para você impedir que uma coisa mais grave venha a acontecer. Você tem que fazer aquilo, tem que fazer com a energia certa para obter determinado resultado. Não fazer dessa forma, aí sim seria o errado.

Dogen prossegue: - "Esses são então, os oito aspectos da iluminação, cada um deles contem os outros oito, logo, são sessenta e quatro. Falando de forma mais ampla se você os desdobrar eles se tornam infinitos, se os resumir são sessenta e quatro. Esse foi o último ensinamento do nosso Mestre Buda Shakyamuni, a essência do Mahayana, pronunciado por volta da meia noite do dia quinze de fevereiro. Daí em diante ele permaneceu em silêncio até sua morte. Buda disse concluindo, “Praticantes, sempre busquem com todo o coração o caminho da libertação, já que todas as coisas do mundo, móveis e imóveis, são formas instáveis sujeitas a morte, parem agora e não falem mais, o tempo esta acabando e vou atravessar para a extinção, esse é meu ultimo ensinamento”. "Portanto, discípulos de Buda definitivamente devem estudar esses princípios. Aqueles que não estudam ou praticam esses ensinamentos não são discípulos de Buda. Esses ensinamentos são o tesouro do olho do Dharma verdadeiro, o coração do nirvana. Apesar disso, entretanto, existem muito que ignoram esses ensinamentos e poucos que são conscientes deles. Aqueles que não entraram em contato com esse ensinamentos, estão nessa situação devido a más influências e também devido a falta de ações virtuosas no passado. Antigamente nos períodos do verdadeiro dharma e da imitação do dharma, todos os budistas conheciam e praticavam estes oito aspectos, hoje em dia é difícil encontrar um ou dois entre mil monges que conheçam esses ensinamentos. "

 Ele está falando em 1253 DC e considera que a prática está horrível: - " Que pena, a decadência dessa nossa era degenerada é mesmo inimaginável. Devemos nos apressar para aprender e praticar esses ensinamentos já que ainda é possível encontrá-los, não sejam negligentes. É difícil encontrar os ensinamentos de Buda mesmo em incontáveis eras, é igualmente difícil nascer como ser humano. Nós, não só tivemos a sorte de nascer como seres humanos, como também a sorte de nascer em um local onde é possível ouvir os ensinamentos do Buda. Aqueles que morreram antes de Buda também não ouviram esses ensinamentos. Graças ao poder de nossas ações virtuosas no passado, entretanto, nós podemos ouvi-los e estudá-los. Agora, devemos estudar e desenvolver estes oito aspectos vida após vida e assim, certamente alcançaremos a insuperável iluminação. Se além disso, nós o expusermos à todos os seres ser cientes, então nós mesmos não seremos diferentes do Buda Shakyamuni. "

Pergunta - O senhor poderia lembrar o primeiro? Ou todos...

Monge Genshô – Ter poucos desejos, satisfação, apreciar a quietude, diligência, plena atenção, meditação, sabedoria e abster-se de uma mente discriminativa.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A Fama



Os professores budistas sempre tocam nessa questão de fama. Não é só agarrar coisas, ter coisas, mas o desejo de ser preeminente, de ser ouvido, de ser respeitado. “O mundo corre atrás de fama e honra, roupas bonitas e conforto. Mas você corre e permanece insatisfeito até a morte.” Como diz o poema de Kodo Sawaki, porque essas coisas são transitórias e mudam. Para os professores do dharma é um aprendizado quando você tem um discípulo que o adora, ele vem e lhe diz “você é maravilhoso, tudo que você diz é perfeito!” é preciso tomar muito cuidado, pois é exatamente essa pessoa que quando pensar que você cometeu um erro ou quando ela imaginar que que você não lhe deu a atenção devida a suas opiniões de como deve ser conduzida a comunidade, irá transformar toda a admiração em desprezo, em ódio, em palavras ruins.

É muito interessante observar, que assim como os objetos, a fama, a honra e a admiração, são coisas que sobem e descem. Deve ser muito duro para as pessoas que tornam-se repentinamente muito famosas, muito poderosas, ganhando títulos, saindo na imprensa, ganham campeonatos de repente começar a perder sua fama, as mesmas pessoas que corriam atrás desaparecem. Ouvi uma declaração do Maradona que achei muito interessante. Ele estava internado numa clinica de tratamento de pessoas drogadas, perturbadas. Ele que havia sido um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Ele disse que era muito perturbador, porque na clinica onde ele estava tinha muita gente louca, um se dizia Napoleão, outra se dizia Cleópatra, e ele dizia que era Maradona e ninguém acreditava!

"Portanto vocês deveriam se livrar rapidamente da cobiça, tanto por esse motivo, quanto pelo motivo de que essa liberdade dará origem a varias virtudes. Alem disso, as pessoas com poucos desejos estão livres da lisonja e da extraviação e também não são escravizados pelos seus próprios sentidos. Satisfeitos com pouco eles não possuem preocupações e medos, estando assim sempre calmos. Aqueles que têm poucos desejos têm o nirvana. Segundo; satisfação, satisfação significa estar contente com o que quer que se tenha. Buda disse: “Praticantes, se vocês desejam de libertar do sofrimento, deveriam observar a satisfação. Estar satisfeito é ter um estado mental pacifico e feliz. Uma pessoa satisfeita é feliz mesmo tendo que dormir no chão, enquanto que o insatisfeito é infeliz mesmo vivendo em um palácio. A primeira é rica mesmo que seja pobre, a segunda é pobre ainda que seja rica. A pessoa satisfeita sente compaixão pela insatisfeita pois esta é continuamente levada pelos cinco desejos. "

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Samsara e Nirvana



A maneira de transformarmos o mundo é transformando a mente de cada um. Não importa qual o sistema, transformando as mentes, qualquer um funcionaria maravilhosamente bem - uma monarquia funcionaria maravilhosamente bem, uma ditadura também, um sistema totalitarista como o comunista funcionaria bem igualmente, a democracia funcionaria. Somente seriam necessárias pessoas, todas elas, com mentes compassivas, honestas, maravilhosas, dedicadas ao bem dos outros, abdicando de si mesmas, e o mundo seria perfeito. A raiz da mudança do mundo está nas mentes. É por isso que o budismo volta-se para o treinamento e a modificação da mente do homem, para, dessa forma, produzir o nirvana, um mundo onde a mente que olha transforma o samsara, que é o mundo da perambulação, do sofrimento, um mundo onde transitamos de um lugar para outro buscando a felicidade. Assim, mudamos de um amor para outro, de um emprego para outro, e vivemos sempre cheios de “se”: se eu ganhasse na loteria, se eu fizesse isso, se eu fosse amado, se eu tivesse um filho. Esses “se” são colocados como o que nos permitiria ser felizes.

Esse é o mundo da perambulação, o samsara, o mundo da procura e da insatisfação permanentes. Esse é o significado de dukka, a primeira nobre verdade. “A vida é dukka”, ou seja, a vida é insatisfatória, porque nela, embora haja momentos maravilhosos ou tristes, nenhum deles será permanente, sólido ou estável. A mudança é parte integrante da natureza das coisas. E assim, achando sempre insatisfação ao fim de qualquer processo de qualquer tempo, sofremos. Sofremos por não podermos agarrar e ficar com uma felicidade e satisfação permanentes. E o nirvana? O mesmo mundo, o mesmo lugar, mas onde os ventos dos impulsos não nos empurram e onde, por causa disso, não existe necessidade de perambular, porque onde estamos encontramos a completa felicidade e plenitude. 

Dizemos no Zen que quando estamos sentados em meditação, isso é nirvana, é iluminação, porque, naquele momento, você imita Buda e imitando Buda você é nada mais do que Buda. Dizemos isso também para desarmar, porque em outro sentido você não é Buda, você sabe que não é, sabe que não está desperto, que não é um iluminado. Mas se você se senta com o desejo de ser um Buda, de se iluminar, de se libertar, de ser feliz, esse próprio desejo é samsárico, pois ele produz uma busca, uma insatisfação. A pessoas se perguntam, então: “para que estou praticando, se não alcanço nada, sou assim sempre, sou mau?” Pensar desta forma é estar em samsara sentado em meditação. Esse mesmo ser, no instante em que não é levado por nenhum impulso, por nenhum desejo e que não pretende alcançar nada, ele vê no próprio samsara o nirvana. Porque não há nenhuma diferença de lugar nessas duas coisas, a diferença está na mente.

sábado, 7 de julho de 2012

Satisfação no jogo da vida




Pergunta: Eles estão procurando satisfação?
Resposta: Sim, é verdade, é isto, eles estão procurando satisfação no próprio jogo. A satisfação no jogo é impossível porque sempre tem alguém que tem mais do que você e você quer subir para o próximo degrau. Cada vez que você sobe um degrau tem um outro degrau acima. Elas não sabem como escapar disto. Quando você pergunta para alguém que tem uma lancha, como ele se sente, ele sempre mostra outro que tem uma lancha maior, um iate. Em si nós não podemos dizer que o carro, o iate ou qualquer bem é mau. Todo o motivo da infelicidade está na insatisfação. Não está no bem em si. O bem em si ele é neutro. Nem bom nem mau. É a sua mente que faz a diferença. Se você tiver um carro está feliz com ele, está bom. Mas se você espera obter a felicidade ao ter um carro, vai se frustrar, porque a felicidade não vem dele  e sim da mente com que você vive.
 Então a felicidade é interna, se estiver satisfeito está tudo bem. Se tiver ambicionando sem fim então estarei eternamente insatisfeito porque não alcancei, porque não vou alcançar, porque nenhuma dessas coisas é permanente, elas têm a marca da impermanência, todas elas se destruirão, todas elas se acabarão. Até nós mesmos olhamos para os nossos corpos, e normalmente é bem típico isto, nós olhamos para os corpos e dizemos não estou satisfeito com o meu corpo, então eu quero modificá-lo. Então fazemos operações plásticas e vamos mudando o corpo e pode até chegar ao ponto de transformar uma pessoa em uma coisa feia que ela não pretendia antes ficar, todo plastificado ou um nariz que não combina mais com o rosto. É a mesma coisa de um bem. A plástica em si, intrinsecamente, ela não é ruim. Não tem algo que você possa dizer: ah está errado fazer isto.O que é ruim é a mente de não estar satisfeito e de estar sempre procurando um aperfeiçoamento, porque ela não tem fim. A pessoa faz uma plástica e depois faz outra, outra e se tiver dinheiro pode fazer uma centena e ficar irreconhecível para si mesmo. A questão é onde está a satisfação?

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Sempre mais



Então o que é paramita?
Todos vocês  novamente, sabem o que significa, não é?
“Atingir a outra margem.”
Mas não no sentido de algo no futuro.
Você já está naquela margem!
Isto é que paramita significa.
Você já partiu.
Você já atingiu!
Você já realizou!
Não é o passado ou presente,
mas no tempo perfeito.
Já alcançou!
(Maezumi Roshi)

Aqui Mestre Maezume está tomando um antigo símile que nós temos no budismo que é o símile do rio. Você toma a barca do budismo para atravessar o rio. Você está nesta margem que é a margem do samsara, a margem dos ciclos da eterna insatisfação, do nunca alcançarmos as coisas que desejamos, quando alcançamos as coisas que desejamos as coisas se distolvem na nossa frente. Uma filha minha estava me dizendo que pensava que quando tivesse um carro seria feliz, então ela ganhou um carro e muitas coisas já aconteceram. Ela tem que se ocupar com o carro, ela já bateu com o carro, ela já fez seguro para o carro, toda aquela alegria já foi e ela diz: sou tão feliz quanto antes. É tudo igual,só tenho um carro.
 Em geral a satisfação dos desejos é assim mesmo. Logo que eles são alcançados e logo que temos aquilo que ambicionamos os desejos parecem dissolver-se nas nossas mãos e perder o significado que tinham antes. Sucede que olhamos para longe e queremos alcançar aquele lugar e subimos tentando alcançá-lo. Quando chegamos, aquele lugar nunca é exatamente como queremos que ele seja e olhamos para frente e tem outro lugar. Esses tempos eu vi num livro uma pergunta de um conferencista, Ricardo Semler, ele estava perguntando para uma assembléia de empresários, porque vocês trabalham? E as pessoas concordaram que trabalhavam para ganhar dinheiro. Mas quando você começou quanto você queria ganhar? Qualquer pessoa que ganhe um milhão de reais e aplique vai ter, com juros de hoje, facilmente uma rentabilidade de  1%. Vamos dizer que dá para receber dez mil reais por mês. Então com um milhão de reais podemos ganhar dez mil reais por mês o que é bastante razoável. No entanto, perguntou ele, quanto vocês queriam ganhar no início? E eles disseram: quando começamos queríamos ser milionários. Mas, para essa assembléia, todos empresários de alto nível,quanto você já acumulou agora? Não é muito mais do que isto? E todos concordaram que eles já tinham empresas de centenas de milhões e tinham muito mais do que tinham ambicionado quando começaram. Então ele perguntou: porque vocês trabalham, não é pelo dinheiro, porque se fosse pelo dinheiro já teriam se satisfeito. Trabalham por um outro motivo e esse motivo normalmente é poder, glória, fama ou estar mergulhado no próprio jogo e estar mergulhado no próprio jogo é uma coisa muito aprisionante.
Todos os que já sabem sobre pessoas que entraram num cassino e começaram a jogar, sabem como é difícil parar porque se você ganhar na roleta ganhou o que jamais imaginaria ganhar quando entrou no cassino. O que as pessoas fazem? Param ou continuam jogando? As pessoas continuam jogando e sempre querendo mais e porque querem mais estão sempre mergulhadas no jogo, então o jogo não acaba. Eu experimentei isto na minha vida profissional. Quando eu tinha quinze anos meu pai morreu, eu fui trabalhar como vendedor, vendia livros. Comecei a ganhar muito dinheiro para um adolescente, parecia muito dinheiro. Então logo com dezoito anos eu era supervisor. Mas supervisor é muito pouco, depois gerente. Quando era gerente o que queria ser? Diretor. Mas se era de uma empresa pequena então queria ser de uma empresa maior. Esse processo não cessa nunca até que a pessoa se sente envolvida numa máquina de ambição em que sempre tem alguém acima e que sempre o dinheiro que você ganha é insuficiente para o padrão de vida que você atingiu e você quer ganhar mais para se sentir folgado porque nunca está satisfeito, porque se você é diretor e compra o melhor carro nacional tem outro diretor com carro importado e você continua indo assim. Há poucos dias atrás eu vi um artigo sobre um milionário russo que tinha comprado um carro de um milhão e seiscentos mil dólares para andar em Moscou. Então os brinquedos não param, as ambições não param. O desejo de conseguir mais não cessa e isto é como uma embriaguez.(Comentário de Monge Genshô)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Satisfação


Antes da refeição, sesshin, Florianópolis, jun/2010.
2. Satisfação
Satisfação significa estar contente com o que quer que se tenha.
O Buda disse: “Praticantes! Se vocês desejam se libertar do sofrimento vocês deveriam observar a satisfação. Estar satisfeito é ter um estado mental pacífico e feliz. Uma pessoa satisfeita é feliz mesmo que tenha que dormir no chão, enquanto que uma pessoa insatisfeita é infeliz mesmo vivendo em um palácio. A primeira é rica mesmo que seja pobre, a segunda é pobre ainda que seja rica. A pessoa satisfeita sente compaixão pela insatisfeita, pois esta é continuamente levada pelos cinco desejos .”

Os Oito Aspectos da Iluminação
(HACHI DAININ KAKU)
Dogen Zenji
Tradução para o Português de Giovanni Dienstmann*