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segunda-feira, 10 de novembro de 2014
O egoísmo
(Continuamos com palestras do Monge Kômyô no sesshin de Goiânia 2014)
Monge Kômyô: Na nossa conversa de hoje eu gostaria de falar sobre dois temas muito importantes no estudo e na pratica budista, mas são dois temas antagônicos: egoísmo e compaixão.
Na tradição budista, o exercício da compaixão é uma experiência fundamental. No contexto contemplativo, o desenvolvimento das compaixão está associado ao que se chama de desenvolvimento de uma “Mente Bodichita”.
O sustentáculo da compaixão na ótica budista, é a compreensão. Nós praticamos para poder reconhecer e compreender a nós mesmos. Compreender a nós mesmos abre margem para que nos possamos superar os aspectos de nossa natureza que projetam conflitos, frustrações, e raivas e rancores. A superação da frustração, da raiva e do rancor, só vai se dar através de profunda compreensão.
Situações podem ocorrer nas nossas vidas que criem problemas graves, criem sofrimentos, decepções, situações difíceis. Quando a mente não consegue compreender plenamente o mecanismo não saudável que atua neste processo, a mente projeta rancores, medos, raivas.
Um assunto muito difícil é a questão da não violência. A questão da compaixão, também mobiliza. Nós vivemos em uma sociedade que tende a achar ou confundir a compaixão com condescendência. Isso não é verdade no campo da experiência contemplativa. A compaixão só pode ocorrer e a mente Bodichita só pode se manifestar quando nós aprendemos a superar qualquer projeção egóica. Portanto, eu hoje vou falar de compaixão e egoísmo, que são elementos antagônicos, mas no fundo interligados.
Na descrição budista, o egoísmo é uma projeção, aspectos emocionais, pensamentos, sentimentos, formações mentais, nível da consciência, que formam a nossa ideia de identidade pessoal. Entrando através dos nossos sentidos nesses quatro campos, existem experiências, aprendizagem, ancestralidade, cultura, e tudo isso vai forjando e consolidando a ideia de um “eu”. O “eu” desenvolve posturas, atitudes, desenvolve opiniões, concepções.
A grande questão é, como esse “eu “é constituído? O que o alimenta? O que o alimentou no passado para ser o que ele é agora? Independentemente disso, todo indivíduo, todo ser humano que tem a ideia de si mesmo, pode trabalhar a identidade pessoal para transformar e curar os aspectos negativos e valorizar os aspectos positivos, os “vassanas”.
Mas no campo fundamental do eu, existe um processo de distorção intensa das coisas que nós vivemos, entendemos, conhecemos, e aí nós criamos toda uma complexidade de comportamentos, atitudes, opiniões, interpretações.
O egoísmo é a distorção deste processo, mais intensa. O “eu”, no campo do samsara, tem uma função de manter o equilíbrio da mente, a mente imediata, a mente concreta, a mente que funciona no mundo. Se nós aniquilarmos o eu, ficamos loucos. Mas o eu condicionado, é uma distorção intensa, que faz com que o processo de projeção e expectativa se torne muito forte e, infelizmente, muito doentio.
O mecanismo do egoísmo é: eu projeto expectativas, desejos, opiniões, conceitos sobre um objeto. Objeto no conceito budista pode ser o objeto concreto, um pensamento, um sentimento, uma pessoa, qualquer coisa. Quando nós projetamos isso, o que nos estamos fazendo é transferir a ideia de que parte do nosso eu, é agora, o objeto. O construto do meu eu, agora engloba o objeto. E se esse objeto sou eu, ele tem que fazer, tem que agir, tem que existir, como “eu” quero, como eu projeto, como eu imagino que o mundo deva ser. Se esse objeto começa a agir ou existir de uma forma como eu não projetava, eu começo a me frustrar, começo a tentar controlar esse objeto, “ele é meu” e se alguém vem aqui e pega isso, eu fico com ciúme, com raiva. É “meu”, é meu, não é seu.
Quando nos dizemos “é meu”, nós queremos dizer “sou eu”. E eu não vou permitir ser tomado por qualquer outra coisa. De uma maneira simbólica, simples, essa é a forma como o mecanismo do egoísmo se manifesta.(continua)
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
O que você acredita não tem importância
Pergunta: O que fez com que o Buda visse as 500 vidas anteriores dele? O que determina isso? Há um princípio para isso?
Monge Genshô – Este assunto não interessa. O budismo não discute coisas não verificáveis. Você pode perguntar “como começou o mundo?”. Ah, não interessa. Têm várias teorias científicas para isso. Como começou o primeiro carma? Não sei. Eu sei que há carma aqui e agora, porque todas as ações tem efeitos e consequências. E é sobre isso que o budismo fala. Ele não faz especulações filosóficas que não temos capacidade de responder. Desta forma o budismo vem evitando todos os conflitos com a ciência que todas as outras religiões já tiveram. Porque o budismo não é religião de explicação, isso aí é para a ciência. O budismo é a religião do despertar, cujo interesse é saber como funciona o processo de ilusões na mente, como elas são construídas. Ah, se existe um impulso, uma consciência que resiste à morte e renasce em outro corpo. Sim, me parece bastante plausível. Mas está claro que ela não carrega um “eu”, não carrega uma personalidade. Se carregasse um “eu”, eu me lembraria de uma vida passada, e o meu eu seria o agregado das memórias da vida passada também. Mas eu não tenho memória de uma vida passada, só tenho desta. Portanto, todos os “eus” surgem agora e cessam agora. Se há continuidade, me parece evidente por uma questão de justiça. Se existe continuidade do carma, então existe continuidade de tudo o que você fez. E se eu tivesse um acesso de sabedoria superior, eu poderia rememorar vidas passadas. Mas isso é inútil aqui e agora! Completamente inútil para você. Primeiro você precisa despertar, e talvez aí isso seja útil.
Então, o budismo considera a continuidade desde impulso que irá se manifestar em novas existências, mas não ficamos discutindo isso. Até para vir se sentar e fazer meditação, isso não importa. O que você acredita não tem muita importância.
(Final das perguntas e respostas na palestra no centro de yoga em Palmas, Tocantins, decupada da gravação por Sonielson San)
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Ninguém para enganar
Desde que você transforme sua mente, não há ninguém para enganar. No Zen você vai enganar a parede? Vai enganar o professor com suas palavras? Nem nos importamos muito com o que um aluno diz. Nós olhamos suas costas, observamos como toma chá, como trabalha, como fala e como responde. Ele produz harmonia na Sangha? É cuidadoso? Isso é que mostra quem a pessoa realmente é, e não o que ela diz ser. Quando fazemos um retiro temos a oportunidade de praticar a essência do Zen, sem palavras, sem comentários, sem brigas nem discussões.
Os conflitos nas sanghas surgem quando as pessoas resolvem tecer comentários, julgamentos e opiniões. O retiro é uma ótima oportunidade para mergulhar em si mesmo e fazer descobertas espirituais internas. Essa é a verdadeira experiência mística. Depois de experimentar vemos que não é tão difícil ficar quarenta minutos em silêncio. Será que é difícil ficar oito horas por dia assim? É porque cada vez mais você vai mais fundo dentro de sua mente que tudo que estava escondido surge. Um retiro pode valer por uns três anos de prática. Não existe ninguém para enganar. É só você e a parede. Não usamos palavras, usamos a própria experiência.
domingo, 1 de abril de 2007
Jigoku no soran
Falava com meu precioso amigo Mauricio Ghigonetto, presidente atual do Colegiado Buddhista Brasileiro, sobre os egos que fervem em todas as atividades. E que, vez por outra, afloram entre os budistas, seres humanos que são. Abrem conflitos, sentem-se ofendidos, agem como crianças birrentas. E ele falou sobre os ensinamentos de Shinran, o grande mestre do budismo Shin:
Ele disse: - Sabe que isso me fascina? Por quê? Perguntei. E ele:
- Olhar de fora e ver isso tudo mostra que somos finitos, incompletos, ignorantes....
afirma mais ainda minha satisfação em seguir o Budismo....eu sou tão egóico e vejo que os outros também são....Isso é fascinante mesmo, claro que essa é uma visão muito Shin da situação....
"o inferno está garantido" como disse Shinran: "vivemos no jigoku no soran" "no teto do inferno" vendo tudo isso, vemos que o Dharma tem que ser ensinado..... o remédio tem que ser ministrado aqueles que tem a doença..... os que estão sãos não precisam do Dharma....."se até os bons podem se salvar, mais ainda podem os maus" "os bons já estão salvos".
Ele disse: - Sabe que isso me fascina? Por quê? Perguntei. E ele:
- Olhar de fora e ver isso tudo mostra que somos finitos, incompletos, ignorantes....
afirma mais ainda minha satisfação em seguir o Budismo....eu sou tão egóico e vejo que os outros também são....Isso é fascinante mesmo, claro que essa é uma visão muito Shin da situação....
"o inferno está garantido" como disse Shinran: "vivemos no jigoku no soran" "no teto do inferno" vendo tudo isso, vemos que o Dharma tem que ser ensinado..... o remédio tem que ser ministrado aqueles que tem a doença..... os que estão sãos não precisam do Dharma....."se até os bons podem se salvar, mais ainda podem os maus" "os bons já estão salvos".
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