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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sobre Vida e Morte (parte 1)




Na reunião passada nós falamos nisso, que as vidas terminam, que tudo termina e tudo cessa. E que não existe um futuro nem para o sistema solar, nem para esse mundo. A longo prazo, o sol vai se tornar num gigante vermelho e vai torrar a Terra. Talvez muito antes disso, nós destruamos a Terra ou a nossa civilização, ou a nossa espécie sofra uma catástrofe gigantesca, assim como os dinossauros sumiram, assim como tantas civilizações na história da humanidade já desapareceram. Várias civilizações das Américas foram assim. E mesmo se da nossa civilização não sobrar nada, essa não é uma visão niilista, porque se nós olharmos mais profundamente do ponto de vista budista, nós pertencemos a um vasto universo, nós somos uma gota num enorme oceano. Não existe como sair daqui. Então não existe na verdade nascimento e morte: eles parecem eventos, mas são manifestações cármicas. 

Se vocês procurarem algum sentido profundo para suas vidas, verão que somos bolhas - surgimos e desaparecemos como relâmpagos, eventos momentâneos dos quais ninguém se lembra depois. Exatamente como vocês, que não se lembram dos seus bisavós (ninguém sabe o nome dos seus oito bisavôs. Eu pergunto isso há centenas de palestras e nunca ninguém falou que sabe de cor o nome dos seus oito bisavós), ninguém vai se lembrar de vocês também daqui a três gerações. Seus corpos estarão apodrecidos ou transformados em cinzas. Pronto. (continua...)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Pra quê o budismo foi criado? (Bodhidharma Parte II)


(continuação)

E depois que Bodhidharma foi para a caverna, muitos apareceram por lá querendo aprender com aquele grande e famoso mestre que tinha respondido para o Imperador, deixado-o confuso. E Bodhidharma não dá atenção a nenhum deles, e eles quando vêem aquilo, vão embora. Até que Taiso Eka vai até lá e fica na frente da caverna sem desistir durante 3 dias. No terceiro dia nevava muito, a neve cobriu os pés de Eka, que fica desesperado, já com fome, sede, e agora frio excruciante, e então ele corta o braço pra mostrar sua sinceridade, para jurar pelo seu sangue. 

Vendo seu sangue cair na neve, Bodhidharma vai até ele e pergunta:

- Muito bem, o que é que você quer? 

E Eka responde:

- A minha alma não tem paz, por favor, pacifica a minha alma!

E Bodhidharma responde:

- Me mostre tua alma e eu a pacificarei. 

E Taiso Eka não consegue resposta nenhuma, não consegue encontrar sua alma. E Bodhidharma diz:

- Pronto, já pacifiquei a tua alma. 

Tendo passado por toda aquela angústia, desespero, de ter chegado até lá, disposto a aprender com um mestre, depois de tudo aquilo que Eka tinha passado, quando Bodhidharma dá essa resposta, ele desperta das ilusões, descobre que ele não tem uma alma, sente-se uno com todas as coisas, compreende internamente o que Bodhidharma estava querendo dizer. 

E assim Eka fica como discípulo de Bodhidharma e ele é o 27º patriarca da nossa linhagem. Bodhidharma é o 26º e Taiso Eka Daioshô, grande mestre, o 27º. E nós descendemos dessa linhagem de ensinamento.

Então, o  quero dizer a vocês é que o budismo foi criado para atender este tipo de desespero, o desespero de Taiso Eka, "minha alma não tem paz". Isso sim, para isso o budismo voltou sua atenção. Para isso Buda voltou a atenção porque ele tinha uma angústia, uma angústia existencial muito grande.

Se toda vida termina em velhice, doença e morte, o que eu estou fazendo aqui? Como é que eu saio disso? Como é que eu encontro solução para a angústia de enfrentar essa finitude da vida humana? Essa angústia existencial é que é a angústia de Buda, e o budismo se voltou para isso, não para o conforto das coisas pequenas da vida.


Então o budismo e em especial o Zen só tem sentido se nós estamos procurando a iluminação. Só aí tem sentido você sentar e realmente se esforçar como a gente demanda num Centro Zen, caso contrário, não é o lugar para nós. Se é só consolo, há outros lugares.
 
Se é para se sentir abençoado para ganhar dinheiro, também tem outros lugares. Se quer qualquer solução mágica também há outros lugares. Mas no budismo não existe nada assim.
 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Os pássaros são verdadeiramente pássaros...



Por que o Dharma é raramente encontrado? Primeiro porque mesmo que existam muitas oportunidades de vida no universo, na Terra nós estimamos - mesmo que a ciência tenha dificuldades em estimar - que trinta bilhões de formas diferentes de vida já surgiram. Dessas formas de vida, 99,9% já se extinguiram e, desta forma, restam muito menos espécies do que já existiram em nosso planeta.

Esse não é um evento de agora, já tivemos várias extinções de vida na Terra. O primeiro grande momento de explosão de vida foi o período Cambriano, onde surgiram os “trilobites” e dos quais hoje não sobra nada. Das grandes florestas do período carbonífero também não restou nada. Já tivemos na Terra uma atmosfera redutora que não era baseada em oxigênio. Quando a Terra produziu muito oxigênio e a atmosfera começou a ter cada vez mais O2, este era um gás muito venenoso para as espécies anaeróbicas e extinguiu praticamente toda a vida no planeta. Tivemos a extinção do Período Cambriano, depois a extinção dos dinossauros e dos animais de grande porte. Os únicos animais que sobraram foram os muito pequenos que viviam em tocas e não foram afetados pelos meteoros que atingiram o planeta mudando seu clima. Dentre esses pequenos animais encontravam-se alguns mamíferos e desses descendem os mamíferos que hoje habitam o planeta.

Uma única espécie de hominídeo sobreviveu entre várias, com um cérebro melhor dotado, foi povoando o planeta. Então, desses trinta bilhões de espécies que já habitaram o planeta, uma única conseguiu desenvolver uma civilização. Ainda assim, é uma história muito recente de apenas dez mil anos, se contarmos a história da agricultura, frente aos quatro e meio bilhões de anos da Terra.

Os faraós morriam em média com trinta anos de idade. Nesse momento em que estamos, vivemos o dobro do que vivíamos em meados do século XX. E isso aconteceu dos anos quarenta pra cá, antes disso havia mais homens que mulheres porque as mulheres morriam no parto. Mas isso é para ilustrar que cada pessoa dessa sala é descendente direto de uma linhagem de vida que começa por volta de dois bilhões e meio de anos atrás. Somos descendentes daquele início de vida. Parece que a matéria inorgânica no universo tende a formar vida. O mais extraordinário é que cada um de nós pode traçar uma genealogia até um ser unicelular, até dois bilhões e meio de anos atrás. Pode ser que alguns de vocês não tenham descendentes e a linhagem morra com vocês.

Somos descendentes dos que ganharam guerras, cometeram crimes, estupraram e dos que fizeram com que seus genes fossem adiante. Não somos uma linhagem de pessoas boazinhas e sim daqueles que ganharam a batalha da sobrevivência. Não é de se admirar, portanto, que olhemos para dentro de nós e vejamos sentimentos agressivos e muitas coisas que vêm dessa linhagem herdada.

Tudo que foi dito é para chamar atenção para o fato de que, mesmo que exista vida em bilhões de mundos, é muito provável que existam mundos com vida estuante, mas sem que uma única espécie tenha desenvolvido a capacidade de criar civilização e que isto seja um acontecimento muito breve na história de um mundo ou universo e, mesmo assim, somos prodigiosos no sentido de nossa sobrevivência.

Devemos nos perguntar então, como surgiu a espiritualidade, como surgiram as perguntas “por quê estou aqui? Como surgiu minha consciência? Como é que desenvolvemos uma consciência tal que compreendeu sua finitude e se viu em um beco sem saída”? Os pássaros, os peixes, os micróbios, nossos corpos cheios de vida, não são nossas próprias células; mais da metade do nosso peso são de bactérias que coexistem simbioticamente e nos ajudam a sobreviver. Como aconteceu algo tão complicado, como cada célula tem um código de vida tão longo que estendido chegaria a dois metros? O que é isso que aconteceu conosco? O que é essa mente que pensa dentro de nós? Quem é esse que diz “eu sou”? Por que tememos uma morte que sabemos ser certa?

Os pássaros e os peixes não pensam nessa morte que para eles também é certa. Apenas vivem. Então, "os peixes são verdadeiramente peixes, os pássaros são verdadeiramente pássaros, só os homens não são verdadeiramente homens". Existe algo dentro de nós que pensa fora disso, “não somos verdadeiramente seres humanos”. Algo dentro de nós deseja mais, por isso nos angustiamos com nossa finitude e queremos descobrir um sentido para nossa vida.

Buda teve o mesmo problema e ele sentou e meditou, para resolver esse problema. Mas ele resolveu de forma diferente de todos os outros que apresentaram à humanidade crenças e esperanças de sobrevivência eterna de seu “eu”. Ele descobriu que o “eu” construído por ele é que é a ilusão e libertar-se dessa ilusão, é voltar-se para a verdadeira natureza. O universo inteiro sou eu mesmo. Ele entendeu que essa expressão de vida que falamos aqui é mera manifestação, não é uma criação. Somos fagulhas do universo. Não temos como sair do universo, estamos sujeitos a nascimento e morte, aliás, essa ilusão de um “eu” pessoal é que está presa a nascimento e morte. Tão logo passo a pensar, eu penso: “eu sou”, e esse “eu sou” sabe que é função desse corpo e desse cérebro e por isso surge e desaparece, essa é a tragédia do homem, essa consciência do “eu sou”.

A iluminação da qual Buda falou, é libertar-se completamente do “eu sou” e voltar a perceber-se como o todo abrangente, o grande ser que está além desta manifestação pessoal. Esse grande ser que nós e todos os outros seres somos, não está sujeito a nascimento e morte. Embora seja cíclico, surja e desapareça, ele é a própria vacuidade e dele surgem todas as coisas, não é um algo do qual surgem todas as coisas, mas é a própria natureza de todas as coisas e todos os seres. Serem vazios de um “eu” inerente.