Mostrando postagens com marcador mudanças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mudanças. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Marcas cármicas que nos movem



Pergunta: Uma onda cármica pode adquirir características pela interferência de outras ondas?
Monge Genshô: Sim, você vai sendo mudado. Você está assistindo a essa palestra, por exemplo, e ela muda você um pouquinho e isso é uma característica nova. Mas por que você está aqui? Você não está aqui por acaso, para vir para um sesshin e querer ouvir o Dharma tem que haver marcas cármicas que te atraem até aqui. Caso contrário você estaria fazendo outra coisa. De onde vem o impulso que te trouxe até aqui? Que marca cármica é essa que faz você se sentir estranho sentado numa mesa de bar tomando um chopp, mas te deixa à vontade num retiro?

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A vida é um constante e milagroso fluxo

O eixo da vida de uma pessoa pode mudar, o movimento todo que deixa alguém cansado e arrasado pode mudar, se a cabeça mudar.
Na realidade o eixo do redemoinho é que muda de concepção, mas o movimento que a pessoa faz continua o mesmo. Um monge continua na vida do sansara, continua agindo no mundo do sansara, mas não sai mais da empresa com a cabeça quente, não fica angustiado se vai faltar dinheiro ou não, se vai faltar trabalho ou não. Não há preocupação, tudo vai dar certo.
 Sem querer a vida gira e você desencadeia forças que fazem as coisas acontecerem, parece milagroso se você olha do lado de fora, mas não é. A diferença do sansara e do nirvana é exatamente essa. Nirvana é o mundo sem vento. Sansara é o mundo com muito vento. Nirvana é o puro céu azul. Sansara é o mundo dos redemoinhos.
Você até pode transitar pelos redemoinhos se você olha sabendo que atrás dele tem o puro céu azul. É por isso que o monge disse para o imperador 'eu olho pra você e vejo Buda'. Porque atrás do redemoinho só tem o puro céu azul. (continua)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Devemos nos direcionar para o que é bom



Aluno: O senhor estava falando para a gente tomar cuidado com o que come e eu quero saber se isso vale também para outras coisas, como a televisão. É certo a pessoa se abster de ver televisão, já que a mídia publica tanta coisa ruim? Assim como procurar conviver com pessoas que transmitem algo melhor.
Monge Genshô:
Sim, é certo, mas tenho várias considerações a respeito. Eu fui diretor do Zero Hora na época em que ele era o quarto maior jornal do País e conheço a mídia por dentro. Muitas vezes vejo essa consideração a respeito de como a mídia trabalha, mas a verdade é que a mídia vive de audiência. Se tem notícia de violência é porque as pessoas adoram ver isso. Se você fizer um jornal e colocar: “grupo de 30 pessoas se reúnem para meditar” será uma notícia sem audiência, só ganharia atenção pela estranheza. Então se todas as pessoas desligassem a televisão quando vissem notícia de violência, essas notícias desapareceriam em 24 horas de todos os canais. O que ocorre é que estão sempre medindo o que as pessoas mais assistem, não adianta criar um programa que fale de outros esportes se todos querem ver sobre futebol, não adianta colocar um concerto de Brahms se todos vão mudar de canal. Mas se você quiser ver isso poderá pagar um canal específico e assistir. Hoje existem coisas maravilhosas disponíveis na televisão, só que é necessário pagar por isso. Semana passada eu assisti um documentário de três horas sobre o barroco europeu, mas tive que pagar para assistir porque essa é a demanda. Vi pelo Philos, um canal que tem como lema “penso, logo assisto”. Lá acho aulas, concertos, documentários, coisas ótimas, mas que não estão na televisão aberta. A televisão aberta se formou justamente colocando no ar o que atrai a maioria e isso não é de nível alto. Se você chega em outro país, no Japão mesmo, e liga a televisão aberta vai ver grandes porcarias, talvez até piores do que as que vemos aqui. Isso significa que há uma massa de povo inculto que procura o que é escandaloso, esse problema é bem antigo.

O sangue, a violência e o crime atraem o público por um fenômeno cerebral, as pessoas se sentem atraídas pelo que é assim porque apela ao perigo e existe uma parte do cérebro programada para prestar atenção no que é perigo. Usamos isso também quando colocamos o jisha sempre à frente do professor, porque se vier um tigre o jisha é comido e o professor se salva.

Mas, indo para a segunda parte da sua pergunta, o que nós devemos fazer é sermos cuidadosos e nos direcionarmos para o que é bom. Se você assistir algo traumático, isso fica na sua mente com muito mais força do que se você assistir algo belo. Nosso cérebro funciona assim. É por isso que a televisão chama a atenção das pessoas justamente com o que é ruim. Não é culpa da mídia, ela reflete a sociedade e se a sociedade muda, então a mídia muda. Por isso eu faço propaganda desse canal para que as pessoas vejam e ele sobreviva. Há um outro também chamado Arte 1. Então selecionem, tomem a decisão de procurar e isso vale para revistas, leituras e tudo mais na vida. Em algumas situações nós não podemos fazer isso, eu, por exemplo, trabalho como consultor então tenho que ler certas coisas. Se chego numa empresa e me perguntam sobre algum fato, eu preciso estar informado para responder. Mas isso não significa que vou ligar a televisão e vou me comprazer com os crimes mais horrorosos, eu não preciso fazer isso, já sei que eles existem, mais importante que ver é saber as estatísticas de como está a criminalidade, saber se ela cresceu, onde e por que diminuiu, se é possível mudar a mente de um presidiário, etc. Nós temos uma líder zen budista fazendo um trabalho assim numa penitenciária de Joinville e esse é um exemplo de trabalho que pode mudar o mundo. Se você direcionar a mente para um outro sentido poderá mudar o mundo.

O budismo já existe há 2600 anos e tem pouca gente ainda. Sempre que houve conflitos ele saiu perdendo. Infelizmente a invasão muçulmana na Índia contribuiu para destruir o budismo lá. A Universidade de Nalanda, na época era a mais antiga universidade do mundo, muito anterior às universidades europeias, foi destruída, com dez mil alunos, só sobrou os alicerces e havia uma preferência inclusive de matar as Monjas, porque achavam absurdo os budistas terem dado às mulheres autoridade religiosa. A linhagem feminina desapareceu no século XIII e por isso as mulheres são ordenadas hoje na linhagem masculina em muitos lugares. Na China o budismo também foi perseguido e destruído, renasceu das cinzas, mas foi destruído principalmente porque ele era ruim para o império. Havia uma acusação de que os homens, para fugir de serem soldados, iam para os mosteiros. No Japão, no século XIX, houve uma campanha contra o budismo. Para que o imperador fosse considerado Deus, assim como acredita o xintoísmo, o budismo precisava ser eliminado. A campanha feita em 1872 influiu até na minha vida, porque foi quando o imperador assinou uma lei permitindo que os Monges casassem para que assim o budismo fosse desmoralizado e perdesse o prestígio. Essa estratégia não deu certo e inclusive facilitou ter mais Monges, porque pessoas casadas também se tornaram Monjas e Monges. Apenas no budismo japonês os Monges casam. Mas é importante saber que isso foi uma tentativa de destruir o budismo, porque ele era pacifista e o império queria guerras. O Japão fez guerras horríveis nessa época e hoje escondem, diferente dos alemães que têm museus e ensinam toda a história para as crianças para que elas não cometam o mesmo erro. No Japão não há um único museu das atrocidades cometidas.

Infelizmente isso em parte aconteceu porque o budismo foi reprimido. Mas o que eu quero dizer é que pelo budismo nunca reagir, muitas vezes ele acaba desaparecendo. É o que aconteceu no Tibete, por exemplo, mas foi por isso que o budismo tibetano se espalhou pelo mundo. Hoje a maioria dos moradores do Tibete é chinesa, a etnia tibetana se tornou minoritária no próprio país. Seis mil templos e monastérios existiam, hoje existem apenas oito. Todos os outros foram incendiados.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O FUTURO DO ZEN ESTÁ NO OCIDENTE



Nos tempos de Buda foram estabelecidas algumas regras de prática para as sanghas de monges, que eram na verdade práticas de retiro, ou seja, se retirar do mundo. O monge fazia uma despedida de sua família, portava um manto, naquela época amarelo, pois os leigos vestiam-se de branco. Os leigos chamam-se “upasikas” e desta palavra deriva o nome de nossa cerimônia de renovação de votos, “uposata”.

Aos monges não era permitido terem bens ou trabalhar, pois viviam de mendicância. Na estação das chuvas, que durava três meses na Índia, eles paravam de peregrinar e construíam pequenas cabanas onde moravam durante esse período que era intransitável. Eles deveriam aceitar qualquer comida oferecida, mesmo carne, desde que o animal não fosse morto para eles, ou seja, não deveriam permitir que alguém matasse algum animal para alimentá-los. Com essa regra de aceitar qualquer comida, os monges eram frequentemente acometidos de doenças gastrointestinais. Uma vez que não poderiam comer nada após o meio dia, toda a comida conseguida com a mendicância deveria ser consumida até esse período, não podendo ser guardado nada para o dia seguinte.

Eram proibidas quaisquer substâncias que alterassem a consciência. A primeira discussão a esse respeito, o movimento “Mahasanghika” - cem anos após a morte de Buda, tem uma reinvindicação para beber uma bebida feita de leite fermentado que possuía um teor ligeiramente alcoólico, mas o concílio dos anciões recusa o relaxamento desta regra. Buda antes de morrer declara que as regras poderiam ser alteradas de acordo com a necessidade, desde que se guardassem seu “espírito”. Temos hoje uma tentativa de mudar as regras adaptando-as aos tempos modernos.

A primeira grande mudança dessas regras ocorre quando o Budismo chega à China. O clima da China era diferente, havia o frio do inverno, o que deixou evidente a necessidade de abrigo e fez com que surgissem os monastérios. Isso já havia acontecido na Índia e, à medida que a ordem Budista ia se estabelecendo, ia também se organizando com a construção de prédios e hospedagem para os monges viajantes.

Como a cultura chinesa não aceitava a mendicância, os monges passaram a produzir sua própria comida e construir monastérios permanentes, foi quando então surgiram as cozinhas e, em razão das regras de não matar, essa cozinha era vegana, ou seja, não havia nada na alimentação dos monges derivado de animais. Em razão do clima frio os monges reivindicaram que passasse a ter uma refeição a noite. No inicio eles colocavam pedras quentes em cima do estomago, desta forma eles se aqueciam ao mesmo tempo em que acalmavam as dores estomacais provenientes da fome. A permissão foi concedida e passaram a ter uma sopa quente no jantar, mas para não chamarem esta sopa de refeição, a chamaram de “Pedra Quente”, nome que se mantém até os dias de hoje. A exemplo do que fazemos nos retiros, ela não é uma refeição formal, pois oficialmente ela não existe, então, não são recitados sutras nem fazemos orações e dedicatórias. Podemos ver através destes relatos as adaptações que vem ocorrendo na prática Budista. Nunca houve uma regra que dissesse que os monges deveriam ser vegetarianos.

Quando o Zen chega ao Japão, leva a cultura e práticas chinesas para os monastérios e no século XIX o Budismo sofre grande pressão no Japão. Uma delas é a obrigatoriedade dos monges serem casados, até então eram celibatários. Em 1872 um édito do imperador obrigou todos os monges Budistas de todas as escolas a tomarem esposas e, a partir desse momento, os templos tornaram-se hereditários.

Do ponto de vista Budista, esses acontecimentos são uma clara decadência das regras e na prática, os monges Budistas japoneses deixaram de ser monges para tornarem-se reverendos ou pastores e, de duzentas e cinquenta e uma regras, passaram a assumir apenas dezesseis em sua ordenação. É essa situação que nós no ocidente herdamos. Existem algumas vantagens com essas mudanças ocorridas no Japão. Uma é que o Budismo japonês tem mais facilidade em ordenar monges. Podemos trabalhar e casar, ou seja, somos leigos ordenados. O lado negativo é que o Budismo japonês sofreu uma clara decadência. Se por um lado temos a facilidade de expansão, por outro temos o enfraquecimento do indivíduo em sua dedicação. Com a demanda familiar fica claro o enfraquecimento da dedicação dos monges em sua prática. Com os templos tornando-se hereditários, a vocação passa a ser também contestada, pois os templos como cartórios tornam-se bons negócios. Essa é a verdadeira situação do Budismo japonês.

Há um fato interessante com a chegada do Budismo no ocidente. Como não temos templos para herdar e nem ficaremos ricos com a prática, somos naturalmente mais dedicados, inclusive com a criação de centros do dharma onde há leigos interessados em praticar Zazen, algo muito raro no Japão. Esse discurso é para despertar a consciência em vocês de que nosso Budismo é puro e cheio de boas intenções, não idealizem muito a prática no Japão, vocês poderão se decepcionar. A época de ouro do Budismo foi a séculos atrás. Talvez estejamos vivendo a nossa época de ouro. De certa maneira o Budismo está caminhando para o leste, da Índia onde praticamente não existe mais, deslocou-se para a China onde foi extremamente combatido, teve seu momento áureo antes do ano de 853 quando ocorreu um grande massacre do qual o Budismo nunca se recuperou completamente.

Quando Dogen vai à China procurar pelo Budismo, tem muita dificuldade de encontrar um bom mestre. No Japão também ocorre um período dourado após a chegada de Dogen, mas esse período já se encerrou e temos agora no ocidente a mesma oportunidade de criar um novo ciclo para o Budismo. Nós não somos conscientes disso. Fico triste quando tenho notícias de pessoas que foram para o Japão e voltam dizendo que lá está o verdadeiro Zen. O Zen está aqui, quando pessoas que sabem muito pouco sobre a história ou sobre a instituição sentam honestamente de frente para a parede.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

As regras, o zen, o tempo



 (continuação)
Bom, a prática espiritual é constituída dessas coisas. Aumento da nossa consciência e aumento da percepção dos outros, o que acontece com os outros, como os outros sentem. E quem sou eu realmente como eu sinto, ao invés de fugir do mundo, tentando escapar para o mundo dos deuses ou para o mundo de obscurecimento, porque quando eu bebo, eu não tenho mais clareza. Agora quando eu sento e procuro a lucidez, aí sim a lucidez pode aparecer. Mas ela não pode aparecer com o uso de substâncias que alterem a consciência. Então nós temos cinco regras básicas, para o praticante leigo budista.

Começamos com cinco regras, depois, quem faz votos, tem que fazer 16. Antigamente as regras para monges chegavam à casa das centenas. Mas essas são regras do antigo Vinaya que como eu disse para vocês, para o Zen, hoje, não interessam, porque havia regras como por exemplo a de que um monge não devia falar com mulheres e se falasse não podia mostrar os dentes. Então são regras daquele tempo, regras de ascetismo. Outra é que os monges não podiam comer depois do meio dia, então todos os dias do meio dia em diante, jejum. Aí de noite eles tinham muita fome, na China, nas montanhas, era muito frio, então eles esquentavam pedras e colocavam em cima do estômago, para passar a dor e a fome, até que os mestres abandonaram o Vinaya, nas reformas do Zen e inventaram uma refeição da noite que não existe. Ela não existe porque ela não está nas regras antigas, então a gente não faz cerimônia nenhuma no retiro. Agradece, pega a sopa e come. A essa refeição da noite chama-se “pedra quente”. Evidentemente as mudanças trouxeram problemas novos, como uma independência dos monastérios em relação às comunidades leigas, e o envolvimento dos monges com atividades de trabalho remunerado que os foram tornando algo como os leigos. Assim, do mesmo modo que as tradições antigas congelaram visões primevas as regras novas foram afrouxando os laços, é difícil dizer qual o melhor caminho, então é melhor que estas opções convivam para diferentes tipos de pessoas.

 Quando a gente vê as tradições e as explicações, observamos o que surgiu durante este longo tempo  hoje, há um Mestre Zen vietnamita que está na França, chamado Tich Nhat Hahn, e ele escreveu de novo as regras, inserindo regras para computador, regras para entrar nas redes sociais, etc, como é que um monge tem que agir na sua linhagem. O mundo está constantemente mudando e nós temos que mudar junto com ele.


PERGUNTAS

Pergunta – O Senhor ia falar das 5 regras, quais são elas?

Monge Genshô:

Não matar;
Não roubar;
Não enganar;
Não usar a sexualidade de forma imprópria de forma a causar sofrimento;
Não usar drogas que alterem a consciência.

Todas essas regras têm lados relativos que você tem que olhar. Na verdade se diz “não matar”, mas, nós não vivemos sem matar. Até para cultivar plantas você mata animais na terra. Nós não vivemos sem causar sofrimento, então, tudo que nós podemos é minimizar, diminuir o sofrimento que nossa existência causa. Assim, o sofrimento inútil deve ser evitado. O praticante budista tem que olhar se esse sofrimento é necessário.