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sexta-feira, 6 de março de 2015

Depressão, pânico, ansiedade


Pergunta: Minha esposa está passando há um tempo por crise de depressão, pânico, ansiedade.  A pergunta é se a meditação silenciosa tem algum tipo de contraindicação para esse tipo de problema.

Monge Genshô: Sabemos que a meditação em si muda o cérebro. O cérebro tem certas qualidades plásticas que podem ser alteradas. E o cérebro do praticante de meditação se altera, muda. Agora, as pessoas doentes muitas vezes precisam de ajuda clínica. Hoje temos medicamentos que podem ajudar. As duas coisas se interpenetram, corpo e mente estão ligados. Se você conseguir interferir no corpo e conseguir mudar um pouco as condições cerebrais, que bom, pode ajudar. Conheço uma praticante que sofre de esquizofrenia. Na realidade, ela é perturbada mentalmente de forma muito grave. Se ela ficar sem medicamento, ela tem alucinação. O cérebro dela tem um defeito de funcionamento.

Se você tem um medicamento que consegue interferir nesse defeito, criou-se uma outra condição. E não é porque tem um problema cerebral que a pessoa é diferente de todos nós que temos algum problema físico. Por exemplo, toda a minha família tem pressão alta, meu pai tinha pressão alta, morreu por causa disso; minha mãe tinha pressão alta, não morreu por causa disso pois tomou medicação, viveu até os 97 anos. Então, eu tomo medicação para pressão alta. Se alguém vem e me diz, "eu não queria tomar medicação para o meu cérebro", eu direi: mas se você tem um defeito funcional em seu cérebro, tem que tomar medicação. Isso vai ajudar e acrescentar à prática. Vamos ser realistas a respeito disso. "Ah, mas eu queria ter um cérebro perfeito, queria que a meditação resolvesse isso". Mas pode ser que a meditação seja insuficiente para você. Você precisaria atingir um nível muito alto para conseguir superar todo esse problema. Em geral, depressão ainda consegue ser controlada. Mas outras coisas mais graves não. E existem casos de depressão muito graves, bipolaridade, etc., que precisam ser controlados com estabilizantes do humor.

Conheço monges que precisam tomar medicação. E por quê não? A vaidade de dizer "eu tenho um corpo perfeito, um cérebro perfeito", é só mais uma forma de vaidade. Você pode admitir que tem problemas em seu corpo. Eles têm origem cármica? Não interessa. O que interessa é que nós temos meios para ajudar. Então vamos ajudar. Agora, uma outra consideração, o zazen já é complicado para as pessoas normais. A gente senta a pessoa normal, ela faz zazen, às vezes fica angustiada, às vezes bate em porta sem saída. Vê problemas que antes não via, descobre e sofre com tensões, medos. Então é uma prática em que a pessoa já deve estar bem, porque você vai interferir e pode desequilibrar. Então uma pessoa que esteja doente, tem que ser bem acompanhada. Já tive a  experiência de acompanhar uma pessoa como monge, junto com o psiquiatra e conversando com o psiquiatra. "Como ela está?" "está assim. Precisamos fazer isso". "agora fazemos mais isso e menos daquilo", junto com o psiquiatra.

Semana passada, fiz uma palestra na Universidade Federal de Santa Catarina com um amigo meu que é um Ph.D. em psicanálise. Foi uma palestra muito interessante. Nós trocamos muitas informações, somos amigos, gostamos muito de conversar um com o outro, ele fez um Ph.D. na Inglaterra, trabalhou quatro anos lá, como psicanalista. Então, essa conversa é muito interessante porque tem abordagens dele com as quais eu entendo mais e posso ajudar melhor as pessoas com elas. "Essa pessoa tem esse problema, mas a origem é assim, assim e tem tal forma de raciocínio. "Ah, entendi". Isso é muito bom. Para quem trabalha com pessoas, não tem limite naquilo que você precisa aprender para poder ajudar.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Consciente, inconsciente, mantras



Pergunta – Mas o inconsciente também não seria um instrumento do ego?

Monge Genshô – Não usamos no zen, como se usa na psicologia, essa nomenclatura. É um pouco diverso. Não usamos inconsciente ou consciente, dizemos a mente, está tudo junto, seu inconsciente é acessível através da prática, da técnica. Sua mente está integrada. Pode ser útil usar as palavras inconsciente ou consciente dentro do terreno da psicologia ou até mesmo numa análise do zen. Mas na verdade estamos falando de “a mente”. Para os mestres do zen consciente e inconsciente são acessáveis. Como expliquei sobre o surgimento de imagens e coisas desse tipo dentro do zazen, isso acontece pois está acessível.

Pergunta – Vou reformular a pergunta então. A mente, que é o foco do zazen, não vem a ser o ego, ela é um instrumento, que pode ser do ego ou da essência? E vez ou outra pode haver esse conflito interno onde a mente é só o campo de batalha?

Monge Genshô – O ego é uma construção assim como o eu é uma construção. Por que ele está operando? Porque ele lida com memórias, com um corpo, com sentidos, então ele cria a noção de um eu. Mas temos pessoas hoje aqui com mais experiência nessa área, pessoas formadas em psicologia, mais acostumadas com esses termos e podem falar melhor sobre as diferenças entre eu e ego. Seigaku san, como você definiria essa diferença entre eu e ego sob o ponto de vista da psicanálise?

Seigaku San – Bom, posso falar sob a ótica da psicanálise. Não existe diferença entre eu e ego. O eu é uma construção imaginária que tem base inconsciente.

Monge Genshô – E o que seria ego?

Seigsaku San – O ego é uma tradução para o eu.

Monge Genshô – Alguém de outra linha que queira falar sobre isso?

Pablo San – Sou formado em Gestalt terapia. Para a Gestalt o que se entende por ego envolve a questão de personalidade. A Gestalt divide o ser em ID, ego e personalidade. Personalidade é o personagem social, eu tenho um nome, uma idade e tudo que envolve minha pessoa para agir no mundo. Para a Gestalt o ego são as ações no mundo, ações sensório-motoras. O foco da terapia é fazer o ego se desenvolver. Quando o ego se desenvolve a personalidade oscila. O ID seria o mais primitivo, as apetites, a fome, os desejos.

Monge Genshô – Como podemos observar, a linguagem é uma forma de tentar organizar e compreender uma coisa complexa. Vemos então, a psicanálise com uma determinada visão, a Gestalt terapia com outra, outras palavras e outras classificações, mas essas classificações não mudaram o homem. O homem continua sendo o mesmo. Só a linguagem tentou compreender colocando em escaninhos, dividindo e classificando, isso é o que fazemos com a linguagem.

Por isso o zen tantas vezes recusa o uso da linguagem ou usa de paradoxos para quebrar a mente conceitual. Por isso tantas respostas completamente delirantes dos mestres. Na verdade o que eles desejam é isso, quebrar. Antigamente não existiam banheiros nos mosteiros, usavam-se latrinas, que deveriam ser limpas constantemente, e para isso usava-se pás. Uma vez um mestre zen saía do banheiro e um monge lhe pergunta, “O que é Buda?”. Ele então olha para o lado e vê a pá que era usada para limpar as latrinas e responde, “esterco seco na pá”. O que ele tentou nesse momento? Detonar essa mente classificatória do discípulo.

Uma vez eu estava fazendo uma palestra sobre o zen para um grupo de praticantes tibetanos. E eles costumam recitar mantras. Nós também temos mantras no zen, como o do final do Sutra do Coração da Sabedoria em que dizemos Gyate Gyate, hara gyate, hara so gyate, bodi sowaka. Que quer dizer, “Idos, ou chegados à outra margem, todos juntos, o despertar, salve” que é a margem da sabedoria ou iluminação. Os tibetanos ao usarem os mantras acreditam que estão influenciando o mundo com esses sons. Então um aluno perguntou, “qual o mantra mais sagrado?”. Eu poderia dizer que é o do final do sutra do coração. Mas como ele fazia a pergunta preso a essa questão de sons sagrados e rezas, eu lhe respondi, “quando você vai ao banheiro e usa o vaso sanitário e ouve o ruído...Pluf...esse é o mantra mais sagrado”. Como todos ficaram congelados eu expliquei, veja bem, o universo é uno, todos os sons são a voz de Buda, são voz búdica, é o universo se manifestando. A manifestação do universo. Quando você pensa esse som é sagrado e esse não é, é sua mente classificatória que está funcionando, uma mente que separa bom e ruim, bonito e feio. Quando você for ao banheiro e ouvir esse som como se fosse a voz de Buda então você superou sua mente classificatória, sua mente conceitual e realmente viu tudo, então, esse é o mantra mais sagrado. Por isso as respostas dos mestres podem parecer aparentemente malucas, mas tem sentido.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sonhos



Pergunta – Gostaria que o senhor comentasse um pouco sobre os sonhos. Como e se os sonhos podem ser usados como uma ferramenta. Desculpe se não tem muito a ver com o assunto abordado hoje.

Monge Genshô – Como que não tem a ver? Os sonhos são produzidos pelos conteúdos de nossa mente, cheios de simbolismos muito explicados pela psicanálise. Mas nada muda com relação ao que os budistas e os mestres já haviam analisado há muito tempo sobre os sonhos. Nas experiências meditativas temos muitas experiências com sonhos. Já tive a experiência de passar a noite acordado em meditação sem dormir. No fim você só consegue sentar por quinze minutos, levanta, anda um pouco, senta novamente por mais quinze minutos. E as vezes quando sentado você instantaneamente sonha. Abre os olhos para voltar ao momento presente, fecha os olhos e novamente sonha. O cansaço é muito forte.

Essa não é uma prática do Soto Zen. É uma prática da Escola Son (zen coreano). Muitas vezes os sonhos podem nos dar respostas porque usam a linguagem do inconsciente. Sentado em Zazen você entra em frequências cerebrais que pertencem aos sonhos de modo que consciente e inconsciente se misturam e você tem acesso à profundidade de sua mente. Os sonhos são provocados com aquilo com que você alimenta sua mente. Se você tem medo de perder seus filhos, poderá sonhar que eles são sequestrados ou com sua morte. Se tem medo de ser roubado, sonha com roubo. Tem desejos sensuais, sonhará com eles. Tudo que você possui dentro de você aparece livremente nos sonhos. O que devemos fazer? Apenas observa-los e reconhecer que é dessa forma. Sem culpas ou remorsos, apenas reconhecer que tem medo, raiva, desejos, que é como todos os outros seres humanos.

Posso mudar os sonhos? Claro. Se você pratica o Dharma e fala dele, você acaba sonhando com o Dharma. Já tive muitos sonhos com o Dharma e acordei extremamente feliz. No sonho eu agi como eu penso que se deva agir. No momento do conflito fui pacificador. No momento da morte fui tranquilo e feliz. Que maravilha, se você tem  um sonho Dharmico, sua prática está funcionando!Se você tiver absoluta e plena liberdade seu sonho será o próprio paraíso.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Terapia psicológica e o zen budismo



Pergunta – Retomando o “eu”. Tenho feito, paralelamente, um trabalho de autoconhecimento através da psicologia. Tenho lido e refletido a respeito de o que dentro desses conceitos é chamado de “eu superior” e “eu inferior”. Sem percebermos, vamos colocando máscaras, pela própria necessidade social, e ao tentar chegar a essa compreensão de o que é realmente “eu”, temos também que nos posicionar de diferentes formas e maneiras. Eu poderia me aproximar um pouco dessa explicação que o senhor está passando sobre o budismo com conceitos da psicologia?

Monge Gensho – Limitadamente. Porque o método da psicologia está baseado na noção do eu, sem jamais considerar o vazio inerente a todos e o fato de que todas as coisas são vazias de um “eu”. A psicologia opera tentando adaptar o homem e fazê-lo funcionar melhor nesse mundo. O budismo não tem esse método.

O budismo descarta todos os métodos filosóficos e mergulha numa experiência direta, mas isso não significa que exista uma oposição entre psicologia e budismo. Seus objetivos é que são muito diferentes. Os objetivos da psicologia são de integração, adaptação, compreensão, classificação, através de uma mente classificatória e discriminativa. O budismo quer descartar esse tipo de mente, descartar uma mente conceitual, pois quer mergulhar numa experiência direta com a unidade. Se você quiser usar palavras cristãs, poderíamos dizer que o budismo deseja que o homem tenha experiência divina direta. Podemos dizer, então, que a psicologia opera até determinado nível com determinado objetivo e o budismo corre em paralelo com outro objetivo muito diferente, a iluminação. Não interessa ao budismo adaptar o homem ao mundo, pelo contrário, ele pretende transformar o homem num outro ser, internamente num outro indivíduo - que aos olhos do mundo pode parecer perfeitamente louco. Tenho consciência de que muitas pessoas que me conheceram no passado como executivo de empresa, hoje têm certeza de que enlouqueci. No nosso mundo moderno já existe um entendimento disso, não é a mesma coisa de cinquenta anos atrás.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Psicanálise e budismo


“O eu não supõe um substrato íntegro denominado identidade. Ao contrário, tudo indica que o eu é sempre uma bricolage de identificações, incorporações, possessões. Entretanto, é inegável que o eu tem sempre uma concepção íntegra de si que pode ser denominada de identidade e é imaginária.”



Manoel Tosta Berlinck