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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Niilismo e Eternalismo



Monge Genshô: Nosso corpo não é diferente do armário, ele é construído de agregados, oxigênio, hidrogênio, ferro, cálcio, fósforo, um monte de coisas. São esses agregados, juntos funcionando, que dizem a si mesmo: “eu sou”. Nós queremos que este “eu” seja permanente, mas nada no mundo é permanente, nada, nada é permanente.

Vejam, o que as religiões tentaram foi negar o próprio tempo, a própria duração do universo, porque o paraíso é para sempre, é eterno. Até o inferno, por exemplo, no cristianismo, é para sempre, é eternidade, castigo para eternidade, castigo infinito. Você comete um pecado e vai para o inferno infinitamente. Não parece muito justo, porque o pecado é limitado, ele não é infinito, mas por quê o castigo do pecado é infinito? Filosoficamente, me parece um pouco exagerado.

Mas para o budismo está claro, não existe nada eterno, nem o universo é eterno, ele é cíclico. Tudo está sempre girando, começa, termina, começa, termina. Ambicionar a eternidade é querer contrariar o fluxo natural da vida. É por isso que no Zen vem pouca gente, porque vamos lá e dizemos isso para as pessoas, mas o que as pessoas querem é ser eternas. Eu quero que ”meu eu” seja eterno, “eu” quero ir para um paraíso eterno, elas vão aos casamentos e juram amor para sempre. O que é tolo, porque nenhum amor dura para sempre. Na melhor das hipóteses os dois morrem juntos. Por que todo mundo está rindo? (risos) Porque na realidade, percebemos a verdade evidente, tem algo de ridículo no comportamento humano de desejar a eternidade. Não têm? Parece um conto de fadas, “e foram felizes para sempre”. Mas é o que nós gostaríamos.  E está tudo metido nesses mecanismos mentais em que nós queremos nos iludir e nos esconder, o budismo vem e joga isso na cara, aí vai todo mundo embora. Ficam só vinte pessoas para sentar em zazen, porque você coloca a pessoa para olhar a parede e ela vê a verdade. Eu estou respirando agora, mas eu vou respirar quanto tempo? Um dia eu vou respirar pela última vez.

Aluno: Me parece uma ideia que ao meu ver acaba num niilismo, se você não observar uma essência, não digo um eu ou personalidade, mas uma essência que já vem de tempos.

Monge Genshô: Você quer um eternalismo, uma essência permanente.

Aluno: Algo que sobreviva a esse niilismo, ao nada, morreu acabou...?

Monge Genshô: Veja bem, ninguém falou em “nada”. Quando em falei que uma gota se dissolve no mar, eu não disse que essa gota deixou de existir. Então não é niilismo. Tem duas coisas que Buda negou: o niilismo, ou seja, o nada, e o outro extremo, que seria o o eternalismo. São dois extremos que o budismo nega, o eternalismo, que é o que eu narrei, que é desejar a eternidade das coisas, e o niilismo, ou seja, nada existe, nada veio de lugar nenhum, nós não somos nada, ou desapareço e não sobra nada. Não é verdade. Sobra carma, tem continuidade, você pertence ao universo e nós continuamos, assim com as gotas d´agua continuam no oceano. É que na realidade nós não somos gotas separadas, nós somos “O” oceano. Por não enxergar que você é o oceano você sofre, por saber que seu estado de gota vai desaparecer, você vai se transformar, vai virar vapor por exemplo, se é nuvem vai virar chuva, se é agua no solo vai virar folha ou vai estar dentro do corpo de alguém, mas não é niilismo. Portanto, a palavra niilismo que você usou está errada, correto? Então o budismo é o caminho do meio, “Madhyama Pratipad”, em sânscrito, é isso que que dizer, nem niilismo, nem eternalismo.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

OS CICLOS DE SOFRIMENTO

Monge Genshô: O que caracteriza o mundo do samsara é a procura incessante. Nós queremos achar algo que nos falte. Na verdade, nós todos estamos aqui porque vivemos no mundo do samsara, senão, não iríamos ouvir uma palestra. Se tudo estivesse perfeito, completamente perfeito, não tinha porque ouvir uma palestra. Temos que conscientizar – ah, eu vivo no mundo da perambulação. Nós perambulamos procurando felicidades, vamos a uma banca de revista e vemos a revista dos felizes. O que aconteceu? As pessoas vão lá, lêem esse tipo de revista sobre famosos, que têm dinheiro, vivem em ilhas, têm iates ou qualquer coisa assim, achando que a felicidade é alcançada através da prosperidade, que vou alcançar a felicidade através de ter coisas. Mas isto é o próprio mundo do Samsara. Perambulo atrás de uma coisa a mais. Aquela coisa que vejo não é suficiente. Então procuro aquela outra coisa.

Qualquer pessoa que está nesse mundo de perambulação olha em volta e se compara com os que estão em volta. Os que estão na favela olham em volta e vêem os outros da favela. E ele vai se sentir próspero, vai se sentir melhor se estiver mais do que o vizinho. Então ele compra uma televisão melhor do que a do vizinho, assim então ele acha que se destacou do grupo. Só que se ele continua crescendo e sai da favela, tem outro grupo, outro grupo e outro grupo.

Uma vez tive a oportunidade de passar em Mônaco. Em Mônaco tem um porto e nesse porto estão estacionados iates. Mas quem tem um iate de 50 metros é um pobretão, coitado dele. O cara não é ninguém, tem apenas um iate de 50 metros. Ao lado tem um iate de um sheik de 150 metros, 3 vezes maior, muito mais alto, com torneiras de ouro. Aí então ele se vê pequeno no mundo da comparação. 

Então o que acontece quando vemos essas revistas por onde comecei, é que as pessoas olham para a revista para se comparar. Elas olham e vêem a comparação. Olham e imaginam que existe um outro mundo. Um mundo mais abundante do que o seu mundo próprio. E atrás de coisas materiais as pessoas fazem isso. Mas as pessoas fazem isso em outras áreas também.

As pessoas dizem - ah se eu tivesse um amor. A pessoa perambula de amor em amor. Este amor não deu certo, esse não é suficiente, essa pessoa não tem tudo que eu queria. Tem falhas nessa pessoa. Aí ela vai  para outra pessoa, outra pessoa, outra pessoa. Isto é também um perambular. Perambula achando que logo a seguir vai achar. É como se andasse sem rumo num mundo de um lado para o outro, procurando algo que fosse, enfim, o satisfatório. Agora o que o mundo do Samsara ensina para nós é que não existe na verdade o satisfatório. Foi isso que Buda ensinou. Essa é a primeira nobre verdade, não existe o satisfatório. O satisfatório é inalcançável, pois a característica da vida é Dukkha, é ser insatisfatória.

Dukkha quer dizer insatisfatório, nunca vou me satisfazer. Mas por que não vou me satisfazer? Vamos analisar a palavra. A palavra em sânscrito provém desta raiz – “Duk”. Mas o que significa isso? Duk significa eixo. Então tenho eixo e tenho uma roda. O eixo da roda. Mas, se o meu eixo estiver deslocado e a roda estiver assim, o que vai acontecer? Como ela funciona? Ela desenha ciclos, ciclos assim. Isso é oque acontece com o eixo fora do lugar. Quando Buda disse – a vida é Dukkha, muitos tradutores traduziram como a vida é sofrimento. 

Buda nunca pretendeu dizer que a vida é sofrimento. Vocês já viram essa tradução, a vida é sofrimento? Pois é, Buda não disse isso. Buda disse que a vida é Dukkha, que a vida é cíclica, insatisfatória. Ela sobe e desce sem parar. Então ora tenho amor, ora tenho dor de cotovelo ou tristeza. Ora tenho riqueza, ora pobreza. Ora satisfação, ora insatisfação. Sempre. A vida é constituída de coisas muito boas, tem prazeres, tem momentos maravilhosos de felicidades, de euforia. Ela tem isso, quem poderia negar isso? A vida não é só sofrimento.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Dukkha não é sofrimento


 (continuação)
Dukkha quer dizer insatisfatório, nunca vou me satisfazer. Mas por que não vou me satisfazer? Vamos analisar a palavra, em sânscrito provém desta raiz – “Duk”. Mas o que significa isso? Duk significa eixo. Então tenho eixo e tenho uma roda.  Mas, se o meu eixo estiver deslocado o que vai acontecer? Como ela funciona? Ela desenha ciclos, ciclos assim. Isso é o que acontece com o eixo fora do lugar. Quando Buda disse – a vida é Dukkha, muitos tradutores traduziram como a vida é sofrimento. Buda nunca pretendeu dizer que a vida é só sofrimento. Buda não disse isso. Buda disse que a vida é Dukkha, que a vida é cíclica, insatisfatória. Ela sobe e desce sem parar. Então ora tenho amor, ora tenho dor de cotovelo ou tristeza. Ora tenho riqueza, ora pobreza. Ora satisfação, ora insatisfação. Sempre. A vida é constituída de coisas muito boas, tem prazeres, tem momentos maravilhosos de felicidades, de euforia. Ela tem isso, quem poderia negar? A vida não é só sofrimento.

Mas todo momento bom tem dentro dele já a semente do momento ruim, não é? Tenho filho, momento maravilho quando nasce. Mas alguém que tem um pouquinho mais de sabedoria diria – filhos criados, trabalhos dobrados. Filho criança é maravilha. Você diz assim – vai lá dormir, vai lá fazer sua aula de violino, agora é hora de fazer a lição e ele vai lá e faz a lição direitinho. Aí quando faz 12, 13 anos a coisa fica diferente. Vai fazer isso agora, “agora não pai! Que é isso, tirania, sei cuidar da minha vida”! Chegou o momento da adolescência, o momento dos 20 anos tem outros problemas. Aí casa e tem dificuldade financeira. Vem e pede – pai, me empresta dinheiro, me ajuda. Depois tem os problemas dele, da vida dele. Sofrimento, separação, os próprios filhos. E você nunca, nunca terá um momento de dizer isto é paz, agora é paz perfeita para sempre, pois a vida é Dukkha, cíclica.

O eixo da vida não está colocado no centro. Se fosse, a vida seria sempre igual, a mesma. Seria uma chatice sem fim. Como sobe e desce, tem momentos alegres e tristes. Mas, só existem os momentos alegres, pois existem os momentos tristes, e só existem os momentos tristes pois existem os momentos alegres. Porque nós vivemos em um mundo dual. É pura dualidade nosso mundo. Ele sempre está variando. A pergunta seria – porque as pessoas procuram o caminho espiritual? O que é o caminho espiritual? Porque Buda levou tanto tempo, 6 anos de estudo e meditação para chegar a uma conclusão tão simples como essa? Pois prometeram a perfeição, a felicidade, o atingimento de um estado perfeito e ele descobriu que não, que a vida tem em si mesma tanto alto e baixo, que jamais você poderá dizer que conseguiu uma vida estável. A vida é por sua natureza insatisfatória. Como é que posso viver nesse mundo instável e ser ao mesmo tempo equilibrado, feliz como Buda?

Aí temos que estudar a palavra Buda. Afinal de contas, aquele que foi para a floresta era Buda? Não, não era Buda. Aquele que foi para a floresta era Sidharta, um jovem rapaz cheio de angústia. Quem pode dizer qual era a maior angústia de Sidharta? Ele tinha uma angústia existencial. Ele viu com clareza que toda vida dá em velhice, doença e morte. (Ando pensando nisso todo dia não é, porque cada dia que vou na frente do espelho para fazer a barba vejo o trabalho da morte funcionando – Opa, mais uma ruga.) Doença, velhice e morte. Ele viu isto e aí perguntou qual era o sentido disso, do que adianta tudo o que estou fazendo, toda a glória, reino, meu pai, meu filho, minha esposa, se tudo isso dá nisso, sem fim. Se sentiu desacorçoado, entristecido, sem sentido na vida. E quando ele sentiu isso, achou que não podia continuar naquela vida sem achar uma solução para isso. Como achar solução para doença, velhice e morte se ninguém pode escapar disso? Tem alguém nessa sala que vai escapar disso? Não, nenhum! Então, nós também temos o problema de Buda.  (continua)

terça-feira, 22 de abril de 2014

A natureza relativa e absoluta do mundo




Existe algo precioso nos retiros que é a oportunidade de experiências e muito me alegra quando as pessoas me falam de suas próprias experiências. Nas entrevistas é muito mais importante o que você leva, do que fazer perguntas. As perguntas podem ser mais úteis durante as palestras, mas nas entrevistas o mais interessante é mostrar o resultado de nossa prática no zafu ou mesmo em nossa vida. Isso é muito importante para que você possa receber alguma orientação de como prosseguir.

O budismo é experiência acima de tudo. No Zen isso é ainda mais radical, pois em algumas escolas as escrituras são consideradas de tal forma importantes que chegam a ser colocadas sobre o altar, de maneira que as reverências são feitas também para as escrituras. Para o Zen as experiências dos outros são inúteis para nós, a menos que tenhamos grande humildade em ouvir as experiências dos outros e aprender com elas de modo que nos sirvam de guia.

É bom que tenhamos professores com idade avançada e grandes experiências, pois  quando o aluno levar suas experiências até o Mestre este saberá do quê o aluno fala. Muitas vezes poderemos fazer uma pergunta ao Mestre e sua resposta será voltada para nosso despertar. No Zen existe uma tendência para chocar o aluno, uma vez um discípulo ia para o banheiro e encontra o Mestre saindo do banheiro. Antigamente os banheiros eram do lado de fora e não passavam de fossas que de tempo em tempo eram limpas com pás. O aluno então pergunta ao Mestre: “O que é Buda”? O mestre olha em volta, aponta para uma pá ainda suja e diz: “Esterco seco na pá”.

Essa é uma clássica resposta Zen. As pessoas gostam de fazer distinções, sujo e limpo, felicidade e tristeza, dor e prazer, isso de fato não existe, Buda não está somente aqui no Zendo e ali no altar em forma de estátua. Buda é uma experiência que está em todos os lugares, está no esterco seco na pá. Se você conseguir ver que o esterco na pá irá se transformar em adubo, que o adubo ajudará a fertilização de vegetais e flores e que tudo está interconectado, que nada existe separado, o alimento colhido na horta será comido e se transformará novamente em adubo, então você entendeu.

De um ponto de vista, nós somos adubo e temporariamente estamos ocupando corpos, mas sofremos de uma doença terminal chamada vida. Mas nossa mente quer distinguir. Sofremos pelas pessoas doentes que irão morrer porque não conseguimos ver com clareza o ciclo transcorrendo continuamente. Nos entristecemos pois só vemos aquele momento, embora ele seja inevitável. Isso não significa que aqueles que enxergam os ciclos e têm a capacidade de aceitar a dissolução de todas as coisas, não sofram e não devam chorar pelos mortos, não compartilham o sofrimento. Essa pessoa também se comove e chora. São dois lados - de um lado há a relatividade do mundo e do outro a natureza absoluta do mundo.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A grande realização mística


P: Esse vazio, o seu sentido é esta interconexão? Não é que não é nada não é?

Monge Genshô: Não. Não é que não é nada. É só que todas as coisas, tudo que existe, é vazio de um “eu” separado. Tudo é composto, agregado, interconectado, uma coisa só existe porque outra existe, porque outra existe, e outra e etc. A vida continua. Você, filhos, a vida tá sempre continuando. Você morreu e a vida continua, você vira adubo e a vida continua. Nada cessa. Mesmo que cessasse toda a vida na terra, ainda existem átomos de carbono, de cálcio, de ferro nossos espalhados e, um dia, mais cedo ou mais tarde, constituirão uma outra coisa.

Na realidade, nós mesmos que estamos aqui, não somos originários deste sistema solar. Não estou falando nada sobrenatural ou sobre alienígenas. Estou falando simplesmente um fato científico bem conhecido.

Vocês sabem de onde veio o ferro que está dentro das veias de vocês? Do ferro que está na terra. Nós só funcionamos com ferro. Você come alimentos com ferro, ele vai para seu sangue, pras hemoglobinas, elas viajam pelo seu corpo, vão para seus pulmões e enferrujam. Quando enferruja esse ferro, vai até suas células, larga o O2 lá, pega dióxido de carbono, volta, você exala, e as plantas reciclam, e fazem madeira, e frutas, etc. Você vai lá, come, e tudo volta de novo. Está só girando.

Mas de onde vem este ferro? Não é do sol. O sol é uma estrela de 5 bilhões de anos que só tem hidrogênio e produz hélio. Não viemos de lá. Os planetas que giram em torno da terra têm substancias pesadas como ferro, carbono, etc. De onde eles vêm? De outras estrelas do passado, que colapsaram. Grandes estrelas, com tamanho suficiente para supernovas, que colapsaram e explodiram. No momento do final da vida de uma supernova, quando ela vai sendo comprimida, ela vai mudando. Primeiro de hidrogênio pra hélio. Depois de hélio pra outro elemento. A estrela vai mudando, até que cai dentro de si mesma e nos seus últimos instantes ela comprime átomos e faz átomos mais pesados, começando primeiro o carbono e o último o ferro. E aí a estrela explode e lança no espaço o resto dessas substancias, que, agregados com o lixo estrelar, vão formar planetas que depois girarão em torno de uma estrela como o sol e que, no nosso caso particular, permitiu o surgimento de vida e o surgimento de manifestação inteligente na terra. Provavelmente coisa raríssima, considerando a quantidade de vidas que já existiu na terra, só uma espécie que esteve quase por desaparecer, pois sabemos que  descendemos todos de apenas 16 mulheres, então, houve um momento que a humanidade inteira era tão pequena que só tinha 16 mulheres. E aí conseguiram sobreviver a este momento de crise e crescer e se espalhar até agora. E isso a gente sabe, examinando as mitocôndrias, etc.

Nós somos restos de estrelas que morreram bilhões de anos atrás e esse ferro que esta sendo reciclado no nosso corpo é resto de uma supernova do passado. Então nós somos feitos de lixo estrelar. Mas quem quiser ser mais poético diz que “nós somos poeiras de estrelas”.

Mas é só isso. Esse fato aqui, mostra como tudo que está dentro de nós está sendo reciclado constantemente, sendo transformado, e, basicamente, não dá pra sair daqui. Nós só estamos continuando.

É muito interessante que a humanidade tenha esse desespero religioso de querer que suas identidades permaneçam pra sempre, e tenham inventado as religiões pra isso. A única religião que conheço que joga na cara que não é assim é o Budismo. É a única que diz: “não, não é assim, não se engane”. Você “É” o próprio universo e a grande realização mística é perceber isso de verdade. Além da nossa dimensão histórica, ver a nossa dimensão suprema. Isso é a verdadeira libertação. Vendo esta libertação, todos esses eventos que nos entristecem nessa vida, começam a perder este grande significado. Os amores, as desilusões, o dinheiro etc. Tudo no fundo é risível, dentro dessa grande perspectiva. Mas se você sabe que existe sofrimento, prepare sua mente, pra que na sua próxima manifestação, continue trabalhando ajudando os seres e sendo mais feliz, senão você vai continuar repetindo vidas, cheias de problemas e sofrimentos. É isso. Muito simples.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Como se liberar dos ciclos da existência?



Pergunta – De onde vêm os agregados que compõem a nossa existência? E qual a diferença entre a percepção e a consciência?

Monge Genshô – Está merecendo uma resposta Zen. Os agregados surgem da sua mente. 

Vou explicar um pouquinho mais:
Os agregados só estão se manifestando sob a forma do corpo  porque sua mente guarda impulsos de desejos e apegos tais que, obrigatoriamente, se manifestam no mundo. Então os agregados surgem do carma, da energia cármica, que faz com que haja uma manifestação. Esta manifestação que surge, em última análise, da ignorância. Mas não se preocupe, em absoluto, porque  tudo que é composto, tudo que é agregado, está sujeito à desagregação e decomposição. Você irá morrer e se decomporá, portanto, não precisa se preocupar.

Pergunta – Mas e quando surge novamente outra existência, quando os agregados se dissolvem...

Monge Genshô – Se os impulsos continuarem farão, obrigatoriamente, surgir uma nova manifestação.

Pergunta - E o que faz os impulsos não continuarem?

Monge Genshô - Muito boa pergunta. Como fazer para os impulsos não continuarem? Se você conseguir fazer com que sua mente esgote seu carma e você se vir livre de todos os desejos, de todos os apegos, de todas as paixões, se você conseguir extinguir isso através da iluminação, não haverá energia para uma nova manifestação cármica. Somente então, você estará realmente livre dos ciclos de nascimento e morte. Estará liberada. Será um Buda.

Palestra em BH, na sede do Nalanda, decupada da gravação por Chudô San.
(Fim)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A primeira nobre verdade



Então Buda inicia um discurso, um ensinamento chamado, As Quatro Nobres Verdades. E é sobre ele que vamos falar hoje, o mais básico dos ensinamentos do budismo. Diz ele, “a primeira nobre verdade é que a vida é insatisfatória”. Em geral é traduzido como, “a vida é sofrimento”. Mas não é exatamente isso que Buda quis dizer, a palavra que ele usou foi dukkha. Dukkha vem da raiz duk que significa eixo. Naquela época já se usavam rodas,carroças e eixos. Imaginem dukkha, um eixo descentrado, um eixo que não está bem no centro da roda, então a roda sobe e desce porque não está exatamente no centro, e isso é o que a vida faz conosco, ela tem ciclos, as vezes em cima, as vezes embaixo, as vezes de um lado,outras de outro, ela varia. Todos nós passamos por momentos agradáveis e felizes como também por momentos mais tristes. Isso é inevitável, porque a vida é dukkha, insatisfatória,cíclica, cheias de sobes e desces. A primeira coisa que temos que reconhecer é que a vida tem tristezas e tem alegrias, nem um nem outro é permanente.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Significado


P: Muitas vezes no decorrer da vida me vi tentado a buscar significado para a minha vida e isto tem me trazido bastante sofrimento.

R: Não há um significado mais profundo que simplesmente viver.

P: Como sou iniciante no budismo, às vezes em algumas leituras tenho a sensação de que a iluminação seria um motivo a se alcançar, o objetivo máximo a se obter, como uma espécie de prêmio pela conduta de vida sugerida pelo budismo.

R: Não é bem assim. O despertar das ilusões permite viver plenamente, o que inclui morrer plenamente. Um outro método, como uma vida virtuosa, pode permitir uma estada num paraíso, por que não?
A iluminação plena permitiria extinguir as energias que forçam manifestações repetidas.

P: Penso que devo estar interpretando a iluminação de maneira equivocada e algo em
mim diz que o despertar é um começo, não um fim. Afinal, a iluminação é o começo de tudo?

R: Não, uma iluminação plena é escapar dos ciclos, estes sim um aprisionamento.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O Dharma desaparecerá e será um dia restaurado?


O Dharma desaparecerá e será um dia restaurado? É uma espécie de profecia?

R: É um conceito cíclico muito citado em numerosos escritos budistas, como se o Dharma entrasse em decadência, ninguém mais obtivesse a iluminação fácil dos promeiros tempos, fosse ficando só o ensinamento e por fim até este fosse esquecido, os períodos são citados com grandes variações, de centenas até a milhar de anos. No Zen dizemos que isto é apenas didático e a iluminação está acessível a quem praticar corretamente aqui e agora, esta condição não muda. Mas nada impede que novos Budas venham a surgir se as condições para isto existirem.

Seria bom desconsiderarmos estas coisas e nos voltarmos para uma prática dedicada de meditação e preceitos.