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sexta-feira, 7 de março de 2014

Não é um eu que está vivendo


1)  Esse abandono do eu e do ego e a vontade da vida, isso fica um pouco confuso...

Monge Genshô - É porque pensamos que o “eu” é que vive. Mas não é o “eu” que vive a vida. A vida é que nos vive. Nós somos a própria vida. Não é um “eu” que está vivendo a vida.  Não é uma folha numa árvore lá fora que está vivendo a floresta, é a floresta que produz folhas. Nós somos a própria floresta, não somos folhas. As folhas nascem e morrem. Seria muito tolo que uma folha se sentisse muito infeliz porque amarelece e cai, nós diríamos que a folha é tola, pois torna-se húmus, nasce de novo, ela é a própria vida, não há nenhuma tristeza nas folhas que caem das árvores.

Ninguém chora as folhas que caem no outono, pois nós sabemos que a vida produz primavera, mas quando olhamos para nós mesmos, confundimos o “eu” com a vida, nós pensamos que é o “eu” que vive a vida, e não é isso. A vida é que nos vive. Somos a própria vida. E por isso, porque a vida está sempre continuando, nascimento e morte também são ilusões. Não há como você ir embora daqui, você é a vida. Então esse seu “eu” temporário é só um evento extemporâneo da vida como um todo.
É como o quebrar da ondas do mar, como as folhas que caem e viram húmus, é como as nuvens que chovem. Se uma nuvem vira água e chove ninguém diz – “Coitadinha da nuvem, virou chuva” - nós sabemos que a chuva cai, que as plantas crescem por causa disso, que nós vivemos por causa disso, um dia evapora e volta a ser nuvem. Não damos nomes às nuvens e dizemos que elas têm identidades e não dizemos – “Lá vai a nuvem Joana, coitada, vai morrer hoje pois esfriou e ela vai chover até se acabar” – só fazemos isso conosco e isso mostra nossa cegueira.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Nós somos o céu azul



Pergunta – Estava lendo em seu blog uma resposta que o senhor deu a uma pergunta sobre almas e espíritos, o senhor respondeu com uma metáfora sobre o redemoinho. O senhor poderia explicar um pouco melhor sobre isso?

Monge Genshô – Eu penso que essa metáfora seja muito boa. O redemoinho é movimento, é todo constituído de movimento, movimento do ar que cria o redemoinho, este movimenta a poeira e as coisas ao seu redor e só então você pode ver o redemoinho. Mas, no centro, no olho do redemoinho não existe movimento. Este centro é o eixo em torno do qual tudo gira. Mas o que é esse eixo, tão claro, tão nítido e evidente? Ele é vazio. Inclusive é vazio de movimento, no centro de um furacão não existe vento, não existe movimento. Usei essa metáfora para dizer que nosso eu, que tanto amamos e desejamos vida eterna é como um eixo de redemoinho, do furacão dizemos que tem um eixo, de nós que temos um “eu”, mas esse eu é todo construído pelo movimento, o movimento dos pensamentos. Esse “eu” que tanto acreditamos e queremos que sobreviva dentro de uma alma ou espirito permanente, nada mais é que o desejo de permanência de algo evidentemente fugaz. Nosso “eu” é fugaz. Não existe uma alma ou espírito que o sustente, é tão vazio quanto o eixo do furacão e, no entanto tem todo esse movimento de vida em seu entorno. Mas um dia ele cessa e para onde vai o eixo do redemoinho quando este para? Se vocês olharem para o céu, o ar está ali, nada mudou, sempre esteve ali. O redemoinho foi um movimento da atmosfera. O que precisamos enxergar em nossa verdadeira natureza é que somos atmosfera e não redemoinho, o redemoinho é só um acidente.

Pergunta – Fazendo uma analogia com o olho do furacão. Estaria no olho do furacão a budeidade já que lá permanece como atmosfera tranquila com todos seus elementos?

Monge Gesnhô – A natureza búdica de todos os seres é auto evidente, natureza livre e desperta de todos os seres como, na analogia, a atmosfera. A atmosfera pode manifestar quantos redemoinhos, furacões, ciclones, chuvas e trovoadas que desejar, mas depois que todos os fenômenos cessarem lá estará o céu azul. Nós somos o céu azul e não raios, trovões, furacões, chuvas ou redemoinhos. Se você enxergar essa verdadeira natureza, todo o medo da morte desaparecerá. A atmosfera é eterna o redemoinho é que é temporário. Somos muito maiores do que pensamos, quando pensamos pequeno, pensamos no nosso “eu” e esse “eu” nasce e morre. Se você conseguir enxergar isso com clareza todo o medo de morrer desaparece. Da mesma forma que na atmosfera sempre surgem trovões e redemoinhos, estamos sempre nos manifestando, nos manifestamos de acordo com nosso carma. Sei que é muito difícil de entender, mas assim é o budismo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A xícara existe por si mesma?

         Xícaras com arte de Claudio Miklos (Monge Kômyô) Disponíveis em www.daissen.org.br

A nossa maior dificuldade é perceber que nosso eu é construído completamente, nossas infelicidades são construídas por nossos pensamentos. Sobre o passado por arrependimento e por memórias, ou sobre o futuro por imaginações, expectativas e ambições. Nós construímos um eu e suas infelicidades e angústias com esses pensamentos. Se conseguirmos jogar fora todos eles e sentarmos aqui e esquecermos, penetraremos na dimensão suprema. A dimensão suprema mostra que todas as coisas surgem dela e nenhuma tem um eu ou uma existência própria. Tudo que julgamos como um eu ou existência própria é atribuído, não é verdadeiro.

Essa xícara foi construída com barro, forma e cozida num forno. Tornou-se uma xícara. Nós olhamos para ela e a chamamos de xícara. Ela funciona no mundo e contem chá. Mas a xícara ela existe por si mesma? Não. Para que ela seja uma xícara é necessário que haja barro, oleiro, forno, esmalte e mais do que isso é necessário um ser que olhe para ela, veja sua utilidade e diga “xícara”. Esse que olha para ela enxerga sua utilidade de conter o chá, que a chama de xícara é quem faz com que ela tenha uma identidade.

Nós, de forma muito mais complexa, também somos assim. Surgimos da dimensão suprema e como manifestações da dimensão suprema. Então nos manifestamos nesse mundo de forma histórica e temporária. Voltando a analogia da onda e do vento. Estes fenômenos surgem no ar ou na água e não existem por si mesmos, são manifestações. Nós que acreditamos em nós mesmos, na nossa consciência e em nosso eu, somos manifestações dessa consolidação de pensamentos, confundimos o fluxo dos nossos pensamentos como uma identidade separada. Confundimos esse fluxo com um eu. A xícara parece um ser separado e existente por si mesmo, dizemos xícara e somos capazes de nos entristecer se ela cair no chão e quebrar. Se for antiga e tiver pertencido a nossa avó e tivermos atribuído a ela um determinado significado, ficaremos entristecidos ao vê-la quebrar. Mas onde existe a xícara? Só na nossa memória e mente ela pertenceu a nossa avó. Só no nosso aprendizado do que é uma xícara ela tornou-se uma xícara. Só por a concebermos como receptáculo é que ela é uma xícara. Para um ser primitivo que jamais viu uma xícara ela não seria nada. Se eu der a xícara para minha cadela, ela pensará que é um brinquedo, morderá, e se conseguir quebrá-la, pegará seus cacos e espalhará pelo jardim, porque para ela uma xícara não é uma xícara. A xícara só existe na mente de quem a entende como receptáculo, e olha para ela e a transforma com sua percepção e mente. É fácil entendermos isso sobre a xícara, mas difícil entendermos isso sobre os outros seres.