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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Samadhi é concentrar-se e parar


O que faz a calma? A calma diminui a temperatura que alimenta o redemoinho. Então, se você conseguir chegar a um bom nível de calma tem uma compreensão do que é aquilo, e você não teme que ele acabe. Então não o alimenta com novas paixões.
À medida que você pratica isso, cria uma qualidade calma na sua atmosfera, vamos dizer uma brisa leve, perfumada, clara, um dia tranquilo, desapareceram os redemoinhos, e de repente você é o céu azul, quase não há vento. Então um grande sentimento de felicidade invade você. Calma e felicidade profunda. Não é euforia, não é alegria. É uma alegria muito calma, viciante, você não quer mais sair dali. É um lugar perfeito. Então acontece qualquer estímulo no mundo externo e traz você de volta, de novo, agitação, redemoinho, poeira, eu, qualquer coisa, pode ser seu próprio corpo, fome. Estou com fome, a próxima refeição, quando é, o que será que vai ter pra comer... pronto, está refeito o redemoinho.
 Mas houve aquele momento, aquela felicidade, calma, clara, em você estava no momento presente, tudo parecia perfeito, e você não queria mais sair dali. O momento de concentração de estar olhando sem movimento é o Samadhi, você conseguiu concentrar-se e parar, está realmente no momento presente. (continua)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A iluminação é ver o puro céu azul


Quando minha mãe morreu eu levei suas cinzas e joguei no mar de uma praia da cidade onde ela nasceu e vi as cinzas se dissolvendo na água. Eu acho que essa é uma lição que todos deveríamos experimentar, ao invés de tentar conservar ou delimitar, nós deveríamos deixar espalhar, abrir as mãos, porque na realidade isso é uma lição sobre a nossa verdadeira natureza. Então é natural que nós tenhamos amor pelos filhos, mas essa é uma manifestação da nossa ego entidade, porque nós queremos permanecer para sempre, mas nós não enxergamos que nós somos o próprio sempre.
Numa outra analogia que já usei várias vezes: nós somos redemoinhos na atmosfera e o ego é o eixo. Você olha para aquele eixo e diz: “está ali o eixo do redemoinho”, mas nós sabemos que não tem nada nesse eixo, ele só existe porque tem movimento em volta, quando cessa a energia que movimenta o redemoinho o que resta? O puro céu azul. O redemoinho quer permanecer para sempre talvez. Ele acredita no seu eixo, no seu ego, mas na realidade ele é o puro céu azul e só existem redemoinhos porque há energia, calor, movimento e desequilíbrio na atmosfera. Mas o puro céu azul sempre esteve lá. O que nós tínhamos que enxergar em nós é o puro céu azul, mas como não enxergamos, então a energia do nosso redemoinho tende a se manifestar novamente em um novo redemoinho e esse novo redemoinho se diz “eu sou”, “eu quero permanecer”, “eu quero ter filhos”, “eu quero continuar”. Ele também não consegue se ver como puro céu azul. A iluminação é ver o puro céu azul. (continua)

quarta-feira, 13 de maio de 2015

VOLTANDO ÀS ORIGENS



Houve um momento em que de cada trinta pessoas na China, uma era monge Zen budista. Então houve um período brilhante, a idade de ouro do Zen e do budismo na China. Algo impede que nós venhamos a dar mais passos nesse sentido, que o budismo se espalhe no mundo? Esse é o trabalho de séculos, séculos!

A idade de ouro na China do Ch´an só aconteceu mais de quinhentos anos depois da chegada do budismo na China. Nós recém estamos começando a história do budismo aqui. A história do budismo aqui, começou nos anos 60. Seikaku San, que agora se tornou monge, tem mais de 40 anos de budismo. Somos amigos há 40 anos. Por isso, se alguém estranhou que ele me chamou de “tu”, entendam que nós somos amigos desde jovens, e agora ele resolveu se tornar monge, depois de uma carreira como Professor de Filosofia numa Universidade.

Então, nós vemos essas coisas acontecendo e estamos construindo um budismo diferente aqui, que se parece mais com o budismo de Dogen. Por quê? Porque ele está mais focado no básico: na meditação, na realização espiritual e, naturalmente, menos cerimonialismo, porque aquela necessidade de cerimônias e rituais de que havia demanda há 800 anos atrás, porque o povo queria mágica e mística, hoje não existe da mesma forma. Não existe. E se alguém vem procurando misticismo, ou coisas esotéricas, extraordinárias, ou espíritos, comunicações com o externo, ele vai ouvir no Zen uma coisa radicalmente contrária:  não procure nada fora de você. Não existe nada para procurar aí fora, ninguém para lhe ajudar. Não existem anjos no céu, espíritos benfazejos ou coisas assim, e nem demônios para nos perturbar.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Perder tudo



 (continuação)
Então, a diferença que separa a angústia existencial, o fato de não sabermos onde estamos ou para onde vamos, da realização completa, da iluminação, é apenas um fio de cabelo. E que distância tão grande! Nos textos se diz que é a distância entre o céu e a terra. É uma enorme distância e, no entanto, é só um fio de cabelo de diferença, na percepção dos fatos, no que realmente é.

Ontem, nós tivemos uma experiência muito interessante. Minha esposa perdeu a carteira, com todos os documentos, logo antes de nós chegarmos no sesshin. Então, tinha dinheiro dentro, talão de cheques da comunidade, carteira de motorista, cartão de crédito. Tinha tudo na carteira e ela perdeu a carteira. Aí nós voltamos no local, onde ela provavelmente teria perdido a carteira e nós não a achamos. Voltamos duas vezes no local, voltamos para casa para procurar, etc. Então ela pensou: “Bom, acabou meu sesshin, não posso mais ir com isso na cabeça. Eu tenho que ir para casa, telefonar para os bancos, cancelar os cartões, etc e tal, bloquear os cheques, fazer isso, fazer aquilo”. E a cabeça em chamas com esse problema. Aí, chegamos aqui, fomos tirar as coisas de dentro do carro e, de repente, ela achou a carteira dentro. É como...comentando depois...é como uma bolha de sabão que estoura. Toda aquela imaginação, todos os problemas, todos os telefonemas, tudo, tudo, tudo, o incômodo de emitir documentos novos, carteira de identidade, carteira de motorista, tudo aquilo que ela imaginou se dissolveu em um instante. Muito interessante.

Como é que dentro da nossa mente, nós construímos um mundo inteiro, não é? E, um fio de cabelo separa todo o céu e a terra. O paraíso e o inferno. Um ligeiro, pequeno evento pode mudar tudo. Transpondo para o nosso problema, do ponto de vista espiritual, a nossa atitude mental é de que perdemos. Perdemos tudo. Perdemos todas as construções, tudo mais, estamos perdidos e então sentamos para nos encontrar. Mas esse “nos encontrar”, ele pode ser tão repentino e solucionar tudo tão completamente, como de repente achar a carteira perdida com tudo dentro. E todo o processo se dissolver instantaneamente. A iluminação é assim. A iluminação é um processo em que você vê a fantasia construída de tudo na vida. Todas as coisas, todas as angústias, todos os medos, todas as paixões, tudo...você consegue ver claramente a sua insubstancialidade. É insubstancial e pode ser dissolvido num estalar de dedos, numa pequena percepção. (continua)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O céu azul não é perturbado pelas brancas nuvens que passam


 4) Às vezes quando estou mergulhada no zazen, um único fio de pensamento parece querer me tirar deste estado, não parece um pensamento, parece uma consciência conversando comigo, me apontando os defeitos e me criticando.  O que é isso?

Monge Genshô – É você mesma, mas você não deve tentar lutar com nada que surja em sua mente, não tente ficar sem pensar. Esse é um erro comum. Quando o pensamento surgir apenas o deixe ir da mesma forma que chegou. Não o agarre, não o siga e, principalmente, não faça encadeamento de idéias.

O céu azul não é perturbado pelas brancas nuvens que passam. Deixe as nuvens, pensamentos, passarem, surgirem e desaparecerem. Qualquer que seja o pensamento, de ódio, raiva, amor, paixão, você não deve se sentir culpada por tê-los. O pensamento é apenas um borbulhar de sua mente. Os pensamentos que surgem em nossa mente estão ali porque em algum momento foram alimentados com aquele tipo de idéia. No zazen você apenas senta, não tente ser ninguém, não tente ser uma boa pessoa, apenas sente.

Durante o zazen não estamos criando muito carma, estamos imóveis, porém, se você alimentar algum tipo de pensamento irá gerar carma, pois está construindo uma mente, não tente construir nada, apenas sente e tente ficar no aqui e no agora. Isso é extremamente desafiador. Sentado você está tentando criar condições na sua mente na qual podem aparecer as experiências místicas, ficando imóvel, calado e no momento presente. Essas experiências de clareza e lucidez são as coisas que desejamos enxergar, mas para isso precisamos de uma mente limpa e a maneira de limpar não é não pensando, pois não pensar é um pensamento. Apenas deixe acontecer. Tetsugen disse que quando você conseguir ficar 40% do tempo de seu zazen em samadhi, com a mente limpa, pensamentos vindo e indo sem que você os toque, o despertar se aproxima.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O céu dos outros



Siddharta sentiu-se angustiado com um problema que todos sentem. O problema é: eu estou falando para uma platéia de pessoas condenadas à morte. Todos aqui tem uma doença terminal, que chama-se vida. Termina inevitavelmente em velhice, doença e morte. Nós tentamos fingir que não é assim, tentamos não pensar no assunto.

O que aconteceu com Siddharta foi que isto pareceu-lhe extremamente importante. Esse assunto tirava todo o sentido da vida. “De que adianta eu ser príncipe, ter concubinas, esposas, filhos, luxo, riquezas, vou ser Rei depois, mas, de que adianta tudo isso se essa historia toda termina com uma morte abjeta, esse corpo que a gente tem que sustenta a vida simplesmente apodrece’?

Vocês podem evitar que os vermes comam suas mãos, sua carne, sendo cremados. Aí a gente pega as cinzas e espalha. É tudo o que se pode fazer. Em qualquer das duas hipóteses, nós viramos adubo. Então, Siddharta disse: “Eu! Eu, Príncipe, vou virar cinza! Vou adoecer, envelhecer e morrer. Então, que sentido tem a vida?”

Isto foi o problema que angustiou Siddharta. Deveria angustiar todos os homens. Na verdade, só não angustia quem não pensa e à medida que a humanidade pensou, ela tratou de achar alguma solução para isso.

As soluções, normalmente se expressavam sob a forma de alguma crença, algum sistema, em que todas as pessoas começavam a acreditar ou eram convencidas pela sociedade e o entorno a acreditar. A civilização antiga mais conhecida é a egípcia. Temos 3.000 anos de história antes de Cristo na civilização egípcia e eles deduziram que a coisa seria conservar o corpo. Então pega-se o corpo, tira-se as vísceras, enche-se de alcatrão, enrola em bandagens, coloca junto com coisas para auxiliar a vida do outro lado, comida, carruagens, espadas, etc, quanto mais rico o homem mais ele levava. No início levava seus empregados também para ajuda-lo do outro lado. Então, não era um bom negócio você ser um empregado do Faraó, pois se o faraó morresse, você seria enterrado vivo, junto com o Faraó.

Mas assim, eles estavam garantindo uma vida no “pós-morte”, com o mesmo corpo. Tá certo que o corpo das múmias que a gente olha não está servindo pra grande coisa, mas, era uma “solução”.

Depois fomos partindo pra outras soluções, idéias sempre em caráter “não morte”. Por exemplo: eu posso quem sabe ressuscitar? Então, a promessa é: se você morrer dentro de determinadas condições, então você vai ressuscitar depois com um corpo novinho em folha. E aí, viveria numa terra perfeita pra sempre.

Os gregos gostavam muito de fazer o quê? Conversar na praça de cidades que se chamava “Ágora”. Então, os gregos pensavam, como seria o nosso Céu, depois da morte? Então os homens bons iriam para o “ Hades”, que era a terra dos mortos, os bons para um lugar que era uma ilha paradisíaca, onde as regras eram de que a comida viria pronta, caía das árvores, as roupas também, você não precisava trabalhar para fazer nada. Tinham regatos límpidos, temperatura maravilhosa e você podia conversar sobre filosofia. Não é um céu para gregos? Conversar , debater.

Os muçulmanos nasceram entre os árabes, os descendentes de Ismael, filho bastardo de Agar, escrava de Abraão, expulsa por Sara, quando Issac nasceu. Então, é uma história filha do ciúme, e os descendentes de Ismael, os árabes e os descendentes de Issac, os israelitas, estão brigando até hoje. Nós tínhamos que conversar com Sara, voltar no passado e dizer: “Sara, não faz isso”! Mas ela pediu a Abraão que expulsasse Agar e Ismael de sua casa. Os árabes estavam no deserto e acabaram criando uma sociedade que tinha um indivíduo que era o privilegiado total. O sultão. O sultão tinha uma coisa que todos os homens queriam, e ninguém tinha: um Harém! Então, pronto, resolvido: no céu islâmico, cada homem que morre bem, vai pra lá e ganha 72 mulheres! As huris, bonitas, sempre jovens, e não trazem sogras.

E assim vamos percorrendo a história. Os vickings: faziam guerras, eram conquistadores, como na tirinha do Hagar, o horrível. Então eles têm um céu especial, chama-se “Valhalla”. Se você for um homem valente, vai pro “Valhalla” e lá você vai poder guerrear e saquear para sempre.

Tão vendo como são os céus? A gente ri não é? A gente ri das crenças e culturas “dos outros”. Elas nos parecem ridículas. As nossas não.
(continua)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Nós somos o céu azul



Pergunta – Estava lendo em seu blog uma resposta que o senhor deu a uma pergunta sobre almas e espíritos, o senhor respondeu com uma metáfora sobre o redemoinho. O senhor poderia explicar um pouco melhor sobre isso?

Monge Genshô – Eu penso que essa metáfora seja muito boa. O redemoinho é movimento, é todo constituído de movimento, movimento do ar que cria o redemoinho, este movimenta a poeira e as coisas ao seu redor e só então você pode ver o redemoinho. Mas, no centro, no olho do redemoinho não existe movimento. Este centro é o eixo em torno do qual tudo gira. Mas o que é esse eixo, tão claro, tão nítido e evidente? Ele é vazio. Inclusive é vazio de movimento, no centro de um furacão não existe vento, não existe movimento. Usei essa metáfora para dizer que nosso eu, que tanto amamos e desejamos vida eterna é como um eixo de redemoinho, do furacão dizemos que tem um eixo, de nós que temos um “eu”, mas esse eu é todo construído pelo movimento, o movimento dos pensamentos. Esse “eu” que tanto acreditamos e queremos que sobreviva dentro de uma alma ou espirito permanente, nada mais é que o desejo de permanência de algo evidentemente fugaz. Nosso “eu” é fugaz. Não existe uma alma ou espírito que o sustente, é tão vazio quanto o eixo do furacão e, no entanto tem todo esse movimento de vida em seu entorno. Mas um dia ele cessa e para onde vai o eixo do redemoinho quando este para? Se vocês olharem para o céu, o ar está ali, nada mudou, sempre esteve ali. O redemoinho foi um movimento da atmosfera. O que precisamos enxergar em nossa verdadeira natureza é que somos atmosfera e não redemoinho, o redemoinho é só um acidente.

Pergunta – Fazendo uma analogia com o olho do furacão. Estaria no olho do furacão a budeidade já que lá permanece como atmosfera tranquila com todos seus elementos?

Monge Gesnhô – A natureza búdica de todos os seres é auto evidente, natureza livre e desperta de todos os seres como, na analogia, a atmosfera. A atmosfera pode manifestar quantos redemoinhos, furacões, ciclones, chuvas e trovoadas que desejar, mas depois que todos os fenômenos cessarem lá estará o céu azul. Nós somos o céu azul e não raios, trovões, furacões, chuvas ou redemoinhos. Se você enxergar essa verdadeira natureza, todo o medo da morte desaparecerá. A atmosfera é eterna o redemoinho é que é temporário. Somos muito maiores do que pensamos, quando pensamos pequeno, pensamos no nosso “eu” e esse “eu” nasce e morre. Se você conseguir enxergar isso com clareza todo o medo de morrer desaparece. Da mesma forma que na atmosfera sempre surgem trovões e redemoinhos, estamos sempre nos manifestando, nos manifestamos de acordo com nosso carma. Sei que é muito difícil de entender, mas assim é o budismo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Como as estrelas no céu de dia



Pode levar muito tempo para dispormos de tamanha força e determinação como Buddha teve. Quem não está aqui é porque não tem marca para estar aqui. Ele pode estar em outro lugar que lhe seja prazeroso. Esse final de semana eu estava em Concórdia realizando um zazenkai em um local muito bonito e no terreno ao lado me disseram que havia uma festa rave. Muitas pessoas não tem carma para estar em um retiro ou zazenkai mas sim em uma rave, podem ingerir vários tipos de drogas, escutar aquele som alto e alucinante e até mesmo arriscar-se a morrer em uma overdose. É por aquele tipo de situação sensual que ele sente-se atraído.

Para sentir-se atraído pelo Dharma é necessário certa marca que não é tão comum. Buddha disse que “os seres são como as estrelas no céu a noite, mas aqueles que procuram o Dharma são como as estrelas no céu de dia”. Quando sentamos como hoje, com dez pessoas aqui na comunidade, costuma-se dizer que é alto nível. Mais de dez pessoas no Zen já é grupo de prática forte. É muito difícil, não é? A pessoa vem e dizemos que para ouvir uma palestra ela tem primeiro que sentar por quarenta minutos de frente para uma parede. É um pequeno teste, porque muitos não retornam por causa do esforço que é pedido, nos tempos antigos para encontrar um professor você tinha que subir montanhas a pé, esperar pacientemente que ele achasse que você merecia sua atenção, não admira que aparecessem alunos excepcionais.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O céu não é perturbado pelas brancas nuvens que passam



Pergunta – Isso que é o não eu?

Monge Genshô – Se conseguir ouvir o sons como se eles se apresentassem e passassem sem nenhum julgamento, não haveria nenhum eu julgando. Isso é um treinamento para a plenitude, é o samadhi. É necessário transportar essa mente da meditação e levá-la para fora. Treinamos sentados primeiro porque é mais fácil, ficamos quietos, imóveis, nosso corpo não se move então não geramos carma de corpo, ficamos em silêncio, então não geramos carma de fala. Silenciamos nossa mente simplesmente aceitando até nossos próprios pensamentos, que eles se apresentem e que vão embora, não lutamos com eles, não os seguimos, não fazemos associações, não criamos histórias, ficamos aqui sentados e aceitamos os pensamentos da nossa mente como meras nuvens passando no céu. O céu não é perturbado pelas brancas nuvens que passam. Se apenas aceitarmos sem nenhuma reação, como estamos treinando aqui, nos levantarmos e levarmos essa mente para fora e aceitarmos as palavras das pessoas, os acontecimentos com a mesma equanimidade que treinamos sentados mas se quando sentados formos bons praticantes, mas ao levantarmos nos transformarmos em pessoas reativas, não aconteceu nada, não levamos a prática para a vida ainda.

Por isso é necessário que o praticante aja, que ele treine e lide com o mundo, senão o zen tornou-se inútil. Como a história do monge que foi para a montanha e meditou tranquilamente sozinho durante anos e sentiu-se perfeito em sua tranqüilidade e serenidade. Um dia ele desceu até a cidade e foi até a feira. Lá um homem pisou no seu pé, ele virou-se com raiva e nesse momento  entendeu que sua prática tinha sido falha,  é claro que podemos ver quando sentados em meditação, pelos pensamentos que se apresentam, qual o estado de nossa mente. Mas, testar de verdade tem que ser na vida. Não tem como dizer que um monge é superior a um leigo, isso não existe. A questão é como eles agem no mundo, como são suas mentes, suas ações, então podemos dizer e o mestre irá reconhecer essa superioridade de prática. Quando estivermos sentados poderemos olhar e dizer quem ele é, quando estiver andando, falando ou comendo, nós poderemos ver, então aparece a qualidade espiritual. Nas ações. Não existe melhor para ver quem é uma pessoa do que um sesshin (retiro). Levantar de madrugada, comer com tigelas, os oryoki, ficar cansado no zendo (sala de meditação), horas e horas meditando com a boca silenciosa. Ele não precisa falar nada, olhando as pessoas podemos ver qual é o estado de seu treinamento, ninguém consegue esconder.

domingo, 27 de junho de 2010

Qual a razão de existirmos?


Monges felizes em sua desimportância. Yokoji, angô 2010.

P: Qual a razão da atual experiência terrena, na qual gozamos ou experimentamos o que designamos de individualidade, neste estágio terreno de nossas existências?

R:Muito boa pergunta, qual a razão da existência? Note que a pergunta é em certa medida antropocêntrica, ou estás a perguntar qual a razão da existência das formigas, dos mosquitos, das pedras? A resposta é: nenhuma razão, somos fenômenos como as bolhas dentro de uma garrafa de refrigerante, gás carbônico que momentâneamente tem a forma de bolhas, que retornam ao que realmente são, gás carbônico, nada mais.
Queremos uma razão porque temos uma noção de importância própria, mas esta importância simplesmente não existe. Por isto criamos deuses, e céus permanentes que protejam nossa identidade, espíritos que continuem falando pela eternidade a fora, desejos de permanência do ego, nada mais. Nenhuma razão, somos fenômenos nada mais, por isto se diz no zen que não tenho nada para te dar, só uma bola incandescente para ser engolida, a verdade de que somos desimportantes como indivíduos.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O que fazer com as intrusões de pensamentos na meditação?


Em um retiro, em Florianópolis, uma praticante toca uma placa de metal em formato de nuvem, ela é usada no final de certos horários de meditação, e o ritmo usado no seu toque expressa a impermanência e o tempo limitado que temos para despertar.
Atrás o vasto céu deixa passar as nuvens sem ser alterado.

R: A intrusão de pensamento é o problema de todo mundo, a técnica é não lutar com isto, as sensações estão ali e são boa coisa, o julgamento sobre elas é que é o erro, basta sentar e sentir plenamente tudo em volta, mas sem fazer considerações, sem achar bom nem ruim, quanto aos pensamentos não segui-los, não elaborar, não fazer novas associações, deixar que venham e vão sozinhos, “o vasto céu azul não é perturbado pelas brancas nuvens que passam”, você deve se colocar como este céu.