quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O medo da morte



Aluno: Sobre o sofrimento com a morte, nós poderíamos dizer que esse sofrimento nos faz ficar apegados a uma vida e não vivê-la como deveríamos?

Monge Genshô: Enquanto você não experimenta a liberdade você tem medo. Libertar-se do medo de morrer é o requisito para viver plenamente. É o medo de morrer que cria as religiões. As pessoas querem uma solução para esse eu que quer viver para sempre. Paraíso, alma eterna, ressurreição, tudo isso foi criado para solucionar isso. 

Um dia duas senhoras foram até a minha casa e começaram a me explicar que estava prometido que 144 mil pessoas iriam ressuscitar e seriam salvas, enquanto os outros todos iriam ser aniquilados. Elas estavam me dizendo que eu poderia estar entre esses 144 mil. Eu disse para elas “mas isso não é felicidade, se eu ficar com os salvos sabendo que todos os outros foram destruídos eu não vou ser feliz. Prefiro uma outra ideia. Enquanto houver alguém sofrendo eu vou voltar para estender a mão e tirá-lo do sofrimento. Enquanto houver um para ser salvo eu não quero ser salvo”. 

No fim do zazen a gente faz esse voto do Bodhisattva. São quatro votos impossíveis, paradoxais, mas por isso são bonitos. Que graça teria ser do grupo dos salvos e ver os outros serem destruídos?

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quem é Você?

Aluno – Quando o senhor fala “esquecer de si”, é parar de pensar em mim?

Monge Genshô – É esquecer de sua própria identidade. É responder verdadeiramente à pergunta “quem sou eu”.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Vipassana e Zazen


Aluno: Posso fazer uma pergunta sobre meditação? Qual a diferença da vipassana?

Monge Genshô: Vipassana é uma meditação característica da escola Theravada. Nela você faz observações. Observa sua respiração, seu corpo, seu pé. Tem sempre o observador e o objeto a ser observado. No Zen, nós tentamos fazer com que o observador desapareça, entre você e o objeto observado não pode haver distância, vocês são um só. 

Essas técnicas do vipassana no Zen são olhadas como técnicas preparatórias. Pode chegar um aluno que tenha muitas dificuldades, e então a instrução é que ele conte as respirações. Essa é uma âncora a que ele pode se agarrar para não ficar viajando tanto, mas normalmente nós chamamos o caminho do Zen como "O Caminho Direto", justamente porque apresentamos diretamente ao aluno uma técnica que, na realidade, é difícil. A descrição da técnica é muito simples, mas a abordagem não é gradual, é entrar direto num estágio difícil. 

Então são questões de técnicas e existem mais de 40 tipos de meditações possíveis. Essa que vocês aprendem no Zen é chamada "Shikantaza", que significa "apenas sentar". Normalmente vipassana é, na abordagem gradual, muito efetiva. Há menos exigências nas escolas vipassanas com relação à postura e à disciplina. No Zen a disciplina é Buda. 

Nos mosteiros há um  cargo  de "jikido". O jikido passa por todos os alunos com um bastão na mão, o kyosaku, o bastão da compaixão, e se alguém está numa postura incorreta, dormindo ou cansado, ele bate o bastão. Se há um monge velho, já cansado, então o jikido bate no monge que está sentado ao lado dele. É muita compaixão apanhar pelo outro. O cargo do jikido tem bastante trabalho. Acordando às 4 da manhã muitos monges acabam dormindo e ele precisa fazer esse julgamento de bato ou não bato, podendo ser repreendido caso não bata. 



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Atravessando a Ponte


Quando você entra em Sojiji Soin, é colocado numa sala e vem um superior responsável por te guiar durante os primeiros dias. Esse superior abre sua mala e separa os itens que você precisa e os que você não precisa. Aliança, passaporte, documentos, dinheiro, tudo isso vai para um envelope que você só recebe na hora de sair. Depois de tirar tudo isso de você, o superior aponta para uma ponte vermelha e fala “se você passar por aquela ponte,  não pode mais voltar por ela enquanto não receber permissão”. 
Depois você é levado para uma sala com porta sem ferrolho,  você poderia abri-la, passar pela ponte e sair normalmente. Nessa sala não há ninguém, nada para ler, nenhum instrumento musical, não há televisão, ninguém com quem falar, nada, somente um zafu para você se sentar, é uma solitária. Então o superior te diz que você tem que esperar lá até ser admitido no mosteiro. E você espera. O superior traz chá e refeição. Enquanto isso você apenas espera. 
Fiquei cinco dias esperando. Você senta no zafu e quando cansar de sentar, anda. Quando cansar de andar senta. Dorme lá, come lá, tem um banheiro disponível e se quiser desistir, a porta e a ponte estão lá. Normalmente se fica de cinco a sete dias nessa sala.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Esvazie-se


Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.

O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:

- Está muito cheio. Não cabe mais chá!

- Como esta xícara, Nan-in disse, você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?
Conto Zen

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Agradeço e me Desculpo


Um princípio essencial da nossa prática é a harmonia. Como é que nós praticamos a harmonia no nosso sentar? Há no nosso sentar alguns princípios que nós temos que conservar em mente todo o tempo. Nós sentamos e estamos cuidando da nossa prática. A nossa prática é imperfeita, de modo que quando nós chegamos  fazemos uma reverência, cumprimentamos o lugar onde vamos sentar, agradecemos que ele exista, os esforços necessários para que aquele zafu esteja ali, nos voltamos sempre girando no sentido horário para agradecer e pedir desculpas a todos os outros que estão junto conosco, sentados, porque nós, imperfeitos que somos, vamos atrapalhar os outros.

Nós vamos nos mover, espirrar, tossir, nós existimos e ao existirmos, perturbamos. Nós nos viramos no sentido horário porque o tempo não volta para trás. É por isso que sempre nos giramos no sentido horário dentro do zendô. Porque não há como voltar atrás dos erros que cometemos. Nós vamos cometer enganos, erros, e eles ficarão cármicamente marcados e trarão consequências. Por esse motivo nós nos inclinamos então para todos e pedimos desculpas quase como se pedíssemos desculpas por existir, porque ao existirmos nós estamos fazendo isso.