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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A cabeça no ar, o pé no precipício


(continuação)
Comentário de um aluno: “(...) A gente percebe que existe uma relação entre a experiência e o que nos levou a ter essa experiência, que é a prática, né?”

Monge Gensho: Exato, não é necessário mais fé, pois você já sabe que existe, você já sabe que é possível, que existe alguma coisa. Como ela realmente é, você não sabe completamente, mas você teve um vislumbre, então não precisa de uma crença, você já teve uma pequena experiência. O quarto passo é “Agarrando o boi”. Em um antigo desenho vê-se um homem segurando o rabo do boi. Ao chegar a essa etapa o kensho foi confirmado, mas como podemos ver no desenho, o boi tenta tenazmente escapar, e o homem deve sujeitá-lo com toda sua força. De fato, agora já tem experiência bastante para compreender o dito “o céu, a terra e eu, somos a mesma raiz, todas as coisas e eu mesmo, somos da mesma fonte”, mas na sua vida cotidiana não pode controlar sua mente como gostaria. A pessoa compreende, tem o kensho, seu mestre reconhece isso nele: “Ah, você teve uma experiência genuína, você enxergou”.
Porém, nos passos anteriores nós vimos o que acontece com o principiante, com aquele que começa a sentar, que começa a praticar e sabe que existe a experiência mística e que pode vislumbrá-la. Quando realmente se aprofunda é mais marcante, mais prolongada, nós podemos mostrá-la para o mestre, você vai até o mestre e mostra para ele. Uma vez Saikawa Roshi me disse que os alunos vão para as entrevistas para fazer perguntas e ele queria que eles fossem lhe dar uma resposta, que mostrassem para ele: “Encontrei isso”. Mas as pessoas chegam a ele com perguntas. Então, nessa quarta etapa agarrou-se a mente, o boi foi agarrado firmemente. “O céu, a terra e eu, somos a mesma raiz, todas as coisas e eu, somos da mesma fonte”.
 O aluno compreende, então, sua natureza original, que ele não é um “eu” separado, mas é “um”, com todas as coisas. Mas, na sua vida cotidiana, ele não consegue controlar sua mente como desejaria, às vezes arde em cólera, outras vezes se vê possuído pela cobiça, cegado pelos desejos, e assim, sucessivamente. Os pensamentos indignos e as ações vis seguem aparecendo como antes. Ele se vê esgotado por lutar contra suas paixões e desejos que parecem incontroláveis, é algo com o que não contava e apesar de haver alcançado o kensho, sua alma parece seguir sendo tão ruim como antes. De fato, o kensho parece ter sido a causa de novas aflições, porque agora ele deseja comportar-se de certa maneira e se vê fazendo o contrário, compreende, sabe o que é certo, mas acontece uma circunstância e ele explode em raiva, por exemplo. E aí ele pensa: “Ah, eu não sou o que desejaria, todo esse trabalho, toda essa compreensão e ainda não sou quem eu desejaria, minha boca continua falando quando não deveria, minhas ações continuam as mesmas e meus pensamentos estão continuamente sendo chamados pelas paixões e continuam turbulentos, embora eu saiba com nitidez que eu, o céu, e a terra, somos a mesma coisa, e que entre mim e os outros não há diferença alguma.” Sua cabeça está no ar, mas seu corpo tem um pé no precipício. Mas ele não pode soltar as rédeas do boi e se esforça para ter sob seu controle sua mente, embora isso lhe pareça como algo acima de suas forças.