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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Montes de prata e rios de ferro


(continuação)
O quarto estágio, “agarrando o boi”, se reproduzirá com uma experiência deste tipo: Imaginem um zazen, quanto tempo passou, ele não sabe. Quando volta a si, se sente como se estivesse na mais baixa profundidade do mar, tudo está em silêncio, tudo está escuro, estava dormindo? Não, sua mente está clara e desperta, uma força interna parece ir desabrochando, nota como se estivesse revestido de uma pesada armadura. Será que foi a isto que outros patriarcas chamaram “montes de prata e rios de ferro”? Sua mente está tão tranqüila e solene como as encostas nevadas do Himalaia: sem alegrias, sem penas; se é noite ou dia, ele não sabe. Algum dia vocês terão esta experiência. E um dia, quando ela emergir levantando-se do zafu, cruzando o umbral, olhando as pedras e as árvores do jardim, ouvindo um som qualquer, levando uma taça aos lábios, ou passando os dedos por um corrimão, de pronto verão que o céu e a terra se vêm abaixo com estrépito. Ao chegar ao último extremo na prática do zazen, será como o efeito de uma figura reversível. Uma figura reversível é aquele tipo de figura em que existem duas formas em uma; dependendo do ângulo que olhamos, quando se vê uma, não se vê a outra. Muitas situações na nossa vida se parecem como uma figura reversível. Quantas vezes encontramos com alguém, perguntamos como está e a resposta é, “muito mal, está tudo horrível”. Alguns dias depois, diante da mesma pergunta, tudo mudou. A situação é a mesma, mas mudou a forma de encarar o fato.

Algumas pessoas conseguem observar isso e mudar o foco, mas para que isso aconteça é preciso ser senhor de sua mente. É como a história do homem pendurado em um precipício: abaixo dele, um leão, acima, um tigre. Então ele olha para o galho em que está agarrado e vê frutinhas. Ele as pega e come, então exclama: “que frutas deliciosas!” Esse é um exemplo de uma mente com capacidade de reverter uma situação, aceitando-a. Uma mente preparada, mesmo sabendo da aproximação da morte, se mantém calma e impassível; uma mente agitada e confusa entrará em pânico. Acontecem muitas situações no nosso dia a dia que necessitam de uma mente calma e preparada para lidar com problemas, tristezas ou desilusões. Diante desse quadro é muito comum o desespero tomar conta da mente e perdermos a capacidade de raciocinar; é muito perigoso não sermos capazes de raciocinar. Isso não significa não se emocionar, significa “perdi o controle? Entrei em surto? Mesmo com tudo o que está acontecendo ainda sou capaz de raciocinar?”

 Isso é muito importante, não perder a capacidade de raciocinar. Pode-se fazer coisas muito insensatas no momento em que não se está senhor de sua mente. Pode-se matar uma pessoa, pode-se dizer coisas que se desejaria não ter dito e que não se consegue mais retirar. E essa figura reversível será, então, revelada a você como uma nova vista, assim, a pressão interna ocasiona um novo desenvolvimento dimensional do mundo. Um crítico hostil poderia dizer que isso é uma questão de auto-sugestão, mas, de fato, assim que nos desprendemos do modo habitual da consciência, e ela opera num novo modo de cognição independente do tempo e do espaço e da causalidade, você e os objetos externos estão unificados, você sabe que teve a experiência, que não é auto-sugestão, aliás, essa experiência aparece como repentina e é completamente nítida e clara e diferente para cada pessoa. 

Seu fator desencadeador pode ser bem diferente. É multifatorial. Pode ser algo corriqueiro, como um raio de sol entrando pela janela e batendo no zendo. Algo normal, que de repetente, se mostra completamente diverso do normal. Você sente que os objetos externos e você, estão unificados. É certo que os objetos externos estão fora de você, mas você e eles se interpenetram mutuamente, é como dizer que não há resistência espacial entre você e aquela experiência. Quando éramos crianças, nossa vida estava cheia dessa forma de cognição, mas quando crescemos a atividade elaborada da consciência vai consolidando um modo habitual de operar, com o uso da linguagem, da compreensão, do gosto e não gosto, da manifestação de preferências... e nos distanciamos da experiência pura. Constrói-se um mundo de diferenciação e discriminação. Mas no momento do kensho, essa forma rotineira cai e você se vê desperto e num novo mundo. Isso é o kensho. Ken, significa “ver em algo” e Sho significa “a verdadeira natureza”. Então, “ver em algo a verdadeira natureza”. Encontrar sua verdadeira natureza dentro de si mesmo e ao mesmo tempo, no mundo exterior.