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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Você pode pensar que tudo terminou...



(continuação)
Perguntas: Eu não entendi bem essa parte do perdido está o boi.

Monge Gensho: Não tem mais mente, não está mais sentado na mente, tentando controlar, tentando fazer alguma coisa. A mente está em samadhi (concentração perfeita), então não há boi a ser controlado. O boi é a metáfora para mente. Nos antigos textos hindus havia a presença de um elefante e os passos eram em número de oito. Os nono e décimos passos surgiram com o zen.

Pergunta: No livro Tao Te Ching, a capa tem um boi, uma criança sentada nele e uma outra pessoa na frente do boi. Seria essa a mente de principiante, a questão da criança sobre o boi?

Monge Gensho: Estamos lidando aí com uma metáfora num nível anterior, porque tem alguém ainda conduzindo e algo sendo conduzido. Quando chegamos aqui, agora, tudo que significa “mente” está abandonado, mas ainda se pode ir mais longe. A oportunidade de se fazer isso num sesshin é muito maior que no zendo, ou na sangha, porque nestes o tempo é muito curto, temos somente um zazen de quarenta minutos, o que tarda a levar a um acúmulo para se ter uma experiência, enquanto que no sesshin isso é possível. É claro que um sesshin de apenas dois dias também não é suficiente. Seria ideal um sesshin de pelo menos quatro dias, porque é a partir do terceiro dia que a pessoa começa a se livrar mesmo dos problemas do seu dia a dia. Mas isso não significa que experiências ou vislumbres não possam acontecer assim já no primeiro dia. E isso é muito importante, porque a partir do momento em que se tem a experiência, não é necessário mais acreditar em nada. Normalmente os alunos que vêm a um sesshin são os que permanecem no treinamento do zen. Os que não fazem sesshin praticam por um tempo, vêm para resolver um problema pessoal, acalmar-se, aprender uma técnica de meditação, e ficam por aí, mas esse não é o objetivo do zen, embora seja útil ensinar meditação para as pessoas que se agitam. O objetivo do zen mesmo é atingir a iluminação, é isso que nós estamos procurando, por isso é tão importante dar esse ensinamento que só é possível num retiro, para que vocês vejam os próximos passos.

Recapitulando os passos anteriores. No primeiro passo, o principiante nem vê, está apenas começando sua jornada;

Depois ele encontra as pegadas do boi e começa a praticar o zazen, mas ainda não experimentou um kensho.

No terceiro passo, “vislumbrando o boi”, ele já teve algumas experiências místicas - mesmo que fracas - de alguma emoção e percepção clara das coisas.

Depois, no quarto passo, ele segura o boi, mas o boi é rebelde e ele se sente desanimado pelo fato de, apesar de compreender o Dharma e apesar de ter tido experiências místicas (kenshô), ver-se sempre caindo de novo em angústias, desespero, raiva, cólera, ciúmes e reagindo à vida como um homem comum.

No quinto passo ele domina o boi e esse se torna um pouco mais manso, e o domador julga que agora pode lhe ensinar alguma coisa. Algumas pessoas têm a sensação de que no passado estavam melhores no zen, tiveram as primeiras experiências que lhes pareciam muito brilhantes, maravilhosas. O primeiro sesshin (retiro zen). A explicação para isso é nós estamos saindo do zero e o primeiro progresso parece um passo importante. Depois fica mais difícil de subir, cada ganho é mais difícil e a pessoa pode ter a sensação de estar descendo a ladeira; já tinha alcançado, no passado, um determinado nível e agora o perdeu, ou ela se critica por não conseguir um bom samadhi. Sentam em zazen e a mente viaja todo o tempo, surgem coisas do passado que ela não controla. Esse é um momento importante porque é necessário não desanimar, porque houve grandes ganhos já, só que a pessoa não os percebe com clareza.

No sexto passo, o boi agora é manso e obediente, ele monta tranquilamente sobre sua garupa. Os acontecimentos normais da vida não o perturbam mais, quando acontecem, ele lida com eles com naturalidade, aquilo que parecia terrível no passado, agora não é mais.

No sétimo passo, kensho, iluminação e o zen são esquecidos, ele não mora em lugar algum e deixa que sua mente trabalhe.

O oitavo passo tem como símbolo o círculo vazio. Nem boi, nem homem. No estágio anterior, perdeu-se o boi. Restou o homem, e você pode ter pensado que tudo terminou.
( na próxima postagem explico o oitavo passo)