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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O círculo vazio


(continuação)
O oitavo passo tem como símbolo o círculo vazio. Nem boi, nem homem. No estágio anterior, perdeu-se o boi. Restou o homem, e você pode ter pensado que tudo terminou.

Porém, agora aparece outro estágio no qual tanto o boi, como o homem, são esquecidos. Aqui temos um verso zen; “De noite engalfinharam-se dois touros de barro, desaparecendo no mar enquanto lutavam, e esta manhã, nada se ouve deles”. No momento em que o ego aparece, surgem as circunstâncias. Quando o ego se esfuma, se esfumam as circunstâncias. A subjetividade e a objetividade se acompanham mutuamente.

 Vamos contar a história de uma deidade guardiã que desejava ver Tozan Osho, mas não conseguia. Ele colheu uma porção de cevada e arroz na cozinha e espalhou no pátio. Tozan, ao ver os grãos disse: “Quem poderia ser tão negligente?” Naquele momento a deidade pode ver Tozan, pois ela só vê egos. Na mente de Tozan manifestou-se pressão interna, como uma nuvenzinha num céu de verão. Veio e dissipou-se, deslumbrante, na brilhante serenidade do meio-dia e logo tudo voltou a acalmar-se novamente. Essa história tenta nos mostrar que Tozan, tendo se iluminado, não era movido pelos pensamentos, sendo, dessa maneira, invisível a deidades. Então a deidade resolve espalhar cevada no chão e desperta aquele pensamento na mente de Tozan: “Que monge seria tão descuidado, quem foi tão negligente?” E com essa leve indignação ele tornou-se visível. “Tornou-se visível” é uma metáfora para a presença de um eu, mas logo a seguir ele desapareceu de novo para deidades. Esse estágio corresponde ao dito do Mestre Hinzai “tanto homem, como circunstâncias, estão desaparecidos”. 

Sekida diz que “podemos distinguir arbitrariamente um número de graus de consciência.

Nível A; o mais elevado, em que os pensamentos e as ideias vão e vem.

Nível B; um grau que compreende, mas que não forma idéias.

Nível C; um grau que é só consciente.

Nível D; um grau que simplesmente reflete os objetos internos e externos como faz um espelho”. 

Quando ele diz “o mais elevado”, ele se refere ao mais elevado nível de consciência existente, portanto, não quer dizer o melhor, mas sim, o pior, o grau em que a consciência está mais presente, aquele em que as ideias vão e vem. À medida que diminui a consciência, sobe o nível, logo, um nível mais baixo de consciência é mais elevado em realização. O segundo é um grau que compreende, mas não forma ideias; o terceiro grau é só consciência que simplesmente reflete os objetos internos e externos, como faz um espelho. Neste estado aparecerão, em algumas ocasiões, rastros de ação reflexiva da consciência que iluminarão momentaneamente o cenário da mente constante. 

Nível E; o grau mais profundo, onde não penetra nem a mais tênue ação reflexiva da consciência. 

Aqui se manifestam certos vestígios de nosso estado de ânimo, é uma espécie de memória do tempo de nossa vida e de nossos antepassados que quer subir à superfície da consciência para expressar-se. Mesmo que a entrada não lhe seja permitida, não deixa de afetar, mesmo que de maneira remota, mas importante, a corrente de atividades da consciência que está em mudança afetada pelos pensamentos “nen” (impulso que precede o pensamento) que aparecem a cada momento. No samadhi absoluto a atividade cerebral fica reduzida ao mínimo, limpando-se a fundo a procura da antiga memória. Varre-se o modo habitual da consciência, desaparece o reflexor e o refletido, um mundo de profundas nuances. Esse estágio é chamado de samadhi sem pensamentos que é idêntico ao samadhi absoluto. É o estado em que podemos dizer “nem bois, nem homens”. 

O que importa para nós é  o que queremos guardar da memória. Trata-se de algo tremendamente perturbador para o samadhi, porque ele retorna, e todas as vezes que isso acontece, o samadhi está anulado. Nós praticamos zazen para treinar o samadhi, a concentração, o momento presente. Todas as instruções iniciais podem ser reduzidas a uma única: “fique no momento presente”. Não quer dizer realmente não pensar, mas é uma forma muito sutil de pensamento, que é mera percepção das coisas em volta. É a sensação de “aqui nessa sala, ouço esse som, percebo”. Há percepção, mas não há julgamento, considerações, estimativas, planejamentos, intenções. Há só o treinar o samadhi. “ em samadhi, plenamente presente”. Aí surgem memórias e quando elas surgem, elas nos tiram do samadhi. 

Os pensamentos surgem sucessivamente um ao outro; não existem dois pensamentos simultâneos, não existe um pensamento sempre presente. O que acontece é que um pensamento expulsa o precedente, normalmente de forma encadeada, como um link num texto do computador. Você clica, acessa aquele substrato da memória, acessa aquele arquivo. É como na tela do computador, você não vê duas imagens ao mesmo tempo, sempre que surge uma imagem ela expulsa a anterior. Pode até haver um alerta avisando que você tem um arquivo, mas você precisa clicar nele para abrir; sempre um arquivo expulsa o outro. Na tela da nossa consciência, só surge uma coisa de cada vez, e normalmente, elas chamam outras e nós ficamos fazendo essa sucessão de pensamentos.

Essa é a atividade mais baixa, é o nível de realização mais baixo, ou seja, realização zero. É uma mente que vive de encadeamentos de pensamentos ou presa à memória e às emoções, sempre invasivas. Significa controle zero do boi, pois ele vai para onde quer.
(continua)