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terça-feira, 25 de setembro de 2012

A emoção perturbadora





(continuação)
Pergunta: Quando ele usa a expressão “apagamento da memória”, não é bem assim, não é um apagamento da memória. 

Monge Gensho: Não, se fosse simples assim, se apagaria a memória e estaria tudo resolvido. Na realidade, tudo está disponível, mas existe pleno domínio, você vai acessar o que quiser, como acontece no computador, onde você só acessa o arquivo que deseja. A emoção perturbadora é como um vírus que se encarrega de abrir arquivos que você não quer abrir. Você deixou que o computador fosse infectado por uma emoção e, daí, ele abre arquivos que você não quer, quando ele quer, e estes arquivos estão sempre retornando na tela, ativados por um vírus destruidor que traz lembranças e emoções de volta, e você não tem mais domínio nenhum. Domínio zero, esse é o estado em que as pessoas normalmente vivem.

Observação de um aluno: Mas isso é como uma crise...

Monge Gensho: Mas as pessoas vivem normalmente assim, as pessoas que estão andando na rua, elas estão numa espécie de sonho que elas não dominam, elas estão andando na rua, mas não estão vendo a rua, não estão no momento presente, estão pensando: “a conta que tenho que pagar, será que isso vai dar certo, será que Fulano gosta de mim?” Pensam em qualquer coisa, é uma sucessão sem fim, rodando uma depois da outra, mas não estão realmente andando na rua, estão vivendo um sonho, por isso não estão acordadas. No budismo nós treinamos nossa mente para despertar, para sermos donos do sistema, para abrirmos os arquivos que quisermos quando quisermos, para não sermos dominados por uma emoção invasiva. Estamos treinando. O termo para meditação em sânscrito é “bavana”, e significa “treinamento”. Na verdade, nós estamos criando uma habilidade, a habilidade de sermos senhores da mente e não sermos levados pela torrente. Podemos fazer o que quisermos, quando quisermos. Podemos abrir o arquivo que quisermos, não sofrer inutilmente, não sermos arrastados por emoções. Podemos ser sensatos.

Observação: (...) “pare de chorar e chore depois”. Há um tempo atrás eu pensei “como é possível? Chorar, parar para depois poder voltar a chorar? Isso é possível, eu escolho?”

Monge Gensho: Você pode escolher “eu vou chorar agora, na frente dessa pessoa para mostrar a minha emoção, eu quero mostrar”, ou, “agora não é o momento de mostrar emoção”. Não significa que a emoção “NEN” não exista, mas você tem o controle sobre fazer aflorar ou não deixar aflorar uma emoção. Não é que não exista, não é que seja fingida, não é isso. Posso mostrar, ou não. Posso mostrar a ira para mostrar para uma pessoa que o ato dela é profundamente errado; então, naquele momento, tem que mostrar ira e isso é um meio hábil para corrigir uma situação.

Observação: (...) os mestres podem se mostrar irados?

Monge Gensho: Sim, porque eventualmente o mestre precisa da ira, mas isso se dá da seguinte forma: “Isso está muito errado”. Pode até gritar e acabou, ele sai e deleta tudo, só mostrou porque era necessário naquela hora fazer aquilo, mas, se a mesma pessoa for falar com ele dez minutos depois, não existirá mais nada. Foi necessário demonstrar ira somente naquele momento, porque é a maneira de você agir no mundo, tem que usar o eu e as emoções também.

Observação: Mas é preciso controle total...

Monge Gensho: Sim, mas não é nada milagroso, porque quando você está sentado em zazen, você está treinando isso. Surge um pensamento e você pode controlá-lo, um impulso de pensamento, você pode parar a respiração e fazer com que ele não surja, como na técnica do bambu. Você pode rotular o pensamento pensando sobre isso, para enfraquecê-lo. Mil vezes ele surge, um pensamento corrente perturbador no zazen, e você pode rotular, “pensando sobre isso de novo”, daí volta para samadhi, e tenta voltar para o momento presente.