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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

E a filosofia?


(continuação)
Pergunta – O mesmo ocorre com relação à filosofia?
Monge Gensho - No caso da filosofia acho que é mais grave ainda. A filosofia tem uma longa aventura investigativa, ela ajudou muito o homem a pensar. Eduardo Conze, que é escritor famoso sobre o budismo, diz que “o budismo é um pragmatismo dialético que usa métodos psicológicos, usa métodos filosóficos de raciocínio”. Muitas vezes, os discursos de Buda fundamentam-se em perguntas, respostas e raciocínios, sendo, em geral, muito claros. Não se trata de nenhuma crença. Recordo-me também de uma frase corrente no meio zen que diz que “filosofia é como um macaco descascando uma cebola”. Ele procura na cebola um caroço que não existe. E quando a gente descasca uma cebola o que acontece? Lacrimejamos.
 Então, além de descascar uma cebola, procurando um caroço que não existe, a gente ainda chora. Parece que depois de 2600 anos, ou mais, de filosofia, ela ainda não chegou ao seu final. Wittgenstein, talvez o mais brilhante filósofo do século XX, chegou à conclusão de que com palavras, com o instrumento da linguagem, nós não podemos chegar a descobrir a verdade. Ora, essa é uma afirmação muito velha no budismo, que diz que quando nós estamos falando do zen ele não está aqui. Eu estou falando do zen, ele não está aqui. Aqui só estão palavras. Por que os professores falam? Porque é a única coisa que nós temos. 
No oriente há uma atitude que não funciona muito bem no ocidente. Todos vêm, sentam em zazen, tomam chá em silêncio, e “- boa noite”. Mas, no ocidente, não. Eu sou um monge zen ocidental; aqui, todos querem explicações. As explicações são grandes problemas, e basta uma palavra ou uma frase errada para desviamos um aluno para sempre. Então, é muito perigoso falar sobre o zen, é responsabilidade demais. Por isso, é difícil de obter uma autorização para falar ou para ensinar; mesmo entre os monges é assim, os noviços não podem falar, os monges aprendizes não podem falar. O certo é  só aqueles que receberam a transmissão poderem falar. Durante muito tempo, eu falei sem ter a transmissão. Perguntando para meu mestre o que deveria fazer, ele respondeu: “Você tem que atender as necessidades das pessoas, se não houver ninguém, o que vamos fazer?” Mas esse é um grande problema, porque cegos não devem guiar cegos.