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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Incorporações culturais no budismo


P: Nesse sentido então, o Zen como conhecemos hoje, tão direto e não tão místico, mais cético, mais pé no chão, assumiu essa forma na China? Pois o Hinduísmo é mais místico, com deidades, é mais esotérico.

Monge Genshô – Sim, é verdade, o Zen sofreu uma grande influência chinesa. Ele chegou à China perto do ano 600 d.C. com Bodhidharma, muito provavelmente vindo de uma das escolas primitivas do Budismo.

Na época do segundo concílio, 300 anos após a morte de Buda, já se contavam dezoito escolas, a maioria desapareceu. Uma escola que ainda permanece descendendo de alguma daquela época é a Escola Theravada, mas que também é uma escola com incorporações de vários tipos. O Zen, não por acaso, se parece bastante com a Escola Theravada, mas se caracteriza por ter um grande numero de incorporações culturais dos vários lugres por onde passou. Da Índia para a China, depois para o Japão e agora para o ocidente. Nós já temos incorporações culturais ocidentais. Isso que fazemos aqui já é uma incorporação. Pessoas sentadas ouvindo palestra do Dharma já é uma incorporação cultural. Batizados Budistas e casamentos Budistas também são incorporações, pois no Budismo original não existiam. Havia festas de casamento no oriente onde os monges eram convidados, mas iam para comer. Já o batizado de crianças é um fenômeno dos últimos cem anos, totalmente ocidental. Como as famílias querem que haja uma cerimonia para o bebê, criou-se uma “cerimônia do nome” que funciona como se fosse um batizado. Não tem a função de limpar os pecados originais, salvar de uma possível condenação ou evitar que a criança seja pagã, mas satisfaz a todos e deixa todos felizes, que é o que o Budismo deve fazer.


P: Quando há essa adaptação para culturas diferentes, não se perde a essência do propósito para se adequar às pessoas? Não seriam as pessoas que deveriam se adequar ao ensinamento?

Monge Genshô – O ensinamento em si permanece. Estamos falando de adaptações cosméticas. Rituais e cerimônias que originalmente no Budismo não existiam. Foram cerimônias que cada escola foi criando com a função de treinamento. Não vamos sentar à mesa e simplesmente comer, vamos fazê-lo de forma ordenada, com certa delicadeza e profundo respeito, etc. As tradições foram criadas ao longo do tempo pelos mestres, que as vão modificando e adaptando. Mas isso não pode ser feito de forma rápida e pedindo opiniões. Se não cada um diz uma coisa que desejaria ver nas cerimônias.

Uma pessoa vem à Sangha pela primeira vez e diz que não gostou da recitação em língua arcaica. Ele não entendeu nada. Para ter condições de fazer esse tipo de crítica ele teria que ser um praticante de muitos anos. Ele ainda não sabe, não descobriu a essência, está criticando uma recitação que é feita a dois mil anos da mesma forma, passando por diferentes línguas. O ritual foi sendo codificado ao longo de séculos, não podemos jogar fora algo que está sendo feito a mil e duzentos anos da mesma forma. É preciso haver respeito. Por isso as adaptações têm que ser feitas com grande cuidado e muito lentamente.

Há que se separar o que é cultural, o que é útil, o que é meio útil, o que é um meio hábil de ensinamento e o que é simplesmente uma forma que pode ser modificada. Por isso essas modificações só podem ser feitas por mestres autorizados. O pior defeito seria a pressa, ou o julgamento instantâneo de opiniões. Muitas coisas já fazemos em português, esse talvez seja o ponto mais fácil para ser mudado. Agora, mudar roupas, reverências, tradições de muitos séculos como o Rakusu, isso não é simples.

Um dia uma pessoa me disse que não gostava da argola do Rakusu. Essa argola é uma lembrança de um antigo adereço com o qual se prendiam os mantos. Por isso ela foi preservada. Saikawa Roshi disse que tem que ter a argola e não discutimos o que o mestre diz. Quando formos mestres, poderemos dar nossa opinião.