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terça-feira, 27 de maio de 2014

Perdão


Grupo zen em Goiânia

Pergunta – Tudo no Zen é perdoável? No Cristianismo existe a máxima de perdoar setenta vezes sete ou que o perdão é ilimitado. No nosso plano humano existem coisas imperdoáveis.

Monge Genshô – Essa é uma máxima bíblica que diz: “Não perdoe uma pessoa apenas sete vezes, mas sim setenta vezes sete”. Mas este tipo de afirmação com números também acontece nos textos budistas, por exemplo, dizem que Buda deu oitenta e quatro mil ensinamentos. Esse número é apenas uma maneira de dizer “muitos”.  Se remontarmos ao budismo, veremos que não existe um conceito como pecado ou desobediência. Nas religiões teístas existe uma divindade que dá mandamentos e você, ao desobedecê-los, comete um erro passível de ser punido, mas também de ser perdoado por alguém superior à você.

Já no budismo o que existe é o conceito de ação e consequência, que é o carma.  Você comete uma ação que terá consequências inescapáveis, pois não há ninguém que irá perdoá-lo de maneira que você não sofra as consequências. As consequências virão. O que você pode fazer é minimizá-las, tratando de praticar ações que melhorem seu carma, como é o caso de ofender alguém e pedir desculpas, mas sempre fica um resíduo nesse pedido. Em caso de ocorrer uma nova ofensa, a outra pessoa está pronta para responder de forma mais explosiva, ou seja, o carma não é eliminado inteiramente em razão de uma desculpa.

Temos que considerar que o conceito de perdão que limpa, não existe no budismo, mesmo o conceito de pecado inexiste no budismo. Mas no terreno humano, que está por trás desta escritura que você citou, sua capacidade de desculpar tem que ser infinita, porém, o caminho para que ela seja infinita não é “eu perdôo”, mas sim, “eu compreendo realmente como funciona a mente daquele que me ofende e sei perfeitamente que eu também sou assim, que ele e eu somos idênticos”, esse é o caminho da compaixão.

Sem dúvidas um caminho muito difícil, pois muitas vezes simplesmente não aceitamos e por não nos colocarmos no lugar do outro, não o perdoamos. Falamos com muita facilidade de compaixão, mas compaixão com nossos iguais é muito fácil, agora ter compaixão com um criminoso que mata seu filho? Isso é muito difícil.

Pergunta – Porque existem ações com consequências muito graves e outras nem tanto, sendo que são da mesma natureza? Por exemplo, matar um Monge ou como na história do assassino Angulimala, que se tornou Monge.

Monge Genshô – A história de Angulimala, que era um assassino que foi convencido por Buda que poderia mudar, fala que o resgate é sempre possível. Você pode sair do mais profundo erro e tornar-se uma pessoa boa. Porém, Angulimala não escapa da consequência de seus atos. Depois de tornar-se monge, um grupo de pessoas que o odiavam e não o perdoavam pelo mal por ele praticado, se reúnem e lhe batem até quase o matar. Buda lhe diz apenas: “Aguente Angulimala, aguente. Foi você que provocou todo esse ódio”. Certamente durante muitas vidas ainda haverá consequência pelos seus atos. Muitas vezes nos perguntamos porquê uma pessoa que aparentemente é inocente sofre tanto. Talvez não tenha feito nada para merecer o sofrimento nessa vida, mas esse é um carma antigo. Mesmo Buda, uma vez ele se encontrava doente com fortes dores de cabeça e alguém lhe pergunta: ”Mas como que o senhor uma pessoa desperta sofre com dores?” e Buda lhe responde: “Agora, mas em uma vida passada eu matei um peixe e este carma está aqui”.