Mostrando postagens com marcador perdão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador perdão. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Eu pavimento meu caminho
Buda não veio dos céus trazer uma mensagem para nós. Não é isso. O que ele disse que veio ensinar é o Dharma. E o que é o Dharma? O Dharma é a lei, a sabedoria, a compreensão de como funcionam as coisas. Ora, se eu compreendo, então eu tenho que entender qual é a relação entre o meu ato e a sua consequência. Por isso nós estamos falando numa lei de causa e efeito, e não em pecado, regras ou mandamentos. Não é isto. Nós estamos falando: se eu ajo de determinada forma, essa ação vai produzir uma consequência posterior. Essa consequência vai modificar o futuro, ela vai criar um movimento no universo.
E o que é esse movimento que nós criamos no universo com os nossos atos? Vamos chamar aqui, para nossa melhor compreensão, de onda, onda cármica. Não quer dizer que seja uma onda, mas tem certas características que podemos identificar como ondas. Ou seja, ela começa com uma ação e se propaga, e vai continuando e vai produzindo efeitos à medida que anda, isso é o que uma onda faz. Então, a nossa ação produz uma consequência, produz uma onda e esta onda vai provocando consequências contínuas desde que as condições sejam propícias para tanto.
E quando cessam as consequências de uma onda? Ela não cessa. As consequências de uma onda permanecem até que a energia se esgote. E isso então nos dá uma outra perspectiva, que é a perspectiva budista, que é diferente da perspectiva de que “se eu cometer um pecado, este pecado vai causar consequências ou castigos para mim e eu tenho alguém que perdoa e me salva das consequências desse pecado”. O budismo não tem um mecanismo como este, um mecanismo salvador das consequências. O que o budismo diz é: a lógica diz: há efeitos naquilo que nós fazemos. Esses efeitos continuam. Você só pode mudar os efeitos, com novas ações, você não vai poder mudar os efeitos com o perdão. Ninguém vai chegar e perdoar você e dizer: “agora está livre”.
Você chega a um amigo e diz um monte de insultos a ele. Ele fica com raiva de você. Você vai até uma outra pessoa e diz: “pequei. Cometi um pecado contra meu amigo, o insultei e ele está com raiva de mim, o senhor me perdoa, por eu tê-lo insultado?” E essa terceira pessoa diz: “Eu te perdôo”. Do ponto de vista budista isso é uma coisa não funcional. A maneira d´eu diminuir os efeitos da minha ação de insulto, é eu ir lá até aquela pessoa e pedir desculpas, dizer: “eu não quis dizer aquilo daquela forma, eu estava perturbado, irritado, eu estou arrependido, eu quero que VOCÊ me perdoe”. Este perdão do ponto de vista budista é funcional mas não é perfeito, porque ele perdoa você mas, fica um resquício lá. Se você fizer de novo a pessoa dirá: “De novo? Você é a mesma pessoa, não aprendeu nada?” É isso que vai acontecer.
De modo que a ótica budista não é uma ótica com mecânica de interferências externas. Ela todo tempo olha pra dentro de você e vê: Como eu faço? O quê eu faço? Quais são as consequências do que eu faço? E como eu conserto as consequências do que eu fiz? Como eu faço coisas melhores para compensar as coisas ruins que eu fiz no passado? Eu só posso pavimentar o caminho onde eu ando, através das minhas ações, eu não vou pavimentar o caminho que eu ando através de interferências externas.
(Início de palestra pública em Goiânia, será publicada em partes)
terça-feira, 27 de maio de 2014
Perdão
Grupo zen em Goiânia
Monge Genshô – Essa é uma máxima bíblica que diz: “Não perdoe uma pessoa apenas sete vezes, mas sim setenta vezes sete”. Mas este tipo de afirmação com números também acontece nos textos budistas, por exemplo, dizem que Buda deu oitenta e quatro mil ensinamentos. Esse número é apenas uma maneira de dizer “muitos”. Se remontarmos ao budismo, veremos que não existe um conceito como pecado ou desobediência. Nas religiões teístas existe uma divindade que dá mandamentos e você, ao desobedecê-los, comete um erro passível de ser punido, mas também de ser perdoado por alguém superior à você.
Já no budismo o que existe é o conceito de ação e consequência, que é o carma. Você comete uma ação que terá consequências inescapáveis, pois não há ninguém que irá perdoá-lo de maneira que você não sofra as consequências. As consequências virão. O que você pode fazer é minimizá-las, tratando de praticar ações que melhorem seu carma, como é o caso de ofender alguém e pedir desculpas, mas sempre fica um resíduo nesse pedido. Em caso de ocorrer uma nova ofensa, a outra pessoa está pronta para responder de forma mais explosiva, ou seja, o carma não é eliminado inteiramente em razão de uma desculpa.
Temos que considerar que o conceito de perdão que limpa, não existe no budismo, mesmo o conceito de pecado inexiste no budismo. Mas no terreno humano, que está por trás desta escritura que você citou, sua capacidade de desculpar tem que ser infinita, porém, o caminho para que ela seja infinita não é “eu perdôo”, mas sim, “eu compreendo realmente como funciona a mente daquele que me ofende e sei perfeitamente que eu também sou assim, que ele e eu somos idênticos”, esse é o caminho da compaixão.
Sem dúvidas um caminho muito difícil, pois muitas vezes simplesmente não aceitamos e por não nos colocarmos no lugar do outro, não o perdoamos. Falamos com muita facilidade de compaixão, mas compaixão com nossos iguais é muito fácil, agora ter compaixão com um criminoso que mata seu filho? Isso é muito difícil.
Pergunta – Porque existem ações com consequências muito graves e outras nem tanto, sendo que são da mesma natureza? Por exemplo, matar um Monge ou como na história do assassino Angulimala, que se tornou Monge.
Monge Genshô – A história de Angulimala, que era um assassino que foi convencido por Buda que poderia mudar, fala que o resgate é sempre possível. Você pode sair do mais profundo erro e tornar-se uma pessoa boa. Porém, Angulimala não escapa da consequência de seus atos. Depois de tornar-se monge, um grupo de pessoas que o odiavam e não o perdoavam pelo mal por ele praticado, se reúnem e lhe batem até quase o matar. Buda lhe diz apenas: “Aguente Angulimala, aguente. Foi você que provocou todo esse ódio”. Certamente durante muitas vidas ainda haverá consequência pelos seus atos. Muitas vezes nos perguntamos porquê uma pessoa que aparentemente é inocente sofre tanto. Talvez não tenha feito nada para merecer o sofrimento nessa vida, mas esse é um carma antigo. Mesmo Buda, uma vez ele se encontrava doente com fortes dores de cabeça e alguém lhe pergunta: ”Mas como que o senhor uma pessoa desperta sofre com dores?” e Buda lhe responde: “Agora, mas em uma vida passada eu matei um peixe e este carma está aqui”.
Marcadores:
ação,
Angulimala,
Buda,
budismo,
carma,
compaixão,
consequências,
desculpar,
dor. cabeça,
peixe,
perdão,
punição,
zen
segunda-feira, 10 de março de 2014
Quem sou se tirar o "eu" ?
Aluno - Porquê?
Monge Genshô - Porque o “eu” é muito nítido, muito forte, você abre os olhos e vê os outros. Você tem ouvidos e ouve sons. E você pensa “Ah, isso sou eu!” Isso não é você, isso são sons, é a visão, são os cheiros. Porque você pensa que é o que ouve, o que vê, o que cheira, o que prova. Nós pensamos que nossa mente somos nós mesmos, essa conformação mental é nossa consciência, esse que pensa como Descartes “Penso, logo existo”. Eu penso, logo eu existo. Não é isso. Eu penso, só penso. Esse pensar não fez um “eu”. Assim como a chuva que cai não faz nada, não faz um “eu”. Nós pensamos, só pensamos. Esse pensar nos atrapalha, cria a ilusão de um “eu”. Por isso sentamos e tentamos fazer com que nossa mente se acalme. Porque quanto mais ela cogita, mais ela se agarra à sua identidade e tem medo que sua identidade desapareça. Tem tanto medo que a identidade desapareça que cria fantasias religiosas. “Eu vou continuar para sempre, eu tenho uma alma eterna. Quem morre não sou eu, é só o corpo, eu continuo depois.” Vemos isso nos desenhos animados. Tom, o gato, morre e a alma dele vai saindo do corpo e ele consegue agarrá-la pelo rabo e a puxa de volta. Nós criamos essas fantasias mas não existe uma alma eterna. Nós somos o movimento da vida. Nós somos eternidade. Nós temos continuidade sim, há continuidade, não há com ir embora. A morte é uma ilusão.
Pergunta - Então porque a vida inventou o pensamento?
Monge Gensho – A vida não inventou o pensamento. O pensamento é só uma função da vida. Porque as plantas fazem fotossíntese? É uma função das plantas fazerem fotossíntese. Porque nós temos sentido, os nossos sentidos nos dão informações, eu toco e percebo, esse contato produz uma sensação, essa sensação viaja pelos meus nervos até meu cérebro e assim eu tenho uma percepção – “Ah, o braço da cadeira” – essa percepção junto com outras percepções faz as formações mentais, porque eu tenho percepções mentais eu crio uma consciência que diz – “Eu sinto o braço da cadeira” – preciso do “eu” para sentir o braço da cadeira, não é que o “eu” seja uma coisa inútil, precisamos dele para viver, caso contrário não posso falar, me movimentar, fazer as coisas. Só que confundo o “eu” com minha verdadeira natureza. Minha verdadeira natureza não é o “eu”. Minha verdadeira natureza é a unidade de toda a vida. A minha verdadeira natureza não é contato, percepção, sensação, formação mental consciência. O “eu” é construído com esses sentidos, agora, se eu tirar isso, o que resta? É por isso que os homens inventaram as religiões, porque eles ficam apavorados com essa sensação, “meu eu irá desaparecer, eu sou o meu eu”! “Quem eu sou se tirar o eu”? Então surge a angústia, a angústia da morte, porque todos percebem que os corpos se desfazem, a gente morre, e a gente quer que o “eu” continue.
Por isso criamos as histórias de paraísos, reencarnações, almas eternas. Nós queremos uma solução para todas as coisas da vida. Então as religiões mais bem sucedidas são as que apresentam uma solução mais bem acabada, mais fácil. Imaginem, a religião mais popular no nosso meio que é o cristianismo, nos trouxe um conceito que no evangelho Cristo não ensina, mas que é criado depois por seus sucessores, principalmente Paulo - a idéia de um Deus que veio à terra, que é um salvador e que carrega os pecados do mundo. Isso resolve todo problema cármico, porque eu não pago mais pelos meus pecados, há um salvador que paga para mim. Se eu fiz algo errado se eu matei, mas me arrependo, vem um salvador paga pelos meus pecados e eu não preciso pagar as conseqüências, então eu retiro o carma, pois tem um salvador para pagar por mim.
Isso retirou dos homens a culpa, porque o pecado tem perdão, tem um salvador, tem um redentor. Vejam que isso é uma solução muito bem sucedida, pois com isso, você está liberto de todas as consequências, de todos os seus pecados, vai para o paraíso ser feliz para sempre, para toda a eternidade. Nunca mais nenhuma morte, para sempre, pela eternidade sem fim sempre com um eu, minha alma pessoal junto da divindade. É a solução, tudo resolvido.
Uma solução dessa tornou-se muito popular e é muito mais sucedida que as religiões que a antecederam, que não tinham soluções assim. Haviam os deuses do império romano ou grego, que eram seres humanos que maltratavam homens e as pessoas ficavam submetidas aos desejos desses deuses que eram não racionais ou não bondosos, você era joguete dos deuses, era uma solução falha. E o cristianismo tem todo o mérito de viver com uma solução assim que tudo resolve. Mas o budismo não tem essas soluções. A idéia do Zen budismo é: vou tirar todos os tapetes e bengalas nos quais você se apóia. Não há nenhum salvador e não há perdão, o que você fez tem conseqüências e essas conseqüências são inescapáveis, não há ninguém lá fora para socorrer você.
O budismo diz que você está enganado quando pensa que você é um “eu”. Você é muito mais que isso, se você sair desse enredamento, você se liberta. O dedo do budismo aponta para liberdade, para o despertar. Mas ele exige grande esforço, nada virá de graça, através de uma concessão divina ou intervenção de alguém, então você tem que trabalhar para se libertar. É o que a gente faz no sesshin. Não existe um caminho fácil no budismo, todo ele tem esforço. E não existe nenhuma promessa de fé ou qualquer coisa assim, não existe mágica no budismo.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Quem realmente nos engana
(continuação)
Mas nós adultos também nos perdemos, não vemos a vida com clareza porque não percebemos que a morte ilumina a vida. Se nós colocássemos as coisas numa perspectiva de que “vou morrer em uma semana”, o que é relevante agora? O que eu realmente faria, o que seria importante? Aí as coisas ganhariam uma perspectiva diferente. Percebemos que pessoas que passam por experiências mais radicais de vida, como o anuncio de uma doença grave, podem passar a ver a vida com mais clareza depois, porque ela se esvazia das coisas minúsculas, das coisas que não tinham importância.
Quando as pessoas estão no leito de morte, perdoam todo mundo. É frequente estar lá e não ter mais importância a briga que eu tive com meu irmão por causa de um terreno ou de uma herança, aquilo não tem mais importância, porque o que eu quero, morrendo, é me reconciliar com meu irmão. É comum ouvir um médico dizer que ele vê no leito de morte as pessoas se importarem com isso, com as reconciliações e não mais com as coisas, porque eles não levarão as coisas. É claro que haverão aqueles que estão morrendo e pensarão que vão levar e ficam desesperados em como fazer para levar as suas coisas.
Li um conto uma vez de um homem que era muito rico e pediu para ser jogado no mar, então ele mesmo preparou seu caixão. Ninguém sabia o que ele havia feito da sua fortuna. E no conto eles decifram o que ele fez. Pegou todo seu dinheiro e comprou platina, que é mais caro que ouro, e fez seu caixão de platina. Sem que ninguém soubesse do que era feito o caixão, ele foi jogado ao mar com todo seu dinheiro. Isso pode acontecer. Mas isso conduz a um renascimento com o mesmo tipo de angústia, mas sem a platina. Vai ter que acumular e procurar de novo e pode repetir isso mil vidas sem nunca se libertar. Então, o que é o acordar? O que é a iluminação? A iluminação é o despertar de um sonho. Nós estamos mergulhados em um sonho, o sonho de nossa identidade. Eu acho que sou “eu”, estou me importando com as coisas de “eu” aqui e agora. Não estou enxergando a unidade de todas as coisas, a interconexão, o fato de que todas as coisas e eu somos um. Como não enxergo isso, então estou sonhando e esse sonho do “eu” que tanto amamos, da nossa identidade pessoal, é nossa perdição. Por isso que quando Buda se ilumina ele diz para o vulto dele mesmo “tu não me enganas mais”! Porque quem nos engana somos nós mesmos.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Saber que se estava errado
Pergunta: Sobre esse monge que sumiu, será que ele não viu que estava errado, ficou com vergonha e foi embora?
Monge Genshô - Os sutras não explicam. Os sutras são muito severos com Devadhata. Infelizmente, se você prestar bastante atenção na história da humanidade, olhe os homens deste século, que criaram grandes tragédias e te perguntarei se alguns deles deixou algum documento dizendo que se arrepende, que estava errado. Hitler deixou? Pol Pot, no Camboja, que conseguiu matar um terço da população de seu país, deixou? Stalin deixou? Franco deixou? Nenhum disse que estava errado. Nem os terroristas brasileiros que mataram pessoas, espalharam bombas etc, eles também não pensam que estavam errados. Por outro lado, os torturadores, os militares que mataram e torturaram os terroristas, também não me lembro deles dizendo que estavam errados. Todo mundo estava certo. Todo mundo “pensa” que estava certo. Os terroristas diziam que lutavam pela liberdade. Na verdade, lutavam para criar outro tipo de ditadura. Os militares diziam que estavam lutando numa guerra contra subversivos, que queriam derrubar o governo, que era uma ditadura. Os dois lados foram criminosos. Mas não li nenhum texto de nenhum deles até agora dizendo – “eu estava errado”. Minto, acho que Fernando Gabeira disse que estava errado. Mas é uma exceção. É interessante essa pergunta, porque é difícil as pessoas dizerem – “Eu estava errado na minha opinião, eu escravizei meu povo”. Você acredita que Kadafi vá dizer que está errado por que provocou uma guerra civil e não quer renunciar? Ou Assad? Ou Ahmadinejad no Irã que provavelmente roubou as eleições e depois esmagou os protestos de seu povo? Todos eles se consideram certos.
Aluno: É que com relação a este monge, eu pensei que uma pessoa que tem convívio com um mestre, sabedoria, conhecimento, geralmente essas pessoas não vêem outros lados, normalmente quem vive no mosteiro vê vários lados diferentes.
Monge Genshô – Deveria...
Aluno – E esses conquistadores só olham para a frente, não olham para os lados e nem para trás, vão em frente conquistando, conquistando...
Monge Gensho - Nós temos muitas esperanças nos monges porque estão lá e lêem os textos. Mas nós também aqui na Sangha vamos ali, fazemos cerimônia e lemos os textos. Você toma refúgio no Buda, no Dharma e na Sangha, você diz que a Sangha é o lugar da harmonia, você faz as cerimônias dizendo essas coisas.
Quando olhamos a história do Cristianismo, não era a religião do amor e da compaixão? Mas é a religião que fez as cruzadas. Quantas e quantas vezes os religiosos abençoaram canhões? E cada um dos lados dizia – “Deus está do nosso lado”. Mesmo você lendo textos, o que eu quero dizer é que dentro dos mosteiros você vai encontrar homens. Eles lêem, repetem as coisas. Eu estou dizendo, não estou dizendo? Então no dia que vocês perderem a paciência com os outros, vocês dirão – “Ah, o monge disse isso, mas está acontecendo assim”. E se um dia vocês me virem perdendo a paciência vocês dirão – “Ah pois é, o monge sabe, mas”... Entre saber e fazer certo, há uma certa distância.
O monge saberia...mas a história não tem mostrado isso. Vocês já ouviram uma passagem chamada “O Remorso”, de um poema de Guerra Junqueiro "A Caridade e a Justiça"? Ele imagina Judas. E Judas vai fugindo pelo caminho, depois da prisão de Cristo e encontra um vulto de gigante e Judas lhe pergunta - Quem és tu?
"Convulso de terror, fugiu... Mas nesse instante
Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante,
Que bradou:
-É chegado enfim o teu castigo!
O traidor teve medo e balbuciou:
-Amigo, que pretendes de mim? Dize, por quem esperas? Quem és tu?
-“O Remorso, um caçador de feras
Disse o gigante. Eu ando há mais de seis mil anos
A caçar pelo mundo as almas dos tiranos,
Do traidor, do ladrão, do vil, do celerado;
E depois de as prender tenho-as encarcerado
Na enormíssima jaula atroz da expiação.
E quando eu entro ali na imensa confusão
De tigres, de leões, d’abutres, de chacais,
De rugidos febris e de gritos bestiais,
Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto:
Caim baixa a pupila e vai deitar-se a um canto.
E quando em suma algum dos monstros quer lutar
Azorrago-o com a luz febril do meu olhar,
Dando-lhe um pontapé, como num cão mendigo.
Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!”
Então Judas pega o dinheiro e dá para ele. E o Remorso lhe diz - “Não, não Judas, guarda esse ouro, guarda que eu quero derretê-lo e pingar-to gota a gota na tua consciência pútrida e execrável durante toda a eternidade ilimitada e calma, vem Judas, anda comigo”.
Todos os crimes têm dentro de si sua própria tortura e castigo. Isso é a própria lei do carma. No final do poema Cristo fala com ele e o perdoa, e Judas diz – “Não quero teu perdão, sou mais justo do que tu” - e enforca-se. Mesmo naquele momento, se julgava mais certo, mais justo do que Cristo.
Talvez Devadhata tenha a mesma idéia – “Sou mais certo e mais justo” – e talvez todos esses que a gente vê, esses homens que nós estamos vendo hoje matando seus próprios concidadãos, são pessoas que se julgam certos, mais justos que os outros, esse é um grande problema.
Marcadores:
Ahmadinejad,
arrependimento,
Assad,
budismo,
Devadhatta,
erro,
esmagar,
Guerra Junqueiro,
Hitler,
Judas,
Kadafi,
Mao,
mosteiro,
perdão,
Pol Pot,
povo,
reconhecimento,
remorso,
Stalin,
zen
segunda-feira, 25 de março de 2013
Sem lembrar do passado
É como encontrar um inimigo na rua, um inimigo do passado, mas com uma mente nova que surgiu da prática, olhar para o inimigo e ver apenas um ser por quem você sente compaixão, afeto e que no fundo é você mesmo, você sente isso. Olhar para essa pessoa e ter todos esses sentimentos de irmandade perfeita, de unicidade perfeita, sem nenhum sentimento de ódio, nenhum mau sentimento. É claro, nossa maneira de sorrir e cumprimentar parece absurda e incompreensível para aquela pessoa, mas seu sentimento é puro, completamente puro, não está conspurcado por pensamentos quaisquer de aversões que você cultivou.
Se você conseguir ter essa visão das pessoas com quem você teve algum atrito ou qualquer sentimento negativo, então aí você esta realmente conseguindo ser um praticante Zen. Caso contrario você será apenas alguém brincando de fazer meditação. Senta e quando está sentado pensa – Eu ainda me vingo. O que você tem que fazer? Olhar essa mente de dizer – Por que é que eu me perturbo, porque é que me incomodo com essa pessoa? De onde vem isso? Você irá descobrir que vem de sua vaidade, seu apego, da sua possessividade, do seu desejo de retaliar, quaisquer desses sentimentos menores todos baseados numa única pedra fundamental, a pedra do ego, do egoísmo, do eu separado. Eu não sou o outro, não compreendo o outro, não perdôo o outro, não tenho compaixão pelo outro etc.
Noto que as pessoas tem grande amor, sentem amor por filhotes de animais, são inocentes, não agressivos, são carinhosos, todos querem pegar filhotinhos de cães e gatos. Mas basta que eles tenham algo mais, uma personalidade qualquer ou se tornem adultos que isso desaparece, porque passam a ser ameaçadores para nossos próprios egos. Nossos egos não querem egos que venham a competir conosco. Somos carinhosos com quem é muito frágil, mas não com aqueles que são como nós. Nossos desafetos são sempre pessoas como nós, em quem nós vemos alguma rivalidade. Aí que estão as manifestações de nosso ego. A verdadeira prática é a modificação dessas atitudes, desses pensamentos.
Marcadores:
apego,
budismo,
compaixão,
ego,
inimigos,
inocentes,
lembrar,
passado,
perdão,
perturbação,
praticante,
rivalidade,
sentimento,
vaidade,
zen
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
As sementes do carma
Um dos melhores símiles a respeito de como o carma funciona é a símile da semente. A palavra em sânscrito para impregnar e permear é Vachana. Imaginemos como se faz um chá de jasmim. Colocamos flores de jasmim dentro de uma caixa misturado com folhas de chá, e deixamos durante semanas. Desta forma o perfume do jasmim impregna as folhas de chá e quando vamos tomar o chá ele possui perfume de jasmim. Quando cultivamos energia de hábito, esses hábitos integram a nossa vida e impregnam sementes, essas sementes dentro de nós ficam aguardando o momento propício para despertar.
Nós temos sementes de todas as nossas existências ou existências de toda a humanidade, não importa, não importa muito o que pensamos a esse respeito, o que importa é que dentro de nós existem sementes guardadas prontas para despertar. Existem dentro de cada um de nós, sementes de raiva e sequer imaginamos isso. Habituamo-nos a praticar bondade, cultivar pensamentos de compaixão, amorosidade, perdão. Mas um dia alguém vai lá e diz a palavra certa. Muitas vezes as pessoas com quem se convive muito, a família, os cônjuges, aprendem exatamente o que fere. E nesse momento em que a palavra certa é dita, a raiva explode, surge. E pensávamos que estava adormecida, estava, mas era como uma semente em uma terra seca que ao colocarmos água brota. Quanto mais água e adubo colocarmos, quanto mais cuidarmos da semente, mais a arvore cresce, fica forte e poderosa.
As sementes da raiva são consideradas no budismo como as piores, o pior veneno da mente. Quando ela desperta pode destruir o mundo em sua volta. Como vemos no oriente médio hoje em dia. Cultivamos muitas sementes de raiva, ódio e diferença. Dia destes um amigo me escreveu, “Por que os judeus são isso e aquilo outro, os árabes, sunitas e alauítas, vivem brigando por que uns invadem as terras dos outros e etc”. na Síria hoje (2012) nós temos alauítas, sunitas e cristãos e todos tem medo uns dos outros, e esse medo faz com que nenhum deseje que o outro assuma o poder. Esse medo gera uma guerra civil. Matam. Isso cria raiva, ressentimento, ódio. Mais medo. Mais raiva, mais ressentimento e mais ódio. E isso não tem fim, só cresce. E nos perguntamos como podem há tantos séculos estarem brigando? Esse ódio vai sendo passado de geração em geração, onde são narrados os casos de assassinatos dos avós, irmãos, tios e pais, construindo assim uma mente vingativa. Como a única maneira de resolver as coisas que eles enxergam é através da vingança e da vitória final com a aniquilação dos oponentes, e como essa aniquilação nunca é conseguida, o ódio e a raiva nunca tem fim.
Marcadores:
amorosidade,
budismo,
carma,
compaixão,
cristãos,
cultivar,
existências,
ferir,
guerra,
impregnar,
pensamentos,
perdão,
perfume,
permear,
raiva,
Síria,
vingança,
zen
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Tempos de reconciliação
Havendo oportunidade, olhe em volta, se fossem seus últimos dias que reconciliações seriam possíveis?
Que sentimentos tolos do passado poderiam ser removidos? Que cargas cármicas de cisão, de divisão, de desamor poderiam ser elididas? Que medos e temores vindos de nossas fantasias se mostraram apenas o que são, criações mentais sem base na realidade, ilusões? Onde nossos julgamentos apressados se mostraram falsas tempestades, boatos com a consistência das histórias de fim de mundo, destruidoras da harmonia, principal coisa a ser defendida nas comunidades? Abra seus braços, e sem abandonar os princípios que escolheu para sua vida, os preceitos budistas, as regras de compaixão, tolerância, paciência, alegria, reverência, deixe que a reconciliação impere e o perdão seja o mote para guiar as reconciliações humanas.
Marcadores:
ano,
boatos,
budismo,
carma,
cisão,
compaixão,
desamor,
erro,
esquecimento,
fim,
final,
harmonia,
injustiças,
mágoas,
perdão,
reconciliação,
sentimentos,
tolerância,
zen
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Arrependimento
P: O arrependimento mental sem as três prostrações é válido ? Ou tem que haver esta junção ?
Há a necessidade de verbalizarmos esse arrependimento para as pessoas em questão ?
R: Rituais ajudam sua mente, não se trata de validade ou não, eles não expiam suas culpas ou anulam o mal feito. O que tentamos ao falar com as pessoas ao tentar consertar um mal é modificar o carma envolvido, tudo que for feito neste sentido ajudará a mudar as consequências de nossos atos.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Judas e Devadatta


Os líderes espirituais partilham um acontecimento de oposição que parece ser um arquétipo humano. Nas figuras acima, em cores, Devadatta, primo de Buddha, seu discípulo e admirador e que, tomado de inveja pela proeminência, que mesmo sem desejar, por simplesmente trabalhar, o Mestre acumula, tenta fundar sua própria Sangha em oposição a Buddha. Por todos os meios de conversas, acusações falsas e intrigas, consegue levar um grupo de monges que nele acreditam. Ao fim, tenta matar o mestre, fracassa e é abandonado por todos, conta a lenda que a terra o engole, mas os sutras deixam-lhe a esperança de, após muito sofrimento, retornar após kalpas e vir a se tornar um verdadeiro líder espiritual, esgotado o carma de traição.
Na outra figura Judas, antes de seu suicídio, uma figura escura, arrasado por ter se lançado contra o mestre a quem havia amado a princípio. Diferentemente da abordagem budista o castigo de Judas é eterno e sem remissão.
Gandhi, Martin Luther King, Hui Neng, o 14' Dalai Lama, todos sofrem ou sofreram esse ódio mesclado de amor ressentido, que às vêzes resultou em assassinato. As características comuns deste arquétipo são:
1) No início uma idolatria, um culto apaixonado.
2) Após, o surgimento de uma inveja, um desejo de ser aquele ser por qualquer meio, ou substituí-lo ou destruí-lo.
3) Paulatinamente o uso de meios crescentes, imitação, depois intrigas ou tentativa de reunir aliados com sentimentos iguais.
4) Fracasso, seguido de recrudescimento do ódio até o assassinato ou arrependimento quando tudo dá errado e o carma produz desastres pessoais, auto destruição e integração à história como seres de opróbrio público.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Conselho aos que recebem insultos
Do Lama Karma Zopa Norbu, da Escola Shangpa Kagyu, aconselhando um amigo que ouviu insultos:
- Tenha paciência, siga no Dharma, não se abale, perdoe.
É um conselho útil para todas as situações em que flechas são atiradas. Buda antes de sua iluminação viu miríades de flechas sendo lançadas pelos exércitos do mal. Devido à sua mente em iluminação elas se transformavam em flores.
Assinar:
Postagens (Atom)






