Mostrando postagens com marcador peixe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador peixe. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Você pensa por isso pensa que existe


Pergunta – O senhor pode falar mais um pouco sobre forma e vazio?

Monge Genshô – Forma é vazio e vazio é forma. Todas as coisas são vazias de um “eu”, não no sentido de não terem nada dentro, mas sim que não possuem um “eu” inerente. Todos somos vazios de um ”eu” inerente, mas nos manifestamos como pessoas. Toda a forma é vazia, mas se tirarmos a forma não sobra nenhum vazio, não existe algo que resta, pois a forma é vazio e vazio é forma.

Pergunta – Sobre o momento de estar presente. O pensamento sempre vem e nos leva junto. Depois de algum tempo é possível ficar presente sem ser levado pelos pensamentos? É possível segurar os pensamentos e não deixar que eles nos arrastem?

Monge Genshô – Porque você acha que é diferente de seu pensamento? Você e seu pensamento são uma única manifestação. Você só pensa que é você porque pensa. Você pensa por isso pensa que existe, Descartes estava enganado.

Pergunta – Então um peixe não sabe que existe?

Monge Genshô – Exatamente por isso, porque não sabe, é que ele está presente. Aquele que pensa que sabe não está presente, pois está pensando. “Os peixes são verdadeiramente peixes, pássaros são verdadeiramente pássaros, somente os homens não são verdadeiramente homens”.

Pergunta – É verdadeiro dizer que o Zen tem uma espécie de aversão à razão?

Monge Genshô – Pode, mas não significa que você esteja certo.

Pergunta – Uma vez que já somos e apenas não percebemos que somos, o despertar não é algo que tenha que ser atingido, mas sim realizado. Se já somos e já estamos onde deveríamos estar, não há nada a ser feito que demande tempo, pois o tempo e o espaço também são uma ilusão. Certo?

Monge Genshô – Já estamos, de certa maneira, despertos. Todos temos a condição de despertar. Podemos dizer que todos somos Budas e, apenas ainda não o somos completamente, porque ainda estamos vivendo num mundo de sonhos, um sonho muito nítido que nos ilude. A vida é um sonho nítido.

Pergunta – Se um peixe não sabe que existe e por isso é um desperto, ele se compara a um Buda? Existe uma semelhança?

Monge Genshô – Embora o peixe não esteja perdido, tem a obscuridade de um animal, lhe faltam sabedoria e clareza. O homem ganha o pensamento e o raciocínio e neles se perde. Perde a vida, o momento presente e tem medo da morte. Por isso não é um iluminado, mas quando um homem desperta, sua clareza ilumina o universo inteiro. Todo o universo que ele olha se ilumina junto.

Pergunta – Quando um animal se vê ameaçado, rapidamente foge. De certa maneira tem um medo instintivo que o alerta. Também possuímos esse medo, com a diferença que vivemos agarrados a ele. Um animal através desse sentimento, pode também ter um sentimento egóico, ou temos o mesmo sentimento deles, pois também possuímos um mundo animal dentro de nós?

Monge Genshô – Nós somos animais também, apenas gostamos de pensar que somos especiais. Não somos nada além de um primata que evoluiu um pouco mais e tem um cérebro melhor. Mas também porque pensamos, temos uma angústia existencial, pois descobrimos que vamos morrer. Essa é a essência da angústia humana. Foi esse questionamento que levou Buda a abandonar o palácio onde vivia e se perguntar - “Por que existe velhice, doença e morte”? Qual é o sentido da vida? Somos diferentes dos animais porque temos essa percepção do futuro que nos aguarda - velhice, doença e morte - e exatamente por isso sofremos. Por isso os homens criaram as religiões, pois querem escapar desta angústia, por isso procuram crenças. O Zen é a oportunidade de destruir as crenças, não existe no Zen qualquer tipo de dogma, é como disse Buda: “Não acreditem em mim, testem”.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Perdão


Grupo zen em Goiânia

Pergunta – Tudo no Zen é perdoável? No Cristianismo existe a máxima de perdoar setenta vezes sete ou que o perdão é ilimitado. No nosso plano humano existem coisas imperdoáveis.

Monge Genshô – Essa é uma máxima bíblica que diz: “Não perdoe uma pessoa apenas sete vezes, mas sim setenta vezes sete”. Mas este tipo de afirmação com números também acontece nos textos budistas, por exemplo, dizem que Buda deu oitenta e quatro mil ensinamentos. Esse número é apenas uma maneira de dizer “muitos”.  Se remontarmos ao budismo, veremos que não existe um conceito como pecado ou desobediência. Nas religiões teístas existe uma divindade que dá mandamentos e você, ao desobedecê-los, comete um erro passível de ser punido, mas também de ser perdoado por alguém superior à você.

Já no budismo o que existe é o conceito de ação e consequência, que é o carma.  Você comete uma ação que terá consequências inescapáveis, pois não há ninguém que irá perdoá-lo de maneira que você não sofra as consequências. As consequências virão. O que você pode fazer é minimizá-las, tratando de praticar ações que melhorem seu carma, como é o caso de ofender alguém e pedir desculpas, mas sempre fica um resíduo nesse pedido. Em caso de ocorrer uma nova ofensa, a outra pessoa está pronta para responder de forma mais explosiva, ou seja, o carma não é eliminado inteiramente em razão de uma desculpa.

Temos que considerar que o conceito de perdão que limpa, não existe no budismo, mesmo o conceito de pecado inexiste no budismo. Mas no terreno humano, que está por trás desta escritura que você citou, sua capacidade de desculpar tem que ser infinita, porém, o caminho para que ela seja infinita não é “eu perdôo”, mas sim, “eu compreendo realmente como funciona a mente daquele que me ofende e sei perfeitamente que eu também sou assim, que ele e eu somos idênticos”, esse é o caminho da compaixão.

Sem dúvidas um caminho muito difícil, pois muitas vezes simplesmente não aceitamos e por não nos colocarmos no lugar do outro, não o perdoamos. Falamos com muita facilidade de compaixão, mas compaixão com nossos iguais é muito fácil, agora ter compaixão com um criminoso que mata seu filho? Isso é muito difícil.

Pergunta – Porque existem ações com consequências muito graves e outras nem tanto, sendo que são da mesma natureza? Por exemplo, matar um Monge ou como na história do assassino Angulimala, que se tornou Monge.

Monge Genshô – A história de Angulimala, que era um assassino que foi convencido por Buda que poderia mudar, fala que o resgate é sempre possível. Você pode sair do mais profundo erro e tornar-se uma pessoa boa. Porém, Angulimala não escapa da consequência de seus atos. Depois de tornar-se monge, um grupo de pessoas que o odiavam e não o perdoavam pelo mal por ele praticado, se reúnem e lhe batem até quase o matar. Buda lhe diz apenas: “Aguente Angulimala, aguente. Foi você que provocou todo esse ódio”. Certamente durante muitas vidas ainda haverá consequência pelos seus atos. Muitas vezes nos perguntamos porquê uma pessoa que aparentemente é inocente sofre tanto. Talvez não tenha feito nada para merecer o sofrimento nessa vida, mas esse é um carma antigo. Mesmo Buda, uma vez ele se encontrava doente com fortes dores de cabeça e alguém lhe pergunta: ”Mas como que o senhor uma pessoa desperta sofre com dores?” e Buda lhe responde: “Agora, mas em uma vida passada eu matei um peixe e este carma está aqui”.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Por sabermos nos perdemos


1) De certo modo, uma ave que é simplesmente uma ave, está mais próxima de sua natureza búdica do que os seres humanos?

Monge Genshô – Por não saber de si mesma está.  Por sabermos de nós mesmos, nos perdemos. Imaginem que fôssemos pássaros. Se eu fosse um pássaro, chegasse à beira do ninho e pensasse, “nunca voei, mas posso voar”, teria um grande medo. Pelo fato de pensar no vôo e na queda, teríamos medo. Uma águia na beira do ninho não pensa, e por isso alça vôo.

Estava ouvindo um concerto de “Rachmaninof”, o concerto numero três, que é um dos concertos mais difíceis de ser executado, é uma espécie de terror dos pianistas. Extremamente complexo com uma tempestade de notas. Quando prestamos atenção no terceiro movimento e vemos as mãos voando no teclado, logo entendemos que não pode haver um pensamento por trás. Se em algum momento o pianista pensar na próxima nota, é impossível tocar.

Há uma piada Zen em que alguém pergunta para uma centopeia: “Qual é a perna que você mexe primeiro”? Desde então ela não conseguiu mais andar. Isso está presente em nossas vidas o tempo todo. Mesmo que não prestemos atenção, pode aparecer alguém com uma crise de ansiedade e dizer que tem medo de esquecer-se de respirar, coisa que uma pessoa sadia não pensaria. A mesma coisa acontece com uma pessoa que, ao deitar-se, deseja ficar bem atento ao exato momento em que irá adormecer. Há este momento em que acontece uma mudança no cérebro e a pessoa adormece, se você prestar muita atenção não irá dormir, porque para dormir precisa esquecer. Em geral estamos perdidos e não conseguimos viver completamente, em razão desta questão. Então a resposta é sim, o pássaro está mais perto porque não sabe.