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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Eu pavimento meu caminho


Buda não veio dos céus trazer uma mensagem para nós. Não é isso. O que ele disse que veio ensinar é o Dharma. E o que é o Dharma? O Dharma é a lei, a sabedoria, a compreensão de como funcionam as coisas. Ora, se eu compreendo, então eu tenho que entender qual é a relação entre o meu ato e a sua consequência. Por isso nós estamos falando numa lei de causa e efeito, e não em pecado, regras ou mandamentos. Não é isto. Nós estamos falando: se eu ajo de determinada forma, essa ação vai produzir uma consequência posterior. Essa consequência vai modificar o futuro, ela vai criar um movimento no universo.

E o que é esse movimento que nós criamos no universo com os nossos atos? Vamos chamar aqui, para nossa melhor compreensão, de onda, onda cármica. Não quer dizer que seja uma onda, mas tem certas características que podemos identificar como  ondas. Ou seja, ela começa com uma ação e se propaga, e vai continuando e vai produzindo efeitos à medida que anda, isso é o que uma onda faz. Então, a nossa ação produz uma consequência, produz uma onda e esta onda vai provocando consequências contínuas desde que as condições sejam propícias para tanto.

E quando cessam as consequências de uma onda? Ela não cessa. As consequências de uma onda permanecem até que a energia se esgote. E isso então nos dá uma outra perspectiva, que é a perspectiva budista, que é diferente da perspectiva de que “se eu cometer um pecado, este pecado vai causar consequências ou castigos para mim e eu tenho alguém que perdoa e me salva das consequências desse pecado”. O budismo não tem um mecanismo como este, um mecanismo salvador das consequências. O que o budismo diz é: a lógica diz: há efeitos naquilo que nós fazemos. Esses efeitos continuam. Você só pode mudar os efeitos, com novas ações, você não vai poder mudar os efeitos com o perdão. Ninguém vai chegar e perdoar você e dizer: “agora está livre”.

Você chega a um amigo e diz um monte de insultos a ele. Ele fica com raiva de você. Você vai até uma outra pessoa e diz: “pequei. Cometi um pecado contra meu amigo, o insultei e ele está com raiva de mim, o senhor me perdoa, por eu tê-lo insultado?” E essa terceira pessoa diz: “Eu te perdôo”. Do ponto de vista budista isso é uma coisa não funcional. A maneira d´eu diminuir os efeitos da minha ação de insulto, é eu ir lá até aquela pessoa e pedir desculpas,  dizer: “eu não quis dizer aquilo daquela forma, eu estava perturbado, irritado, eu estou arrependido, eu quero que VOCÊ me perdoe”. Este perdão do ponto de vista budista é funcional mas não é perfeito, porque ele perdoa você mas, fica um resquício lá. Se você fizer de novo a pessoa dirá: “De novo? Você é a mesma pessoa, não aprendeu nada?” É isso que vai acontecer.

De modo que a ótica budista não é uma ótica com mecânica de interferências externas. Ela todo tempo olha pra dentro de você e vê: Como eu faço? O quê eu faço? Quais são as consequências do que eu faço? E como eu conserto as consequências do que eu fiz? Como eu faço coisas melhores para compensar as coisas ruins que eu fiz no passado? Eu só posso pavimentar o caminho onde eu ando, através das minhas ações, eu não vou pavimentar o caminho que eu ando através de interferências externas.
(Início de palestra pública em Goiânia, será publicada em partes)