Follow by Email

segunda-feira, 27 de abril de 2015

OS CICLOS DE SOFRIMENTO

Monge Genshô: O que caracteriza o mundo do samsara é a procura incessante. Nós queremos achar algo que nos falte. Na verdade, nós todos estamos aqui porque vivemos no mundo do samsara, senão, não iríamos ouvir uma palestra. Se tudo estivesse perfeito, completamente perfeito, não tinha porque ouvir uma palestra. Temos que conscientizar – ah, eu vivo no mundo da perambulação. Nós perambulamos procurando felicidades, vamos a uma banca de revista e vemos a revista dos felizes. O que aconteceu? As pessoas vão lá, lêem esse tipo de revista sobre famosos, que têm dinheiro, vivem em ilhas, têm iates ou qualquer coisa assim, achando que a felicidade é alcançada através da prosperidade, que vou alcançar a felicidade através de ter coisas. Mas isto é o próprio mundo do Samsara. Perambulo atrás de uma coisa a mais. Aquela coisa que vejo não é suficiente. Então procuro aquela outra coisa.

Qualquer pessoa que está nesse mundo de perambulação olha em volta e se compara com os que estão em volta. Os que estão na favela olham em volta e vêem os outros da favela. E ele vai se sentir próspero, vai se sentir melhor se estiver mais do que o vizinho. Então ele compra uma televisão melhor do que a do vizinho, assim então ele acha que se destacou do grupo. Só que se ele continua crescendo e sai da favela, tem outro grupo, outro grupo e outro grupo.

Uma vez tive a oportunidade de passar em Mônaco. Em Mônaco tem um porto e nesse porto estão estacionados iates. Mas quem tem um iate de 50 metros é um pobretão, coitado dele. O cara não é ninguém, tem apenas um iate de 50 metros. Ao lado tem um iate de um sheik de 150 metros, 3 vezes maior, muito mais alto, com torneiras de ouro. Aí então ele se vê pequeno no mundo da comparação. 

Então o que acontece quando vemos essas revistas por onde comecei, é que as pessoas olham para a revista para se comparar. Elas olham e vêem a comparação. Olham e imaginam que existe um outro mundo. Um mundo mais abundante do que o seu mundo próprio. E atrás de coisas materiais as pessoas fazem isso. Mas as pessoas fazem isso em outras áreas também.

As pessoas dizem - ah se eu tivesse um amor. A pessoa perambula de amor em amor. Este amor não deu certo, esse não é suficiente, essa pessoa não tem tudo que eu queria. Tem falhas nessa pessoa. Aí ela vai  para outra pessoa, outra pessoa, outra pessoa. Isto é também um perambular. Perambula achando que logo a seguir vai achar. É como se andasse sem rumo num mundo de um lado para o outro, procurando algo que fosse, enfim, o satisfatório. Agora o que o mundo do Samsara ensina para nós é que não existe na verdade o satisfatório. Foi isso que Buda ensinou. Essa é a primeira nobre verdade, não existe o satisfatório. O satisfatório é inalcançável, pois a característica da vida é Dukkha, é ser insatisfatória.

Dukkha quer dizer insatisfatório, nunca vou me satisfazer. Mas por que não vou me satisfazer? Vamos analisar a palavra. A palavra em sânscrito provém desta raiz – “Duk”. Mas o que significa isso? Duk significa eixo. Então tenho eixo e tenho uma roda. O eixo da roda. Mas, se o meu eixo estiver deslocado e a roda estiver assim, o que vai acontecer? Como ela funciona? Ela desenha ciclos, ciclos assim. Isso é oque acontece com o eixo fora do lugar. Quando Buda disse – a vida é Dukkha, muitos tradutores traduziram como a vida é sofrimento. 

Buda nunca pretendeu dizer que a vida é sofrimento. Vocês já viram essa tradução, a vida é sofrimento? Pois é, Buda não disse isso. Buda disse que a vida é Dukkha, que a vida é cíclica, insatisfatória. Ela sobe e desce sem parar. Então ora tenho amor, ora tenho dor de cotovelo ou tristeza. Ora tenho riqueza, ora pobreza. Ora satisfação, ora insatisfação. Sempre. A vida é constituída de coisas muito boas, tem prazeres, tem momentos maravilhosos de felicidades, de euforia. Ela tem isso, quem poderia negar isso? A vida não é só sofrimento.