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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Perguntas e Respostas - Palestra Pública Goiânia (Parte IV)


Aluno: Como funciona a meditação?

Monge Genshô: É melhor você vir até o centro Zen e meditar. Explicação teórica não funciona tão bem quanto a experiência. Vocês devem ter notado que nós não estamos tão interessados na teoria.

Aluno: Pensando no budismo como a tentativa de trazer tudo para o aqui agora, como eu levo isso para a minha vida no trabalho? Como eu não faço planos?

Monge Genshô: Não vamos confundir planejamento com expectativa. Quando você medita tem que aprender a não alimentar expectativa e não viajar para o passado, porque expectativa futura é fantasia e o passado é memória. Mas quando você está trabalhando e precisa planejar, precisa planejar mesmo. Eu trabalho como consultor de empresas, o que eu faço é planejar. Mas na hora de planejar eu planejo, na hora que entro num avião e vou para outro lugar, eu durmo. Antigamente eu sentava e ficava pensando: “vai acontecer isso e aquilo, preciso preparar a palestra” e esse comportamento me gerava ansiedade. O primeiro medo mais frequente no ser humano é acrofobia, medo de altura, e o segundo é falar em público. As pessoas ficam nervosas e eu ficava também, até que uma mestre me disse o seguinte: “não prepare, se você estiver imbuído do Dharma ele sai da sua boca”, portanto não me preocupo mais, não gero ansiedade.

Aluno: Tem uma frase que diz: “de boas intenções o inferno está cheio”, muitas vezes nós julgamos as ações dos outros, mas pode ser que as pessoas estejam agindo com a melhor das intenções, mesmo que a consequência gerada não seja boa. Como funciona isso?

Monge Genshô: Claro que você deve fazer coisas com boa intenção, só que você precisa estar consciente dos efeitos. As pessoas mais perigosas do mundo são as que sabem o que é bom para os outros, porque acham que podem impor o que é bom. Se vocês prestarem atenção, as grandes tragédias do século XX foram causadas por pessoas que sabiam o que era bom para o seu povo. Hitler achou que sabia o que era bom para os alemães, Stálin sabia o que era bom para os camponeses, então deportou 2 milhões deles para a Sibéria, só que se esqueceu que eles teriam que comer, beber, morar e etc. Então morreram quase todos. Isso não é diferente do que Pol Pot fez com o povo cambojano, pensando que sabia o que era bom para eles.

Hoje, se formos olhar o Oriente Médio, toda aquela gente que está se matando sabe o que é bom. Os alauítas sabem o que é bom para os outros, os xiitas também, o estado islâmico, os israelenses, etc. E todos estão com armas nas mãos tentando convencer o resto a seguir os seus modelos. Mas se você vem até uma sangha budista, pode ser tibetana, Zen, tanto faz, você chega e vai embora e ninguém diz nada. Se não voltou, voltou depois, continuou vindo, seja como for, ninguém diz nada. As sanghas budistas são lugares onde você vai, aprende algumas coisas e pronto. Se alguém quiser praticar tudo bem. Se ninguém quiser, também está tudo bem. Tem muito tempo e depois nós não acreditamos que as pessoas precisam ser salvas, convertidas ou qualquer coisa. As pessoas não precisam disso. Um monge esses dias me escreveu dizendo: “descobri que não sou um bom monge e quero deixar de ser, o que eu tenho que fazer? Qual é a formalidade que tenho que seguir?”. Respondi: “nenhuma, entregue seu manto e pronto”. Ninguém vai dizer nada, a vida é dele, o voto é dele, se ele não quer mais ser monge ele deixará de ser e pronto.

Aluno: Por que as pessoas querem as coisas que não tem?

Monge Genshô: Porque toda riqueza do mundo não é suficiente para a ambição de um homem só. As pessoas sempre querem mais e a liberdade está em não querer. Eu estava conversando com a Rachel hoje e comentei: “sabe que propriedades eu tenho agora? Nenhuma. de todas eu me livrei. Não tenho mais problemas, ninguém mais pode me tirar uma propriedade”.

Aluno: Tenho facilidade em entender a questão de uma mulher que faz um aborto ou que abandona um filho, mas a maioria das pessoas não vê o lado de quem faz isso, então essas mulheres acabam criminalizadas. Como o Zen vê a pena de um ato que é considerado crime pela sociedade?

Monge Genshô: Em princípio o Zen vê como retribuição cármica. O budismo não apoia pena de morte, para ele isso não resolve muita coisa. Você mata um sujeito estuprador, por exemplo, e numa outra manifestação o mesmo carma violento voltará. Então isso não resolve. É melhor eu mantê-lo retido e dar uma chance para que ele possa se reciclar. Agora, eu queria que vocês dessem uma olhada num documentário chamado “Dharma Brothers” que fala sobre a implantação de meditação dentro de presídios que abrigam condenados por crimes horríveis. Aliás, tenho um exemplo ainda mais próximo, em Joinville uma pessoa da sangha começou a fazer um trabalho numa penitenciária. Ela é pianista do Bolshoi e começou a fazer esse trabalho com as piores pessoas, os condenados. Recentemente tivemos um concerto com um desses rapazes que começou a tocar violino e agora toca muito bem. O crime dele foi matar a própria mãe. Então é possível resgatar uma pessoa que faz um crime horroroso? Sim, é possível. Basta mudar a mente da pessoa.

O budismo não pensa em julgar as pessoas, a sociedade julga pelo sistema de direito e pela justiça, mas não temos nenhuma ilusão de que a sociedade consiga julgar adequadamente, já que não temos nem conhecimento de todas as circunstâncias que estão envolvidas, por exemplo, num aborto. Muitos estupradores também foram vítimas de violência e depois se tornam agressores. Você consegue julgar o conjunto inteiro? Não consegue, mas a sociedade tem que reter essa opinião pessoal e coibir o crime, porque se ela não fizer isso o crime se torna impune e cria um problema. Nós temos esse alto ritmo de assassinatos no Brasil e qual é o número de condenações por crime de morte percentualmente aqui? É 8%. Se você matar alguém no Brasil você tem 92% de chance de não ser punido e agora você se admira do número de mortes ser tão alto? É uma questão de custo benefício. A mesma questão funciona para outros crimes. Aquele que rouba dinheiro da nação mata pessoas em filas do INSS, cega pessoas em hospitais, faz um mal imenso e no entanto nós temos até hoje uma cultura de impunidade disso. Pensamos: “ele fez, mas outros também fizeram”, como se um erro justificasse o outro e assim as coisas seguem da mesma forma.

A sociedade tem que coibir o crime, mas isso é diferente da sua pergunta de “como o budismo vê?”, o budismo vê que tudo tem motivo e os motivos são internos dentro daquela mente e aquela mente só pode mudar se for alterada. A sociedade não pensa “vou mudar a mente daquela pessoa”, ela pensa “vou coibir o crime”. A maioria das pessoas é boa, mas basta 1% da população cometer crimes para que tudo vire um inferno. Eu entro num hotel, por exemplo, e pago apenas na saída. Isso seria impossível se 10% das pessoas destruíssem, roubassem e saíssem sem pagar. Então nós ainda vivemos numa sociedade de confiança. É muita pouca gente que é má, mas eles são suficientes para desestabilizar a sociedade.


Aluno: Uma vez um Monge chinês disse que nós deveríamos agradecer muito a oportunidade de nascermos humanos. E eu vejo o senhor falar em vidas passadas, mas ao mesmo tempo fala da não existência de um eu. O que existe então em vidas passadas?



Monge Genshô: Vou dizer uma frase que resume: o eu é um eu de agora, mas o carma é continuidade permanente. É o carma que gera identidade, que gera eus e não são os eus que geram carma. Sua pergunta parte do princípio que eu existi numa vida passada e tenho uma mochila de carma que saio levando para as próximas vidas, mas não é assim. É o carma que provoca o movimento e me gera, gera a minha mente, quando meu eu desaparece o carma continua e gera uma nova manifestação que por sua vez, diz a si mesma “eu sou”.
 
Fim.