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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Lugares e ambientes



Pergunta – É comum escutarmos as vezes comentários do tipo, “nossa, que ambiente carregado!” como o budismo vê isso?

Monge Genshô – Isso pode ser sentido quando entramos numa sala onde pessoas estejam discutindo ou brigando.  Mesmo que todos estejam calados no momento em que você entra, você sabe que algo errado aconteceu.  Do contrario também acontece quando você entra num local onde impera a harmonia e o amor. Mas isso vai depender da sensibilidade das pessoas. De qualquer forma isso pode ser mudado. Tudo é possível de ser alterado e para isso temos a pratica do Zazen, ou se você tem outra crença religiosa e entra numa catedral, por exemplo, você se sente bem.  É preciso que entendamos que a prática muda os lugares e as pessoas, por isso não é uma tolice praticar. A gente sabe muito sobre um lugar apenas por estar nele. Estive uma vez em Dachau, um campo de concentração nazista que fica perto de Munique que continha câmera de gás, locais para tortura e crematórios. Até hoje esse local é conservado em forma de museu. Quando os visitantes chegam é possível ver até restos de ossadas humanas nos fornos. É impossível entrar num local desses e não sentir o peso da violência e das mortes ali ocorridas. Estive visitando esse campo de concentração com um grupo de pessoas e quando saímos dali nos sentamos num café e nenhum de nós conseguia dizer nada, ficamos silenciosos por horas. Por outro lado, existem locais onde coisas muito boas são realizadas, por exemplo, a medida que entramos aqui nessa casa e vamos praticando, sempre falando sobre coisas boas, existe a presença do Dharma e toda essa atmosfera de paz, vamos também sentindo que o local é de paz, o local vai se modificando e ficando impregnado desse clima.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Aspectos da retribuição cármica


Pergunta –  O carma é uma ação, quando eu morro só a ação meus impulsos e desejos é que sobrevivem, certo? O que não consigo ver é uma pessoa como Hitler renascer uma criança desnutrida e passando necessidades de todos os tipos, só consigo imaginá-lo renascendo perto do poder e da política, pois esses são seus impulsos e desejos.

Monge Genshô – Pode ser realmente isso, mas inevitavelmente as ações dele provocarão grandes resultados cármicos e isso levará muito tempo para resolver.  As sementes do carma têm tempo para amadurecer. Às vezes uma pessoa comete um mau ato e aos nossos olhos parece viver muito feliz apesar disso. Existem três tipos de retribuição cármica: a imediata, que vem junto com a ação, isso acontece muitas vezes nas relações humanas, eu grito com alguém e sua resposta é imediata - outro grito ou mesmo uma agressão física. Também existe a retribuição nessa vida, não é imediata, mas virá nesta vida. No exemplo de Hitler, ele sofria com horríveis dores de estômago a ponto de seu médico proibi-lo de comer comidas pesadas e carnes. Ele sentava-se para comer um prato de saladas e reclamava que todas as pessoas comiam carne e ele era obrigado a comer salada. Esse é um tipo de retribuição nesta vida, doenças, angústias e dores. Você pode imaginar ainda as próximas manifestações de uma pessoa com esse tipo de mente. Mas qual a retribuição em outras vidas, não podemos precisar, não há como saber o quanto de bom e de mau havia, qual era sua mente. Uma coisa é dar ordens para matar, outra é executar diretamente essas ordens.

É muito difícil julgar outras pessoas, na realidade é impossível, pois você não está dentro da mente da pessoa e não sabe o que está acontecendo. Mas ao olhar a vida que Hitler tinha, ou mesmo outros renascimentos numa roda de poder, não me parece que seja uma vida feliz. Existem outros aspectos das ações carmicas. Um deles é a intenção. Qual a intenção do ato? Você pode ter um mau resultado, mas a intenção ter sido boa. Quem era o objeto do ato? É diferente você matar um mosquito e matar um ser humano e, mesmo entre seres humanos, há diferenças. Há diferença entre matar um criminoso e um médico que salva vidas.  Qual o resultado? Se você tenta realizar um mau ato e não consegue é uma coisa, mas se você obtém sucesso os resultados serão piores.

Pergunta – Em algumas destas ações poderia haver um componente coletivo?  Usando ainda Hitler, quando ele discursava influenciava muitas pessoas...

Monge Genshô – Nesse sentido podemos fazer muitos raciocínios, por exemplo, quem viveu na Alemanha nesse período é porque tinha carma para isso. Você nasce no Brasil e reclama do país, mas se nascemos aqui é porque nos sentimos atraídos pelos aspectos do país e de seu povo. Mas mesmo dentro de um país com essas características acontecem reuniões do tipo da nossa. Nunca vi aqui dentro alguém gritar com outra pessoa, xingamentos, palavrões etc., as pessoas que aqui se encontram não buscam esse tipo de atitude. Mesmo tendo carma para nascer no Brasil, também possuem um carma diferente por sentirem-se atraídos pela sangha budista.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

É o carma que manifesta identidades



Quando você morre, você tem uma mente, com marcas. É isto que renasce. É isso que vai se manifestar no universo. Por quê? Porque as energias do universo, toda a energia do universo, ela não cessa. Ela não desaparece. È a 1ª lei da termodinâmica. Lei da conservação da energia. Esta continua, ela só se transforma. A energia daquilo que você fez, continua. As marcas que você tem, os impulsos da sua mente, continuam. E essa coerência, esse quantum de energia, essa onda cármica que em ultima análise nós somos, com suas marcas, energias de hábito etc, e que no conjunto diz-se “carma”, simplificando, pra não dizer tudo isso, esse conjunto todo vai se manifestar em um “ser”.

Quando um ser qualquer nasce, ele é herdeiro de uma onda cármica. Quando ele é herdeiro de uma onda cármica, que já vai nascer naquela família, naquela situação, naquela família, naquele país, porque tem carma para isso, está atraído por aquela manifestação, por aquela genética, ambiente etc, a pessoa nasce num lugar para onde seu carma naturalmente vai. Você está aqui numa aula sobre o Dharma porque tem carma para isso, se sentiu atraída por isso. Outros estão fazendo outra coisa. Quem sabe há um churrasco? Com bastante caipirinha etc? E assim por diante. As pessoas estão procurando aquilo porque se sentem atraídas. Elas vão atrás disso, tem carma para tanto.

Assim é também quando você nasce. Você é atraído para um determinado ambiente porque você morreu com a mente afinada com aquele meio. Aí você nasce lá. Por isso não é a genética que veio antes. É o carma. É por isso que com semelhante genética, irmãos são diferentes.

Então o carma vindo, manifesta um ser. E este ser começa a pensar, dar-se conta, os pais dão um nome. Aí eles dizem que seu nome é esse. Um dia, na infância, você pula de “nenê quer isso” para “”fulana” quer. E a medida que chega este momento, você vai criando uma noção cada vez mais sólida de um EU. Você estrutura seu ego e suas preferências, etc, vai tomando escolhas, mas essas escolhas vêm marcadas por uma coisa anterior, de preferências que você tem, de marcas cármicas que você tem e que você não sabe de onde são. Por quê essa pessoa gosta disso? Por quê que ela pensa assim? Ela tem uma herança cármica. Então é o CARMA que renasce, que manifesta um ser. Durante algum tempo na primeira infância vemos lembranças fugazes que de alguma forma vieram impressas com o carma de vidas anteriores.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Podemos usar âncoras para ativar o estado meditativo?



P: Podemos usar âncoras para ativar o estado meditativo? Eu acho que já se usam âncoras, como a recomendação de tentarmos meditar no mesmos horários e local(como associamos a meditação a certos lugares, horários, posturas...) Então isso talvez nos ajude a entrar nesse estado até conseguirmos cada vez mais ativá-lo voluntariamente, até finalmente nos mantermos mais e mais nele ao longo do dia. E mesmo que saiamos desse estado por sermos assaltados por alguma emoção súbita, consigamos retornar rapidamente, restabelecendo o equilíbrio mental.


R: Sim, é pertinente, creio que algo assim é a memória do próprio estado de samadhi, como se estivessemos as portas de uma experiência de kenshô (insight, experiência mística) e assim pode-se acionar o estado mental meditativo quando se quer. Em geral para isso ainda é preciso um ambiente adequado de concentração, uma caminhada em um lugar belo é particularmente propícia, no entanto isso pode ocorrer em qualquer atividade, mais facilmente se é algo manual, e bem mais difícil se em uma interação social, na qual as palavras de outras pessoas trazem o samsara de volta a todo momento.