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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Temos dificuldade em ver a diminuição do sofrimento



O sofrimento diminuiu muito ao longo dos anos, até o séculos XIX era normal uma família perder vários filhos. Bach teve 20 filhos e morreram 10. Tenho uma aluna que é obstetra e ela disse “ninguém mais aceita perder um neném ou uma mãe no parto”, quando ela perdeu uma paciente ficou arrasada. Antigamente morrer no parto era normal, era comum, havia mais homens do que mulheres porque morriam muitas mulheres no parto. Mas o sofrimento mudou, a expectativa de vida aumentou, o preço de tudo que compramos caiu imensamente, hoje temos problema de excessos, porque comemos demais. Se quiserem ler sobre esse assunto há um livro chamado Abundância (Kotler, Steven / Diamandis, Peter H.), que tem muitos dados sobre todas as mudanças que passamos. Existem partes enormes do mundo onde os saltos tecnológicos foram enormes, na África, por exemplo, eles nem chegaram a ter telefones fixos, pularam direto para os celulares. Os saltos são enormes, mas nós não enxergamos com clareza. Na realidade nós nunca tivemos um mundo tão pouco violento, mas parece que não, porque temos muito acesso a informação. Mas nunca houve tão poucos assassinatos no mundo, comparado com o passado, mas nós não vemos a diminuição do sofrimento porque ele está muito presente.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Estamos num baile à fantasia




Aluno: Parece que há um esforço para aniquilar o “eu”, é isso?
Monge Genshô - Nós não pretendemos aniquilar nosso eu, não é isso; nós precisamos do eu para andar neste mundo. A comparação que eu costumo fazer é com a máscara. Eu estou usando a máscara de monge, a máscara de monge quer dizer raspar a cabeça, usar roupas de monge, ter vida de monge, aí você coloca máscara de monge. Este eu é necessário, eu preciso dele para viver, estar aqui, agir, e cada um de vocês precisa de um eu para trabalhar, para relacionar-se, para amar e tudo mais. O que nós precisamos entender é que se trata de um baile à fantasia, aí você coloca uma máscara e vai lá para aquele baile. Semana que vem eu vou para Maringá, eu tenho um trabalho de consultoria numa empresa lá. Eu chego lá e coloco a máscara de consultor, eu não sou mais monge Genshô, nem Sensei, eu sou Senhor Chalegre. Aqui a gente ensina para não ter opiniões, lá eu vendo opiniões, é outra máscara, mas eu tenho que saber que é outra fantasia, não é real, é uma fantasia que eu visto.(continua)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ligação e apego entre pais e filhos


Aluno: Sensei, eu sinto momentos de muita angústia pensando nos meus filhos (durante o sesshin). Existe solução para o apego entre pais e filhos?
Monge Genshô:
Nós seres humanos queremos nos conectar com a eternidade e a nossa compreensão é que os filhos fazem essa ligação. No fundo o apego com os filhos vem de um amor ao eu. A ideia é: “eu quero permanecer, mas eu sei que este corpo vai morrer, então eu olho para o filho como minha ligação com a eternidade”. Disso surge uma diferença importante entre homens e mulheres. Através do tempo eu tenho notado que os homens são mais angustiados e as mulheres menos, porque por uma condição biológica as mulheres se sentem mais ligadas à vida. Na verdade, biologicamente acontece o contrário das lendas, não é a mulher que saiu da costela de Adão, nós homens é que viemos depois, porque a separação dos sexos acontece depois na biologia. Primeiro há um ser único e depois ocorre a separação para ter um ser que faça a fecundação, ou seja, um macho, mas ele sai da fêmea, então é ela quem representa a espécie. Além disso, como o filho nasce da fêmea, ela o sente como dela. O homem não sabe, ele foi informado, alguém diz “esse filho é seu” e você acredita. Então a realização do filho no homem é intelectual e na mulher é física. Vemos homens desesperados querendo escrever sinfonias, livros e realizar grandes obras porque tentam se eternizar de alguma forma, na verdade essa busca vem do medo do desaparecimento. As mulheres não sentem tanto isso, mesmo quando não têm filhos elas ainda se sentem mais ligadas à vida pela sua natureza.

Esse esforço dos homens explica de certa forma a angústia criadora, que também é medo do desaparecimento. Então essa ligação com os filhos é a manifestação do nosso desejo de permanência, por isso às vezes é tão difícil abrir as mãos e deixar os filhos seguirem seus próprios caminhos. Muitas vezes os pais querem que os filhos sejam aquilo que eles são e isso é um grave erro. Só uma ampliação de consciência pode aliviar esse tipo de angústia. Se você se ilumina e desperta das desilusões do eu isso também desaparece. Mas por outro lado que bom que existe amor, que existe sexo, que existem filhos, porque são partes integrantes da vida. Se você perguntasse qual é o sentido da vida eu responderia que é justamente viver. E viver também é sofrer, se você dedica amor, tem que aceitar a perda, você só precisa se dar conta de que o preço é o sofrimento. É natural que existam as preocupações e os medos, mas tudo isso é o preço que se paga. Tem alguma maneira de viver sem isso? Não. Nós temos sangha e na medida em que você conhece, conversa e entrevista as pessoas, também vai criando amor por elas. De repente um fica doente, outro sofre uma tragédia e tudo isso vem para você também, mas esse é o preço. Se você não quiser nenhum sofrimento tem que se isolar numa montanha e não ter relação com nada.

Existe uma anedota Zen em que um Monge estava numa montanha e sentiu que estava iluminado. Então ele resolveu descer até a cidade e entrou no mercado. Nesse momento alguém pisou no pé dele, ele sentiu raiva e percebeu que a sua iluminação era pura ilusão. Então só é possível dentro da turbulência da vida você acordar. O que você prefere: ter amor e sofrimento ou não ter amor nenhum? É isso.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para os que se sentem desamparados no zen


É comum as pessoas me escreverem quando começam a praticar dizendo estarem perdidas e sentindo um grande desconforto. Outro dia recebi um email em que a pessoa dizia ter um vazio dentro de si que não sabia como preencher. O que acontece é que o Budismo é um método que começa com uma desconstrução completa daquilo que as pessoas costumam usar como bengala ou apoio. Quando começamos a ensinar o Dharma, as pessoas perdem seus referênciais tais como: “A quem pedirei algo? Quem pode me ajudar, Buda? Existem anjos ou seres celestiais que possam me ajudar?” A mensagem do Zen é que não há ninguém lá fora para quem você possa pedir ajuda, nem à Buda, que foi um homem com nós.

Outras escolas Budistas são mais piedosas e dão ao praticante algo a que se agarrar, como por exemplo, o Bodhisattva da Compaixão ou Buda Amida. Muito embora se formos fundo no estudo destas escolas, veremos que esses seres não são exatamente alguém lá fora. Isso é muito bonito no sentido de existir uma fé e este processo é bastante consolador. Mas o Zen não é consolador e é chamado de “O Caminho Direto”, pulando todos os estágios de prática, levando diretamente a um confronto consigo mesmo e com a vacuidade do “eu”. A única coisa oferecida pelo Zen na qual o praticante possa se apoiar são suas próprias ações.

São com as suas ações que um praticante Zen Budista pavimenta o caminho que ele irá percorrer. A cada pedra colocada, o praticante pode avançar no caminho. Ele pavimenta o caminho com a construção de seu próprio carma, portanto, ele altera seu carma e com isso no Zen tiramos a responsabilidade ou o poder sobrenatural de qualquer outro ser lá fora. Nós temos os poderes sobrenaturais para a construção de nossas próprias vidas. Desta e das futuras. Como? Através de seus pensamentos, atos e palavras, através da construção de seu carma.

Alguns praticantes, quando lhes tiramos as ilusões, sentem-se desapoiados. Onde me apoio? Porém, mesmo no Zen existe um apoio e esse apoio chama-se Sangha. Apoiando-se na Sangha ele não está só e, além disso, ele tem ainda pais, irmãos e amigos. Quando ele diz que sente um vazio dentro de si difícil de preencher, lhe falta engolir o universo, pois ainda vê as coisas de forma separada e dual. “Eu estou separado, eu sinto um vazio”! O sentimento de solidão irá acabar quando ele conseguir pôr fim à dualidade, quando não mais enxergar o “outro” e “eu”. A solidão só existe com a separação. Vocês percebem que com frequência falo de meu Mestre, Saikawa Roshi? Por quê? Porque ele me é precioso. A última vez que esteve em Florianópolis fomos caminhar na praia e cada concha, cada pequeno peixe ou água viva que ele encontrava na areia, devolvia ao mar. Acredito que este seja verdadeiramente o sentimento de estar junto com todos os seres. Esta é também uma marca constante no praticante, a referência ao Mestre, porque quando fala no Mestre está dizendo “minha família”. Essa ligação que temos com o Templo sede, com nosso Mestre e até mesmo com templos de fora do Brasil, nos coloca na sensação de unicidade, desta forma nunca estamos sós.

Aqueles que se sentem desamparados quando iniciam a prática, ainda não perceberam o quão acompanhados estamos. Mas é necessário vir à Comunidade, sentir a prática coletiva e escutar seu professor. Isso é muito importante.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

É o carma que manifesta identidades



Quando você morre, você tem uma mente, com marcas. É isto que renasce. É isso que vai se manifestar no universo. Por quê? Porque as energias do universo, toda a energia do universo, ela não cessa. Ela não desaparece. È a 1ª lei da termodinâmica. Lei da conservação da energia. Esta continua, ela só se transforma. A energia daquilo que você fez, continua. As marcas que você tem, os impulsos da sua mente, continuam. E essa coerência, esse quantum de energia, essa onda cármica que em ultima análise nós somos, com suas marcas, energias de hábito etc, e que no conjunto diz-se “carma”, simplificando, pra não dizer tudo isso, esse conjunto todo vai se manifestar em um “ser”.

Quando um ser qualquer nasce, ele é herdeiro de uma onda cármica. Quando ele é herdeiro de uma onda cármica, que já vai nascer naquela família, naquela situação, naquela família, naquele país, porque tem carma para isso, está atraído por aquela manifestação, por aquela genética, ambiente etc, a pessoa nasce num lugar para onde seu carma naturalmente vai. Você está aqui numa aula sobre o Dharma porque tem carma para isso, se sentiu atraída por isso. Outros estão fazendo outra coisa. Quem sabe há um churrasco? Com bastante caipirinha etc? E assim por diante. As pessoas estão procurando aquilo porque se sentem atraídas. Elas vão atrás disso, tem carma para tanto.

Assim é também quando você nasce. Você é atraído para um determinado ambiente porque você morreu com a mente afinada com aquele meio. Aí você nasce lá. Por isso não é a genética que veio antes. É o carma. É por isso que com semelhante genética, irmãos são diferentes.

Então o carma vindo, manifesta um ser. E este ser começa a pensar, dar-se conta, os pais dão um nome. Aí eles dizem que seu nome é esse. Um dia, na infância, você pula de “nenê quer isso” para “”fulana” quer. E a medida que chega este momento, você vai criando uma noção cada vez mais sólida de um EU. Você estrutura seu ego e suas preferências, etc, vai tomando escolhas, mas essas escolhas vêm marcadas por uma coisa anterior, de preferências que você tem, de marcas cármicas que você tem e que você não sabe de onde são. Por quê essa pessoa gosta disso? Por quê que ela pensa assim? Ela tem uma herança cármica. Então é o CARMA que renasce, que manifesta um ser. Durante algum tempo na primeira infância vemos lembranças fugazes que de alguma forma vieram impressas com o carma de vidas anteriores.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A essência do despertar de Buddha


(continuação)
Todas essas considerações ocorreram a Buda. Embora ele fosse um homem rico, filho de um pequeno rei em um pequeno principado e tivesse tudo como membro da classe dominante: tinha mulheres, comida, palácio, empregados, enfim, tinha todos os confortos que  poderia ter um homem em sua posição. Mesmo tendo tudo isso, Buda se perturbou com o fato de haver velhice, doença e morte. Sabendo disso, ele se questionava sobre o significado de sua existência naquele palácio, com sua esposa, seu filho, as artes de guerra que havia aprendido. Buda era da classe Kshatriya, uma classe de guerreiros imediatamente abaixo dos Bramanes. Ele não conseguia ver significado na sua existência, em uma vida que terminava, inevitavelmente, em velhice, doença e morte, pois, sendo assim o fim, tudo o que fizermos é vão.

Foi assim que Sidharta Gautama Shakyamuni, abandonou sua família, seus pais, seu palácio, causando infelicidade a todos. Ele está então com vinte e oito anos, e vai para uma floresta procurando uma solução espiritual. Durante seis anos Shakyamuni tenta todas as técnicas de ascetismo que eram ensinadas pelos mestres iogues. Com as práticas de jejum severo, meditação e concentração, ele vai atingindo níveis cada vez mais profundos de realização psíquica, mas não vê uma solução final para as questões do sofrimento e do significado da vida; procura denodadamente, mas não encontra. Mesmo que dois mestres se sintam tão encantados com ele a ponto de o convidarem para  sucessor, ele recusa, e segue adiante. Por fim, sentindo-se derrotado fisicamente, sem energia, ele desfalece perto de um rio e uma moça chamada Sujata coloca em sua boca arroz com leite.

Ao voltar a se alimentar, Buda tem sua energia renovada. Senta-se, então, embaixo de uma figueira, que hoje é conhecida como fícus religiosus, cuja folha tem uma longa ponta , e ali fica meditando por sete dias. Ao amanhecer, quando a estrela da manhã está surgindo, Shakyamuni, de repente, acorda das ilusões, e nesse momento, torna-se O Buda, “aquele que acordou”. Ele exclama: “Que maravilhoso é! Nesse momento todos os seres e a grande Terra, junto comigo, atingem a iluminação!”

Qual a essência do grande segredo de Buda? Todas as coisas estão vazias de um “eu”. Eu não vou mais me enganar, nem uma coisa tem um eu, ninguém tem um eu, tudo é vazio de um eu. Este é o significado da palavra vacuidade, o vazio budista: nada tem um eu inerente, todas as coisas são interdependentes e interconectadas. A nossa noção de um eu - que é predominante, que todos agora, aqui sentados, sentem (eu estou aqui, eu sou, eu tenho um corpo, eu abro os olhos e vejo os outros, eu vejo o mundo) - é um engano, uma ilusão provocada pelo funcionamento de nossa mente e pela formação de nossa consciência. Essa é a essência da iluminação de Buda, todo o resto são métodos de treinamento graduais para se atingir liberação do sofrimento, melhor qualidade de vida, treinamento mental. Mas a iluminação de Buda é isso, a liberação de um eu. Enquanto não atingimos a liberação de um eu, não há a iluminação.
(continua)

terça-feira, 24 de abril de 2012

Eutanásia

Temos hoje no Brasil uma discussão de juristas sobre a eutanásia (provocar a morte de pacientes em sofrimento de forma ativa), suas sugestões assim como sobre a ortotanásia (não interferir com máquinas e recursos heróicos retardando a morte do paciente e prolongando seu sofrimento). Suas recomendações levarão a votação no congresso nacional para modificação de leis.

Na situação atual o médico ou familiar que participa de qualquer iniciativa para abreviar a vida de um ser amado que, mesmo inconsciente, sofre inutilmente em uma situação terminal, comete um crime. Embora saibamos que estes atos são comuníssimos e mais causados pelos avanços tecnológicos que permitem sobrevidas inútilmente dolorosas que pelo caminhar dos fatos naturais do fim da vida.

Para iluminar a questão seria interessante dizer que a visão generalizada no budismo tem base em episódios como os dos suicídios de Vakkali e Channa, portadores de doenças dolorosas e irreversíveis, aceitos por Buddha com base na compaixão e no fato de que eles eram seres iluminados com mentes livres de egoísmo e portanto aptos a morrer com a melhor mente possível, o ponto mais valorizado no zen budismo, a mente no momento da morte.

O princípio budista sempre retorna para a pergunta sobre como diminuir o sofrimento em lugar de valorizar princípios frios acima de quaisquer considerações baseadas nos sentimentos de compaixão e piedade. Muitas vezes princípios legais rígidos que se sobrepõem a análise particular de cada caso, como sempre propôs o budismo, sem respostas fechadas que não consideram as múltiplas facetas da vida humana.

Cito abaixo um precedente legal japonês, que é influenciado pelo pensamento budista e que pode ajudar nossos legisladores a levar a nação a um nível mais alto de pensamento ético em relação a compaixão com o sofrimento alheio e as numerosas pessoas que ficam deitadas em camas, inconscientes e presas a canos e fios, com altos custos para famílias e sociedade e sofrimento absurdo para si mesmas.

 Declaro de antemão que desejo que meus familiares não permitam que isto suceda comigo, e que meu leito seja desocupado para aqueles que podem usa-lo para se curar:


O caso é usualmente citado como sendo a "Decisão da Corte Suprema de Nagoya de 1962".  No julgamento, a corte identificou seis condições que devem ser preenchidas para se ter permissão legal para a prática da eutanásia: 


a enfermidade é considerada terminal e incurável pela medicina atual e a morte é iminente; 


o paciente deve estar sofrendo de uma dor intolerável, que não pode ser aliviada; 


o ato de matar deve ser executado com o objetivo de aliviar a dor do paciente; 


o ato deve ser executado somente se o próprio paciente fez um pedido explícito; 


cabe ao médico realizar a eutanásia; caso isto não seja possível, em situações especiais será permitido receber assistência de outra pessoa; 


a eutanásia deve ser realizada utilizando-se métodos eticamente aceitáveis (22 December 1962, Nagoya Court, Collected Criminal Cases At High Court, vol.15, n. 9, p. 674). (De artigo sobre eutanásia de Leo Pessini)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Escolhemos uma vida?


Pergunta - E onde entra o que chamamos de intuição?

Monge Gensho – A intuição é, na realidade, um conjunto de coisas. Sentimentos, percepções do passado, um conjunto nebuloso dentro de sua mente que lhe dá uma sensação a respeito de algo. Se fossemos tabular as questões intuitivas, você veria que seus resultados são aleatórios. Algumas vezes dá certo, outras, dá errado. É mais de acordo com a lei das probabilidades mesmo. Aquilo que consideramos intuição também não é confiável. Estou dizendo que o coração não é confiável, a razão não é confiável, a intuição não é confiável, que é melhor deixar o fluxo da vida correr, observando e agindo como você puder. Mas é muito importante não tentar impor aos outros nossas crenças ou convicções, sentimentos, ou razões. Você não sabe.

Pergunta – Então, escolhemos uma vida, vivemos uma vida?

Monge Genshô – Na realidade, vivemos uma vida arrastados por condições cármicas, é o carma que nos conduz. Outro dia estava conversando com minha filha e disse, “poxa, sempre volto à questão de fazer algum empreendimento... tenho mais de sessenta anos e continuo me envolvendo em algum empreendimento”. Não consigo escapar desse carma. Isso ocorre desde os meus vinte anos, e hoje sou monge mas sempre tem algo nesse sentido; agora é o monastério, antes era o restaurante para subsidiar a sangha; tem sempre um empreendimento. E os empreendimentos naturalmente perturbam, porque há tarefas e muitas coisas envolvidas. Isso me faz lembrar o momento em que eu quis ser monge. Naquela época estava trabalhando como consultor e viajando demais – fazia mais de duzentas viagens de avião por ano. Sentia-me muito cansado e com dores nas costas. Um dia, parei no Rio de Janeiro e conversando com um monge Zen, reclamei da dor nas costas. Como ele fez acupuntura, me perguntou sobre o que eu andava fazendo, então respondi que fazia duzentas viagens de avião por ano. “Mas, afinal, o que você quer?” Foi a pergunta que ele me fez e que é, na verdade, um grande questionamento. Algum tempo depois, procurei Igarashi Roshi e disse-lhe que eu queria ser monge. Eu pensei que sendo monge estaria escapando da minha vida de empresário e consultor, consequentemente, das viagens. Ele então me perguntou, “por quê?”, ao que respondi “minha vida é tumultuada e acredito que o melhor caminho para mim seja o de ser monge”. Então ele me disse, “você está muito enganado, não vai solucionar nada. Eu sou monge e viajo de um lado para o outro, quero construir um mosteiro em um lugar, ajudar uma pessoa em outro, tenho que pegar avião, tenho que viajar, reunir dinheiro para fazer as coisas. Meus problemas são iguais aos seus”. Voltei para Porto Alegre e um amigo que trabalhava junto comigo conseguiu uma sala e me pediu que o ensinasse a fazer meditação. Depois de dois anos já tínhamos uma sede: fechamos uns boxes no estacionamento e fizemos um zendo. No terceiro ano Igarashi Roshi me ligou perguntando o que eu estava fazendo e disse que iria me visitar para me ordenar monge. O resultado é que além de continuar a fazer tudo o que eu já fazia, ainda tive que assumir mais o compromisso com uma sangha. Então eu penso que isso é carma mesmo, não tem jeito. Isso é freqüente, você julga que vai escapar da vida e pensa “ah, se eu saísse daqui e fosse para um monastério me livraria de todos os problemas da vida!” Não é assim, você conseguiria treinar determinadas coisas, mas sua vida continua com você. Eu tenho essa convicção: meu caminho é ter família, ser monge, trabalhar. Muito provavelmente morrerei assim.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Linhagem


Praticantes de Florianópolis tomam os preceitos em frente ao mestre Saikawa Roshi.

"A coisa mais importante sobre linhagem é que nós somos a linhagem. Que outro que ela podia ser?

Shakyamuni despreendeu-se de tudo em sua vida e então manteve só aquelas coisas necessárias para dedicar sua vida inteira a Grande Responsabilidade.
De seu assento no vazio ele tinha só um manto simples para vestir o corpo, comida para sustentar a vida, medicamento para manter saúde, e abrigo do vento e da chuva. Os antepassados legaram estes fundamentos para nós. Nós aprendemos a sentar-nos firmemente no vazio. De acordo com nossas necessidades este vazio se torna o manto da liberação abraçando a todos, a saudável nutrição do Dharma, o grande medicamento para aliviar todo sofrimento, e o abrigo em um refúgio ininterrupto.

Nos serviços matutinos nós cantamos a linha ancestral, iníciando com os buddhas até Shakyamuni Buddha, seguindo através de 82 gerações até meu professor Roshi Maezumi, e então até nós aqui e agora. Cada nome em nossa linha ancestral resulta em outros muitos nomes, e cada um destes em muitos mais, tornando-se uma árvore enorme com dezenas de milhares de galhos.

Muitos de você tomaram os preceitos e passaram a fazer parte do quadro da linhagem como parte daquela cerimônia. Seu nome foi somado ao daqueles antepassados. Percebam que abrigar-se nos "Três Tesouros" e na vida dos preceitos é como subir na grande árvore de linhagem e fazer uma segura casa em seus galhos.

A linhagem é formada por milhares de homens e mulheres simples com nós, todos imperfeitos como nós somos. Através da imperfeição de seus corpos de Buddha, a imperfeição de suas palavras de Dharma, suas imperfeições combinadas juntas na Sangha, assim o Buddha Dharma recebe vida. A Sangha é o grupo das pessoas que sabe que são imperfeitas. Elas praticam com a fé, reforçada pela experiência, que através da claridade e do espaço fornecido pelo zazen eles poderão discernir e retirar qualquer bloqueio de sua bondade interna, que obscurece sua inteligência, e inibe sua atividade efetiva para aliviar o sofrimento do mundo.

Para unir a família dos antepassados nós temos que dar o que pode parecer como um passo atrás. Nós temos que parar de tentar fazer nossa própria e individual família perfeita e tomarmos a decisão de unir-nos à família de Buddha. Para isto nós temos que manter nossos corpos firmes e nosso coração/mente puros, aquecidos, e inocentes. Então nós temos que fazer o que nós não fizemos a frente do contexto de nossa pequena família pessoal, isto é, render-nos aos conselhos sábios de nossos antepassados e seguir isto sinceramente.

Quando nós nos sentarmos em zazen a linhagem inteira está sentada e se manifesta através de nós. Quando nós cantamos os sutras a voz da linhagem pode ser ouvida, mais poderosa e harmoniosa que a soma simples de todas nossas vozes pequenas. Quando nós trabalharmos juntos o corpo reto e alegre da linhagem se torna manifesto. Não faz nenhuma diferença se nós estamos cientes disto ou não. A linhagem é nada além de nossa vida. Nossa gratidão para os antepassados é melhor expressa apreciando profundamente nossa vida e como nós a vivemos. Roshi Maezumi passou este ensinamento para mim e agora eu passo isto para vocês. Por favor apreciem suas vidas."

SUA VIDA COMO A LINHAGEM
por Roshi Jan Chozen Bays
Abadessa do Great Vow Moonastery.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Apego e amor


Apego é "uma forma imatura de amor", declara o psicanalista Erich Fromm. A psicanálise prefere falar de simbiose quando há um desejo inconsciente de fusão total entre duas ou mais pessoas, impedindo assim a manifestação da identidade de cada uma. No amor - principalmente o amor entre pai, mãe e filhos - há um sentimento amadurecido em que a união cuida preservar a integridade de cada um, a própria subjetividade. Enquanto que a simbiose é um tipo de relação que imobiliza o outro, controlando-o segundo interesses egoístas, o amor verdadeiro também deseja inconscientemente de dois fazer UM, mas quando é "trabalhado" ambos sabem respeitar o espaço e a identidade de cada um.

A experiência diz que o amor - qualquer forma de amor - perdura se considera e respeita o outro como ele é. Já o apego, por não deixar o outro ser, termina sufocando o seu desenvolvimento e a própria troca afetiva. Quando os pais vivem apegados aos filhos, podem terminar impedindo o livre curso de seu desenvolvimento psíquico e de sua própria capacidade de distinguir apego de amor.

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Algumas famílias se fecham em si mesmas, impedindo seus membros se afastem ou pensem diferente delas. Famílias fortemente apegadas, simbióticas, receosas de que seus membros construam a própria personalidade podem ser tão problemáticas quanto uma família dividida, esquisita ou indiferente. A família precisa manter vínculos amorosos entre seus membros, mas deve evitar apegos egoístas.


_Raymundo de Lima
*Psicanalista e professor

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Buddha sai do palácio



Rahula, filho de Buddha e um de seus mais destacados discípulos.

P: Buddha abandonou esposa e filho. Um pequeno ou grande sacrifício por parte dele? Quão grande deve ter sido o efeito desse abandono na vida da mulher e do filho e da mãe e do pai? Qual teria sido o efeito cármico de um ato deste para Gautama?


R: Grande, sem dúvida. Veja que ele não era um iluminado quando deixou seu palácio. Nem temos porque tentar defender os atos de Buddha antes da iluminação; ele não era diferente de mim ou de você. Era um homem perturbado, cheio de dúvidas sobre o sofrimento, angustiado pela existência da morte.

Que foi difícil sua decisão, é de imaginar: cortar seus laços e tentar encontrar as respostas... Você pode avaliar pela sua própria luta para cortar com o passado e encontrar seu próprio caminho. Difícil, dolorido, coisa que precisa de coragem e determinação.

Do ponto de vista ético, podemos citar S. Thomas de Aquino, nas dúvidas morais optar pelo maior bem para o maior numero de pessoas, Não há dúvida de que este objetivo foi atingido no caso de Buddha.

Por outro lado Rahula, seu filho, foi mais tarde um dos grandes discípulos de Buda, um de seus mais próximos seguidores, sua mãe adotiva foi a iniciadora da ordem feminina e também grande discípula. A esposa faleceu antes dessa oportunidade.

Ao que parece, a família o seguiu. Assim podemos dizer que o mau carma de abandono de Sidharta parece ter sido resgatado pela sua atuação depois de se tornar o Buddha.