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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Se há Fé, há Dúvida



Quando alguém diz ou fala sobre deuses, este alguém está falando sobre um pequeno aspecto ou interpretação daquilo que ele está vendo - ele tem uma visão parcial do universo e achou uma explicação para se agarrar. É por isso que as religiões são baseadas em fés, porque não há nada que dê suporte àquilo. Quando uma coisa é bem suportada pela realidade, ninguém pede fé a você sobre ela. Eu nunca vi ninguém dizendo assim: “por favor, acredite, a gravidade existe”. Ninguém diz isso. Não tem nenhum pregador dizendo “a gravidade existe, acreditem, acreditem”, ou repetindo toda semana, porque toda semana qualquer um que tropeça cai, bate com a cabeça no chão, toda semana você quebra alguma coisa que cai em casa. Então, como a evidência está transparente, é empírica, a experiência mostra a todo momento que as coisas são assim. Ninguém solicita fé. Quando alguém solicita fé a você, que acredite em algo, na realidade é porque há dúvida. Se não houver dúvida, não existe fé. É por isso que nós dizemos que o budismo não se baseia numa fé, mas sim numa grande dúvida. 

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A mudança exige esforço


Aluno: Tenho uma dúvida sobre a prática. Por mais que eu pratique e consiga ter insights é muito difícil promover mudanças na minha vida.
Monge Genshô:
Essa é a dificuldade de todo mundo. Nós comparamos o carma com um rio correndo e no centro a correnteza é mais forte. Se você está num barco no centro do rio, a correnteza vai arrastar você e na maior parte do tempo você não vai conseguir fazer nada. Você precisa esperar um momento mais calmo para tentar desesperadamente sair da correnteza. Nesse momento você tem que se esforçar para mudar a direção na qual você já está embarcado, tão bem embarcado que nasceu aqui com esse corpo, esses desejos, esses impulsos, nessa cultura, tudo isso aconteceu porque já tem carma para isso. Escapar disso é interessante, porque todo mundo quer continuar com seu eu e não quer morrer nunca. Quer ressuscitar, ir para o paraíso, enfim, quer permanecer. No budismo não é esse o objetivo, na realidade essa repetição de estar aqui, nesse tipo de vida, é a prisão. Repetir a mesma vida como castigo é a prisão. Acaba esse a começa outra igual. A repetição desse igual é um castigo incrivelmente pesado.

Tem um filme chamado “Feitiço do tempo” e nele o personagem repete o mesmo dia. Todos os dias que ele acorda e está tudo igual, o mesmo despertador, a mesma cidadezinha onde ele se hospedou, as pessoas o cumprimenta do mesmo jeito e todo o resto. Primeiro ele acha ótimo, depois começa a fazer coisas para aproveitar a situação, repetindo dia após dia ele aprende sobre uma mulher e a tenta conquistar 20 vezes diferentes, corrigindo cada erro até obter sucesso. Depois ele se desilude com aquelas repetições constantes e tenta se matar, mas então toca a campainha e amanhece novamente no mesmo dia. Até que ele desiste e vai indo. Na realidade essa é uma metáfora das nossas vidas, repetindo o tempo todo, a diferença é que ele se lembra e vocês não lembram. Como ele lembra, ele busca a saída daquela situação e só encontra a saída quando muda sua forma de ser, quando muda como pessoa. O filme é uma metáfora do que é se manifestar novamente.

Nesse mesmo filme ele começa a se dedicar a alguns projetos. Procura uma professora de piano e começa a ter aulas, no fim do filme ele é um grande pianista, mas o processo de aprendizado é longo e trabalhoso, assim como o processo de mudança da vida. Você precisa reforçar os pontos bons e enfraquecer os negativos. Existem mil estratégias, eu acabei de falar sobre como você ocupa seu tempo, mas temos mil outras mudanças possíveis. Como comer, por exemplo? Você não precisa comer tanto, pode comer mais devagar, não precisa desperdiçar, pode entender aquela comida como remédio para continuar a praticar, sem avidez, sem ganância, tentando respeitar cada coisa, até a água com a qual você lavou sua tigela. Imagine que se todo mundo se alimentasse com oryoki não precisaríamos de detergente e não existiriam rios com espumas. Pensem.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A grande dúvida


4) Quais são então os obstáculos para a iluminação no Budismo? Ele me parece extremamente liberal em algumas coisas, mas...

Monge Genshô – Os obstáculos são seríssimos. Coisas com as quais as pessoas não lidam, como ignorância, falta de clareza e ilusão.

Aluno - A dúvida?

Monge Genshô – Não, pelo contrario, é necessária uma grande dúvida. O budismo não encoraja a crença, é muito melhor que você tenha uma grande dúvida. É bom que você chegue ao seu professor e manifeste sua dúvida, mas deve estar preparado para a resposta e admíti-la, seja ela qual for, por exemplo, se eu digo que esse banco é feito de pedra você não deve discutir e dizer que é feito de plástico. Você deve presumir que exista alguma razão para o seu professor dizer que é de pedra e você deve lidar com esse paradoxo. Não é o caso de admitir que seja de pedra, mas sim que você tenha dúvida de sua convicção de que é feito de madeira. A questão é a dúvida, e não a crença. Os koans servem para isso, instigar a dúvida e o paradoxo na mente dos praticantes. Então, voltando à pergunta, os obstáculos à iluminação são: a ignorância, os desejos, apego aos ritos e cerimônias, paixões e a raiva. O amor ou a paixão pelo próprio budismo também é um obstáculo. O pensamento de que as únicas verdades provem do Zen e todos os outros caminhos estão equivocados também é um grande problema.

Aluno - Esses são os dois extremos, o apego e a rejeição.

Monge Genshô – Exato.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vida correta



Pergunta – O que o senhor entende por um modo de vida correto?

Monge Genshô – É um modo de vida que não cause sofrimento aos outros seres. Uma profissão que não cause destruição e sofrimento. Profissões como caçador ou magarefe não podem ser consideradas um modo de vida corretos. Um modo de vida que ajude os outros seres é um modo de vida correto e que não seja um impeditivo à iluminação.

Pergunta – Esse era o sentido de minha pergunta, trazendo as escrituras para os dias atuais, eu que trabalho na UFSC, não me sentiria à vontade desenvolvendo um projeto para uma indústria química, por exemplo, que causa em geral, muitos estragos à natureza e consequentemente à todos os seres humanos.

Monge Genshô – Você deve decidir. Não tenho uma resposta pronta para resolver essa questão para você. Pode ser que você realize um grande projeto que muda a visão e o modo dessa empresa atuar. Quando Oppenheimer ajudou a desenvolver a bomba atômica, a ideia era de que fossem sacrificados talvez cem mil japoneses e o Japão se rendesse, poupando a vida de milhões de soldados americanos e mais alguns milhões de soldados japoneses. Tendo isso em mente, a bomba parecia algo bom. Depois de jogada a bomba, Oppenheimer pediu demissão. Pairava sempre a dúvida da real necessidade do uso da bomba desta forma, por exemplo, poderiam ter feito uma demonstração do potencial da bomba evitando que pessoas inocentes fossem mortas.

Outro fato que ocorreu após isso, foi uma corrida dos países para construir suas próprias bombas. Você teria que se colocar no lugar de Oppenheimer e se questionar sobre várias coisas, por exemplo, se a Alemanha tivesse desenvolvido a bomba antes dos americanos? É muito difícil de responder, ou melhor, parece fácil dar as respostas, pois quando se está de fora, tudo parece mais simples. Mas é preciso conhecer todas as variáveis. Você, dentro na universidade, desenvolvendo seus projetos terá que pensar o que fazer e mesmo assim, você nunca terá certeza absoluta que sua decisão foi acertada.



Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?

Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta mil vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz tem que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério. Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente é primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo.

Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior, vamos dizer assim, para a pessoa mais esclarecida?

Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências. Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um estuprador. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe uma relação de grandes crimes que causam grande marca carmica, matar o pai, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Dúvidas e certezas


3) Mesmo porque, não existem verdades absolutas.

Monge Genshô – Exato e todas as verdades que possamos declarar não passam de aproximações, são sempre relativas. Alunos do Zen não têm uma grande fé e sim uma grande dúvida. Ele vem para a Sangha porque tem uma grande dúvida. Se ele vem para a Sangha e diz que tem uma grande fé e certeza das coisas, este não é o lugar para ele. Aqui é o lugar para dúvidas e incertezas.

Aluno – Mas a pessoa vai viver sempre com dúvidas?

Monge Genshô – Bom isso, não é?

Aluno – Não, não penso que seja bom. É horrível.

Monge Genshô – Bom, isso é muito bom. A vida se mostra a cada passo e se você tiver certezas, estas irão conduzi-la a enganos.  O melhor é não ter certezas e ir caminhando para ver como a vida se mostra. Aquilo que você planejou pode ou não dar certo, e se não der? Você poderá mudar? Esta capacidade de mudar com as circunstâncias é o que a água tem, a mais sabia das substâncias, nunca resiste, nunca enfrenta, tudo que ela faz é escorrer e sempre pelo caminho mais fácil. Não cria resistência nem para evaporar-se, vira nuvem, chove e novamente está de volta ao solo. Esta deveria ser nossa atitude na vida, pois os que são duros sofrem muito. A pessoa que fica presa a um relacionamento que acabou, por exemplo, acabará com sua vida. Perdeu um emprego, arrume outro. Está ruim em um país, tente uma migração. Se você olhar a vida com essa flexibilidade poderá fazer muitas coisas, mas se olhar com rigidez fica muito difícil. Você é pedagoga, me diga, as teorias da pedagogia são fixas? Não, estão sempre mudando.

4) Então qual o primeiro passo para uma pessoa que pensa que nada vai mudar?

Monge Genshô – Esse é na realidade um desejo dos seres humanos, que as coisas fiquem estáveis, é o que chamamos de pensamento linear. É muito comum isso nos investimentos, por exemplo, o preço dos imóveis sobe e as pessoas então compram imóveis. Acontece que todas as pessoas têm o mesmo pensamento, mas chega um determinado momento que surge uma desconfiança, porque subiu tanto? O valor então desaba. Quantas vezes isso acontece? Há séculos que isso vem acontecendo. Somente algumas pessoas ganham com investimentos, seja na bolsa de valores ou em imóveis. Por quê? Porque a maioria pensa linearmente, ou seja, o que está acontecendo vai continuar acontecendo sempre.

Aluno – Mas não é possível fazer nada por estas pessoas?

Monge Genshô – Sim. Podemos tentar explicar, mas este comportamento de manada é comum. Os homens costumam fazer coisas de determinada maneira e se prendem a elas. Pegando como exemplo a sua área, se entrarmos na sala de aula hoje e virmos as crianças sentadas e o professor na frente dando aula e andarmos cento e cinquenta anos para trás quando La Salle começou as classes dessa maneira, imitando o sistema de formação industrial, no qual todos tinham a mesma formação, as classes parecem as mesmas, embora tenhamos ferramentas maravilhosas para educar as pessoas de forma diferente. O pensamento humano costuma seguir em trilhos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Fé, dúvida, determinação


Visita de Senpo Oshiro Sensei à Comunidade zen budista de Florianópolis.

P. Quais seriam os três elementos?

R: Monge Genshô: Grande fé, grande dúvida, firme determinação.


P. Eu não sei se a dúvida diminui tão facilmente quanto a determinação...até que ponto a Sangha também neste momento, que falha a determinação, é importante para a continuidade do caminho...

R. É verdade, a Sangha nos ajuda muito quando a nossa determinação enfraquece...


P. Praticar sozinho é possível?

R. Praticar sozinho é terrível, precisa ter uma determinação muito forte porque qualquer desculpa você diz: eu não vou sentar, mas no sesshin existe uma pressão social, que tento acentuar, não saiam, não abandonem o grupo em hipótese nenhuma, estejam em todas as atividades sempre juntos, porque a gente começa a comer junto, para de comer junto, espera pelo outro, só começa quando todo mundo está junto, por que esta insistência? Este método no Zen? Para reforçar o compromisso, se alguém não está então todo mundo espera, aí então há vergonha, não é? Já aconteceu comigo, você chega lá, todo mundo sentado esperando, isto acontece com todos nós, aí a gente aprende o significado do compromisso com a Sangha. É por isso que a gente faz isto no sesshin várias vezes, aí todo mundo entende o significado do compromisso porque a gente depende da Sangha para ter força, se todo mundo tiver licença para sair, ah! Não, estou cansado vou esperar lá fora, ah! este zazen eu vou me deitar no quarto, acabou este sesshin, de repente vai haver três sentados e o resto já está dormindo, porque afinal de contas acordaram as quatro da manhã.


P. Mas tem uma questão que é muito forte que é a gente plasmar no universo a vontade coletiva, isto reforça o grupo...toda vez que o grupo estiver fazendo junto a gente consegue até ir além desta questão puramente social e de compromisso e consegue efetivamente atingir um nível mais elevado que não é só o social e o compromisso...

R. Sim. É uma energia mais sutil e muito forte...


P. E que inclusive já foi até objeto de estudo, pessoas que participam de grupo social, atividades coletivas às vezes conseguem ter uma sobrevida física maior...

R. Com certeza porque são mais felizes também, se algum de vocês durante o sesshin em algum momento sentou sozinho, olhou para uma janela ou teve uma sensação assim: eu estou feliz, eu queria que isto não acabasse, isto é muito interessante porque o sesshin é sofrido, mas se em algum momento você sente: ah, eu queria que isto não acabasse, então você experimentou uma outra coisa, isto é um lampejo do nirvana, porque o nirvana é esta situação de harmonia que você cria através das regras que o sesshin propicia, regras para evitar conflito, regras para reforçar-se junto um ao outro, práticas de plena atenção e sofrimento porque quem senta junto e sente dor nas pernas, e eu sinto, sente que os outros que sofreram as mesmas dores junto são companheiros de verdade.