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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Nem Buda dispensou mestres


Estátua de Kannon esculpida em um único tronco de jaqueira por Kogen San, encontra-se no mosteiro do Morro da Vargem
(continuação)  Monge Genshô: Quando Buda vai para floresta e começa a meditar, pensar, estuda junto com 2 mestres iogues – Brahmaputra e depois Alarakalama. Quando alguém me diz assim – ah, eu quero começar a praticar sem professor, fulano de tal escreveu contra os mestres, eu escolho uma coisa daqui, outra de lá o que eu gosto. Pego uma coisa de uma religião, outra de outra, faço essa salada e está tudo legal. Para esta mistura falta coerência interna e a pessoa se encontra em um beco sem saída. As religiões ao longo do tempo, sendo discutidas e debatidas internamente, criam  alguma coerência doutrinária. Pode-se até achar furos, mas há coerência. Agora, quando uma pessoa pega pedaços de várias religiões e junta é muito flagrantemente com mil furos, tudo incoerente. Não dá para conciliar. Sidharta vai lá e treina com 2 mestres. Isso que eu queria dizer: nem Buda deixou de ter mestres. Portanto, procurou coerência interna naquilo que estava sendo ensinado até chegar a um determinado ponto e dizer – ainda me falta isso. Aí ele foi para outro mestre, foi mais alto e ainda faltava algo. Depois de ter ido muito longe, é que ele tratou de sentar sozinho para conseguir achar a sua resposta, uma resposta que o satisfizesse. Porque nenhuma resposta o completara inteiramente. A primeira grande resposta de seus discurso é a primeira nobre verdade – Dukkha.

Seu nome, seu título, Buddha, esta raiz Bud, significa acordado, desperto. Então “Buddha”, significa aquele que acordou. Mas acordou do que? Acordou de tudo aquilo em que as pessoas se apoiam, as ilusões. Ele acordou e entendeu que todos os deuses do hinduísmo não existiam por si mesmos. A partir de então, para o budismo, os deuses existem porque as pessoas creem neles. Não é que eles existam e as pessoas, por causa disso, depositam crenças neles. Não. Eles existem criados pelas crenças. São os crentes que sustentam a existência dos deuses. Quando o último crente deixa de acreditar em um deus, esse deus morre.  É como aquela famosa passagem do poeta – “O grande deus Pã morreu.”  Ninguém mais acreditava no deus Pã, então ele desapareceu”.

Para o budismo, quem sustenta a existência dos deuses são os crentes. Então chegamos a ponto de dizer – ah, mas a deusa da compaixão no budismo, Kannon, ela existe? Kannon sabe que não existe. Há um episódio que Kapleau conta no livro – os três pilares do zen- Kapleau chega num templo e acontece uma coisa – um mestre diz: - Vamos agradecer isso, inclinar-se perante Kannon. Kapleau, muito indignado, diz: - “Não estou entendendo. Este não é o Zen dos monges que queimaram a estátua de Buda para se esquentar? Não é o zen do monge que cuspiu numa estátua de Kannon?” E o mestre respondeu: - “É, é esse zen mesmo. Se você quiser cuspir, pode cuspir, eu prefiro fazer reverências.” Depende da cabeça de cada um, que tipo de pessoa é.

Hoje, quando entro em igreja católica, faço reverência para as estátuas. São objetos de reverência, devemos fazer reverência. Esses dias contei uma história interessante que aconteceu com um praticante. Estávamos em um centro jesuíta e cada vez que passávamos em frente de uma estátua de Nossa Senhora de Fátima eu fazia reverência e os alunos que vinham atrás também faziam. Os budistas fazendo reverência para a estátua de nossa Senhora de Fátima. Aí eu expliquei isso. No fim do retiro, esse praticante contou que saiu fazendo reverência para todas as estátuas que encontrava no centro jesuíta. Chegou no jardim e tinha uma branca de neve e os sete anões. Aí o praticante ficou na dúvida se fazia reverência para Branca de Neve ou não. Na dúvida, fez reverência para a Branca de Neve. (risos)  ( continua)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A cada passo fazemos o caminho



Alguém escreveu outro dia dizendo que tudo estava dentro de você mesmo e que não é necessário professor para encontrar as respostas dentro de si mesmo. Esse é um mito pois, por exemplo, se você tentar aprender música sozinho, nunca passará de um amador terrível, com posturas e vícios errados. Isso é uma imensa vaidade, o caminho espiritual não é fácil. Eu estou no Zen há quarenta anos e ainda faço perguntas para meu Mestre. Ninguém anda sozinho, precisamos da ajuda dos outros, dos mestres, escolas e métodos.

  P:   É correto dizer que se está buscando o caminho?

Monge Genshô – O caminho se constrói a cada passo. Você não está buscando um caminho, você está fazendo o caminho. A cada passo você está fazendo seu caminho e amanhã o passo muda. Se você passar a pensar que o Zen é um lugar muito cruel, mude de caminho. O Zen não é o possuidor da verdade e nem há nenhuma crença que possamos dizer que seja certa ou verdadeira, o Zen é um método que serve para algumas pessoas, para outras pessoas existem outros sistemas mais apropriados.

Um mestre do passado disse em resposta a um aluno: “Eu gostaria de te dar alguma coisa, mas só tenho uma bola de ferro incandescente para ser engolida”. A vida é cheia de oportunidades e conhecer o budismo é uma rara oportunidade, pois nem todas as pessoas se sentem atraídas por algo desse tipo. O Zen atrai um tipo de pessoa que não quer mais muletas psicológicas e está focado em esforço próprio, não em ilusões. Qualquer pessoa que vá até o Hattô (templo) e faça prostrações para a estátua de Buda é um herege e ignorante, não fazemos prostrações para a estátua de Buda. A estátua é de gesso, pedra ou madeira e Buda foi um homem como nós. Fazemos prostrações para acabar com nosso orgulho de não sermos capazes de ajoelhar, o fazemos para agradecer o Dharma que nos foi transmitido com o esforço de muitos mestres da linhagem a começar por Shakyamuni Buda.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O que é Buda?



Pergunta - O que é Buda?

Monge Genshô – Buda é mente. Essa é uma das respostas possíveis, outras respostas seriam, Buda significa acordado, não é o nome de uma pessoa, foi um título dado a Sidharta Gauthama porque ele acordou, despertou, logo, ele é O Buda. Tradicionalmente um grande professor, mas um homem não diferente de nós. Por Buda também podemos entender nossa natureza búdica. Todos temos a natureza dos seres que sonham, ou seja, temos a possibilidade de despertar. Buda também é um ideal, o ideal de ter uma mente lúcida e clara sem se deixar enganar por nenhuma ilusão. Em absoluto não é uma estátua, as estátuas existem porque as pessoas gostam de estátuas. Buda também não ajuda ninguém, não adianta lhe pedir nada. Se Buda pudesse ajudar e visse o sofrimento dos seres, ele ajudaria.

Pergunta – Buda então é uma mente acordada e inativa?

Monge Genshô – Não, uma mente desperta não é inativa. Uma mente acordada realiza ações lúcidas e despertas. Uma mente perdida na ilusão realiza ações deludidas. Aqueles que estão enganados agem como pessoas enganadas. Uma pessoa que visse as coisas com absoluta clareza realizaria uma ação perfeita. Esse é um dos motivos de as artes serem tão importantes para o Zen e para o Budismo, na forma do Zen, ter sido tão influente nas artes nos países onde ele frutificou. Uma ação perfeita é uma ação que não é mais pensada, pra mim é mais fácil falar sobre música porque fui violinista, por exemplo, quando você vê alguém tocando um concerto, ele tem que decorar a peça que está executando. Na hora de interpretar não tem como pensar na forma do acorde executado e em qual virá depois, tudo tem que estar pronto, é como recitar uma poesia, ela tem que ser decorada e sair de sua boca sem pensar para que a interpretação seja perfeita. Só dessa forma é possível colocar sentimentos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Declaração Pública do Colegiado Buddhista Brasileiro



Declaração Pública




O Colegiado Budista Brasileiro, entidade que congrega as principais lideranças budistas brasileiras, vem a público lamentar profundamente e repudiar veementemente a agressão violenta sofrida pela minoria budista do Bangladesh por parte de militantes extremistas islâmicos, da qual resultou a destruição pelo fogo de vários templos com seus objetos de culto e símbolos sagrados. Os budistas não respondem ódio com ódio e violência com violência, eles se limitam a lamentar compassivamente os atos insanos nascidos da ignorância e do egoísmo do ser humano e a lembrar as sábias palavras do imperador budista indiano Açoka, que proclamava que perseguir e agredir a religião alheia acarreta danos para nossa própria religião.

Com efeito, não é através dessas atitudes violentas geradas por uma minoria de extremistas que a religião muçulmana há de angariar o respeito e a consideração a que faz jus por parte da comunidade internacional, assim pedimos que os muçulmanos de bem repudiem publicamente as ações dos extremistas. Os budistas brasileiros pedem vênia aos extremistas muçulmanos para lembrar-lhes que o próprio Alcorão Sagrado ensina que "não há imposição quanto à religião" (2:256) e para recordar-lhes as belíssimas palavras com que o grande místico islâmico Ibn 'Arabi de Múrcia (1165- 1240) celebrou sua adesão ao Amor Universal que transcende todas as diferenças confessionais e sectárias:




"Oh! Maravilha-te! É um jardim entre as chamas!

Meu coração tornou-se capaz de todas as formas:

é um pasto para as gazelas, um convento para monges cristãos,

Um templo para ídolos, e a Caaba dos peregrinos,

E as tábuas da Torá e o livro do Alcorão.

Sigo a religião do Amor: não importa o rumo que tomam

os camelos do Amor, essa é minha religião e minha fé."



Colegiado Buddhista Brasileiro

Diretoria


Presidente Rev. Shaku Haku-Shin

Rev. Meihô Genshô

Dhammacariya Dhanapala

Shaku Hondaku

Claudio Miklos Kômyô


Presidente do Conselho do CBB


Rev. Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves


Conselho

Lama Chagdud Khadro

Rev. Monge Rinchen Khienrab

Rev. Heyla Downey

Ven. Uttaranyana Sayadaw

Rev. Shaku Sogyo

Rev. Monja Sinceridade

Rev. Coen Sensei


Aliam-se a declaração:

- Choyu Otani (Mestres das Missões da Ordem Otani-ha)

- Rinban Kensho Kikuchi (Ministro Superior da Ordem Otani-ha no Brasil)

- Rev. Ricardo Mario Gonçalves

- Rev. Hiroshi Matsuda

- Rev. Massaharu Suguiura

- Rev. Severino Sales Silva

- Rev. Leninha Brasileiro

- Rev. Hiroyuki Higashi

- Rev. Tsuyami Ueno

- Rev. Tadao Sawanaka

- Rev. Yassuo Nakashima

- Rev. Mitsue Nakashima

- Rev. Meishi Nakazawa

- Rev. Shu Izuhara

- Rev. Linda Morimoto

- Rev. Yaeko Togawa

- Rev. Minako Iso

- Rev. Kasuro Nanao

- Rev. Margarida Nakaoka

- Yuka Kikuchi

- Rev. Seigo Nawa

- Rev. Isshin Sensei

(Todos que o desejarem podem subscrevê-la e divulga-la preservando seus termos originais)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Radicais destroem estátuas budistas no Paquistão


Quando o Taleban destruiu duas estátuas budistas no Afeganistão na primavera de 2001, houve um clamor de protesto internacional. Mas incidentes similares estão ocorrendo agora no noroeste do Paquistão, onde islâmicos radicais recentemente explodiram uma escultura do Buda em plena luz do dia

Yassin Musharbash

O fenômeno é novo e desconcertante. Até mesmo o governo paquistanês o descreve com uma "talebanização"
. Atualmente certas partes do país estão quase que na exata situação em que se encontrava o Afeganistão quando o Taleban detinha o poder naquele país.

Isso ocorre especialmente na outrora pacífica região de Swat, na qual um líder militante islâmico chegou até a proclamar a criação de um "emirado". E, assim como no Afeganistão, o ódio dos islâmicos é direcionado em parte contra os traços da antiga civilização budista que existiu na região.

Extremistas muçulmanos inspirados pelo Taleban destruíram uma importante escultura budista de 40 metros de altura e cerca de 1.300 anos de idade na região noroeste do Vale de Swat, segundo Vishaka N. Desai, diretora da Asia Society, uma instituição internacional com sede nos Estados Unidos cujo objetivo é estreitar as relações e o entendimento entre os povos asiáticos e norte-americano.