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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre o título do blog

Vez por outra alguém pergunta sobre  este título, partilhado com o livro assim chamado, argumentando que "onde" pede "em", a resposta é que é proposital, para fazer pensar em um paradoxo tipicamente do zen:

R: Por que não é "No pico da montanha" , ou "Os meus pés estão no pico da montanha"?  Porque esta montanha está em todos os lugares, não é um "onde", mesmo os vales são o pico da montanha, sendo onipresente passa a ser uma condição determinada pelos pés e não pelo lugar onde estariam. Se fosse um onde, qualquer passo seria descer de um pico nos quais os pés estão sempre.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Onde fica o Vazio?



Pergunta – Levando isso em consideração, seria a morte uma libertação?

Monge Genshô – Nem uma libertação nem uma não libertação. A morte é tão somente um evento inerente a vida, tudo que nasce morre.

Pergunta – Então o que sobra após a morte é...

Monge Genshô – O que sobra o que? Do que? O que sobra do redemoinho quando cessam as energias que o colocaram em movimento? Onde está o eixo do redemoinho quando ele para? Esta em toda a parte na atmosfera. Está tudo na atmosfera, nada foi embora, tudo está no mesmo lugar, somente o movimento daquele momento que cessou. Mas a atmosfera está ali livre para produzir novos redemoinhos.

Pergunta - No sutras se fala que forma é vazio e vazio é forma. Eu entendo como forma todas as manifestações que teriam como origem e destino o vazio...

Monge Genshô – Não, não existe destinação no vazio. Todos os seres e todas as coisas, tudo, tem uma forma, mas nem um deles tem um “eu” inerente, todos são interdependentes, interligados e interconectados. Isto é a vacuidade. A vacuidade não é uma coisa, não é um algo, não é um substrato que sustenta o universo e tão pouco um Deus. Quer continuar a pergunta?

Pergunta – Agora complicou um pouco...Mas por exemplo, prosseguindo minha linha de raciocínio, o cabide de madeira, a destinação dele é a extinção do “ser” cabide, pois a madeira irá se extinguir através de fogo ou cupim. Minha pergunta é, esse vazio seria um estado de não-ser...

Monge Genshô – O vazio não é um estado de não-ser. O vazio é o fato de que todas as coisas tem a mesma característica ou qualidade de serem interligadas e interdependentes, e nenhuma delas ter um “eu” em si mesmas, ou seja, inerente. Assim como o redemoinho é um movimento do vento e não existe por si mesmo, nós não existimos por nós mesmos, somos um movimento da vida, cada um de nós é como uma onda ou pé de vento. Somos um movimento no vazio. Vazio de que? De um “eu”. Se você tirar a forma não existe vazio, porquê o vazio se manifesta como forma. Imagine o mar com suas ondas e você passar uma lâmina e tirar todas as ondas de cima do mar, o que sobra? A água, certo? Mas se no momento seguinte você olhar novamente o que surgirá? Novas ondas. Porque o mar só se manifesta desta forma, com ondas. A vacuidade só se manifesta como forma. Você não pode tirar a forma e então restar a vacuidade.

Pergunta – E onde fica o vazio?

Monge Genhô – O vazio não fica. Ele é todas as formas. Onde fica o mar? Não é onde ficam as ondas? Dá para separar as ondas do mar? Quanto mais ondas você tirar mais ondas surgirão.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Samsara e Nirvana



A maneira de transformarmos o mundo é transformando a mente de cada um. Não importa qual o sistema, transformando as mentes, qualquer um funcionaria maravilhosamente bem - uma monarquia funcionaria maravilhosamente bem, uma ditadura também, um sistema totalitarista como o comunista funcionaria bem igualmente, a democracia funcionaria. Somente seriam necessárias pessoas, todas elas, com mentes compassivas, honestas, maravilhosas, dedicadas ao bem dos outros, abdicando de si mesmas, e o mundo seria perfeito. A raiz da mudança do mundo está nas mentes. É por isso que o budismo volta-se para o treinamento e a modificação da mente do homem, para, dessa forma, produzir o nirvana, um mundo onde a mente que olha transforma o samsara, que é o mundo da perambulação, do sofrimento, um mundo onde transitamos de um lugar para outro buscando a felicidade. Assim, mudamos de um amor para outro, de um emprego para outro, e vivemos sempre cheios de “se”: se eu ganhasse na loteria, se eu fizesse isso, se eu fosse amado, se eu tivesse um filho. Esses “se” são colocados como o que nos permitiria ser felizes.

Esse é o mundo da perambulação, o samsara, o mundo da procura e da insatisfação permanentes. Esse é o significado de dukka, a primeira nobre verdade. “A vida é dukka”, ou seja, a vida é insatisfatória, porque nela, embora haja momentos maravilhosos ou tristes, nenhum deles será permanente, sólido ou estável. A mudança é parte integrante da natureza das coisas. E assim, achando sempre insatisfação ao fim de qualquer processo de qualquer tempo, sofremos. Sofremos por não podermos agarrar e ficar com uma felicidade e satisfação permanentes. E o nirvana? O mesmo mundo, o mesmo lugar, mas onde os ventos dos impulsos não nos empurram e onde, por causa disso, não existe necessidade de perambular, porque onde estamos encontramos a completa felicidade e plenitude. 

Dizemos no Zen que quando estamos sentados em meditação, isso é nirvana, é iluminação, porque, naquele momento, você imita Buda e imitando Buda você é nada mais do que Buda. Dizemos isso também para desarmar, porque em outro sentido você não é Buda, você sabe que não é, sabe que não está desperto, que não é um iluminado. Mas se você se senta com o desejo de ser um Buda, de se iluminar, de se libertar, de ser feliz, esse próprio desejo é samsárico, pois ele produz uma busca, uma insatisfação. A pessoas se perguntam, então: “para que estou praticando, se não alcanço nada, sou assim sempre, sou mau?” Pensar desta forma é estar em samsara sentado em meditação. Esse mesmo ser, no instante em que não é levado por nenhum impulso, por nenhum desejo e que não pretende alcançar nada, ele vê no próprio samsara o nirvana. Porque não há nenhuma diferença de lugar nessas duas coisas, a diferença está na mente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Como aprender sobre o budismo se não há um templo próximo?

Ao final de um texto publicado em seu blog, Folhas no Caminho, o Prof Sasaki encerra dizendo:

"No novo artigo que apareceu hoje no site brasileiro de Ajahn Buddhadasa, chamado "Unidade na Diversidade", e que conta um pouco da amizade entre Tan Ajahn e um grande amigo muçulmano, este diz das dificuldades de ir visitar o mestre:

"Nós tivemos que pegar um trem de Bangkok e chegamos em Chaiya às 4:00h da manhã. Phra Kuang e eu tivemos que esperar na estação até estar claro o suficiente. Então caminhamos através dos campos e florestas. Era a estação chuvosa, e de vez em quando tinhamos que atravessar águas chegando até a nossos peitos. Mas eu nunca pensei em desistir.”

"Eu costumava subir o Phu Kradueng em Loei quando ainda era uma selva. Aquilo era realmente difícil - mas no topo das colinas, o ar fresco e puro me fazia sentir como se eu estivesse em outro mundo, e todo o cansaço ia embora.”

"Eu tive que caminhar muito tempo antes que alcançasse Suan Mokkh, mas não me sentia nada cansado. Eu fui confortado pelo pensamento de que eu iria obter um discernimento do Dhamma de um monge cujas idéias eram muito diferentes do que eu tinha ouvido, como se as dele pertencessem a um outro mundo".



"Entretanto hoje as pessoas reclamam que o centro de Dharma mais próximo fica *só* no bairro vizinho. "Ah se tivesse um perto de casa! Aí eu frequentaria..."

No final das contas, podemos nos perguntar se é o Buddhismo que deve se abrir e difundir, ou se são as pessoas interessadas que devem se levantar de suas poltronas. Já escrevi sobre isso, aliás, em "O Que Se Fazer Quando Se Está Só". Se não há pessoas interessadas, ativas e dispostas, não seria questão de perguntar para quê então deveria o Buddhismo existir no Brasil? Existe uma idéia comum que diz que onde não há mérito o Dharma não se estabelece. Eu não gosto da palavra "mérito", mas a idéia por trás me parece verdadeira. Se não há um jarro, para quê despejar água no chão? O Dharma só é necessário porque existem pessoas interessadas nele. Abrir e difundir o Buddhismo só para que o "Buddhismo" continue existindo, é fazer do "Buddhismo" uma entidade merecedora de existência própria, independente de para quem ele se dirige."