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terça-feira, 11 de setembro de 2018
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Ondas Cármicas (Parte 1)
No Cristianismo, Cristo, ao ressuscitar, venceu a morte. E então deu a todos os
homens a possibilidade de vencê-la, ressuscitando. Por isso, existem aqueles painéis na Capela Cistina, onde os
mortos estão saindo das tumbas no juízo final. Estão ressuscitando. Eles são julgados: uns
vão para o inferno e outros para o paraíso no painel de Michelângelo.
Isso quer dizer que as religiões vêm com a
oferta de vencer o medo fundamental. As pessoas têm medo de morrer, têm medo
de que seu "eu", tão precioso, tão bem construído, desapareça. Então, em geral, as religiões vêm sempre com uma solução para
esse problema. Isso é bem antigo - qual é o céu para onde você vai depois, etc.
Sempre a questão de vencer a morte, são raras as exceções.
O budismo tem uma outra ótica. Tem a
ótica de que o "eu" é ilusão, que uma alma eterna não existe, um
espírito assim não existe, que são todas construções do medo da morte. Porque
as pessoas têm medo da morte acreditam nas religiões. O que o
budismo quer dizer é que não existe ir nem vir, porque o próprio "eu"
é uma construção e, portanto, uma ilusão. Nós estamos aqui há muito tempo e não
temos como ir embora. Nós somos exatamente ondas cármicas se repetindo,
manifestando (continua)
sexta-feira, 17 de maio de 2013
O céu dos outros
Siddharta sentiu-se angustiado com um problema que todos sentem. O problema é: eu estou falando para uma platéia de pessoas condenadas à morte. Todos aqui tem uma doença terminal, que chama-se vida. Termina inevitavelmente em velhice, doença e morte. Nós tentamos fingir que não é assim, tentamos não pensar no assunto.
O que aconteceu com Siddharta foi que isto pareceu-lhe extremamente importante. Esse assunto tirava todo o sentido da vida. “De que adianta eu ser príncipe, ter concubinas, esposas, filhos, luxo, riquezas, vou ser Rei depois, mas, de que adianta tudo isso se essa historia toda termina com uma morte abjeta, esse corpo que a gente tem que sustenta a vida simplesmente apodrece’?
Vocês podem evitar que os vermes comam suas mãos, sua carne, sendo cremados. Aí a gente pega as cinzas e espalha. É tudo o que se pode fazer. Em qualquer das duas hipóteses, nós viramos adubo. Então, Siddharta disse: “Eu! Eu, Príncipe, vou virar cinza! Vou adoecer, envelhecer e morrer. Então, que sentido tem a vida?”
Isto foi o problema que angustiou Siddharta. Deveria angustiar todos os homens. Na verdade, só não angustia quem não pensa e à medida que a humanidade pensou, ela tratou de achar alguma solução para isso.
As soluções, normalmente se expressavam sob a forma de alguma crença, algum sistema, em que todas as pessoas começavam a acreditar ou eram convencidas pela sociedade e o entorno a acreditar. A civilização antiga mais conhecida é a egípcia. Temos 3.000 anos de história antes de Cristo na civilização egípcia e eles deduziram que a coisa seria conservar o corpo. Então pega-se o corpo, tira-se as vísceras, enche-se de alcatrão, enrola em bandagens, coloca junto com coisas para auxiliar a vida do outro lado, comida, carruagens, espadas, etc, quanto mais rico o homem mais ele levava. No início levava seus empregados também para ajuda-lo do outro lado. Então, não era um bom negócio você ser um empregado do Faraó, pois se o faraó morresse, você seria enterrado vivo, junto com o Faraó.
Mas assim, eles estavam garantindo uma vida no “pós-morte”, com o mesmo corpo. Tá certo que o corpo das múmias que a gente olha não está servindo pra grande coisa, mas, era uma “solução”.
Depois fomos partindo pra outras soluções, idéias sempre em caráter “não morte”. Por exemplo: eu posso quem sabe ressuscitar? Então, a promessa é: se você morrer dentro de determinadas condições, então você vai ressuscitar depois com um corpo novinho em folha. E aí, viveria numa terra perfeita pra sempre.
Os gregos gostavam muito de fazer o quê? Conversar na praça de cidades que se chamava “Ágora”. Então, os gregos pensavam, como seria o nosso Céu, depois da morte? Então os homens bons iriam para o “ Hades”, que era a terra dos mortos, os bons para um lugar que era uma ilha paradisíaca, onde as regras eram de que a comida viria pronta, caía das árvores, as roupas também, você não precisava trabalhar para fazer nada. Tinham regatos límpidos, temperatura maravilhosa e você podia conversar sobre filosofia. Não é um céu para gregos? Conversar , debater.
Os muçulmanos nasceram entre os árabes, os descendentes de Ismael, filho bastardo de Agar, escrava de Abraão, expulsa por Sara, quando Issac nasceu. Então, é uma história filha do ciúme, e os descendentes de Ismael, os árabes e os descendentes de Issac, os israelitas, estão brigando até hoje. Nós tínhamos que conversar com Sara, voltar no passado e dizer: “Sara, não faz isso”! Mas ela pediu a Abraão que expulsasse Agar e Ismael de sua casa. Os árabes estavam no deserto e acabaram criando uma sociedade que tinha um indivíduo que era o privilegiado total. O sultão. O sultão tinha uma coisa que todos os homens queriam, e ninguém tinha: um Harém! Então, pronto, resolvido: no céu islâmico, cada homem que morre bem, vai pra lá e ganha 72 mulheres! As huris, bonitas, sempre jovens, e não trazem sogras.
E assim vamos percorrendo a história. Os vickings: faziam guerras, eram conquistadores, como na tirinha do Hagar, o horrível. Então eles têm um céu especial, chama-se “Valhalla”. Se você for um homem valente, vai pro “Valhalla” e lá você vai poder guerrear e saquear para sempre.
Tão vendo como são os céus? A gente ri não é? A gente ri das crenças e culturas “dos outros”. Elas nos parecem ridículas. As nossas não.
(continua)
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Práticas diferentes para diferentes pessoas
Pergunta – Essa Mente é vida eterna?
Monge Genshô – Sim, é isso, é eterna, mas talvez a palavra vida aqui não seja adequada, porque vida está conspurcada pela idéia de eu ter uma vida. É como normalmente essa expressão “vida eterna”, sempre foi entendida no ocidente, todas as religiões teístas do ocidente pretendem responder essa pergunta – O que acontece depois da morte? E querem dar uma boa solução para depois. Por exemplo, os adventistas do sétimo dia crêem que os justos ressuscitarão, os Testemunhas de Jeová também. Ressuscitarão e ganharão novos corpos. Os mórmons também, suas almas são permanentes. Os adventistas crêem na ressurreição do corpo e na vida eterna com um corpo. Não só alma num mundo espiritual mas o corpo com tudo que um corpo tem. Isso é um desejo de permanência. No islamismo é ir para o paraíso, morrer e ter o que o sultão tem, muitas mulheres. Uma vida paradisíaca dentro do imaginário dos nômades da época em que o islamismo foi criado, qual era o mundo perfeito? Viver como um sultão, ter um harem. Já que estavam no deserto, um mundo com água corrente em abundância. No paraíso cristão normalmente, os justos vendo à Deus, conservando a si mesmos e tendo prêmios de acordo com sua conduta na terra. Diferentes graus de felicidade dentro do paraíso. Pelo menos na mítica discrição de Dante em A Divina Comédia. O que eu queria demonstrar é que o que as religiões teístas tentam é dar ao homem uma esperança de continuidade de seu eu particular para uma eternidade feliz, dando à ele aquilo que ele ambicionaria.
A única grande religião que retira isso é o budismo ao dizer que a alma não existe e o grande engano é sua crença num eu particular. Mas o raciocínio todo, quando se lê um texto como esse, acaba sendo bastante complexo. O ensinamento do Dharma é difícil de ser explicado. Por isso o budismo acabou desenvolvendo diferentes estratégias. Esse tipo de ensinamento aberto, não é secreto, mas de certa maneira auto secreto, porque você não consegue transmitir facilmente. Você explica e não é entendido. E a prática também é muito difícil. O budismo acabou tendo diferentes escolas, níveis de prática para diferentes tipos de pessoas. O budismo tibetano, por exemplo, é bem abrangente nesse aspecto, porque é o budismo de um país inteiro, então precisava solucionar esse problema, então qual é a prática que se dá para um camponês analfabeto? Dou uma repetição de mantras. Pode se iluminar assim? Por que não? Você dá essa prática que está dentro do alcance desse praticante. No caso do Zen, nós estamos aqui no sesshin fazendo uma prática que no oriente é quase privativa dos monges. Porque havia profundo interesse no ocidente, os mestres que chegaram começaram a ensinar aos alunos, a prática dos monges. E os leigos todos puderam praticar.
Pergunta – (...) Seria mais ou menos assim, as diferentes escolas, as diferentes formas de compreender, vão chegar num nível desses...
Monge Genshô – Você vai encontrar isso como no exemplo que dei do budismo tibetano, quando você chega no Dzogchen. O tipo de ensinamento é igual ao Zen, mas na prática normal, no Tibete você levaria vinte anos para chegar lá, fazendo passo a passo, subindo passo a passo num caminho programado. A essência, para nós entendermos, é que as diferentes escolas budistas foram construídas pelos mestres para atender as diferentes necessidades de diferentes culturas de diferentes povos de diferentes pessoas, portanto é necessário que existam. É necessário que existam os diferentes veículos. Num pensamento mais abrangente também é necessário que existam outras religiões para atender pessoas dentro daquelas necessidades.
Fim
Palestra ministrada em retiro (sesshin). Decupada da gravação por Chudô San.
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terça-feira, 5 de março de 2013
Querendo vencer a impermanência
O Zen é muito interessante, não é verdade? Não existe ninguém enrolando vocês ou pedindo que vocês acreditem nisso ou naquilo outro. É tudo muito evidente e lógico, porem um pouco difícil de engolir. Todo mundo gostaria de frequentar um local de prática com um mestre que lhes dissesse: “Eu sei de onde você veio e como foi sua vida passada, sei como vai será futuro, posso lhe abençoar, você tem uma alma permanente e eterna e quando morrer irá se encontrar com todos seus entes queridos e serão felizes para sempre”. Imaginem a confusão. Mas é o que todos desejam. Existe uma religião que é o oposto do Budismo. Não existe impermanência de forma alguma. As pessoas se casam para a eternidade. Os filhos estão amarrados à eles, e os filhos dos filhos também. Nada irá acabar, tudo continua exatamente como está agora. E o corpo? Depois de morrer, na ressurreição, você recebe um corpo novo no auge de sua saúde física e mental, para sempre. Eles foram dando as pessoas o máximo de esperança na continuidade de uma alma imortal. É uma religião que está dedicada a resolver todas as angústias existenciais. Nesse sentido não é diferente das outras religiões, todas as religiões tentam tirar a angústia da morte. Qual o grande problema do budismo? É que você vem aprender e ele, lhe diz que estas coisas são ilusões de um eu que, temporário, quer se tornar permanente.
Pergunta – Mas mesmo Buda em sua busca tinha como objetivo escapar do sofrimento e da angústia.
Monge Genshô – Exatamente isso. Ele desejava resolver o problema da finitude. Só que ele resolveu de outra forma, ele despertou e disse para seu “eu”: “Você não me enganará mais”. Ele também tinha um “eu” desejando ser permanente. Mas ele conseguiu enxergar além do eu, além de nascimento e morte, ele enxergou que não era um redemoinho e sim um céu azul.
Mas isso é muito difícil de ser conquistado, pois todos queremos acreditar em nosso sonho pessoal, eu separado dos outros e quero continuar a ser “eu” para sempre. O “eu” resiste desesperadamente a sua aniquilação. Para complicar mais ainda, não é possível viver nesse mundo sem um “eu”. Eu preciso de meu “eu” e de minha personalidade para falar para vocês. O “eu” é uma ferramenta útil, mas esse “eu” que fala para vocês é só uma manifestação temporária e não minha verdadeira natureza. Intelectualmente é até fácil de entender, mas então vem as perguntas e para os mestres é fácil perceber que dentro da pergunta existe um “eu”, logo, isso não foi realmente entendido. Por isso os mestres fazem perguntas, para descobrir se dentro da resposta existe um “eu”.
Nas entrevistas com o mestre, por exemplo, com Saikawa Roshi, ninguém vem apresentar uma descoberta, as pessoas sempre vem com perguntas que comprovam a existência de um “eu”, portanto, não existe ali um entendimento de fato, ainda não aconteceu uma descoberta. Saikawa Roshi sempre me pergunta, “Você traduziu corretamente o que eu falei, então por que ninguém vem me mostrar nada?”. Como as pessoas vivem em mundo de sonhos só fazem perguntas sobre o sonho. Quando a pessoa pergunta, “Eu tenho um filho e tenho medo de perdê-lo, o que eu faço?”, esse é uma pergunta de um “eu”. Isso foi construído desde a primeira infância.
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