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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mantendo a lucidez


Pergunta – Com relação ao Bodhisattva, ele seria um ser que renunciou à sua extinção para ajudar a nós que estamos deludidos não é? Pensando assim, não seria lógico que esses seres que fizeram essa renúncia seriam uma ajuda para que a gente consiga alcançar a iluminação? Queria entender a relação do Zen com os Bodhisattvas ou esses seres.

Monge Genshô - O Bodhisattva, quando mestre, diz pra você: “o caminho é esse, faça assim, cuidado, tem essa curva aqui que é perigosa, tem essa pedra em tal lugar, leve um tênis para percorrer essa trilha”, mas quem tem que ir é você. No fim da trilha, há uma fonte de água pura, ele jamais vai poder beber por você, é você quem tem que chegar lá e beber. Então os Bodhisattvas, os mestres todos são MUITO úteis, mas de novo, não é algo mágico, nada de extraordinário, não existem seres lá fora que vão nos ajudar. Se existissem seres lá fora que tivessem o poder de nos ajudar, eles estariam ajudando agora sem a gente pedir. Se Buda pudesse nos ajudar, ele ajudaria, não precisaria pedir. Se ele não ajuda é porque ele não pode.

Se você tem um filho e seu filho cai, você espera que ele peça para você ir até ele ajudá-lo a se levantar? Nunca. Vocês acham que são piores que os Budas? Não, não são. Então se nós caimos e tropeçamos e temos doenças e tudo mais, para quem lá fora nós vamos pedir que nos ajude? Para ninguém.

Eu tenho um neto com leucemia. Quando eu era criança e uma criança tinha leucemia, as famílias rezavam e oravam para todos os santos e deuses, e 100% das crianças morriam. Hoje, 85% das crianças sobrevivem a leucemia, porque há quimioterapia, há transplante de medula. Para quem nós devemos agradecer? Porque as orações continuam sendo feitas hoje. E as orações eram feitas ontem. A diferença é a quimioterapia. Eu tenho que agradecer aos médicos que criaram a quimioterapia. Aos laboratórios. Aos que se empenharam para vender uma cura, seja qual for o seu interesse. É a eles que eu tenho que agradecer. Porque as orações são as mesmas do passado.

Em geral as pessoas não gostam de ouvir isso no Zen. As pessoas fazem esse tipo de pergunta e dou esse tipo de resposta e fica todo mundo meio apático e surpreendido. Mas é a pura verdade. Então nós jamais vamos até Buda e oramos para ele e pedimos que providencie isso ou aquilo. Jamais fazemos isso no Zen, porque Buda morreu faz muito tempo, está extinto, quem pode mudar as coisas somos nós, nós podemos mudar o mundo, nós que temos poderes para mudar o mundo, não eles.
O mundo é extraordinário, andar sobre o chão é extraordinário, falar e ouvir é extraordinário, que nós tenhamos corpos que funcionam é extraordinário, que tenhamos mentes que pensem, que exista chá e que eu possa beber, isso é mágico, é profundamente mágico.

Como as pessoas não vêem o extraordinário e o mágico que está presente na vida a todo instante, a todo momento, querem procurar o algo mágico fora, não precisamos do algo extraordinário, porque é mágico demais o que já está acontecendo aqui e agora nessa sala.

A iluminação é extraordinária? Sim é extraordinária, mas é uma coisa tão comum e tão simples e está ao alcance de todas as pessoas, é só uma questão de esforço, de empenho. A iluminação é possível aqui e agora, como era possível para Buda. A libertação é possível, ser um Bodhisattva é possível.

Pergunta – O senhor comentou que não adianta a gente pedir ajuda externa e tenho uma dúvida no sentido de que, se tem uma pessoa doente, os familiares se reunirem para fazer uma oração, ou para rezar e canalizarem, isso existe no Zen?

Monge Genshô - Eu acho que existe na natureza não é? Porque o que acontece é que você pode pegar as pessoas, grupo de controle, como o exemplo que eu dei da leucemia. Funcionava antes? Funciona agora? E você vê as diferenças. A diferença foi quimioterapia, a diferença não foram as orações, as orações são as mesmas, e antes não funcionavam. Foi o que acabei de explicar. Agora você me diz assim: “ nós estamos no Zen Monge, se alguém lhe pede para fazer uma oração para alguém que está doente, o que o Senhor faz”? Eu oro.

Morre um amigo, acendo um incenso, recitamos sutras nós fazemos isso. Porque fazemos? Porque se todas as coisas estão conectadas , não sei todos os efeitos, eu não preciso nem dos efeitos para fazer isso. Porque nós oramos nos funerais? Pelos vivos. Porque fazemos funerais? Porque os vivos precisam dos funerais, não são os mortos. Compreende? Então nós fazemos orações sim, recitações sim, cerimônias sim. Mas você tem que entender “como” é, não perca a lucidez, não pense que é mágico, não diga “nós oramos aqui, fizemos uma cerimônia, não precisa mais de médico”. Não.
É como um paciente que chega no seu consultório e que está com dor de dente e diz que vai fazer uma oração que recebeu para uma santa. Que não quer o tratamento. O que você faz? Nada, porque a dor vai fazer o seu trabalho sozinha. Amanhã ele volta.

De um lado no Zen, nós não queremos perder de vista nossa lucidez, de outro, nós não queremos jogar fora o que há de místico dentro da humanidade, o que há dentro do espírito humano.
Esses dias falei com um amigo que foi à cidade de Colônia na Alemanha, e lhe disse: “visitastes a catedral, subiu a torre”? E ele , “sim, 160 metros”! 700 anos pra construir. Eu vou chegar na frente da catedral e dizer: “essa poesia em pedra é uma tolice”? Ou eu vou dizer: “que obra magnífica do espírito humano”! É magnífica sim e aponta para o céu.