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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Santidade e iluminação


                                                      (Quadro de Eduardo Salinas)

Pergunta – Um monge é um Bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge. Na tradição Tibetana, por exemplo, Lama é professor e não necessariamente um monge. O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e cinquenta anos, os monges passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é que faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o Bodhisattva, é?

Monge Genshô – O Bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e Bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto tiver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um Bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

Pergunta – Esses poderiam ser os homens santos?

Monge Genshô – Não necessariamente, pois santidade não significa iluminação. Você pode ser muito puro, virtuoso, não ferir ninguém, ajudar as pessoas e ser um santo, porém, não ter nenhuma clareza. Ainda está preso a uma grande ilusão e espera obter algum tipo de recompensa, por exemplo, espera que com seus atos esteja agradando algum tipo de divindade com o fim de obter um lugar em alguma espécie de paraíso. Como está preso numa situação de fé, ainda não é lucidez.

O Zen não pretende formar santos, existe até um ditado que diz que “a santidade cheira mal”. Um Bodhisatva não tenta ser santo, ele quer ajudar os outros seres que sofrem. 

Pergunta – O isolamento, como o do eremita ou em monastérios, não seriam então ato de Bodhisattvas?

Monge Genshô – Retirar-se do mundo torna as coisas mais fáceis e é comum uma pergunta entre esse tipo de praticantes que é: “Será que ainda tenho os desejos e apegos”? Como ele está afastado do mundo não existe a oportunidade destes sentimentos surgirem.

Pergunta – Quando fazemos retiro, o ambiente que estamos vivendo faz surgir um sentimento de pureza muito grande que não permite que surja esse tipo de sentimentos, digamos, mundanos.

Monge Genshô – Exatamente, como não existe inclusive a comunicação em razão do voto de silêncio, tudo vai desaparecendo, o desejo sexual, a gula, os atritos, mas isso é um mundo criado para o retiro, é uma vida artificial.