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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Prefácio à Edição do Sutra de Hui Neng


Prefácio à Edição Brasileira
do Sutra de Hui Neng, traduzido e editado por Tam Huyen Van

"Este trabalho é como uma voz que nos fala de 13 séculos, ecoando nas montanhas da China e reverberando até um ocidente que nem era uma terra conhecida àquele tempo, tampouco nela se vislumbrava o futuro estabelecimento da civilização do extremo ocidente. O budismo dirigiu-se sem parar para o Leste, e assim, paradoxalmente, como é comum no zen, chegou ao Oeste. Em cada lugar onde floresceu conheceu uma época dourada e depois uma lenta decadência, agora parece ser o momento do início áureo no ocidente, de modo auspicioso, textos produzidos nas Américas começam a ser lidos no oriente, e o impulso de estudar e praticar ressurge nos países do Leste, levado pelas mãos de entusiasmados praticantes ocidentais que lá chegam procurando por uma prática que agonizava.

É neste contexto que podemos ler o esforço de tradução realizado no presente trabalho. Trata-se de semeadura, o trabalho compilado das palestras de Hui Neng é um texto seminal, foi ele o responsável pela grande expansão do Ch'an chinês, 43 discípulos reconhecidos, que deixou o Patriarca, é uma obra inaudita, muitos mestres não conseguiram deixar um só sucessor e viram suas linhagens desaparecer no pó dos tempos.

De Hui Neng nasceram cinco grandes escolas Ts'ao-tung (jap. Sôtô), Yung-men (jap. Unmon), Fa-yen (jap. Hôgen), Kuei-yang (jap. Igyô), Lin-chi (jap. Rinzai) destas sobreviveram até nossos dias somente a de Ts'ao-tung e a de Lin-chi.

Em um tempo em que é fácil o surgimento de falsos mestres, e auto denominados iluminados, colocar à disposição de todos um texto de grande força e originalidade, tende a enfatizar a necessidade de escolher cuidadosamente linhagem e professor do Dharma. O esforço de colocar o ensino em trilhos corretos está presente todo o tempo nas intervenções de Hui Neng, embora se auto declare analfabeto, suas palestras estão repletas das citações e referências de um estudioso mas muito mais do que isto possuem a marca de uma experiência pessoal vivíssima.

Suas declarações paradoxais, e aparentemente contraditórias, pretendem fazer os alunos voltar-se para uma verdade fundamental. Além do quietismo e da perturbação mental, ele verbera, ora o raciocínio, ora o mero sentar vazio e qualquer coisa que lhe pareça afastar-se do caminho do meio. Este é um motivo importante para que a leitura do sutra deva ser feita na íntegra, a citação de frases isoladas causará grandes enganos. Visto Hui Neng ter preconizado que as respostas devessem ser em pares de opostos, e baseadas em antônimos, somente uma leitura abrangente dá a visão correta de seu pensamento.

Que o budismo brasileiro nascente tenha à sua frente um período dourado é natural. Que possamos agora aproveitar da tarefa dos que se dedicam a difundir o ensino dos grandes mestres, por esta razão os méritos de um trabalho como este são incomensuráveis."
Monge Genshô

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Olhando a estátua de Buddha



A esquerda o Prof. Tam Huyen Van (Claudio Miklos) da escola Thien do budismo vietnamita, seguidor de TNH (Thay) e à direita Flavius, responsável pelo templo Nyingma, do budismo tibetano, localizado em Garopaba, próximo à sede do Centro de Yoga da Montanha Encantada. Todos observam encantados a estátua, em argila, em fase final de acabamento, realizada por um artista butanês que reside na cidade.
A visita ocorreu durante a realização da conferência budista do CBB em associação com o centro de yoga, durante o fim de semana passado.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Foto do Debate Público sobre a questão tibetana



Da esquerda para à direita sentados: Rev Joaquim Monteiro, Prof. Tam Huyen Van, Dep. Fed. Fernando Gabeira, Ver. Aspásia Camargo, Rev. Genshô, Rev. Isshin, (está oculto , nesta foto, o Prof. F. Marcondes Vellso na extrema esquerda). O local é o plenário da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

Relato do Prof. Tam Huyen Van sobre o debate do Rio


Prof. Tam Huyen Van do Zen Budismo Vietnamita (Thien)

Prezados Amigos,

Ocorreu nesta segunda, às 10 horas, no Plenário da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, o já divulgado Debate Público sobre a questão Tibetana. Gostaria de apresentar minhas impressões sobre o evento, após um pequeno período para reflexão e contemplação dos acontecimentos ocorridos.

Inicialmente, penso que seria importante valorizar e reiterar a importância do evento que, por si só, contribui grandemente para a consolidação da posição buddhista brasileira frente às questões de direitos humanos e valores éticos sociais, e fomenta - principalmente - a divulgação das propostas humanistas do Buddhismo.
O empenho demonstrado pela Vereadora Aspásia Camargo e o Deputado Fernando Gabeira foram, a meu ver, uma clara demonstração de que, apesar dos aspectos profundamente reprováveis associados à instituição política no Brasil e no mundo, não é sábio imputar a falta de respeito aos valores sociais a todos os membros da classe
política indiscriminadamente; existem muitas personalidades políticas cientes de sua responsabilidade na defesa do exercício da ética e da reflexão saudável sobre os graves problemas que afligem a humanidade - seja no Brasil ou no outro lado do mundo.

Lamento, contudo, a pouca participação de buddhistas praticantes e simpatizantes. Embora compreenda plenamente que o dia e horário não contribuíram para facilitar a presença de grande público, o fato de que o evento ocorreu apenas no Rio de Janeiro, e sempre considerando o aspecto não-doutrinário e não-coercitivo que fundamenta o exercício do Dharma (sem falar no fato inegável de que, no Brasil, o número de
buddhistas realmente praticantes é extremamente pequeno - há um número muito maior de pessoas simpáticas ao buddhismo, mas sem nenhuma real identificação com a prática do Caminho em sua profundidade), ainda assim gostaria de chamar a atenção de todos para
a natureza de nossas opções de ação e mobilização em relação ao buddhismo e assuntos buddhistas. É preciso refletir melhor sobre quais ações podem ser realmente úteis e válidas, e quais ações seriam apenas fruto de um entusiasmo puramente romântico ou artificial em relação aos conceitos de esforço correto e ação correta. Espero que,
no futuro, eventos semelhantes possam contar com a presença mais efetiva de pessoas interessadas em valorizar o desenvolvimento das propostas de consciencia e correto discernimento características do exercício ético buddhista na vida.

O caráter simples e despojado do evento, e o seu peso conceitual e reflexivo, foram cruciais para que uma porta fosse aberta no âmbito das ações buddhistas brasileiras. A participação do monge Gensho (em seu grande discurso final, onde penso que foi dada uma resposta adequada e firme às atitudes lamentáveis do Consul Geral da China) e
da monja Isshin (suas palavras gentis e admiráveis, e sua respeitável atitude de respeito humano e fraternidade ao representante chinês no evento), as afirmações contundentes e fortes do Reverendo Shaku Shoshin em defesa do povo tibetano, as ponderações compassivas e coerentes da Dra. Cerys e do Professor Flávio Marcondes, contribuíram a meu ver para apresentar à opinião pública e à classe política do
Rio de Janeiro a força reflexiva e determinação compassiva do buddhismo.

Reafirmo meu apreço pela aceitação, por parte do governo Chinês, do convite de participação enviado formalmente pelo Colegiado Buddhista Brasileiro. A presença do Cônsul Geral Li Baojun representou uma pequena esperança de que a disposição pelo diálogo consciente e honesto entre as partes também ocorra nos setores chineses de
relações internacionais.

Infelizmente, para o meu profundo desapontamento, as ações do Sr. Consul durante o evento não corresponderam àquelas expectativas. Em uma atitude pouco flexivel (a despeito de sua natureza simpática e amigável), o representante chinês limitou-se a apresentar uma versão doutrinária, extremamente alienada, e distorcida da questão tibetana. A atitude, a meu ver, confirmou para mim o caráter claramente difícil
da abordagem humanista e pacífica da questão tibetana em termos de linguagem e intenções, e que eu já havia antecipado em meu ensaio "Tibet - Entre Liberdades e Revoluções".

Não houve margem para o debate. Não houve espaço para a composição e correto esclarecimento das ações corretas ou inadequadas de todas as partes; apenas houve uma apresentação inócua e pouco coerente da versão partidária chinesa; houve uma tentativa de divulgação completamente inacurada dos fatos históricos associados às relações entre o Tibet e a China. Em meio a tudo isso, ao final de sua apresentação o Sr. Consul deixou a impressão de que o exercício de diálogo e abertura política, necessários para que a paz e a justiça prevaleça, ainda exigirá muito empenho e equilíbrio.

Saí do debate convicto de que, como buddhista e professor de dharma, devo ainda mais aprofundar minha prática de paciência e percepção correta em relação aos aspectos insalubres contidos nas mentes doutrinadas, presas a um modelo perverso de interpretação do mundo e da vida, aspectos esses que se apresentam em muitos grupos humanos, seja na China ou no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo. A tarefa
de ação hábil e adequada para superar a crueldade das instituições ditatoriais e imperialistas é árdua, pode causar ressentimentos e raiva em muitos de nós, mas não devemos de modo algum sucumbir a tais erros ignorantes.

Neste contexto, gostaria de pedir a todas as pessoas sinceramente interessadas em contribuir para o esforço de liberação dos povos oprimidos, que jamais caiam no erro de perpetuar a ignorância das mentes fanáticas e intolerantes, agindo com raiva ou agressividade. Quanto mais percebemos o grau de insalubridade nas doutrinas
ditatoriais, nos discursos pobres em discernimento, na incapacidade de muitos em saber ouvir e falar com consciencia e maturidade argumentativa, mais devemos nos esforçar para evitar o ressentimento.

Após o debate, percebi que definitivamente não devemos imaginar que a injustiça e a insensibilidade são dos chineses pois tambem eles compartilham sofrimentos e frustrações (neste momento, também o povo chinês está vivendo a dor das perdas de vidas devido ao terremoto ocorrido no dia 12 de Maio), tal erro não pode ser imputado a toda uma nação - ou àqueles que compõem um grupo social, uma instituição
religiosa ou política, ou simplesmente um gênero sexual ou cor de pele. Um erro terrível ocorre quando imaginamos que todo um povo, toda uma classe, todo um grupo, é responsável pelas insanidades de seus governantes ou controladores. Não, a problemática está na incapacidade daqueles que são presas da motivação fanática e da visão egoísta e diferenciadora no mundo de superar sua pobreza de percepção.

Devemos buscar os meios hábeis para superar em nós mesmos esta ignorância destruidora, esta convicção espúria baseada em erros crassos de interpretação e entendimento, e que muitas vezes vemos com mais facilidade apenas nos outros; devemos praticar todos os dias a coragem de não desistir da paz, do cuidado no diálogo, e da meta maior e definitiva, capaz de curar e transformar a humanidade: o amadurecimento de nossa consciência, de nossa sabedoria, de nosso dom de resistir à falta de compaixão correta. Volto a repetir que a atitude compassiva e coerente não é uma atitude ingênua e condescendente: quem é capaz de agir com correta compreensão do
outro, o faz por força de seu discernimento e não por uma ingênua atitude de passiva aceitação.

Assim, sinto que me tornei ainda mais disposto a agir com cuidado e empenho a favor da prática de compreensão no mundo. Quanto mais ouço as palavras tolas daqueles que defendem um modelo de vida injusto e perverso, me sinto mais livre. E percebo que, mesmo através de torturas, terror e assassinatos, apesar do empenho implacável em
difundir delusórias intepretações dos fatos, os homens e mulheres alienados em profundo egoísmo, os poderes controladores e intolerantes, os governos insalubres, as facções terroristas e os movimentos fanáticos jamais prevalecem. Ao final, seus nomes serão apagados na memória da Vida, os atos cruéis e injustificados serão expostos ao tempo e à história com terrível clareza, e as entranhas insalubres de suas convicções jogadas à margem da grandeza humana.

No Dharma,
Tam Huyen Van

sábado, 26 de abril de 2008

Exibição de Relíquias Buddhistas


Prezados Amigos,

Iniciou-se hoje, 25 de Abril, no Rio de Janeiro, a turnê de exibição das Relíquias Buddhistas. As peças apresentadas se compõem, em sua maioria e principalmente, de uma coleção de objetos que, em casos especiais após a morte e cremação de um corpo, surgem nas cinzas póstumas. Estes objetos são na verdade calcificações resultantes do
processo de queima dos compostos de carbono e cálcio de um corpo. Tais calcificações dão origem a pequenas pedras, algumas semelhantes a quartzo opaco, e são muito difíceis de acontecer.

No caso de grandes mestres ou sábios, ocorre um interessante fenômeno: tais calcificações tornam-se extremamente límpidas e cristalinas, algumas quase esféricas e semelhantes a pérolas. A tradição espiritual Hindu (e a Buddhista por relação) considera que tal processo surpreendente simboliza a extrema espiritualidade em
vida dos homens ou mulheres que os geraram a partir da cremação de seus corpos. No buddhismo, as relíquias são consideradas um símbolo das virtudes e qualidades da prática do Dharma. Ao ver as relíquias, devemos ponderar sobre o potencial búddhico existente em todos nós, e reconhecer em tais fenômenos os méritos que uma prática de plena consciencia pode oferecer.

A exposição que se apresenta no Brasil mostra relíquias do próprio Shakyamuni Buddha, de grandes Arhats como Kashyapa, Ananda e outros, além das relíquias de grandes mestres da tradição buddhista Tibetana, como Tsong-ka-pa. Tive a honra e oportunidade de comparecer à abertura do evento, e sua natureza simples e humilde - aliada ao
grande empenho de todos os membros da organização - representa, a meu ver, sua real grandeza.

A pratica do Dharma se dá através do profundo exercício de reflexão, compreensão e compaixão. Ela se fundamenta em ações claras e diretas, sem ostentações ou subterfúgios.

Assim a Exposição das Relíquias, em sua suave singeleza, simboliza a verdadeira grandiosidade dos ensinamentos de Buddha e dos mestres da tradição buddhista. Ela nos ofecere a oportunidade de perceber que a mais valiosa e importante relíquia encontra-se em nós mesmos, e deve ser venerada através de uma prática correta, pacífica e justa.

Gostaria de convidar a todos os residentes no Rio de Janeiro para conhecer esta bela coleção. A exposição com entrada franca irá acontecer do dia 25 até o dia 30 de Abril, das 10 às 19hs no Espaço Nirvana - Jockey Club - Pça Santos Dumont, 31 - Gávea (entrada pela Rua Jardim Botânico, tribuna A).

Que todos possam se beneficiar dos méritos deste evento.

Tam Huyen Van (Claudio Miklos)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

"Introdução ao Pensamento Budista"

Gostaria de avisar que o Centro ZhongDao de Estudos Buddhistas,
através do instituto Rede de Proteção à Vida, está abrindo inscrições
para o curso de "Introdução ao Pensamento Budista".

Este é um curso voltado a pessoas iniciantes ou simpatizantes do
budismo, e irá apresentar os conceitos fundamentais dos ensinos de
Buddha de uma forma puramente secular e simples, apesar de
estritamente associada à tradição.

O objetivo fundamental do curso é esclarecer dúvidas e explicar os
temas fundamentais da prática do Dharma através de uma linguagem
leiga e multidisciplinar, e assim oferecer aos interessados uma visão
correta dos conceitos e argumentos espirituais, psicológicos e
filosóficos preconizados por Shakyamuni Buddha.

Os interessados podem ler o escopo e o programa neste link:
http://rededeprotecaoavida.com/action/index.php?newsid=5&type=curso

Para se inscrever ou retirar dúvidas, basta enviar mensagem para
contato@universidadedavida.net.

No Dharma,
Tam Huyen Van

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Em busca do mestre

Trecho de excelente texto do Prof. Tam Huyen Van, seus escritos são um manacial de profundas análises sob a ótica do zen (Thien em Vitnamita):


"Assim, o que estamos buscando realmente? O que desejamos do mestre? Na verdade, todos queremos um pai. Até porque a mãe, mesmo a mais fria e cruel, não pode nos negar o fato de que habitamos seu útero, e com ela compartilhamos carne e sangue. Mas o pai... onde está nosso pai? Como atingi-lo, tocá-lo em sua intimidade, ser uno com ele? Onde está o útero paterno dentro do qual podemos nos forjar homens e mulheres íntegros e sábios? Eis o porque da busca pelo mestre ser uma busca de natureza yang, masculina, criativa; de uma certa forma buscamos a comunhão com o pai, queremos conhecer um modo de também unir nossa carne e sangue com a face masculina da vida. Pois apesar da aparente ditadura paternalista das sociedades humanas, somos muito mais órfãos do toque firme das sábias mãos paternas do que do suave embalar do amoroso colo materno. Por que? Porque a Mulher se define em si mesma, é íntegra em sua profunda união com a terra, é a representação da Raiz do Mundo. Mas o Homem se perde em muitas batalhas, está sempre imerso em uma peregrinação eterna para encontrar sua própria tradução, representa o inefável e fugidio Coração do Céu. Sempre temos a Grande Mãe próxima de nossas mãos e corações; já o Grande Pai, este temos de alcançar por esforço próprio, pois jamais estará no mesmo lugar duas vezes; o mestre não nos espera, ele caminha pela margem do rio, apontando sempre para a verdadeira meta: a margem oposta. Realmente, o Pai se move por caminhos misteriosos...

Mas quando esta constatação nos escapa, quando o vinho do místico não atinge nossos lábios com a força necessária, esquecemos o sentido da busca e queremos apenas um mestre que corrobore nossas metas, que nos diga aquilo que queremos ouvir, e que seja como nossas fantasias pessoais imaginam. Na tradição Taoísta, assim como na Zen-buddhista, há uma importante lição sobre o mestre, lição esta que aprendi no início de minha prática e que se provou completamente pertinente ao longo de meus anos de estudos e esforços: quase sempre subestimamos o verdadeiro mestre."

Íntegra aqui:

http://tamhaovan.multiply.com/journal item/35/Em_Busca do Mestre