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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A disciplina da plena atenção



 (Final da palestra do Ven. Dhammadipa no DaissenJi em Florianópolis)
A seguir temos a importância da plena atenção. Buddha ensina que apenas teremos sucesso na prática se praticarmos quatro posturas. Praticar nas quatro posturas significa praticar enquanto sentado, enquanto em pé, enquanto andando e enquanto deitado. O sutra explica que a única forma de obter claridade é praticar com devoção e ininterruptamente. Esta é a prática da plena atenção. Caso consiga praticar a plena atenção nas quatro posturas ininterruptamente, estará plenamente Iluminado. Devemos praticar nessa direção enquanto estivermos conscientes. Caso permaneça neste tipo de plena atenção, está vivendo no Brahmaloka – no paraíso – mesmo estando aqui.

Temos agora a última e curta parte, abordando a sabedoria. Então, ao praticar neste sentido, você deverá “ditthiñca anupaggamma”, deverá abandonar todas as visões. Você deve ser sīlavā, deve ser disciplinado. Como abandonar todas as visões? E como ser verdadeiramente disciplinado? Ambas as virtudes serão atingidas quando compreendermos a originação dependente com intimidade. Tudo que existe, existe em relação a algo. Existir em relação a algo significa ser impermanente. A impermanência apenas existe onde há vazio, pois se algo permanece na sua experiência é, então, imutável. De acordo com o budismo, devemos entender a impermanência a fim de compreender o que está além da impermanência. Tudo muda por não ter uma natureza própria. Apenas pode mudar por conter o vazio. Se algo possui natureza própria, não é capaz de mudar. Logo, a única coisa que possui natureza própria é o vazio em si. É por isso que o Sutra do Coração ensina que a forma, os sentimentos, os cinco agregados são de fato o vazio, não diferentes do vazio em si. Caso consiga ver isso, você é “dassanena sampanno”, aquele com o darśana, a visão direta. Com isso, “kāmesu vinaya gedham”, você estará livre de todos os apegos e não mais retornará ao samsara.

Você deve compreender que este sutra foi proferido a 500 bhikkhus determinados a tornar-se aharants. Caso deseje seguir o caminho do boddhisatva, deve entender claramente o estado de existência de um aharant. Devido a sua compaixão, o boddhisatva não se torna um aharant. Este é o caminho do boddhisatva.
(Traduzido na palestra por Hakudô San e decupado posteriormente da gravação)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Resgatar o último nos infernos

(continuação de palestra)
 Sobre inferno e paraíso as pessoas dizem: “se eu me comportar bem, vou para o paraíso, se eu for um santo, vou para um mundo maravilhoso”. Ontem um rapaz me perguntou isso na internet: “se a gente cumpre as regras, numa religião que promete o paraíso, para onde eu vou?” Eu respondi: “Para o paraíso”. Mas o paraíso acaba, o paraíso é a paixão. Ele começa, tem mérito para isso, mas os méritos se esgotam, porque o paraíso também é impermanente. Então na realidade, procurar por mérito atingir o paraíso, significa ignorar todos os outros seres. Então eu sou santo, vou para o paraíso, vocês pecadores, fiquem aí, vão para o inferno, condenados, e encho a boca para condenar todos os outros, que não fazem parte da minha solução que é perfeita, a única que promete o paraíso.

Estes tempos, duas senhoras bateram na minha porta e tentaram me explicar que elas tinham uma salvação, um paraíso, e eu não queria ofendê-las, e elas disseram que só 144.000 escolhidos iriam para o paraíso, os outros todos estariam condenados e que eu teria a chance de fazer parte desses 144.000 escolhidos. Aí eu desisti e disse assim: “Minhas senhoras, vejam, eu sou budista e para um budista, na realidade, eu não quero fazer parte dos 144.000 e ver todos os outros no inferno. O objetivo de um budista é salvar todas as pessoas que estão no inferno”.

Então, o voto do Bodhisattva é: “Mesmo que os seres sejam inumeráveis, eu faço o voto de libertá-los todos”. Significa: EU não vou me libertar, enquanto houver uma só pessoa no inferno, porque eu vou lá dar a mão paro último o mais abjeto, mais terrível, mais cruel dos criminosos, porque eu quero salvar o último dos homens que estiver nos infernos, porque eu não posso usufruir do paraíso enquanto houver um homem no inferno. Esta é a ótica budista. É claro que elas desistiram de mim.

Mas, na realidade meu sentimento é compassivo. Como alguém pode achar que estará feliz, sendo do grupo dos privilegiados? É como os brasileiros que não se sentem felizes por estarem comendo e em suas casas enquanto outras pessoas estão na rua  sem casa ou passando fome. Você não pode ser feliz com isso. Você  pode ser feliz na Noruega, onde o país dividiu o dinheiro do petróleo entre todos os habitantes, de forma que cada habitante na Noruega hoje tem um patrimônio equivalente a um milhão de dólares, aí dá pra ser feliz, porque você não se sente injusto em sentar na mesa e comer, porque todos os outros estão comendo. Não é verdade?

Eu então diria que todos os sistemas no mundo funcionariam muito bem se os homens fossem diferentes. Não importa qual fosse o sistema. Se fosse o sistema comunista, em que todos dividem tudo entre todos, em todos os países onde isso foi feito todo mundo relaxou no trabalho, porque afinal de contas os outros estão trabalhando, e os países empobreceram e quebraram, se os homens fossem diferentes, eles se esforçariam também, e é por isso que não funciona. Mas o sistema comunista funciona muito bem dentro de um mosteiro budista, pois todos dividem tudo e continuam se esforçando e ninguém é proibido de sair. Então não é o sistema em si que é errado, são os homens. É como o sistema capitalista também, que pode ser maravilhoso se todos pensarem em todos. Acabamos de dar o exemplo da Noruega, eles pensaram em dividir as riquezas de seu país, porque é de todo um povo, não de um pequeno grupo, não de um grupo que se aproveita e que enriquece sozinho. Então as diferenças estão dentro dos homens.  (continua)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O teto do inferno é transitório


Frequentemente recebo cartas de pessoas passando por grande sofrimento. Esse sofrimento é normalmente gerado pelos acontecimentos da vida. Hoje foi uma senhora, cuja mãe está hospitalizada e será submetida a uma cirurgia de grande porte, estando em uma situação grave. Ontem era uma esposa, cujo casamento tinha acabado repentinamente e sentia-se sofrendo grande dor. Na carta dela, dor era um sentimento tão forte que escrevia, por ser da Espanha, DOLORRR, em letras maiúsculas e muitos érres. Grande sofrimento!

Essas pessoas, neste momento, procuram o Dharma. Todos sabem o que é a dor da perda e todos se entendem nisso. Apenas os muito jovens, que ainda não viveram uma grande perda ou desilusão amorosa, não sabem deste sentimento. Mas os que viveram um pouco mais, têm a experiência da perda, da morte, da doença ou do rompimento dos relacionamentos. Há um dito budista sobre o “teto do inferno” um grande amigo monge tem um blog com este título. Nós andamos no teto do inferno. Poucas pessoas poderão dizer que isto é desconhecido. Qual a característica deste andar no teto do inferno?  Normalmente é a perda, a desilusão, ou o fato que você tenta fazer algo e não consegue, um empreendimento que você tenta dá errado, e todos começam a falar mal de quem tentou e não conseguiu são os amigos que estão ao seu lado só no sucesso.

Os EUA costumam dividir as pessoas em dois tipos, as pessoas winners e os loosers , ou seja, os ganhadores e os perdedores, com um desprezo generalizado pelos perdedores. “Você é um fracassado, um perdedor”. Na nossa sociedade também, para as pessoas de sucesso perdoa-se tudo e, quando alguém  fracassa, muitas pessoas sentem-se felizes, pois isso compensa seus fracassos pessoais, então todos ficam um pouco “contentes” com o fracasso daquele grande empresário ou político. Tudo isso causa sofrimento nas pessoas, porque elas vêem o olhar dos outros, as conversas, e vêem a perda.

Mas o importante do ponto de vista budista é: o teto do inferno não é infinito. Nós andamos em um vale de sofrimento, mas ele tem um fim, ele sempre tem um fim. É difícil explicar isso para as pessoas. Hoje você tem uma perda, mas daqui a dois anos esta perda não parecerá o que parece agora, não é bem assim. Nós acabamos aceitando as perdas, absorvendo aquele sofrimento e nos conformando com ele. Existe também a benção do esquecimento, pois não conseguiríamos ficar para sempre lembrando daquela tremenda angústia, provocada por um sofrimento.
Então tenho acompanhado cada vez mais, essas perdas e sofrimentos e tento dizer: “Isto é impermanente, você vai poder superar isso”. “Não se deixe derrotar”. “Sofra, mas não se deixe derrotar completamente”. É bobagem nós dizermos para as pessoas: “Ah, não sofra, você vai esquecer isso, vai aparecer outra pessoa para você, você vai esquecer essa morte. Afinal de contas todo mundo perde pai, mãe, avós”. Isto é muita falta de sensibilidade, porque as pessoas que sofrem querem ouvir que nós sabemos o que é o sofrimento, que nos solidarizamos com elas e que compreendemos. Não estamos sofrendo com você da mesma forma, porque isso é uma mentira, mas podemos chorar juntos. E esta partilha do sofrimento é a compaixão. Compadecer-se: padecer junto.

Este é um sentimento que devemos cultivar, compreender profundamente o sentimento que o outro tem e que às vezes é incompreensível para nós, pois está longe demais da nossa experiência. Às vezes é uma doença que talvez nunca teremos, mas nós podemos padecer junto.

Esse é o melhor remédio, mostrando, de alguma forma, que o teto do inferno pode ser percorrido. Nós queimaremos a sola dos nossos pés, mas ele acaba, ele tem um fim. Ou seja, nenhum sofrimento é permanente, todos eles são transitórios.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Meu eu construído


2) O Senhor poderia falar um pouco sobre o ego, como o budismo vê o ego?

Monge Genshô – O ego também é uma construção de nossa mente. Porque temos sucessões de pensamentos, sensações, formações mentais e percepções, formamos uma consciência e dizemos a nós mesmos, “Eu existo”. Esse “eu existo” é absolutamente construído e por ser construído por um funcionamento da mente, é uma ilusão que cessa quando a mente para de funcionar. Não precisa ser necessariamente com a morte, pode ser através de uma doença. Ele existe e é necessário para nosso funcionamento na dimensão histórica. Eu tenho meu “eu” de monge, estou vestido com meu manto de monge, estou fantasiado de monge, o que me ajuda a desempenhar um papel nesse mundo - isso é uma construção.

Um dia desses eu estava num local e aproximou-se um frade franciscano vestido com seu hábito e seu cíngulo e, ao vê-lo foi impossível não ter uma sensação de respeito por ele. Mesmo sabendo que isso é uma construção da mente, o respeito não desapareceu, é bom que ele exista, isso permite atuar no mundo. Usamos nossas fantasias de nossos “eus” para poder atuar no mundo, o problema é pensar que somos as fantasias, que eu sou meu nome, meus títulos, minhas roupas, que eu sou aquele personagem que inventei para atuar no mundo. Agarramo-nos ao personagem e sofremos quando ele é ofendido. Se entendermos que o “eu” é construído, ele não poderá mais ser ofendido, se for entendido como uma mera fantasia, não tem importância. Se você coloca uma fantasia de palhaço, sai pelas ruas e as pessoas o chamam de palhaço, você não se importa. Mas se você não se vê como palhaço e é chamado de palhaço, sente-se ofendido. O correto é na hora de um insulto você se perguntar: “Quem está sendo insultado”? Se meu “eu” é completamente construído, não existe ninguém para ser insultado, não preciso me importar. Somente quando me agarro ao meu “eu” é que me importo. Por isso descartar-se do “eu” é tão importante. A maior parte dos sofrimentos desaparece no instante em que compreendermos o “eu” como uma construção da mente, não sólido, não permanente e evanescente.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O rato branco e o preto


Há uma famosa história zen de um homem que caí em um precipício, ele estava sendo perseguido por um tigre. Ao cair ele se agarra à um arbusto que havia na beira,olha para baixo e vê outro tigre.
Percebe, então, dois ratos roendo a raiz do arbusto, um rato preto e outro branco. Ele observa que no arbusto existem umas frutas vermelhas. Então ele segura-se firmemente com uma das mãos, com a outra pega uma das frutinhas e coloca na boca. “Que gostoso” ele diz.
Alguém arrisca me dizer o que representam os ratos preto e branco? O rato branco é o dia, o rato preto a noite. A cada momento, dia e noite, roem a raiz de nossa vida. O arbusto irá se romper e nós vamos cair com ele, lá onde o tigre nos espera. O que nos resta fazer senão comer as frutas doces da vida? Existe a frequente pergunta, “qual o sentido de existir?”, “para que tudo isso?”, a resposta é, “Porque há frutos vermelhos doces para serem saboreados”.
Nós corremos dos sofrimentos, porque fugimos dos sofrimentos, do tigre, caímos em um
precipício. Nos agarramos tenazmente à vida, mas se prestarmos atenção, o dia e a noite, roem as raízes da existência e nós vamos cair, é só uma questão de tempo. Na verdade a vida é doce e bela se soubermos aproveitar o momento.
Percebam, é muito bom estarmos sentados nas cadeiras agora, não é maravilhoso? Sintam essa maravilha, agora os joelhos não doem, como quando sentamos em zazen muito tempo, e podemos nos encostar, não é uma felicidade isso? Então, o sofrimento que nós enxergamos na vida é temporário, impermanente e é construído por nós. Como? Ele é construído como Buda nos ensinou dentro das Quatro Nobres Verdades. Existe uma causa, a causa é nosso apego, é o nos agarrarmos as coisa flutuantes querendo que elas sejam estáveis,nos agarramos ao arbusto querendo que ele seja firme e sólido e nunca caia. Mas isso é impossível, pois não é a natureza da vida, a natureza da vida é ser instável, nada é certo. Para sabermos viver temos que olhar nossos projetos como instáveis, nossos negócios como vendáveis, como falíveis, nossos empregos como passiveis de se perder, nossa saúde como passível de estragar. Se virmos que a vida é toda instável e não sólida, então, não poderemos construir nossa felicidade nos agarrando a estabilidade dela, a fantasia de uma estabilidade.
Temos que considerar todas as coisas como findáveis, amores, pessoas, filhos, casas,
empregos, negócios, empresas, todas as coisas são flutuantes, e a felicidade não está em esperar que elas sejam boas, estáveis e firmes, elas não serão. A vida é um fluxo e um fluxo cheio de coisas boas e ruins acontecendo.

(Trecho de palestra ministrada pelo Monge Genshô para a Sangha de Florianópolis,decupada por Ápio San)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Incompletude


"Buda salientou que o sofrimento humano se origina do nosso desejo de coisas materiais e emocionais, de coisas transitórias e impermanentes, que jamais poderão nos satisfazer plenamente. Porém, ainda que lutemos por essas coisas, por pensar que nos trarão felicidade, elas não são objeto do nosso verdadeiro desejo. O que realmente queremos é algo que preencha um vazio íntimo. O desejo de coisas impermanentes é expressão do desejo de se sentir completo."

(Les Kaye, In: O Zen no Trabalho,p. 122-123, Cultrix)