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terça-feira, 7 de outubro de 2014
Regras e relativismo moral
Pergunta – Estou fazendo um curso de filosofia e frequentemente aparece o termo “mal radical” e segundo Kant se esse mal existisse seria algo sobre humano, quase diabólico. Existe esse conceito no budismo?
Monge Genshô – Nietzsche dizia que “se um deus controla o demônio, ou o mal, esse deus é cúmplice”, por outro lado completa, “Se não controla, não é onipotente”. Sempre houve na historia essa tentativa de dividir o mundo em um deus do mal e um deus do bem. Analisando bem é uma tentativa de fazer com que deus não seja responsável pelo mal, pois quando você admite a existência de alguém que é responsável pelo mal, automaticamente absolve deus de ter criado o mal. Estas são dificuldades filosóficas praticamente intransponíveis. Sob o ponto de vista budista isso é dualidade. Bem ou mal, ruim ou bom são conceitos aceitos pelo budismo somente no mundo relativo, não no absoluto. Para o budismo temos dentro de nós o potencial para realizar ambas as coisas. O fato de nos horrorizarmos com as coisas já demonstra que compreendemos o mal.
Na tentativa de dividir o mundo em claro e escuro percebemos que ele é na realidade um pouco cinza, por exemplo, não conheço uma pessoa integralmente boa ou totalmente má. Tudo é um tanto confuso e misturado e somos participantes de ambas as coisas. Muitas vezes não vemos o mal, simplesmente não o enxergamos. Sempre recebo e-mails das pessoas e um dia destes me escreveu um rapaz e deu para perceber claramente que o que ele deseja são preceitos, algo para ele se agarrar, do tipo, “Isso pode, aquilo não”, “faça isso, mas não aquilo outro”. Ele deseja regras claras. Como monge budista não posso dizer para uma pessoa que isso ou aquilo é certo ou errado de forma absoluta. Isso não existe no Zen Budismo. Os preceitos que seguimos são faróis guias para evitarmos o sofrimento e não declarações absolutamente precisas. Imaginem alguém que cumpre os preceitos a risca. Um dos mais básicos diz para não enganar. Um criminoso entra aqui na sala agora procurando pelo Marcos, antes de ele entrar o Marcos saiu e se escondeu no banheiro. O assassino chega e pergunta pelo Marcos, o que devemos fazer? Indicar que está escondido no banheiro? Essa seria a resposta correta? Ou seria melhor mentir dizendo que ele já saiu faz mais de tantas horas? Nessa situação o correto é mentir para evitar o sofrimento.
Existe um relativismo moral, por exemplo, uma vez estive na Bolívia com um grupo consultores e me convidaram para jantar e me levaram para comer um prato típico. Era uma espécie de marreco ou pato, como sou vegetariano, e eles sabiam disso, não comi. Então um dele me disse, “mas já está morto, pode comer”. Minha resposta foi que esse argumento serve também para comer criancinhas. Você mata, esquarteja, assa e serve, por que não vai comer, se já está morto? O relativismo moral sempre tem isso, sempre existe uma situação pior, mas um erro não justifica o outro. O meu argumento é de que não preciso comer, minha vida não depende disso, pior, se eu pago e como, estarei incentivando ou financiando essa indústria, foi um caminho que escolhi, (antes que alguém pergunte não é uma regra budista). O que faço não é muita coisa, mas é o que posso fazer. Temos que admitir que nossos atos tem repercussões e não são facilmente distinguíveis em certo e errado. Não consigo fazer o melhor de tudo, mas faço um pouco do bom e do que me é possível, não faço perfeito, mas faço algo.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Qual a sua face antes dos seus pais terem nascido?
(continuação)
O Zen é um método de estudar o budismo, que se utiliza da mesma prática que Buda usou, que é a meditação. Mas a meditação e o Dharma não são propriedades do budismo nem do Zen. Eles estão aí no mundo, existem múltiplos métodos para serem praticados, pois as pessoas são diferentes e, assim, precisam de diferentes métodos. Por isso que nós temos que jamais dizer “eu tenho a verdade, ou este é o caminho e os outros estão todos errados”. Até o conceito de certo e errado, como eu explico no livro “O Pico da Montanha é onde estão os meus pés”, é um engano no campo do absoluto, pois também está no campo da dualidade. Eu não posso dizer, senão relativamente, que isso é certo, e aquilo é errado. Nós temos o dharma, a sabedoria. E nós temos ignorância, é claro. Mas nós podemos sair da margem da ignorância e atravessar para a margem da sabedoria. Isso significa prajna paramita (prajna = sabedoria / paramita = a outra margem). Agora se eu pego o barco, ou um veículo dado – que é uma forma de espiritualidade qualquer –, atravesso o rio da ignorância e chego à outra margem, se eu for um bodhisatva (ser iluminado, repleto de compaixão) eu retorno para ajudar os seres que estão na margem da ignorância. Porque eu não posso ir sozinho, e aquele barco eu não posso carregar nas costas. Por isso os bodhisatvas permanecem aqui. (Final da palestra)
Perguntas
Pergunta: Monge, quando se fala naquela diferença entre atman e anatman, me vem à mente aquela pergunta “como era a sua face antes do seu pai nascer?”. Afinal, existe alguma “raiz” para essa natureza búdica?
Monge Genshô – Então, este é um famoso koan que não comporta uma resposta simples. A pessoa não pode “mostrar a sua face antes dos seus pais terem nascido”. Não há uma resposta lógica para isso, e então a pessoa tem que enxergar a resposta além da resposta. Se ele conseguir isso, ele entrará na sala [do mestre que o fez tal pergunta] como se estivesse carregando uma coisa preciosa. – “Mestre, eu achei! É esta minha face antes dos meus pais terem nascido”. Se você conseguir fazer isso, é um grande passo no despertar. E é por isso que esta pergunta existe. Mas enquanto se procura reponde-la com a mente racional e lógica, ainda não se entendeu a pergunta, já que se trata de uma provocação não lógica. É como se me dissessem para mostrar uma árvore sem raiz. Para esta questão, Joshu respondeu: - “O cipreste do jardim”. Mas daí se você vem com a mente lógica, vai logo dizer que os ciprestes têm raiz. – “Que pergunta absurda é esta?”. E o mestre olha para você e o manda embora. Vá sentar para meditar e só volte para dizer qual é a árvore sem raiz. E por que o cipreste no jardim é árvore sem raiz? Responda... Isso é um koan! Trata-se de um dos instrumentos de prática que se usa no zen, mas é muito difícil... é um tema que gera uma discussão muito profunda, e não se aplica, por exemplo, a uma palestra para um público iniciante na prática. Embora no zen nós termos a tradição de aceitar todas as perguntas que nos são feitas. Nenhuma pergunta pode deixar de ser respondida. Agora, se você não entende a resposta, azar o seu, pratique mais (risos).
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Saia de você!
(continuação)
Se eu não apenas acreditar, mas escolher e apontar um escaninho como o único que é certo, automaticamente eu também estarei admitindo que todos os outros [caminhos] estão errados. Este é o cerne da divisão, baseado no dualismo da verdade/mentira, certo/errado. É daí que surge o conflito. Se nós fôssemos capazes de abandonar estas classificações, automaticamente o conflito desaparece porque a separação desaparece.
Nós queremos classificar as pessoas em raças, por exemplo. E isso é muito interessante acontecer num país de mestiços como o Brasil, aonde a gente olha nos rostos e vê em cada um várias raças misturadas. De modo que é extremamente difícil classificar os brasileiros como esta ou aquela raça. Contudo, continuamos insistindo tanto nisso que até criamos leis ou mecanismos para “enquadrar” as pessoas em escaninhos. Então, se as pessoas não se classificarem, nós as forçamos a fazer isso. – “Declare! Qual é a sua face? Qual é a sua raça?”. Nós fazemos isso por imposição.
Nós estamos aqui para ajudar os outros seres e esquecer-nos de nós mesmos é a essência do budismo. O sofrimento existe na noção de um “eu” separado. Porque eu me acredito separado, então gero sofrimento. E as vezes as pessoas vem até mim e dizem que têm um grande problema de depressão, de tristeza, de tantas coisas ruins, e normalmente eu recomendo uma coisa: - “Saia de você!”. Pare de olhar para o seu umbigo. Se você sofre de solidão, há crianças nos orfanatos e idosos em casas de repouso que adorariam receber visitas. Há muitas pessoas que estão muito necessitadas que alguém vá até elas. E você permanece em casa pensando em sua solidão? Saia daí e vá visitar os verdadeiramente solitários! E se você for visitar os verdadeiramente solitários, você se livrará de sua solidão. Mas, na verdade, as pessoas dificilmente seguem esta receita.
Todas estas angústias surgem dentro da mente, quando acreditamos na ideia de um “eu” separado. Por causa disso criamos todos os outros conceitos, que levam a separações, a divisões e às lutas entre crenças, entre raças, entre qualquer coisa. Todas elas são oriundas do mesmo engano fundamental, o engano que diz que eu sou um ser separado. Se nós entendermos que originalmente nós não éramos seres separados, nós éramos a própria vida se manifestando, mas alguém nos ensinou que nós temos um nome, que nós somos um alguém. E quando nós acreditamos neste alguém, imediatamente surgem junto os conceitos de “eu”, “meu”, “minha”. Ao dizer “isso é meu!”, a pequenina criança já começa a lutar. – “Não beba a minha água! Este é meu copo!”... imediatamente, então, está criado o conflito.
(continua)
terça-feira, 22 de julho de 2014
Vida correta
Pergunta – O que o senhor entende por um modo de vida correto?
Monge Genshô – É um modo de vida que não cause sofrimento aos outros seres. Uma profissão que não cause destruição e sofrimento. Profissões como caçador ou magarefe não podem ser consideradas um modo de vida corretos. Um modo de vida que ajude os outros seres é um modo de vida correto e que não seja um impeditivo à iluminação.
Pergunta – Esse era o sentido de minha pergunta, trazendo as escrituras para os dias atuais, eu que trabalho na UFSC, não me sentiria à vontade desenvolvendo um projeto para uma indústria química, por exemplo, que causa em geral, muitos estragos à natureza e consequentemente à todos os seres humanos.
Monge Genshô – Você deve decidir. Não tenho uma resposta pronta para resolver essa questão para você. Pode ser que você realize um grande projeto que muda a visão e o modo dessa empresa atuar. Quando Oppenheimer ajudou a desenvolver a bomba atômica, a ideia era de que fossem sacrificados talvez cem mil japoneses e o Japão se rendesse, poupando a vida de milhões de soldados americanos e mais alguns milhões de soldados japoneses. Tendo isso em mente, a bomba parecia algo bom. Depois de jogada a bomba, Oppenheimer pediu demissão. Pairava sempre a dúvida da real necessidade do uso da bomba desta forma, por exemplo, poderiam ter feito uma demonstração do potencial da bomba evitando que pessoas inocentes fossem mortas.
Outro fato que ocorreu após isso, foi uma corrida dos países para construir suas próprias bombas. Você teria que se colocar no lugar de Oppenheimer e se questionar sobre várias coisas, por exemplo, se a Alemanha tivesse desenvolvido a bomba antes dos americanos? É muito difícil de responder, ou melhor, parece fácil dar as respostas, pois quando se está de fora, tudo parece mais simples. Mas é preciso conhecer todas as variáveis. Você, dentro na universidade, desenvolvendo seus projetos terá que pensar o que fazer e mesmo assim, você nunca terá certeza absoluta que sua decisão foi acertada.
Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?
Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta mil vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz tem que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério. Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente é primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo.
Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior, vamos dizer assim, para a pessoa mais esclarecida?
Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências. Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um estuprador. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe uma relação de grandes crimes que causam grande marca carmica, matar o pai, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Voltando ao Caminho do Meio
(continuação de palestra em Goiânia)
Pergunta – E o carma familiar? De que forma isso é passado para as outras gerações?
Monge Genshô - Você só nasce numa família porque tem carma para nascer nesta família. Você não nasce numa família estranha a você. Você nasce numa família, numa cultura adaptada a você, com determinados pais, você se sente atraído por aquele país. É por isso que você está lá, não é de graça. Você morre aqui e agora, é provável que você nasça numa tribo de pigmeus no ex - Congo Belga? Não. Muito difícil, muito longe de você isso. É mais provável que você nasça de novo numa família brasileira, etc, com os mesmos tipos de problemas. E aí eu pergunto: “Porque é que nós brasileiros admitimos os nossos heróis trapaceiros”? Porque é todo mundo trapaceiro. Se não fosse não aceitaria. É porque todo mundo desculpa e porque todos se estivessem numa situação semelhante se aproveitariam. Quando as pessoas vão lá no facebook e protestam, porque vocês sabem que o facebook é um lugar especial onde só há pessoas excepcionais, honestas, que gostam de animais etc, que votam corretamente. Mostram uma face pública. É uma face ideal que as pessoas querem mostrar, mas não é verdadeira.
A verdadeira é a que o voto mostra. Se nós fossemos intolerantes, nós seríamos intolerantes no nosso voto. Como os noruegueses. Eu estudei um tempo na Holanda, e, na Alemanha, quando trabalhava com comercio exterior eu vi com clareza essa atitude que permeia toda a sociedade. Eu vou fazer o certo porque é o certo. Não tem nada a ver com o que eu acho ou com minha vantagem momentânea, mas porque é o certo. O Brasil não é o país do certo e do errado, é um país de pessoas pontuais ou impontuais? “Impontuais”, vocês respondem. Não é verdade. Os brasileiros não vão ao cinema na hora certa? Então os brasileiros são pontuais no cinema, na palestra, etc, por quê? Porque é uma questão de crença. O brasileiro se acha idiota de chegar na hora num lugar e as coisas atrasarem. Mas se é um evento que começa sempre na hora, ele chega na hora.
Como nós pertencemos a uma escola japonesa, a Escola Soto Zen, dizemos: olha, a meditação começa às 19:30, chegue 15 minutos antes porque às 19:30 nós fechamos as portas e as pessoas ficam na rua. Só ficam uma ou duas vezes, depois não ficam mais. Começam a chegar na hora, porque o brasileiro é contextual, ele não quer ser bobo. Está abalada a crença de que brasileiros são impontuais? Eles agem de acordo com as circunstancias.
Pergunta – Sensei, o que eu queria perguntar era exatamente isso, sobre este pessimismo cívico que estamos atravessando agora, de olhar que já vão se aproximando de novo as eleições, e o cenário que se apresenta não e algo que a gente possa realmente gostar. E diante disso tudo, do carma de nosso país, da formação que nós temos, sendo criados por marginais desde o começo, e agora? Diante dessa próxima eleição, nós que tentamos errar cada vez menos, como é que nós devemos olhar?
Monge Genshô - Primeiro eu queria combater a idéia de o motivo é que nós fomos fundados por marginais, porque a Austrália foi fundada por criminosos. Ela era o lugar para onde a Inglaterra mandava os degredados,, a mesma coisa. Nós deveríamos olhar o sistema total, o sistema jurídico etc, a cultura que permeou a formação de um país para ver a sua origem. Como é que nós podemos mudar? Nós temos que mudar nossa cultura. Quanto mais brasileiros vão ao exterior e vêem como funcionam os países, melhor fica. Quanto mais nós absorvermos, quanto mais empresas estrangeiras vierem trabalhar aqui, e se recusarem a agir de forma corrupta, melhor fica. Agora se eles vierem absorver nosso sistema, pior fica. Então nesse momento eu estou fazendo uma consultoria numa empresa japonesa e nós estamos tendo alguma dificuldade com a direção japonesa e com os gerentes brasileiros, porque eu tenho que explicar, para os diretores japoneses, que os brasileiros pensam diferente. “Que não é bem assim”. Os japoneses pensam em bloco. Se um brasileiro roubou, todos os brasileiros são ladrões. Eu digo, “não não, não é bem assim, aqui cada pessoa é uma pessoa, é diferente”. Então há muitos detalhes a serem explicados.
Como nós devemos agir? Como professor budista eu não posso perder metade dos alunos porque tenho determinado posicionamento político e a outra metade por outro posicionamento. Então o que eu posso dizer é, “mude você mesmo, dentro de você”. Esta é a tarefa do treinamento budista. Nós estamos aqui para mudar a nós mesmos dentro de nós. Lá fora nós vamos sair e agir o melhor que nós possamos, dentro daquilo que nós acreditamos que é o melhor, e se nós fizermos isso de maneira honesta, o mundo vai funcionar melhor.
Buda sempre pregou o caminho do meio, e o que seria este caminho o que ele significa? Olhe, os extremos não funcionam muito bem. Nenhum extremo funciona bem. Existem um grande conflitos no nosso tempo: existe o conflito da igualdade em conflito com a liberdade. A liberdade se opõe à igualdade porque os homens são diferentes uns dos outros. Se você prega a liberdade de empreender, liberdade econômica, de agir, de falar e tudo mais, você tem um tipo de sociedade mas ela rapidamente fica cada vez mais diferente, porque umas pessoas são mais talentosas e outras menos.
Não adianta você dizer que é injusto o Neymar ( jogador de futebol) estar ganhando muito. Ele tem um talento especial que está valorizado, é isso, essa é a condição dele. Esse é o mundo da liberdade. Agora, se eu disser assim: eu quero o mundo da igualdade, e todos os jogadores vão ganhar a mesma coisa, não importa quem joga melhor. Rapidamente todo mundo para de se esforçar e os Neymares desaparecem porque não adianta se esforçar, porque se eu me esforçar eu ganho a mesma coisa. Então a liberdade e a igualdade trabalham levando em conta o egoísmo humano. Essa é a grande luta que nós tivemos. Aqueles que tentaram a igualdade a todo custo, saíram matando, para fazer com que a igualdade funcionasse. Vamos matar os proprietários, e todos aqueles que se opõem a nós.
Outros, que tentaram não a igualdade a todo custo mas a liberdade, redundou em que? Enormes desequilíbrios, pessoas que não eram competitivas dentro das sociedades ganhando muito pouco, vivendo muito mal, e outros ganhando muito. Então na verdade, o mundo funciona melhor quando há um certo equilíbrio. Então eu queria voltar ao ensinamento de Buda, o “Caminho do Meio”.
Os governos, as instituições, os países, têm que lutar para, diminuir a injustiça equilibrando as chances. Mas, não se pode levar isso a tal ponto que todo estímulo desapareça. Então, este equilíbrio sutil é a grande vitória de países como a Noruega, Finlândia, que são sociais democracias capitalistas, tudo junto, do Norte da Europa. Eu acho que o Brasil deveria pensar nesses termos, mas ele não consegue se decidir muito bem, então ele ora vai para um lado, para um extremo, ora vai pra outro e como os grupos não sabem pensar muito bem por ter instrução baixa, o pensamento filosófico no Brasil não se consolida e acaba parecendo uma luta entre facções, entre classes, e as lutas nunca redundaram em coisa muito boa. Redundaram na realidade em grande desgaste, por quê?
(continua)
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quinta-feira, 22 de maio de 2014
Dilemas morais
Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?
Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta mil vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz tem que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério. Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente é primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo.
Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior, vamos dizer assim, para a pessoa mais esclarecida?
Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências. Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um assassino serial. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe nos sutras uma relação de grandes crimes que causam grande marca cármica, matar os pais, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Procurem a paz e a harmonia
Na foto mestres zen de todo o mundo ladeiam Saikawa Roshi (de branco ao centro) no cinquentenário do Templo Busshinji em SP
Respostas do Grande Mestre do Zen Saikawa Roshi em uma palestra em Florianópolis:
1) Se a dor, como o Senhor falou, é um caminho para que a gente veja a inexistência do ego, esse vazio não abraçado não faria essa própria dor não existir?
Saikawa Roshi – Mesmo que a dor exista, sua raiz pode ser cortada. Com a aceitação de vida e morte, vida existe e morte também existe. Se você realmente vê isso, pode ir além, poderá ir além da raiz e o sofrimento poderá ser cortado.
2) Essa sensação de incompletude, que parece ser inerente à vida humana, tem como origem nossa visão das coisas de forma dual?
Saikawa Roshi – É muito bom ter este sentimento, pois pode impulsionar sua prática. Nos sentimos incompletos na nossa vida diária e este sentimento é que nos dá energia para praticarmos, mas durante o Zazen você pode ir além de sentir-se completo ou incompleto, você pode ir além da dualidade. Nesse sentido podemos sentir nossa completude praticando zazen. Somos cem por cento iguais a Shakyamuni Buda. Quando ele sentia sede, sentia sede exatamente como nós, sentia fome da mesma forma que nós. A diferença é que ele realmente viu dentro de si mesmo e tornou-se como um espelho vazio, um com todo o universo. Ele foi além da dualidade e pôde aproveitar sua vida. Sofria quando o sofrimento vinha e sorria com a alegria.
3) Se viemos de uma dimensão única e não dual, qual o objetivo de nossa dualidade? Porque temos que passar por essa experiência?
Saikawa Roshi – Não podemos ver os dois lados da moeda ao mesmo tempo. Um lado é não dual, perfeitamente vazio, mas o outro lado é cem por cento dualismo como nossa vida diária. Mesmo neste dualismo da vida diária, nós podemos tentar ver a situação ideal. Nós pensamos quando uma criança nasce, que ela realmente nasceu; mas na verdade a vida é uma continuidade, por isso, na verdade ela não nasceu. “Eu nasci em tal ano” é simplesmente uma expressão. Conforme vamos crescendo as pessoas vão nos ensinando o mundo da dualidade, você é Genshô, esses são seus pais e seus irmãos, esse é um dos lados da moeda. Desta forma, sem perceber a criança vai aprendendo a dualidade. Precisamos aprender a ver o outro lado da moeda através do shikantaza, o zazen. Se você vir o dualismo poderá cortar a raiz de todo sofrimento. Em um lado da moeda estou aqui tentando falar sobre o Dharma para livrar as pessoas do sofrimento.
4) Em minha mente, não existir bom ou ruim é muito difícil de entender. Qual o principal objetivo então, destruir a dualidade ou compreendê-la e saber de sua existência?
Saikawa Roshi – Nossa mente precisa de dualidade para entender as coisas. Para entender sua vida diária você precisa de sua mente dual. Sem usar a dualidade você não conseguiria operar nesse mundo, você precisa julgar certo ou errado, bom ou ruim. Para tentar explicar eu usei a metáfora do transplante, mas para realmente entender você vai precisar de uma experiência e é por isso que fazemos Zazen.
5) Como posso cortar a raiz do sofrimento se ela não é minha?
Saikawa Roshi – Na nossa vida diária dizemos “meu corpo, meu sangue, meu rim, minha mente e minha opinião”. Você precisa ver verdadeiramente a raiz dentro de você porque você diz “meu sofrimento”. Estamos tão tenazmente agarrados ao nosso “eu” que não percebemos que se temos um sofrimento, este é só do ”eu”.
De qualquer maneira estamos sentados e podemos apreciar o zazen, mesmo que sentados não hajam julgamentos do tipo “gosto e não gosto”, podemos simplesmente apreciar o zazen. O zazen nos ensina. Por favor, participem dos retiros, façam zazen. A gentileza das pessoas que frequentam as Sanghas é muito importante porque faz com que outras pessoas que venham à Sangha encontrem um lugar de paz e harmonia. Para criar paz e harmonia, pratiquem zazen e tentem ser um com os outros. Essa atmosfera de paz e harmonia vindas de cada um de vocês é muito importante para a Sangha. Por favor, aproveitem cada momento de suas vidas. Muito obrigado
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Certo e errado existem para operar neste mundo
4) Em minha mente, não existir bom ou ruim é muito difícil de entender. Qual o principal objetivo então, destruir a dualidade ou compreendê-la e saber de sua existência?
Saikawa Roshi – Nossa mente precisa de dualidade para entender as coisas. Para entender sua vida diária você precisa de sua mente dual. Sem usar a dualidade você não conseguiria operar nesse mundo, você precisa julgar certo ou errado, bom ou ruim. Para tentar explicar eu usei a metáfora do transplante, mas para realmente entender você vai precisar de uma experiência e é por isso que fazemos Zazen.
5) Como posso cortar a raiz do sofrimento se ela não é minha?
Saikawa Roshi – Na nossa vida diária dizemos “meu corpo, meu sangue, meu rim, minha mente e minha opinião”. Você precisa ver verdadeiramente a raiz dentro de você, por que você diz “meu sofrimento”. Estamos tão tenazmente agarrados ao nosso “eu” que não percebemos que se temos um sofrimento, este é só do ”eu”.
De qualquer maneira estamos sentados e podemos apreciar o zazen, mesmo que sentados não há julgamentos do tipo “gosto e não gosto”, podemos simplesmente apreciar o zazen. O zazen nos ensina. Por favor, participem dos retiros, façam zazen. A gentileza das pessoas que frequentam as Sanghas é muito importante porque faz com que outras pessoas que venham à Sangha encontrem um lugar de paz e harmonia. Para criar paz e harmonia, pratiquem zazen e tentem ser um com os outros. Essa atmosfera de paz e harmonia vindas de cada um de vocês é muito importante para a Sangha. Por favor, aproveitem cada momento de suas vidas. Muito obrigado
quarta-feira, 24 de abril de 2013
A maravilhosa linguagem é insuficiente
Pergunta – Eu gostaria de saber se o budismo tem alguma explicação para o pensamento, por que tenho pensamentos que eu quero ter ou não gostaria de ter? Pensamentos dualísticos, ao mesmo tempo em que quero pensar o bem, penso em coisas ruins.
Monge Genshô – Nós organizamos o mundo através da linguagem e ela é uma ferramenta muito útil, tanto que construímos toda tecnologia e todas as coisas usando a linguagem. Mas a linguagem tem um mecanismo dual. Desde pequeno você aprende entre certo e errado, em cima e embaixo, direita e esquerda. Embora isso no fundo não tenha muito sentido, essa é minha esquerda, mas aí pra você é sua direita. Aqui, agora é em cima, mas para os japoneses do outro lado do mundo é embaixo. Nós usamos a linguagem e organizamos o mundo, dessa forma podemos entendê-lo. Os homens para entender o mundo costumam classifica-lo. Você sempre encontrará as pessoas divididas em tipos, coisas como horóscopos onde se separam as pessoas conforme personalidades supostas, essas coisas são um esforço da mente para tentar colocar ordem numa coisa na qual ela não consegue ver ordem.
Na verdade as pessoas são todas diferentes. Você coloca-las em prateleiras e dividi-las em escaninhos pode ajudar a entendê-las. Mesmo numa fantasia, como é o caso dos horóscopos, mas não ajuda você a olhar a realidade de que cada pessoa a sua frente é um indivíduo maravilhosamente diverso de todos os outros. A sua mente faz isso, pois ela foi treinada para fazer isso, pois ela só consegue pensar com esse instrumento, a linguagem e a classificação. Mas quando peço para você sentar, eu digo não elabore, não julgue, não existe certo ou errado, deixe os pensamentos virem e irem, não o analise, não o agarre, não raciocine sobre ele, você só pode fazer isso com a linguagem e a ela não vai dar a você a percepção pura do universo. Essa percepção não pode ser alcançada com as palavras. As palavras são insuficientes.
Um dia desses na Sangha, uma mulher me perguntou, “como é a iluminação?”. Então perguntei quem já havia comido lichia. Perguntei se ela já havia comido lichia, ela respondeu que não, então pedi à outra pessoa que já havia comido que explicasse o gosto da fruta. A linguagem é absolutamente insuficiente para explicar algo aparentemente tão simples, você consegue colocar a fruta na boca e automaticamente saber o gosto, mas uma descrição disso não é nada. O samadhi que acabei de descrever, quando vocês experimentarem, saberão o que é, aí poderão falar com outra pessoa que já experimentou. Se alguém já teve uma experiência iluminada, poderá sentar com alguém que também já teve a experiência, um instantaneamente sabe do que o outro está falando, mas as pessoas que não tiveram essa experiência não conseguem conversar sobre isso, se está fora de sua experiência a linguagem é inútil.
Estamos procurando algo mais fundo que pensamentos. Mas então por que os professores do zen acabam falando, por que o senhor está dando uma palestra? Porque é a única coisa que tenho para me comunicar com vocês, ainda bem que temos a maravilhosa linguagem, mas ela é insuficiente.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Certo e errado
Pergunta – Falando de forma genérica, algo no meu trabalho, algo acontece que eu não goste, não posso lutar para mudar? Não falando de apego, mas algo que eu não goste.
Monge Genshô - Com certeza. Você deve, porque você está agindo no mundo para fazer alguma coisa melhor . O que deve ser examinado são suas motivações. “Quero mudar isso porque não gosto, eles gostam disso e eu não, então vou impor aos outros meu gosto”. Nesse sentido é mente discriminadora. Não é o caso de, por exemplo, vamos melhorar essas janelas, vamos colocar telas para que os mosquitos não entrem. Essa é uma mudança boa que todos concordariam. Porem, se temos uma pessoa na sala que diga, ”mas eu não gosto de tela, as telas deixam a janela feia”, isso seria sua mente discriminativa funcionando. Preste atenção nas conversas normais e veja quantas vezes as pessoas dizem “gosto”, “não gosto”, ”detesto”, “prefiro”, quantas vezes isso é manifestado. O que devemos é nos examinar, prefiro por que? É bom para o grupo? Bom para o funcionamento do mundo? Ou por acaso é uma simples manifestação minha, de meu ego? Em geral no budismo não existem declarações de certo e errado. Mesmo as coisas mais clássicas, por exemplo, “não matar”, o primeiro preceito, sempre, em todas as circunstancias será errado matar? Não. Haverá circunstâncias em que isso pode ser mudado, exemplo, um terrorista vai matar quinhentas pessoas e você o mata antes. Você, para não descumprir o preceito, deveria deixar que ele matasse quinhentas pessoas? Cada situação é diferente. Não existem no budismo respostas fechadas.
Pergunta – O que se faz no mosteiro com ratos e baratas?
Monge Genshô – Em mosteiros, por princípio, não se mata para comer. Nos casos de baratas, pega-se a barata e leva-se para fora. Você tenta conviver com a situação, não mata mosquito, mas usa repelente. Mas haverão circunstâncias em que as coisas não serão assim. Você tem um prédio de madeira e tem problemas com cupins, não se pode perder o prédio. Mas não existe ato cometido, mesmo benéfico, que não tenha carma envolvido. O exemplo do terrorista, existe carma nesse ato? Existe. De qualquer forma você fez, você assumiu. Existe grande benefício em favor de outras pessoas, mas gera carma, este pode ser bom ou ruim, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Cada problema ético vocês tem que resolver a luz do bom senso e o budismo não dirá à vocês certo é isso e errado é aquilo. É aquele tipo de questão que se você pergunta para um mestre budista ele não resolve para você, no máximo lhe ajuda a pensar.
terça-feira, 17 de julho de 2012
As coisas tais como são
Título: Comentários sobre Teishos de Taizan Maezume Roshi
Tema: Kanzeon
Decupada da gravação, digitada, editada e revisada por Denkô.
Tatághata é um dos nomes de Buda, significa aquele que é, assim como é. Este tipo de afirmação é bastante profunda. Aquele que é, assim como é. Talidade é uma palavra que pretende traduzir suchness, em inglês, que quer dizer as coisas tal como são, exatamente como são. Isso é um conceito um pouco difícil à primeira vista porque parece que as coisas são como são, mas as coisas não nos parecem como são, nos parecem diferente daquilo que realmente são, por exemplo, quando eu não precisava de óculos, óculos era uma coisa que as pessoas velhas ou que não enxergavam bem usavam, depois, quando eu comecei a precisar de óculos, óculos passaram a ser uma coisa maravilhosa porque me permitem ler, pois sem óculos está tudo fora de foco. Portanto, as coisas mudam de acordo com a nossa percepção delas. Então, é através da nossa maneira de ver que as coisas manifestam as suas qualidades, são impregnadas da nossa percepção e não são como realmente são. Por exemplo, esta madeira desta casa, para um cupim, é comida, e para nós não, então nem o cupim nem nós sabemos o que é realmente a madeira. Cada um de nós tem uma imagem da madeira de acordo com a nossa visão pessoal. Esta nossa visão pessoal altera o mundo que nós vemos, o mundo percebido.
E poderia dizer que ninguém nessa sala vê as coisas tais como são. Exceto num momento iluminado. Por exemplo...estou tentando dar muitos exemplos porque sei que o conceito é difícil e sem exemplos ele não é entendido. Um antigo mestre hindu disse que uma linda moça sem sua pele é como um coelho esfolado. Isso quer dizer que os homens olham para as moças e as acham lindas, apenas com aquilo que eles emprestam para elas porque na verdade o corpo delas é o corpo de um animal. Nós como homens nos encantamos com a beleza por causa de hormônios nossos e condicionamentos da nossa própria natureza que é automaticamente feita para ver a beleza e o atrativo na bela moça, e da mesma maneira a moça olha para um belo rapaz e tem a mesma percepção distorcida porque empresta a ele qualidades que estão dentro dela, que ela quer ver, porque na realidade ele sem sua pele também é como um coelho esfolado. A madeira, que era o meu primeiro exemplo, na realidade é chuva, sol, carbono da atmosfera fixado, muitas coisas e quando nós olhamos a madeira nós só vemos madeira. Nós não vemos as coisas tais como são porque vemos todo o tempo através do filtro da nossa consciência, conhecimento, experiência, gosto pessoal.
É isso que acontece, por isso talidade é um coisa tão importante porque a talidade é olhar uma coisa e vê-la exatamente como é sem mais nenhuma idéia, nem julgamento. Esse é um dos motivos porque nós treinamos tanto, ficar sentado, sem julgar e por isso que a instrução é: seja qual for o pensamento que se apresente na mente não julguem certo ou errado, bom ou ruim, só deixe que ele vá embora, sozinho. Não o persiga, não goste dele, não cultive bons pensamentos e memórias, não se horrorize com maus pensamentos, para que treinemos uma mente capaz de algum dia ser capaz de ver as coisas sem opiniões.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
As regras e a dualidade

Se você não esperar nada do que faz e negar a considerar o que quer que seja, poderá eliminar tudo apenas pela meditação sentada(TEXTO). Significa fazer coisas sem esperar nada e não considerar o que quer que seja. (COMENTÁRIO).
Apesar das oitenta e quatro mil ilusões irem e virem, se você não lhes der importância e as abandonar, nesse momento, de cada uma delas, uma depois da outra e todas juntas, poderá surgir o maravilhoso mistério do celeiro da grande sabedoria.(TEXTO de Koun Ejo Daioshô)
P. No Budismo Tibetano há diferenças com relação ao conceito de compaixão? Quando você limpa a questão da dualidade e preserva as três características básicas de todas as coisas que existem que são: compaixão (não percebendo você separado dos outros), estado desperto atemporal e vacuidade, há diferença?
Monge Genshô: Não há diferença alguma neste aspecto da maneira como é ensinada no Vajrayana, tenho certeza. Estamos falando aí dessas características e estas são básicas e pertencem a todo o Budismo e quando você lê nos textos Vajrayana também esta questão da não dualidade está presente. Esta questão da não dualidade que está presente na questão da compaixão, ela é comum a todo o Budismo Mahayana. A única escola Budista que não ensina com base na não dualidade nesses aspectos é a escola Theravada. Todas as escolas existentes hoje ensinam Mahayana com exceção desta grande escola e mesmo assim eu diria que estes aspectos estão lá dentro do ensinamento deles também, de que os professores Theravada tem receio, é principalmente o fato de, através da não dualidade, algumas pessoas chegarem a licenciosidade, já que é não dual não existe eu e o outro, não existe certo errado, bom e ruim então não tem porque cumprir as regras, não tem porque ser bom porque afinal de contas o bem e o mal não existem, são dualidades e isto é um sério engano que pessoas que fazem leituras apressadas do Zen e do Budismo acabam cometendo, não é verdade apesar de nós ensinarmos a não dualidade no Zen, você vem fazer a prática no sesshin e o sesshin está cheio de certo e errado. É errado conversar, é errado fazer fofocas, é errado uma porção de coisas e o certo está bem delimitado, a maneira certa de fazer é assim, a maneira certa de caminhar é assim.
P. Neste caso a não dualidade seria a situação ideal, mas a gente não consegue escapar ao viver?
R. Sim, até porque usamos a dualidade na nossa linguagem, classificações e conceitos. São dois tipos de ensinamento, às vezes no Budismo se diz ensinamento provisório e ensinamento definitivo ou ensinamento relativo e ensinamento absoluto. Existe ensinamento relativo, e nós que treinamento nós fazemos no sesshin? Nós fazemos treinamento individual e um treinamento cheio de dualidades, certo, errado, nós não fazemos um treinamento, do tipo: estamos todos iluminados e podemos fazer o que nós acharmos que devemos e não existe nem certo nem errado, portanto cada um se levanta e vai comer na hora que quer, dorme quando quiser, senta se quiser e aí pronto não temos mais sesshin, não temos mais vida monástica nem nada, a vida monástica é regrada e nós vamos ver isto em todas as escolas, existem um ensinamento e existe uma prática, mas para chegar naquele ensinamento de nível mais alto precisa-se ir gradualmente de baixo até em cima, não se pode pegar o ensinamento mais alto e querer praticar em baixo de maneira nenhuma, isto não é possível.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Versos sobre a Fé na Mente
Hsin Hsin Ming – Versos sobre a Fé na Mente
escrito por Jianzhi Sengcan (Kanchi Sôsan Daioshô)
3º ancestral da linhagem chinesa
O Grande Caminho não é difícil
Para aqueles que não têm preferências.
Quando o amor e o ódio estão ambos ausentes
Tudo se torna claro e sincero.
Fazendo-se a menor distinção entretanto
O céu e a terra são colocados infinitamente distantes.
Se queres ver a verdade,
Então não tenha opiniões a favor ou contra coisa alguma.
Quando o profundo significado das coisas não é compreendido
A essencial paz da mente é perturbada inutilmente.
O Caminho é perfeito como o vasto espaço
Onde nada falta e nada está em excesso.
Na verdade, é devido à nossa opção em aceitar ou rejeitar
Que não vemos a verdadeira natureza das coisas.
Não vivas enredado pelas coisas externas,
Nem preso às sensações interiores de vazio.
Seja sereno na unidade de todas as coisas
E tais idéias errôneas irão desaparecer por si mesmas.
Quando tentas parar a atividade para alcançar a passividade,
O teu próprio esforço irá te devolver à atividade.
Enquanto permaneceres num extremo ou no outro
Nunca conhecerás a Unidade.
Aqueles que não vivem no Caminho Único
Falham tanto na atividade quanto na passividade,
Tanto na afirmação quanto na negação.
Negar a realidade das coisas é perder sua realidade.
Afirmar o vazio das coisas é perder sua realidade.
Quanto mais falares e pensares sobre isso,
Mais te desviarás para longe da verdade.
Pare de falar e de pensar,
E nada haverá que não possas conhecer.
Retornar à raiz é encontrar o significado,
Mas perseguir as aparências é perder a fonte.
No momento da iluminação interior
Há um caminho além da aparência e do vazio.
Às mudanças que parecem ocorrer no mundo vazio
Chamamos de reais somente porque somos ignorantes.
Não busques a verdade;
Apenas deixe de acalentar opiniões.
Não permaneças no estado dualístico;
Evite cuidadosamente tais investidas.
Se houver, mesmo que seja um traço,
Disto ou daquilo, do certo e do errado,
A essência da Mente se perderá na confusão.
Muito embora todas as dualidades provenham do Um,
Não fiques apegado a este Um.
Quando a mente existe impertubável no caminho,
Nada no mundo pode ofender,
E quando uma coisa não pode mais ofender,
Ela cessa de existir no velho modo.
Quando não surgem mais pensamentos discriminatórios,
A velha mente cessa de existir.
Quando os objetos do pensamento desaparecem,
O motivo do pensamento desaparece;
Assim, quando a mente desaparece, os objetos desaparecem
As coisas são objetos devido ao sujeito (mente):
A mente (sujeito) é assim devido às coisas (objeto).
Compreenda a relatividade de ambos
E a realidade básica: a unidade do Vazio.
Neste Vazio os dois são indistinguíveis
E cada um contém em si mesmo todo o mundo.
Se não discriminares o áspero do fino
Não serás tentado ao preconceito e à opinião.
Viver no Grande Caminho não é fácil nem difícil,
Mas aqueles com visões limitadas são temerosos e irresolutos;
Quanto mais se apressam, mais devagar eles vão,
E o apego não pode ser limitado;
Mesmo o apego à idéia de iluminação é andar sem rumo.
Deixe que as coisas sigam o seu próprio caminho
E não haverá mais o vir ou o ir.
Obedeça à natureza das coisas (tua própria natureza),
E caminharás livremente sem seres perturbado.
Quando o pensamento está escravizado, a verdade está oculta,
Pois tudo é indistinto e nada está claro
E a cansativa prática de julgar traz aborrecimento e cansaço.
Que benefício pode nos trazer a distinção e a separação?
Se queres te movimentar no Caminho Único
Não desgostes nem mesmo do mundo dos sentidos e das idéias.
Na verdade, aceitá-lo plenamente
É identificar-se com a verdadeira Iluminação.
O homem sábio não se esforça para alcançar qualquer meta,
Mas o homem tolo é escravo e ele mesmo se escraviza.
Há somente um darma, uma verdade, uma lei e não muitas.
As distinções surgem das aferradas necessidades do ignorante.
Buscar a Mente com a mente que discrimina é o maior de todos os erros.
O repouso e a intranquilidade derivam da ilusão;
Com a Iluminação não há o gostar e o desgostar.
Todas as dualidades surgem da dedução ignorante.
Elas são como sonhos ou flores no ar,
É tolice tentar capturá-las
O ganho e a perda, o certo e o errado:
Tais pensamentos têm que ser abolidos completamente.
Se o olho nunca dorme, todos os sonhos naturalmente cessarão.
Se a mente não fizer qualquer discriminação,
As dez mil coisas são o que elas são, uma única essência.
Compreender o mistério desta Única Essência
É ser liberado de todas as malhas a que estamos presos.
Quando todas as coisas são vistas igualmente
Alcançamos a atemporal Auto-essência.
Não são mais possíveis comparações ou analogias
Neste estado em que não há nem causas nem relações.
Considere o movimento estacionário e o estacionário em movimento
E ambos, o movimento e o repouso, desaparecerão.
Quando tais dualidades deixam de existir
A Unidade em si mesma não pode existir.
A esta finalidade última, nenhuma lei ou descrição pode ser aplicada.
Para a mente unificada de acordo com o Caminho
Cessam todos os esforços autocentrados.
As dúvidas e irresoluções desaparecem
E a vida na verdadeira fé é possível.
Com um simples golpe estamos livres da escravidão;
Nada nos prende e nós não nos prendemos à nada.
Tudo é vazio, claro, auto-iluminante,
Sem qualquer esforço do poder da mente.
Aqui o pensamento, o sentimento, o conhecimento e a imaginação
Não têm qualquer valor.
Neste mundo da Essencialidade
Não há nem ser nem outra coisa que seja o não-ser.
Para entrar diretamente em harmonia com esta realidade
Diga simplesmente quando a dúvida surgir: " não dois".
Neste " não dois" nada é separado, nada é excluído.
Não importa quando ou onde,
A Iluminação significa entrar nesta verdade.
E esta verdade está além do aumento ou diminuição no tempo e no espaço;
Num simples pensamento estão dez mil anos.
O Vazio aqui, o Vazio lá,
Mas o universo infinito permanece sempre diante dos teus olhos.
Infinitamente grande e infinitamente pequeno;
Sem diferença, pois a definições desaparecem
E nenhum limite é visto.
Isso também ocorre com o Ser e o não-Ser.
Não perca tempo com dúvidas e argumentos que nada têm que ver com isso.
Uma coisa, todas as coisas;
Movem-se e se mesclam sem distinção.
Viver nesta realização
É não ter ansiedade acerca da não-perfeição
Viver nesta fé é a estrada para a não-dualidade,
Porque o não-dual é uno com a mente confiante.
Palavras!
O Caminho está além da linguagem,
Pois nele não há nem o ontem, nem o amanhã, nem o hoje.
- Tradução para o inglês de Richard B. Clarke
- Tradução para o português de Murillo Nunes de Azevedo
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Certo e errado
pergunta: [...] como podemos determinar o que é certo e o que é errado para nós em termos de disciplina moral?
Chagdud Rinpoche: Em primeiro lugar, examine a sua motivação e depois, os resultados das suas ações. Se os venenos da mente aumentarem por causa de algo que você está fazendo, a atividade é perniciosa. O que é certo reduz o apego, a aversão e a ignorância, e o que é errado os aumenta.
Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 – Brasil, 2002)
“Para abrir o coração”, parte III
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Talidade
Portanto, a talidade é perceptível por nós? Sim, mas não com os nossos olhos normais e sim retirando os olhos do nosso rosto e colocando outros olhos, os olhos de Buda , com eles podem se ver as coisas tais como são porque estão completamente isentos de qualquer julgamento, de certo ou errado, bom ou ruim, dos opostos, das dualidades e das interpretações do nosso software mental.
Quando nós nos sentamos para meditar estamos tentando ficar aqui agora sem interpretações, por isso as instruções são: não julguem, não pensem, bom ou ruim, certo ou errado, sobre nada que lhe ocorra, simplesmente volte para aqui e agora e perceba as coisas além do pensar e do não pensar. Sinta que você está aqui agora, se você der um salto você então verá como as coisas realmente são, e não tem nada a ver com uma descrição. Nada poderá ser descrito, nada poderá ser dito à respeito porque se nós a descrevermos a estaremos diminuindo porque de novo estaremos traduzindo para palavras aquela coisa que é indescritível. Então um conhecimento perfeito é possível, mas ele só pode vir de dentro e não pode vir de fora através das informações e das interpretações de nossos orgãos sensoriais e seus aparatos mentais. Isto é o que eu queria dizer sobre talidade.
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