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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Mitos, metáforas, realidades



Muitas coisas que são crenças ou que são expressas através de mitologia são na verdade metáforas. Os mitos não são afirmações, mas sim metáforas e têm que ser entendidos desta forma. Se você conseguir ver os mitos como metáforas, irá aprender muita coisa. O Livro de Gênesis, por exemplo, tem a história do paraíso onde Adão e Eva viviam uma vida perfeita e Deus lhes disse para nunca comerem do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Mas, como sabemos, Adão e Eva comem da árvore e se descobrem nus, sentem-se envergonhados. Antes, eles eram inocentes e não tinham consciência do bem e do mal. Existem duas formas de ver essa história. Uma, é quando você vai a uma igreja e alguém lhe diz que isso realmente aconteceu, está escrito na Bíblia e se fizermos a contagem regressiva alcançaremos seis mil anos, portanto se alguém disser que a Terra tem mais que seis mil anos está mentindo. Isso é olhar o mito não como uma metáfora, mas sim como uma verdade incontestável. Mas o mito é belíssimo e diz que o homem era puro, não tinha consciência do bem e do mal assim como o pássaro sobre que o Léo perguntou. Quando ele come da árvore do conhecimento, descobre uma mente dual, o bem e mal, descobre a nudez e a malícia e, neste momento, ele perde o paraíso, é expulso. Na porta do paraíso é colocado um anjo para que ele não retorne. Mas ele não poderá voltar de qualquer forma, pois agora tem uma mente dual. E para o Budismo? Eu falei anteriormente: "os pássaros são verdadeiramente pássaros, os peixes são verdadeiramente peixes, só o homem não é verdadeiramente homem". Por que não? Porque ele pensa e pensa em bem e mal, certo e errado, gosto não gosto, minha mente e outra mente e assim por diante. Por passar a pensar e pensar desta forma, perde o paraíso e a felicidade. Não consegue mais viver o momento presente como os peixes e pássaros, passando a pensar na morte, na finitude das coisas, nas coisas que possui e por essa razão ele se perde.

Por isso a instrução do Zazen é não pensar no passado ou futuro, certo e errado, bom ou ruim e culpa ou mérito. Apenas fique no momento presente, treinem isso agora porque essa é a mente que retorna ao paraíso. Isso é muito bonito, mas temos que entender as metáforas pode ser uma belíssima metáfora, mas se você ler como uma verdade explicita, estará cometendo a mesma ignorância dos fundamentalistas que interpretam os mitos como se fossem realidades.

(Final, palestra proferida em Florianópolis, decupada da gravação por Chudô San, revisada por Rachel San)