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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Mudar o carma


Pergunta – É possível mudar nosso carma?

Monge Genshô – Sim. Nos dois sentidos. Vamos supor que você seja uma pessoa maravilhosa, que tenha feito muitas coisas boas para muitas pessoas, mas faz o mal, comete um crime e sua vida começa a decair. Você tinha um bom carma e o transformou em mau carma. Por outro lado, você tinha feito coisas muito ruins, mas começa a mudar sua mente e realizar bons atos, isso vai gerar bom carma. Mas isso é muito difícil, a maioria das pessoas está metida numa espécie de enredamento com seu carma e acaba repetindo sempre as mesmas coisas. Se você não cuida de sua mente, quando morre, é com essa mente que se manifestará uma nova vida, seus impulsos, desejos e apegos é que serão seu carma para a próxima vida e para um novo eu, que não se lembrará do porque, embora sofra as consequências.

Pergunta – Como trazer o zazen para a vida prática?

Monge Genshô- Essa mente construída no Zazen, de não se preocupar com passado ou futuro, deve ser levada para a vida diária. O zazen é somente a base da prática, não é a prática em si. Quando estiver varrendo o chão, somente varra o chão, esteja ali presente. Quando for lavar a louça, mente do zazen. Uma excelente oportunidade é no seu trabalho, sempre que surgir uma discussão, observe e perceba seu ego presente na sua necessidade de manifestar opinião, na necessidade de estar certo, na necessidade de ser o melhor. Torne-se consciente de você mesmo. Essa é a verdadeira prática espiritual, não é acender velas, incensos ou fazer cerimônias. Esse tipo de coisa serve para exercitar uma mente atenta, que deverá ser transferida para o resto de sua vida, até o momento de sua morte.  É muito importante ter uma boa mente no momento de sua morte. Uma mente tranquila, sem desespero, equânime, compassiva e uma mente capaz de perdoar, não somente aos outros, mas a si mesmo.  Seus impulsos no momento da morte é que serão levados para a outra vida, por isso é muito importante saber morrer.


Pergunta – Sempre que o senhor fala de vaidade e ego, pega exemplo ruins. Falar sobre coisas boas, como por exemplo, estou me sentindo ótimo, estou apaixonado...

Monge Genshô – Isto também é ruim. Quando fazemos os votos do Bodhisattva, o que falamos? Delusões são inexauríveis, faço voto de extingui-las, todas.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A UNICIDADE DE TODAS AS COISAS



Nós ouvimos frequentemente as pessoas dizerem que devemos ser “um com todos os seres”, no entanto, todo o tempo que andamos no mundo vemos coisas diferentes, pessoas diferentes, nossos sentimentos são diferentes e mudam, nossas experiências são diferentes, então nos perguntamos onde está essa tal “unicidade de todas as coisas”.

Na verdade a diversidade é a unicidade, ela apenas é a múltipla manifestação das coisas. Nós, os outros e todas as coisas apenas nos manifestamos de formas diferentes. Em toda unidade há diversidade e toda diversidade é a própria unidade, nós é que queremos separar uma coisa da outra, mas nossa vida diária é toda diversa. Quando pedimos as pessoas para que sejam um com todos os seres não implica que deixemos de ver a diversidade e não significa também que nossa vida não tenha diferentes aspectos como alegria e tristeza, pois ela tem.

Saikawa Roshi em uma de suas palestras falou sobre uma moeda que tem em seus lados nossa vida diária - 100% dualidade de um lado e do outro o absoluto, completa unidade, nada de bom ou ruim, certo ou errado. Tudo está na mesma moeda, mas quando você olha um dos lados não consegue enxergar o outro. Como podemos estar conscientes de que uma ou outra coisa é a mesma coisa, é a mesma moeda? Pois quando você anda, a vida diária é 100% dualidade. Você tem que ser capaz de virar a moeda a cada instante, quando você conseguir isso, será capaz de integrar os dois lados e saberá que um lado é fantasia e o outro é como as coisas realmente são. Isso pode parecer confuso porque as coisas são diversas e ao mesmo tempo unas. Ao mesmo tempo em que vida e morte existem, não existem, são apenas um pequeno aspecto das manifestações, do ponto de vista absoluto não existe vida e morte, tudo sempre esteve, está e de alguma forma sempre estará aqui. Universos surgem e desaparecem e tudo sempre está aqui.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vendo sua verdadeira natureza



Pergunta – O senhor disse que o primeiro passo é a virtude, sendo o caminho os preceitos, que o caminho para o segundo passo ( a compassividade) é o zazen e para o terceiro passo (a não dualidade) é o zazen de uma forma mais profunda. O senhor poderia falar um pouco mais sobre isso?

Monge Genshô – A medida que nos aprofundamos no zazen, e vamos mais fundo na nossa compreensão, ultrapassamos a noção de eu e os outros, eu e o universo e vai chegar um momento em que tudo se dissolve. Quando o eu puder ser abandonado, mesmo que por alguns momentos, você experimentará o que é não dualidade e esse será um momento de kenshô (ken = ver, sho= verdadeira natureza), um momento iluminado. 
Na medida que você conseguir ter mais experiências como essa, talvez um dia você consiga obter o domínio sobre esse tipo de experiência, isso seria o satori ( a iluminação), você será proprietário da experiência da não dualidade e pode chamá-la a qualquer momento. Não significa que você fica transitando nesse mundo sem um eu, porque precisamos de um eu para fazer as coisas, para falar, trabalhar, agir. Mas para obter a iluminação você precisa ser capaz de descartá-lo a qualquer momento da mesma forma que você tira uma camisa. Você precisa da camisa, mas você não é a camisa. Você precisa de seu eu mas você não é seu eu. Perceba que a vida diária é pura dualidade.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A expressão na vida diária



Algumas pessoas  se afastam por entender que a prática do Zen não era o que elas esperavam. Elas esperavam o que leram nos livros, coisas complicadas, koans, não dualidades, pensamentos muito complexos sobre o Zen. Não estão errados estes pensares, mas eles não são o verdadeiro Zen porque o verdadeiro Zen se expressa em pequenos detalhes e não se expressa através do conhecimento verbal, do raciocínio. Ele se expressa em outras coisas. Para nós vermos um bom praticante do Zen nós não o ouvimos, nós sentamos com ele, olhamos as suas costas. E ao olhar as costas do praticante nós sabemos: é um praticante sério. Não importa o que ele disser. Importa como ele pratica, como ele anda, como ele coloca os seus chinelos, como ele faz a oferenda de incenso, como ele faz cada coisa porque é na expressão da vida diária que nós vemos a verdade.
Não adianta fazer belos discursos sobre o Zen e depois ter um ataque de raíva. Esse não é o Zen. Não é o Zen falar bonito e depois ter atitudes quaísquer de cobiça, de orgulho, de inveja, aquelas que nós citamos nos preceitos. A verdade vai aparecer na expressão da forma. A verdade aparece na fala e nas ações que expressam a mente. Por isto treinamos a mente. Treinando a mente deveremos mudar as nossas ações, as nossas formas, mas viemos no zendô e treinamos a forma para ver quanto estamos atentos. Uma mente atenta, não é uma mente distraída, viajando, perdida. Mas  quando estamos fazendo coisas no zendô, com todas as regras, aí nós erramos. Quando nós erramos, nós rimos, porque todos erramos. Mas quando nós erramos e rimos é para nos dar conta de que é esse o nosso verdadeiro estado. O nosso estado se expressa aí e depois a gente senta e pratica com a nossa mente das duas formas, observando a mente no zazen e mantendo a forma de Buda no zazen. Então são esses dois caminhos bem juntos. Se você tirar a forma do Zen não é mais o Zen, é outra coisa.
Não vale a pena praticar se você não compreende isso. É melhor então procurar uma prática em que você não sente este conflito. Mas eu fico pensando quantos desses enganos provêm de falhas minhas como professor. De explicar claramente o que é isso porque na tradição do oriente não se explica. Então simplesmente se faz e se espera que as pessoas consigam compreender sozinhas. Mas no ocidente como chegou a tão pouco tempo o Zen, acho que o professor tem que explicar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A prática da vida diária


Nos reunimos como Sangha para praticar. É para se sentar com todos que se vem à Sangha, esta é a razão de sua existência. Mas se o fazemos por causa de uma liderança, a prática não é forte, porque a prática no zen não depende da liderança. A tradição é sentar sozinho durante longo período e visitar o mestre de vez em quando para tirar dúvidas, para mostrar aquilo que pensa que realizou, para expor e receber uma confirmação. Se nossa prática depende dos outros, ela é fraca. Deveríamos ser capazes de sentar sozinhos em nossas casas e nos reunirmos com a Sangha para apoiar os outros praticantes, não vindo, somente, porque naquele dia o professor estará presente. Isso, para o professor, é como se ele visse sua própria fraqueza, porque sua força é fazer praticantes fortes e não pessoas dependentes. Não é isso que o professor quer.

Durante toda a história do budismo, o esforço de todos os mestres foi de criar praticantes melhores que eles e que pudessem sucedê-los. Tantos mestres viram suas linhas, suas escolas, desaparecerem, porque não houve sucessores. Por ter isso ocorrido tantas e tantas vezes, a maior alegria de um mestre é ver grandes e fortes alunos que não dependem dele. Numerosos mestres tiveram apenas um discípulo sucessor, raríssimos tiveram centenas. Somente mestres como Buda tiveram muitos sucessores. Seria interessante nós examinarmos o que é a prática, como ela se estabelece. A prática, na verdade, só tem sentido se é usada na vida diária. Infelizmente, em nossa vida diária, temos que vestir máscaras e atuar em papéis que não são o papel do praticante. Alguns deles são verdadeiros impeditivos da realização espiritual. Então, a prática da vida diária é um enorme desafio, pois temos, frequentemente, que agir de outra forma. Na Sangha você pode - e deve - aceitar todas as falhas e erros dizendo: “não tem importância, vamos tentar mais uma vez”. Se os alunos estão fazendo bem o ritual, o professor pode mudar algo, porque o melhor é que as coisas nunca funcionem muito bem para que possamos nos aperfeiçoar. Se alguém é a pessoa bem treinada para determinada função, é conveniente tirá-la daquele papel em que ela se sai bem, para que ela passe a fazer algo em que ela não se saia tão bem. Se alguém ficar fazendo uma tarefa para a qual está bem preparado, será ruim para ele, para o seu ego, não lhe fará bem. Na verdade, a Sangha não deve funcionar muito bem, deve servir de caminho de aperfeiçoamento.