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sexta-feira, 4 de março de 2016

Kaitin, a meditação antes de dormir


Aluno: Gostaria de saber sobre a meditação dormindo.

Monge Genshô:
Chama-se kaitin. Consiste em deitar de lado, sobre o lado direito, na posição em que Buda morreu, ficar com os olhos semiabertos e fazer zazen até dormir. Você tenta ficar apenas ouvindo os sons, mantendo o corpo quieto. Assim você adormece praticando e isso vai acabar influenciando nos seus sonhos. Se vocês trabalharem bem as suas mentes, seus sonhos mudarão. Eu às vezes tenho sonhos tão bons que tenho pena de ter acordado. Como eu faço sesshin de 15 em 15 dias, falando sempre sobre o Dharma, minha cabeça fica tão cheia disso que eu deito e sonho com o Dharma, que estou fazendo palestras e ajudando pessoas. Você deve praticar sempre que puder. (continua)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

LIMPANDO A MENTE



Buda disse "pratique o bem, evite o mal, seja senhor de sua mente". Nós não sermos senhores de nossa mente é uma tragédia. Porque a nossa mente vai para qualquer lado e nós não conseguimos fazer nada com ela. É como um cavalo desembestado, correndo em um campo, não tem rédeas. 

Nós, para sermos senhores de nossa mente, temos que aprender o que fazer com ela. Como ela funciona. O certo quando acordar de noite com ansiedade, pensamentos é: levante, sente-se e exercite voltar para o momento presente. Daqui a trinta minutos você vai estar adormecendo, então volte para a cama e durma! Não tome um remédio. Porque é uma solução completamente falsa, droga é falsa. Você tomou o remédio para dormir, ele baixa seus níveis, você adormece mas a sua mente continua a mesma droga de sempre, de modo que de novo vai acontecer a mesma coisa, você vai tomar o remédio para solucionar aquela agitação. Você não está curado, você só está ficando viciado em uma droga. Vai chegar o dia que você não pode mais dormir sem tomar. 

Então o remédio funciona de verdade, só que ele é a solução falsa, completamente falsa. Levante-se e medite, e aí você vai solucionar os seus problemas. Muitas pessoas com insônia a gente resolve o problema no sesshin. Acorda às quatro horas da manhã e vai meditar. Só vai dormir as dez horas da noite. Primeiro, tem um déficit de sono, segundo lugar, ele fez meditação durante o dia inteiro, no segundo dia a pessoa está curada, dormindo muito bem. Não é um problema tão grave resolver a ansiedade. Ansiedade é produzida dentro da mente.

Tem mais um exemplo que queria dar para vocês. Eu suponho que todos são brasileiros e tomam banho todo dia. Muito bem. As vezes até mais que um por dia. Sempre toma um banho para se sentir bem. Se a gente não toma banho, o que acontece?

Aluno: Fica incomodado, agoniado.

Sensei: Agoniado por quê? Está cheirando mal? A pele está grudando, né? Todos nós somos plenamente conscientes que banho é uma obrigação para você manter seu corpo saudável, com boa sensação, não grudando, cheirando bem, não é verdade? Todos fazemos isso com nosso corpo. Mas quem faz isso com sua mente? A mente está sujando todo dia, notícias, crimes, coisas ruins acontecendo, acomodações, pensamentos, alguém no trânsito que diz palavrões, chefe que está me perseguindo e tudo mais. A mente está toda cheia de sujeira, mas ninguém limpa. Todo muno fica com essa mente todo tempo assim. Ela vai sujando, grudando, vai cheirando mal e você não faz coisa nenhuma. 

Meditação é dar banho na mente. O seu computador você vai lá baixa coisas, olha na internet, ele vai guardando cookies e um monte de tralhas dentro. Uma vez por semana você pega o programinha de limpeza e limpa o lixo. Aí você olha e vê 50mb. Você acaba limpando gigas. Se trabalha como designer, junta mais lixo. Quanto mais faz, mais lixo. Mas você limpa! Mas a sua cabeça, que funciona como um computador, junta memória, junta pensamento, junta sentimentos, junta uma porção de coisas que você não sabe nem mais o que são. Você pensa que não está incomodado com elas, mas deita com elas e elas surgem. Aí acorda de madrugada como você relatou. O que que é isso? Lixo no disco, você não limpa nunca. Como está cheio de lixo, tem que passar um programa de limpeza. Qual é o programa de limpeza? Sentar e apagar passado e futuro. Está boa essa analogia? Fácil de entender? 

Então pense assim, quem não medita é como uma pessoa que não toma banho (risos). Na cabeça é. Não me admira que as pessoas comecem a tomar remédio para depressão, para dormir. Chegam até o monge e dizem assim: "Ah Monge, o senhor é tão calmo, está tudo bem com o senhor, está sempre feliz etc. e tal. Mas é claro, o senhor não trabalha, não faz isso, não faz aquilo" (risos). Não é bem verdade. Eu trabalho. Trabalho como consultor durante a semana e depois trabalho como monge no fim de semana e estou aqui tranquilo, não é? Você também pode, não tem problema nenhum. É só viver o momento presente. Vocês notaram como é calmo caminhar daquela forma? Você começa a ouvir os pássaros, tudo que está acontecendo em volta e a única coisa que você está pensando é, "precisa prestar atenção. Inspiração. Expiração. Três passos. Inspiração.." e aí então você se sente esvaziado.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sabedoria é melhor que crença.


Pergunta – Quando estamos sentados meditando e acontece, como o senhor falou, um sonho, isso seria um estado de transe?

Monge Genshô – Não, é dormir mesmo.

Pergunta – Mas pode?


Monge Genshô – Não, não é para dormir quando se medita. Mas naquela ocasião estávamos vinte e quatro horas sem dormir, sentando em zazen e levantando para meditação andando e isto ocorre naturalmente.

Pergunta – O Budismo acredita em espíritos?

Monge Genshô – O Zen Budismo não é a religião do acreditar.

Pergunta – Mas acredita em vidas passadas.

Monge Genshô – Mas não do mesmo eu. O Zen Budismo não é a religião do acreditar. É a religião do despertar das ilusões. Você não é obrigado a acreditar em nada, nem no que eu digo. Você pode, através do treinamento da meditação, testar se o que eu digo serve ou não para você. Através deste treinamento você pode adquirir sabedoria e isso é muito melhor que qualquer tipo de fé.  O que desejamos no Zen é saber.

Pergunta – Minha pergunta é em razão do carma...

Monge Genshô – Carma é ação e consequência, tudo que você faz tem uma consequência. Isso afeta não somente essa como quaisquer vidas que venham depois. Essas vidas que vêm depois não serão você, pois não existem almas ou espíritos. Muito menos “eus” permanentes, aliás, nada existe de permanente.  ( Final das perguntas em palestra em 2013, Florianópolis, decupada por Chudô San)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A copa e as identidades


Pergunta – Queria que o Senhor nos orientasse quanto às práticas em casa.

Monge Genshô - A dificuldade das práticas em casa é a determinação. A disciplina. Você precisa pegar o seu zafu, criar um cantinho na sua casa, fazer um pequeno altar, lá acender incenso, e dizer: “eu vou me sentar, 10 minutos, mas eu não vou me levantar antes dos 10 minutos passarem”. Depois vou me sentar 20 minutos, e serão 20 minutos.

Se você fizer assim, criar o hábito e a disciplina, você começa a mudar sua mente, porque essa prática aqui é para aprender, e para sentir o apoio da sangha, mas nós não somos diferentes. Sim, eu sento muitas vezes, e faço muitos retiros, mas não sou eu, são vocês! São vocês que me pedem e eu venho e tenho que sentar de novo. E aí aparecem os efeitos, e depois outro e mais outro e esse é o privilégio de ser monge, porque a sangha força você a praticar. Quando você está sozinho em casa, não tem isso, então você precisa ter disciplina.

O melhor horário é de manhã cedo, porque a casa está em silêncio, e não é o horário que ninguém vai convidar você para sair e tomar chopp, então você senta e faz o zazen, de manhã cedo, à noite é mais difícil. Mas se algum de vocês tiver insônia, levante e sente. Se aconteceu qualquer coisa ruim que agita, levante e sente. Não tome comprimido, sente.  Depois de meia hora sentado você estará caindo de sono, levante e deite na cama. Duas vantagens: não tomou o remédio e se livrou do problema, conseguiu colocá-lo na perspectiva correta, lá fora do meu “eu”, esse “eu” que eu acredito e que pode ser ofendido, que pode ser incomodado, que pode ser demitido, que pode ir pro SPC, esse eu todo em que me convenceram a acreditar.

Eu posso jogá-lo fora, porque foi só um jogo que outros criaram para mim. Eu não preciso entrar no jogo dos outros, eu posso jogar meu próprio jogo, que é me libertar de cada penduricalho que eu colocar na minha vida.

Qual é o time aqui? Goiás não é? Então você coloca a bandeira do Goiás e é mais uma fonte de sofrimento. O Goiás perde, você fica infeliz. Então, quanto mais coisas você pendura no seu eu, mais problema. Então, não se agarrem aos jogos e bandeiras que os outros criam. Nós vamos fazer sesshin agora, na época da copa, e quem estiver em retiro não vai saber resultado nenhum de jogo. Estaremos fazendo zazen, nós não entramos no jogo, é outro jogo.

Isso não quer dizer que nós não possamos ir no jogo e achar muito divertido. Mas do ponto de vista budista, como deveria ser? Eu deveria  ir, assistir o jogo, apreciar os bons lances de ambos os lados,  acabou, ganhamos, perdemos, etc, e acabou. Não tem nada, nada para levar para a rua. Não é?

Eu tive uma experiência fantástica uma vez, em 1998, na copa da França, me convenceram a botar uma camiseta amarela. Nós fomos a um restaurante na Champ´s Elysés, cheio de franceses, e eu cantei o hino deles com eles e depois cantamos o nosso. E nós perdemos o jogo, vocês lembram. E eu estava com a camiseta amarela, minha identidade estava pregada em mim, e eu saí na rua, e os franceses pediam desculpas,  muito gentis. Atrás de nós um grupo gritava que nós voltaríamos a pé para a América do Sul, um grupo de argentinos... E como o metrô fechou e a cidade parou, nós tivemos que ir à pé até a Opera onde era nosso hotel, com esses acontecimentos todos sucedendo, eeu vi o que é que é ter uma camiseta amarela no corpo. Uma identidade. E eu não era Monge!

Então, a gente sofre pela identidade que veste, que você assume, é bem assim.
(fragmento de palestra em Goiânia, continua)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Com os olhos abertos



Mas voltando ao tema inicial, construímos o sofrimento e fazemos os votos de Bodhisatva não apenas para escapar do sofrimento, mas para diminuir o sofrimento de todos os seres, mas isso pode ser um caminho bem complexo, cheio de idas e vindas e temos que aceitar com tranquilidade o fato de que existe mudança. Essa pessoa que me disse que o sofrimento que existia “desapareceu”, simplesmente ela está dizendo que, quando frente à um problema, ela pensa e só depois resolve, e aí lhe perguntam: “Mas você não vai reagir?” ao passo que ela responde: “Depois eu resolvo, agora vou dormir”.

Se você conseguir dormir frente à um grande problema, fico muito feliz com esse fruto da prática, sinal que você aprendeu a comer a frutinha vermelha, doce, e depois vai pensar no tigre lá embaixo, afinal de contas ele é inevitável, completamente inevitável. Já estou no precipício, a vida é um precipício. Melhor ainda se for capaz de saltar com os olhos abertos.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Gostaria de saber se existe diferença entre shikantaza e hishiryo




R: Shikantaza significa apenas sentar, sem objetivo.

Texto de T. Deshimaru sobre hishiryo:
"Que é Hishiryo? É pensar sem pensar, não pensar, mas pensar. É o além do pensamento, o pensamento absoluto. Não pensamos, mas o inconsciente se eleva, e pensamos inconscientemente, a partir do tálamo, do cérebro central. O verdadeiro pensamento aparece, o pensamento sem pensamento, para lá de todo pensamento.

Querer cortar os desejos, as ilusões é impossível, a nossa vontade, por si só, é impotente. Por intermédio do zazen, todavia, os desejos, pouco a pouco, deixam de perturbar-nos, diminuem por si mesmos, inconscientemente, naturalmente. Não se deve tentar nem cortá-los, nem segui-los. Nem cortar, nem seguir: isso é Hishiryo."