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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Voltando para casa


Não podemos preconizar o abandono da tecnologia, da complexidade, mas mais do que nunca num mundo de complexidade e dificuldade, nós temos que ser capazes de retornar à lucidez. É isso que nós fazemos aqui em um retiro, aqui nós podemos retomar a lucidez. Quando o mundo lá fora parecer maluco, você pode pensar: “é só um jogo, eu posso retornar dentro da minha mente a um espaço onde há paz, basta que eu saiba como é este espaço”.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Você pensa por isso pensa que existe


Pergunta – O senhor pode falar mais um pouco sobre forma e vazio?

Monge Genshô – Forma é vazio e vazio é forma. Todas as coisas são vazias de um “eu”, não no sentido de não terem nada dentro, mas sim que não possuem um “eu” inerente. Todos somos vazios de um ”eu” inerente, mas nos manifestamos como pessoas. Toda a forma é vazia, mas se tirarmos a forma não sobra nenhum vazio, não existe algo que resta, pois a forma é vazio e vazio é forma.

Pergunta – Sobre o momento de estar presente. O pensamento sempre vem e nos leva junto. Depois de algum tempo é possível ficar presente sem ser levado pelos pensamentos? É possível segurar os pensamentos e não deixar que eles nos arrastem?

Monge Genshô – Porque você acha que é diferente de seu pensamento? Você e seu pensamento são uma única manifestação. Você só pensa que é você porque pensa. Você pensa por isso pensa que existe, Descartes estava enganado.

Pergunta – Então um peixe não sabe que existe?

Monge Genshô – Exatamente por isso, porque não sabe, é que ele está presente. Aquele que pensa que sabe não está presente, pois está pensando. “Os peixes são verdadeiramente peixes, pássaros são verdadeiramente pássaros, somente os homens não são verdadeiramente homens”.

Pergunta – É verdadeiro dizer que o Zen tem uma espécie de aversão à razão?

Monge Genshô – Pode, mas não significa que você esteja certo.

Pergunta – Uma vez que já somos e apenas não percebemos que somos, o despertar não é algo que tenha que ser atingido, mas sim realizado. Se já somos e já estamos onde deveríamos estar, não há nada a ser feito que demande tempo, pois o tempo e o espaço também são uma ilusão. Certo?

Monge Genshô – Já estamos, de certa maneira, despertos. Todos temos a condição de despertar. Podemos dizer que todos somos Budas e, apenas ainda não o somos completamente, porque ainda estamos vivendo num mundo de sonhos, um sonho muito nítido que nos ilude. A vida é um sonho nítido.

Pergunta – Se um peixe não sabe que existe e por isso é um desperto, ele se compara a um Buda? Existe uma semelhança?

Monge Genshô – Embora o peixe não esteja perdido, tem a obscuridade de um animal, lhe faltam sabedoria e clareza. O homem ganha o pensamento e o raciocínio e neles se perde. Perde a vida, o momento presente e tem medo da morte. Por isso não é um iluminado, mas quando um homem desperta, sua clareza ilumina o universo inteiro. Todo o universo que ele olha se ilumina junto.

Pergunta – Quando um animal se vê ameaçado, rapidamente foge. De certa maneira tem um medo instintivo que o alerta. Também possuímos esse medo, com a diferença que vivemos agarrados a ele. Um animal através desse sentimento, pode também ter um sentimento egóico, ou temos o mesmo sentimento deles, pois também possuímos um mundo animal dentro de nós?

Monge Genshô – Nós somos animais também, apenas gostamos de pensar que somos especiais. Não somos nada além de um primata que evoluiu um pouco mais e tem um cérebro melhor. Mas também porque pensamos, temos uma angústia existencial, pois descobrimos que vamos morrer. Essa é a essência da angústia humana. Foi esse questionamento que levou Buda a abandonar o palácio onde vivia e se perguntar - “Por que existe velhice, doença e morte”? Qual é o sentido da vida? Somos diferentes dos animais porque temos essa percepção do futuro que nos aguarda - velhice, doença e morte - e exatamente por isso sofremos. Por isso os homens criaram as religiões, pois querem escapar desta angústia, por isso procuram crenças. O Zen é a oportunidade de destruir as crenças, não existe no Zen qualquer tipo de dogma, é como disse Buda: “Não acreditem em mim, testem”.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Faça a oportunidade


Pergunta – O senhor falou sobre a construção do carma, mas o meio em que vivemos, direta ou indiretamente também não é responsável pela construção deste carma?

Monge Genshô – Não. Você já está neste meio em razão de seu carma. Já fez parte de seu caminho. O meio nos ajuda ou atrapalha, porém, você tem uma grande capacidade de escolha. Por exemplo, hoje, em vez de estar aqui você poderia estar num boteco bebendo. Você é livre e escolhe seus companheiros. Nós escolhemos o nosso mundo. Não podemos dizer que vivemos e agimos de determinada maneira porque nascemos em determinado país.

Pergunta – Eu falo até em razão disso mesmo que o senhor disse, a oportunidade que temos, nessa cidade, nesse bairro e com estas pessoas. Isso é muito raro. Eu moro em uma cidade distante de Florianópolis e as pessoas de lá não têm essa oportunidade.

Monge Genshô – Mas você pode montar um grupo de estudos em sua cidade e propiciar a prática para as pessoas de lá. Vocês podem sentar para meditar e ler textos. Temos grupos assim em várias cidades e estados do país. Em Joinville me mandaram uma foto com o texto: “Sentamos em Zazenkai”. E havia três pessoas. Isso é o Dharma funcionando. Isso é um gesto admirável, entendo bem como é isso, pois em Porto Alegre muitas vezes me sentei sozinho. As pessoas não desejam ir para onde as ilusões lhes são tiradas e sim onde exista uma grande oferta de compensação. Se oferecer milagres então, é certeza de casa cheia. Como o Zen não faz esse tipo de oferta, sempre há poucas pessoas. Nós precisamos de pessoas que facilitem o ensino do Dharma. Não é necessário muita coisa, apenas um espaço com almofadas e muita disposição para sentar, inclusive sozinho. Conta-se que Bodidharma ficou tanto tempo sentado sozinho em uma caverna que a parede da caverna ficou com a marca de sua sombra.