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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A Linhagem Budista





Aluno: Alguns mestres fizeram a transmissão do Dharma para mais de um discípulo. Há tais registros?

Monge Genshô: A transmissão da sua linhagem é uma genealogia. Por exemplo, normalmente nós recitamos a linhagem até Keizan, porque a partir de Keizan há uma grande subdivisão, visto que Keizan deu a transmissão para muitos alunos, e as linhagens se dividem. Praticamente todos os Soto Zen descendem de Keizan, mas como as linhagens vão se dividindo como uma genealogia, há grande diversidade de linhagens hoje. Há cerca de 50 linhagens significativas no Soto Zene muitas outras sublinhagens.

Saikawa Roshi "deu" a transmissão a seis alunos, e se eu "der" a transmissão para alguém já se forma uma linhagem diferente da de algum outro aluno dele.

Alguns mestres tiveram muitos alunos realizados, e outros mestres tiveram poucos. Muitas linhagens morreram, porque não houve alunos que continuaram. Dos cinco grandes sucessores de  Hui Neng só dois deixaram linhagens sobreviventes: Caodong, da Soto Zen, e Lin Chi,  de onde se origina a escola Rinzai.

Os outros três grandes mestres de quem nós temos registros escritos, ensinamentos maravilhosos, não conseguiram uma linhagem sobrevivente, e em algum momento a linhagem morreu.

Na verdade, a linhagem de sucessão de Prajnapati, que era tia de Buda e que foi dando a transmissão para mulheres numa ordem, a ordem feminina, desapareceu no século XIII, ou seja, 1900 anos depois de Buda, e hoje as mulheres tomam as ordenações monásticas em linhagens masculinas.

Atrás de mim não tem, até Buda, uma única mulher, porque as linhagens femininas iam sempre tendo ordenações femininas até o século XIII. Isso pode perfeitamente acontecer.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O zen ocidental



Ainda hoje no extremo oriente existe uma distinção entre Monges e leigos. Na China, o Chan não é como o Zen que conhecemos, eles têm, por exemplo, práticas devocionais para os leigos que recitam orações para Buda e o zazen é somente para os monges. No Japão surgiu uma prática leiga e até existiram professores respeitados do Zen que eram leigos. A grande mudança aconteceu no ocidente e Shunryu Suzuki disse que no ocidente os Monges são um pouco leigos e os leigos são um pouco Monges, como é o meu caso,  Monge Zen e tenho uma profissão fora da Sangha.

No Japão, normalmente, os leigos não fazem sesshin. Aqui no ocidente os leigos recebem orientação teórica sobre a doutrina Budista em um nível que mesmo os Monges no oriente não recebem. Os que estudam o Zen são os que vão para a universidade. Aqui os leigos escutam o que os Mestres diziam para os Monges, porque antigamente os leigos eram poupados dos terríveis ensinamentos do Zen que sacodem e derrubam as estruturas nas quais as pessoas se agarram. Essa é a característica que está tomando o Zen ocidental. Nós que vivemos dessa forma não percebemos o quão excepcional é esse Zen. Por esse motivo eu vejo todos como praticantes admiráveis, mas os patriarcas dedicavam sua vida ao Dharma de forma integral.

O ensinamento era passado de um a um, essa era a transmissão e a forma de dizer que o aluno tinha a mente do Mestre. Com o ato de entregar o manto e a tigela, o Mestre reconhecia a compreensão do aluno como igual à sua. “Hui Neng”, que foi um grande Mestre chinês, deu a transmissão para cinco discípulos e somos descendentes de um desses alunos, “Seigen Gyoshi”. Quando andamos para trás nos apoiamos em nomes de grandes Mestres fundadores que dedicaram sua vida inteira ao ensino do Dharma e conseguiram passar a transmissão para algum aluno. Quando um Mestre não consegue passar a transmissão, sua linhagem morre.

Dos alunos de “Hui Neng” somente duas linhagens sobreviveram. Isso mostra como de certa maneira o Dharma é frágil. Um exemplo bem claro disso é a linhagem feminina que foi totalmente extinta, obrigando as mulheres Monjas de hoje a tomarem refúgio em linhagens masculinas. Não existe uma linhagem feminina que se possa recuar até Prajna Pati, a primeira Monja histórica, que era tia de Buda. Se eu não conseguir dar a transmissão para nenhum aluno, minha linhagem morrerá.

Quando recitamos os nomes de Shakyamuni até Saikawa Roshi, estamos dizendo que reverenciamos esse difícil trabalho de transmitir o Dharma. O Budismo poderá desaparecer quando não houver transmissão, a transmissão for falsa ou baseada na forma e em rituais. Um antigo Sutra fala disso, dos três estágios do Dharma. No primeiro a iluminação, a forma e o ensinamento estão presentes. No segundo, com o passar dos séculos o ensinamento, a forma e os rituais estão presentes, mas a iluminação não, a experiência mística desapareceu. No terceiro estágio ainda existem os Monges e a instituição, que ainda sabem os rituais, mas o ensinamento e a iluminação estão perdidos e nessa fase de decadência chamada “Mappô”, o Dharma morre.

Dizemos no Zen que isso é didático e que a iluminação é possível agora, pois temos todos os elementos e o Dharma está vivo. O único sentido de praticarmos é o de procurarmos esse despertar dos sonhos. Se despertarmos dos sonhos das ilusões, todas as raízes do sofrimento são cortadas. Se virmos os aspectos ilusórios da vida, a raiz do medo de morrer desparece, pois eu vejo que o meu “eu” é uma construção ilusória. Essa é a essência do Dharma.

terça-feira, 26 de março de 2013

A não mente



(texto)”Qual pode ser, pois, essa mente comum em que se abrem as flores da primavera? Estes dados característicos das quatro estações são apresentados por Wu Neng como a paisagem interior da mente comum. O mesmo que o tremular da flâmula era para Hui Neng o tremular da mente. Está claro em primeira instância que a mente de que aqui se trata é de um ser humano num estado de iluminação, a mente iluminada. A mente comum de Nang Huang não é, nesse sentido, uma mente realmente comum, ao contrário, longe de constituir a consciência empírica da substância ego normalmente designada com essa palavra, o que se entende por mente é A Mente, chamada tecnicamente não-mente, que se realiza em um estado espiritual anterior a distinção sujeito-objeto ou que transcende a essa distinção.”

(comentário, M. Genshô) Não mente é aquela que não conspurca os objetos e seres todos no universo com suas opiniões. A não mente aceita sem nenhuma interpretação. Completa equanimidade.

Aluno – Uma mente anterior ao pensamento?

Monge Genshô – Não é isso que ocorre, uma mente anterior ao pensamento. Normalmente o que ocorre é no sentido exatamente oposto. Primeiro você pensa, depois compreende que o pensamento objetivo que atribui às coisas qualidades, está errado. E depois todos os objetos deixam de ter as qualidades que seu pensamento atribuía, depois que você faz tudo isso é que você pode chegar a uma não-mente, que passou por esse processo. Porque a mente que não pensa inicialmente, não passou por esse processo, ela não se ilumina pois é obscura. Igual aquela história de que falamos antes. Quando eu conheci o zen as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Aí eu comecei a praticar e as montanhas não eram montanhas e os rios não eram rios. Porque antes eram montanhas e rios a que eu dava minhas interpretações. Quando abandonei tudo isso então voltei a ver que as montanhas são só montanhas e os rios são só rios. Mas eram montanhas que eram montanhas por si mesmas, independente de minha interpretação. Eu estava vendo a verdadeira montanha e não a que minha mente pensante via. Como exemplo que dei do inimigo que vem na rua, a pessoa de quem não gostamos. Dou à ele uma porção de atributos da minha mente, não gosto dele e por isso ele é, então, uma montanha agora. Preciso desconstruí-lo e ver que ele não é uma montanha, não, nem um ser separado. Depois que eu vir que ele não é um ser separado, então eu posso de novo voltar a ver um ser que está ali e que é uma manifestação, mas aí à ele não atribuo nada. Ele é por si mesmo e assim sendo por si mesmo é eu mesmo e portanto dedico à ele completo amor, compaixão etc.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A mente que se agita



(texto) “O celebre koan da flâmula batida pelo vento de Hui Neng, é uma clara ilustração do tema. Um dia, quando escutava uma leitura sobre o budismo em outros tempos, se levantou subitamente um vento que começou a tremular a flâmula da porta do templo, então teve lugar um incidente relatado no koan. Quando estava ali o sexto patriarca. “

(comentário) O sexto patriarca chinês, o sexto patriarca depois de Bodhidharma, nós o recitamos pela manhã, na linhagem, o nome de Hui Neng.

(texto)“O vento começou a tremular a flâmula, dois monges começaram a discutir sobre aquele fato. Um apontou e disse – Olhe, a flâmula se agita! – respondeu o outro – Não, é o vento que agita! - discutiram interminavelmente sem poder alcançar a verdade. Bruscamente Huing Neng pôs fim a estéril discussão – Não é o vento que se agita, tão pouco a flâmula, honoráveis irmãos, são vossas mentes que se agitam! – e os monges calaram-se. A meu ver, aqui temos o caso mais claro de interiorização do exterior. O vento sopra na mente, a flâmula tremula na mente, tudo sucede na mente, nada fica no exterior da mente. A flâmula batendo ao vento, deixa de constituir um acontecimento que sucede no mundo exterior, o acontecimento inteiro e, implicitamente, o universo inteiro, se interioriza e se representa como constitutivo do espaço interior.

Tao Shu perguntou ao seu Mestre Nan Chuan quando ainda era um noviço – Qual é o caminho? – ou - Qual é a realidade absoluta? – o mestre respondeu – A mente comum, este é o caminho. – desta celebre formula o Mestre Wu Neng deu uma interpretação poética em seu comentário ao koan – As flores perfumadas na primavera, a lua prateada no outono, a brisa fresca no verão, a branca neve no inverno, se a mente não se turva perante perguntas banais, cada dia será um instante feliz na vida dos homens.”

(comentário) Nós podemos, agora, pensar sobre o que tem acontecido nesses zazen que vocês tem feito aqui. Zazen de uma hora e meia, duros, cansativos, doloridos. Eles são propositais, fazem parte do treinamento de sesshin. Não é para ser fácil, é para ser duro, porque se for agradável e fácil, mais espaço ainda tem a mente. Por que nós usamos costumeiramente essas palavras, “vamos nos divertir”, “vamos nos distrair", não é? Divertir significa diversificar, fazer coisa diferente do que você esta acostumado a fazer. Estou acostumado a trabalhar no escritório, então vou me divertir fazendo jardinagem, isso chama-se divertir. E vamos nos distrair é exatamente o contrário de vamos nos concentrar. Vamos nos distrair e deixar nossa mente voar. É necessário alguma coisa para ocupar nossa mente senão ficamos entediados, chateados, não sabemos mais o que fazer. O sesshin é o contrário disso tudo. Tudo é propositalmente feito de forma a ser entediante. Andar em kihin é meio passo cada vez, para, respira. Se o ritmo da respiração estiver correto, serão quatro a seis passos, de 20 cm por minuto. A meditação é imóvel, corpo parado, a instrução é “tente não se mover” para que a mente não se distraia com nada, para que o corpo não informe nada à mente. Um cheiro uniforme de incenso na sala, nada de música, nem instrumentos musicais, nem revistas, nem livros. Essa distração nos é roubada no sesshin, quando sentamos para comer as refeições são iguais, vocês ainda não sentiram isso exatamente, mas imaginem repetir as refeições com o mesmo ritual do oryoki, exatamente o mesmo, semanas. A comida tem menos sabor, são só três pratos e muitas vezes está fria. Se a gente não pensa, não interrompe, colocam comida demais para nós e nos arrependemos de ter tanta comida, porque nada se pode deixar. Não há líquidos durante a refeição. Não esqueçam de beber água ou chá durante os intervalos para evitar desidratação. A ausência de líquidos tem o objetivo de manter a atenção no mastigar, depois de lavar as tigelas você pode beber a água. E essa água tem o sabor “do alimento dos deuses”. Por que? Por que nossa mente pode fazer com que tenha. Se dissermos – Essa água com que lavamos nossas tigelas tem o sabor do néctar celestial! – então, tem. Por isso tem uma lição inclusa, que está contida nisso que estamos falando, que é que nossa mente tem a capacidade de transformar todo o mundo, basta que nós queiramos fazer essa transformação.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Basta ouvir ensinamentos?



Aluno – No vocabulário Zen, existe a palavra samadhi, que significa concentração. Existe algum foco especial no budismo a respeito da meditação/concentração, ou é apenas uma coincidência?

Monge Genshô – Não, não é coincidência. O Zen budismo se vê como budismo contemplativo, ele enfatiza, e a diferença entre os budismos, é essa, a ênfase. A escola Theravada enfatiza o estudo dos sutras. O budismo Zen enfatiza a prática da meditação, sempre digo que essa prática no Zen deve ser feita em quantidades industriais, mas a mesma coisa acontece na prática do Theravada, pois existe grande similaridade nessa ênfase. 

Embora se diga frequentemente no zen, que as escrituras e os textos são o dedo que aponta para a lua, mas que não são a lua, são mapas para que se possa seguir um caminho. Não são o caminho. São indicações, você tem que trilhar o caminho por seus próprios pés para chegar lá. Não basta ler ou ouvir ensinamentos. Costuma-se dizer no Zen que enquanto nele se falar, ele não estará presente. Quando estávamos calados experimentando a prática da meditação, o Zen estava presente. Agora é só conversa a respeito. 

A palavra chan vem do sânscrito dhyanna que significa meditação, então, o budismo Zen significa o budismo que enfatiza a prática da meditação. Na verdade, no Zen, embora diga-se frequentemente, como acabei de dizer, que os ensinamentos são apenas o mapa, dificilmente você encontrará tantos textos quanto existem sobre o Zen, e os professores estão sempre escrevendo. Aqui, por exemplo, tem um gravador para documentar a palestra. Por quê? Porque acabarão virando texto. Na realidade, existe estudo no Zen e Dogen ZenJi diz que o estudo dos sutras é a base do caminho. Não se chega à outra margem sem saber, e mesmo que Hui Neng seja declarado um patriarca analfabeto, leia seu o texto e você verá quantas citações nele há; ele parece um erudito. Mesmo que ele guardasse de memória por não saber ler, ele ouvia, guardava, sabia citar e raciocinar. Sem esse instrumento não vamos longe. 

A ênfase do Zen é mais do tipo, “não me diga as palavras de Buda, me diga as suas”. É a verdade que você está praticando, e essa é a verdade do Zen, e não as indicações ou os textos. Como você está vivendo, como está sua mente agora, essa é a verdade. Mas existem três portas de acesso: emoção, estudo e ação. São três portas de acesso para o caminho. As pessoas são diferentes, existem pessoas que naturalmente estão preparadas para o caminho intelectual, outras para o caminho da emoção e outras para o caminho da ação. Cada uma deve praticar com a escola mais adequada para o seu coração, para o seu sentimento, devendo praticar naquele lugar com o qual ela sinta que tem conexão. Por isso, é tão importante escolher o seu mestre e sua escola. Nesse sentido, recomendo a vocês o texto de um famoso escritor, o professor Ricardo Sasaki, intitulado A que Escola pertenço. (um toque de humor, o Prof. Sasaki era o anfitrião nesta palestra ministrada em sua Sangha Theravada em BH)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ação e quietude



Aluno – Eu queria entender a diferença entre esse estado de iluminação e o estado de adormecimento. Porque esse estado de iluminação, teoricamente, seria um estágio onde nada ocorre, onde a mente está obliterada, mas...

Monge Genshô – Eu acredito que essa visão não seja bem correta. Não se trata de uma obliteração da mente, em absoluto. Trata-se de um estado em que você tem clareza, ou seja, você pensa, raciocina e age, mas com clareza. Você vê claramente o resultado de suas ações, porque deve agir de determinada forma e toma decisões com clareza. A diferença da mente iluminada para a mente deludida é a clareza. Quando alguém está iluminado, sabe o que deve fazer, quando, como e de que maneira, sempre, límpidamente. Mas não significa que não aja no mundo, que não fale, que não lhe ocorram pensamentos; o que acontece é que estes não o levam de um lado para outro. Não é que não lhe surgem pensamentos, é que nenhum pensamento o arrasta. Se nós nos sentarmos e ficarmos com a mente completamente vazia, sem nenhum pensamento, Hui Neng, famoso mestre Zen do século sete depois de Cristo, chamaria isso de quietismo, e ficaria furioso. Vou lhes contar uma pequena historia Zen. Um monge chegou num mosteiro de um grande mestre Zen e pediu, “O senhor pode me ensinar, pode me aceitar?” “Pode ser - disse o mestre. “O que você já fez?” “Já treinei muito meditação, vou lhe mostrar”. Sentou-se rapidamente em posição de lótus com as pernas cruzadas e entrou, em segundos, em profundo samadhi. O mestre pegou um bastão e começou a surrá-lo expulsando-o do mosteiro e dizendo:”Budas de pedra já tenho muitos, nesse mosteiro”. Portanto, não é isso que é desejável, a libertação não é apagar-se, não é morrer, é outra coisa completamente diversa disso. A libertação tem dentro de si a ação, mas ação iluminada.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Todatsu Shinbun - numero 4



Abaixo o início do texto de Lucas Seigaku a ser publicado no jornal da Sangha, você poderá acessa-lo no link ao final, assim como os numeros anteriores:



"T ê n u e Tr a n s m i s s ã o



Por: Lucas Seigaku
Imagine a seguinte chamada de um jornaleco sensacionalista: “Lavador de arroz analfabeto recebe Transmissão; funcionários e monges furiosos com comportamento do abade”. Em poucas palavras, treze séculos atrás esta foi a história de Dajian Huineng (Daikan Enō), o sexto ancestral do chan (zen) na China. Sua conclusão – incluso o belo poemeto-réplica de Enō - deixo como tarefa de casa. Adianto apenas que,para fugir dos monges enfurecidos, ele escondeu-se na casa de um caçador durante uns bons anos, depois de ter recebido, no meio da noite densa, o manto e a tigela do velho abade, Daman Hongren (Daiman Kōnin), juntamente com um conselho: "Desde tempos antigos atransmissão do Dharma é tênue como um barbante frouxo. Vá embora, rápido."
Enō viveu perto dos 80 anos, aprendeu a ler e a escrever e tornou-se um poeta e calígrafo renomadíssimo, além de um mestre zen prolífico.Algumas de suas obras sobrevivem quase intactas até os dias de hoje, e ele próprio é relembrado por nós, mesmo que brevemente, na nossarecitação das dezenas e dezenas de nomes da “Linhagem”. Sua história, com um gostinho de conto de fadas misturado com piada, é somente uma dentre várias: histórias que misturam angústia com despertar, sofrimentos e grandes alegrias, histórias de pessoas muito próximas de nós mesmos."

Íntegra aqui:

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Como se estivessem brincando


"Somente aqueles que não possuem um único sistema de Dharma podem formular todos os sistemas de Dharma, e aqueles que podem entender o significado (deste paradoxo), podem se valer de tais sistemas. É indiferente para os que perceberam a Essência da Mente formularem todos os sistemas de Dharma ou dispensarem todos eles. Eles estão em liberdade para ‘vir’ ou para ‘ir’. Eles estão livres de obstáculos ou impedimentos. Eles executam ações apropriadas de acordo com as circunstâncias. Eles dão respostas satisfatórias de acordo com o temperamento do buscador. Eles percebem contemplativamente que todos os Nirmanakayas são unos com a Essência da Mente. Eles atingem a liberação, os poderes psíquicos (Siddhis) e o Samadhi, que os permitem executar a árdua tarefa da salvação universal tão facilmente como se estivessem apenas brincando. Eis como são os homens que perceberam a Essência da Mente!”
Hui Neng - Sutra da Plataforma

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Os erros alheios


Hui-Neng

"Ilustres ouvintes, quem busca a imperturbabilidade deve sempre ignorar erros alheios, indiferente a mérito ou demérito, bondade ou maldade de outrem.
Tal atitude está de acordo com a imperturbabilidade da essência da mente. Uma pessoa não iluminada pode ficar físicamente imperturbada, mas assim que abre a boca critica méritos, deméritos, habilidade, fraqueza, bondade e maldade alheios, saindo do caminho reto. Por outro lado, falar sobre nossa própria mente ou sobre pureza também é um empecilho no caminho. O que é sentar em meditação? Na nossa escola, sentar significa obter liberdade absoluta e estar mentalmente imperturbado em qualquer circunstância externalizada, seja ela boa ou não. Meditar é realizar internamente a imperturbabilidade da essência da mente."

O sexto patriarca zen viveu na China de 638 a 713, durante a dinastia Tang

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Judas e Devadatta




Os líderes espirituais partilham um acontecimento de oposição que parece ser um arquétipo humano. Nas figuras acima, em cores, Devadatta, primo de Buddha, seu discípulo e admirador e que, tomado de inveja pela proeminência, que mesmo sem desejar, por simplesmente trabalhar, o Mestre acumula, tenta fundar sua própria Sangha em oposição a Buddha. Por todos os meios de conversas, acusações falsas e intrigas, consegue levar um grupo de monges que nele acreditam. Ao fim, tenta matar o mestre, fracassa e é abandonado por todos, conta a lenda que a terra o engole, mas os sutras deixam-lhe a esperança de, após muito sofrimento, retornar após kalpas e vir a se tornar um verdadeiro líder espiritual, esgotado o carma de traição.
Na outra figura Judas, antes de seu suicídio, uma figura escura, arrasado por ter se lançado contra o mestre a quem havia amado a princípio. Diferentemente da abordagem budista o castigo de Judas é eterno e sem remissão.

Gandhi, Martin Luther King, Hui Neng, o 14' Dalai Lama, todos sofrem ou sofreram esse ódio mesclado de amor ressentido, que às vêzes resultou em assassinato. As características comuns deste arquétipo são:
1) No início uma idolatria, um culto apaixonado.
2) Após, o surgimento de uma inveja, um desejo de ser aquele ser por qualquer meio, ou substituí-lo ou destruí-lo.
3) Paulatinamente o uso de meios crescentes, imitação, depois intrigas ou tentativa de reunir aliados com sentimentos iguais.
4) Fracasso, seguido de recrudescimento do ódio até o assassinato ou arrependimento quando tudo dá errado e o carma produz desastres pessoais, auto destruição e integração à história como seres de opróbrio público.