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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SIGNOS, SÍMBOLOS, SONHOS E ARQUÉTIPOS



(Palestra de Monge Genshô decupada da gravação por Chudô San, ministrada na Sangha de Florianópolis em 2013)

Signos nós vemos a toda hora. Quando vemos na porta de um toalete uma figura de um homem ou uma mulher, isso é um signo e representa menos do que mostra. O que para nós importa são os símbolos. Quando vamos ao altar e vemos uma estátua de Buda, uma vela, um incenso ou uma flor, estes são símbolos e representam muito mais do que estão mostrando, ou seja, têm uma quantidade enorme de significados e muitos deles incompreensíveis para nossa mente racional. Eles falam ao nosso inconsciente. Uma antiga praticante me escreveu dizendo o quanto se sentia desconfortável com as exteriorizações da prática. É comum escutarmos pessoas dizendo que não gostam de rituais.

Eu mesmo já tive esse tipo de pensamento por um período bem longo até aprender que os símbolos não nos falam somente sobre o que eles representam. Uma estátua de Buda não é tão somente um pedaço de gesso ou madeira em forma de um homem sentado. Aquela figura ali representada significa que alguém conseguiu despertar e que você, assim como ele, pode despertar. Representa mais que um homem, representa todo o Dharma, todos os Budas, todos que se esforçaram e que através do caminho do meio também despertaram.

Uma vela é mais que algo feito de cera ou parafina usado para iluminar, ela representa luz e sabedoria. Significa ver com nitidez, ter clareza e representa os olhos de Buda. Quando você observa sua sombra, pode ter noção de quão intensa é a luz atrás de você pela nitidez de sua sombra.

As flores não servem apenas para enfeitar o altar, elas estão lá como símbolo da impermanência e da evanescência, de tudo que hoje é belo e amanhã evanesce, de que tudo o que é jovem, murcha, cai e finalmente morre. Os símbolos são muito mais do que aparentam. Nós devemos fazer reverências mesmo para símbolos de outras escolas ou tradições religiosas. Eu falei que símbolos falam ao nosso inconsciente, e a linguagem de nosso inconsciente é simbólica, por isso sonhamos muitas vezes com símbolos.

As mesmas pessoas que dizem não gostar de rituais, se sentem ofendidas quando não lhes damos bom dia ou não apertamos sua mão quando estendida em cumprimento. Essas pessoas não entendem o significado do gesto. Não entendem que estender a mão em cumprimento significa não estar armado sendo, portanto, um gesto de paz, um símbolo que carrega dentro dele uma carga de comunicação que é arquetípica e não necessita de explicações, mas mesmo que haja qualquer tipo de explicação, esta também não corresponderá ao que verdadeiramente o símbolo representa, isso precisa ser sentido.

Os homens herdam de seus antepassados, múltiplos órgãos. Nós achamos perfeitamente natural que nossos corpos ajam de determinada maneira e nunca questionamos sua herança genética, a herança de milhões de anos que vem junto com nossos órgãos. Porque pensamos que nossas mentes são novas e não trazem traços de antepassados? Nossas mentes não são novas e por isso as pessoas têm sonhos parecidos. Quantos de vocês já sonharam que estão voando, ou então que estão nus numa reunião social, onde ninguém além de você parece notar? São sonhos comuns a muitas pessoas, não importa a cultura que ela viva. Isso significa que carregamos dentro de nós, em nossas consciências, uma herança do passado, elas também não são novas, assim como nossos corpos.

O DNA de nossas células é muito antigo. Há alguns anos eu estava fazendo um zazen de vinte e quatro horas, que funciona da seguinte maneira; você fica sentado até não aguentar mais, levanta faz um pouco de kinhin e volta a sentar. À noite o cansaço é tanto que quinze minutos sentado é o suficiente para adormecer e em razão disso você tem que levantar. O cansaço é de tal forma grande que num piscar de olhos você está sonhando. Isso é muito interessante, pois na prática da meditação descobrimos que é possível acessar o inconsciente. Podemos acessá-lo de maneira tão significativa que até podemos fazer perguntas. Nesse zazen de vinte e quatro horas, no exato momento em que adormeci, perguntei: “Quem sou eu”? Imediatamente apareceu a imagem de um casaco que escorregava lentamente pelos galhos de uma árvore. Ele parecia ter alguém dentro dele, porém nada aparecia nas mangas ou gola. Estava vazio. Eu abri os olhos e entendi perfeitamente o sonho e se vocês pensarem a respeito, poderão entender também, pois a resposta serve para todos.