terça-feira, 30 de setembro de 2014

Além dos apegos está a liberdade


1) O senhor falou em células, a diferença entre uma célula e outra se dá somente no nível energético?

Saikawa Roshi – Mesmo as pedras têm diferença de energia. Tudo é diferente, nada existe da mesma forma.

2) Até onde vai nosso esforço, não só na busca da iluminação, mas mesmo para se manter sentado, onde é o limite?

Roshi – Sim, limites existem. Nós estamos navegando em causa e efeito como a correnteza de um rio, em momentos ele é rápido em outros é lento. Um rio forte pode destruir muitas coisas pela frente. Naturalmente se existem diferentes níveis de energia, existem diferentes níveis de limites, é da natureza da vida.

3) O conhecimento tem vários estágios. Primeiro não sabemos que não sabemos. Depois, sabemos que não sabemos. Quando a gente sabe muito, até esquece, pois faz tudo automaticamente. De onde vêm esses insights súbitos que temos? Por exemplo, saber ou conhecer algo que nunca havíamos visto antes?

Roshi – Isso também vem da correnteza de causa e efeito. Quando se reunirem as condições para o insight, ele acontecerá.

4) Voltando ao exemplo do café. O café que trouxe sensações boas por estar relacionado com coisas boas, ou o contrário? Como isso repercute no futuro? Por exemplo, em vinte anos se eu sentir o cheiro do café isso me trará boas ou más recordações? Como lidar com situações tão distintas para evitar o sofrimento?

Roshi – Isso é sobre o sofrimento ou sobre o café? Você sabe a resposta não é? Apenas observe, sem comparações, sem considerações, sem julgamentos. Memórias trazem muitos apegos, muitas energias associadas às coisas trazidas pela memória. Se você livrar-se dos apegos obtém a liberdade.

** Comentário do tradutor, Monge Genshô – existe uma historinha Zen, uma anedota, o aluno pergunta para o mestre: “Mestre, como posso ser livre?”, e o mestre responde: “Quem te prendeu”?

Sob ponto de vista relativo, minha opinião, minhas idéias e meu corpo existem. O senso de eu, meu e minha do ponto de vista de Buda são projeções do eu, é o eu quem agrega essas coisas. Todas essas coisas são criadas condicionalmente. Meu carro, minha casa, minha esposa, minhas filhas, todas essas coisas existem cem por cento no mundo relativo. Mas nada disso você pode segurar porque do outro lado é como se fosse um espelho, as coisas aparecem e somem e o espelho não diz nada, nada julga. Nós usamos simbolicamente a palavra espelho, mas o espelho também não existe independentemente, também é uma construção, tudo isso realmente existe, mas se você cortar a raiz do conceito, tudo bem. Qual a raiz dos problemas, das coisas ou sentimentos? Se você encontra a raiz e corta, passa a não mais se importar se perder as coisas, perder um amor, ou até mesmo um sentimento de sofrimento não o agride mais. A raiz é o apego, o meu, o minha.