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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
É isso
Hoje estávamos comentando de um amigo nosso que é abade budista e estava falando para a Monja Sodô que ele me deu uma estátua preciosa japonesa, entalhada em madeira, de Idaten. Ficou quinze anos no templo dele, na cozinha. "Ah, você não tem uma?" Foi lá e pegou a estátua e me deu de presente. Fiquei pensando, o que posso fazer para retribuir um presente assim precioso? Aí ela disse assim "ele me deu esse quimono, esse koromo, deu essas roupas. Viu que não tinha e me deu roupas novas". Está dentro dele essa generosidade. Está a todo tempo fazendo isso. Há quarenta anos ele trabalha construindo um monastério, um lugar maravilhoso. Agora, para sabermos como ele construiu, ele passou muito tempo mendigando dinheiro nas ruas do Japão, pedindo dinheiro como mendigo. Juntava esse dinheiro e trazia para o Brasil para construir. Porque lá um monge mendigando recebe mais dinheiro do que aqui. Mendigar na rua quando está frio e tudo mais é um esforço enorme. Ele fez isso. Então as pessoas verdadeiramente ricas não são aquelas que a gente pensa que são. São outras pessoas.
Muitas pessoas com que trabalho - trabalho como consultor - e que têm bens materiais, são profundamente infelizes. E outras pessoas que conheço que não tem, são profundamente realizadas e felizes por outros motivos, pois fazem o que realmente pretenderam. Meu mestre Saikawa Roshi saiu do Japão com vinte anos e foi para Tailândia e Sri Lanka e passou dois anos. A comida que ele comia era o que ele mendigava na rua. É a pessoa que mais admiro. Tem um livro dele com uma pequena autobiografia, um livro infantil que ele escreveu. Ele além de para adultos escreve livros infantis. Isso significa outro tipo de mente.
Esses tempos estava em São Paulo e tinha um amigo de que falei que meu mestre era como um "cardeal", Superior Geral do zen para a América do Sul, Saikawa Roshi. E ele (amigo), que só pensa em dinheiro, disse que queria conhecer. Chegamos no templo e ele esperando para encontrar o "cardeal". Perto de uma mesa, um senhor vestido com um samuêzinho marrom, curvado em uma cadeira, com os dois pés dentro de uma bacia com água quente pois estava resfriado. Um monge, pequeninho, curvado. Aí ele perguntou "é esse aí?" espantado com a falta de “grandeza” de roupas douradas e porte imponente. Saímos para jantar e disse que se quisesse fazer uma pergunta para ele, podia fazer. Aí ele fez a pergunta: "E Deus?”. E Saikawa Roshi respondeu: "Ah, esse é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem. Se você não acredita está bem também", e voltou a comer. É isso. O Zen é assim. (Fim da palestra, gravada e decupada pela Sangha de Brasília e Goiânia)
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Dilemas morais
Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?
Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz há que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério.
Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente salvam-se primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida, homens sempre foram vistos como mais descartáveis pois bastava um para garantir a sobrevivência da tribo, até hoje quando morrem homens são contados como números enquanto a expressão “mulheres e crianças” parece se referir a inocentes, como se eventualmente os homens não o fossem e suas mortes em guerras também não devessem causar horror. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo é isto que está por trás destas tradições. Não há resposta fáceis e um budista tem que saber que tem que decidir e arrostar o carma correspondente sem regras “fechadas”.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Uma transmissão além das escrituras
Pergunta – O Zen é meditação, certo? Ele é um corte, axiológico do próprio budismo. Então porque o Zen ainda é indexado ao budismo, se ele manteve a linha própria dele? Porque ele tem fundamentações para andar sozinho. O senhor mesmo colocou que os papéis são simplesmente coisas explícitas, escritas, e o tácito, o não escrito, é a base do Zen, então porque o Zen Budismo, não é somente o Zen?
Monge Genshô - Porque o Zen, do ponto de vista do Zen, é budismo. Dogen, fundador da nossa escola no Japão disse: isso é budismo, esses são os ensinamentos de Buda.
O budismo diz que o Zen consiste na transmissão de Buda para Mahakashyapa, porque ele levantou uma flor, numa assembléia sem dizer uma palavra e Mahakashyapa sorriu, e então ele disse: “Mahakashyaka foi o único que entendeu” o verdadeiro ensinamento, a verdadeira transmissão, é uma transmissão além das escrituras.
O Zen tem muitos textos? Tem. Os professores estão sempre falando? Sim, sempre falando, e dando palestras. Eu perguntei para meu mestre, “por que falamos tanto”? E ele disse: “porque isso é tudo que nós temos”. Não temos outra maneira de transmitir, além da palavra, dos livros, mas seu último estágio tem que ser além das palavras. Então o Zen quer dizer: “nós somos o ensinamento, aquele de Buda para Mahakashyapa”.
Surgiram muitas escolas, dos mais variados tipos, elas têm sentido? Tem, porque as pessoas são diferentes. Há pessoas devocionais, há pessoas estudiosas, há pessoas que querem se remeter ao significado das palavras originais, todas essas escolas têm suas virtudes. O Zen também tem suas virtudes ao querer voltar à prática original de Buda - Buda sentou em zazen, então nós vamos sentar em zazen. Se Buda sentou nessa postura, então vamos sentar nessa postura, porque nós vamos imitar Buda. Essa é a essência do Zen. Mas ela serve para todo mundo? Não, não serve para todo mundo. As escolas budistas são necessárias porque as pessoas são diferentes. As outras religiões também são necessárias, porque as pessoas são diferentes. Existem pessoas que precisam trilhar aquele outro caminho, e por isso essa diversidade não é pobreza, é riqueza.
Por que o Zen precisaria seguir o seu caminho? Afinal de contas cada mestre segue o seu, os alunos seguem o mestre que querem! Então existem múltiplos caminhos.
Pergunta – Ontem na palestra o senhor deu ensinamentos sobre carma, sobre as escolhas, e se o senhor respondeu com a questão da sabedoria. Eu entendo que quanto mais sabedoria você buscar, mais clareza e menos sofrimento. Mas, e o medo? Pois se estamos aqui, temos a preocupação de mudarmos a nós mesmos, e às vezes a pessoa pode ficar o perturbada em tentar fazer sempre o melhor, encontrar escolhas mais corretas, há esse medo do medo?
Monge Genshô - Não há que ser perfeito. Não tente. Seja o que você é, um homem comete erros, um homem se engana, na verdade, nós ao tentarmos seguir algum modelo ficaremos infelizes. Nós temos que fazer a nossa prática de sempre esquecer o passado. O erro do passado é sempre esquecido, agora vou fazer assim, melhor, porque produz menos sofrimento, mais felicidade para mim e para os outros seres.
Eu só estou andando, e a vida se mostra a cada passo. Não tente caminhar e ser perfeito. Não tente ser santo, tente ser só um Bodhisattva, um Bodhisattva tem outra visão do mundo. Nagarjuna foi assassinado, ele era um grande Mestre do século I ou II DC. Os seus discípulos o encontraram esfaqueado, e perguntaram a ele: “quem fez isso”? E ele disse: “eu mesmo”. E os alunos disseram que sabiam que não fora ele que se esfaqueou, que dissesse quem havia feito aquilo, e ele disse: “isso é resultado do meu carma passado, de alguma maneira no meu passado eu criei condições para que isso acontecesse. Então fui eu mesmo que fiz isso, agora, se eu disser que uma pessoa fez isso comigo aqui e agora, um assassino, vocês o odiarão e o perseguirão, e esse ciclo não terá fim”. E morreu sem revelar. Ninguém sabe quem matou Nagarjuna. Ninguém foi perseguido, não houve nenhuma vingança. Essa é a visão do Bodhisattva.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Viver no mundo sem ser do mundo
Pergunta – Como é que a gente faz para viver num mundo e conviver com pessoas com as quais sabemos que não nos identificamos mais? Sei que isso é o ego que julga e separa tudo. Mas eu olho para essas pessoas e para a vida do passado e sei que não pertenço mais a isso mas, ao mesmo tempo, não possuo um esclarecimento não intelectual. Como fazer para viver exatamente no meio, entre a vida que não reconhecemos mais como nossa e aquilo que imaginamos ser nosso objetivo, uma clareza de espírito?
Monge Genshô – As identidades que temos ao longo da vida são criadas pela mente. Nós sustentamos situações que vamos criando, vamos codificando e criando. Mesmo quando falamos sobre o Zen em nossa vida, também sustentamos identidades. Criamos nomes, forma, amigos, roupas e começamos a ter um modo de vida. O que temos que perceber é que todas as circunstâncias são criadas nas nossas mentes, mesmo a de ser monge. Roupas, formas, identidades, nome e até a convicção das pessoas que os cercam, todo esse conjunto de coisas sustenta algo que, como todas as outras coisas da vida, é ilusório.
Todas as nossas identidades e relacionamentos são construídos. O que temos que pensar é: “construímos o que queremos ou fazemos apenas algo que nos é condicionado”. Muitas pessoas vêm me falar que estão num relacionamento e numa vida que não desejam. No entanto, foram elas que construíram todas as circunstâncias que sustentam suas vidas. Quando você troca para outra circunstância, essa também é uma construção. Deveríamos olhar lucidamente para nossa liberdade, que é capaz de manifestar tudo. Temos uma mente liberta que é capaz de manifestar qualquer coisa.
É você quem escolhe a condição que deseja manifestar, por exemplo, uma pessoa que deseja ser monge, que faz seus votos e que agora recebe a oportunidade de treinar no Japão, foi ela quem procurou essa vida. Isso pode ser fantástico, maravilhoso, pois quando ela estiver morrendo poderá olhar para trás e dizer que construiu uma vida ideal. Qual a vida que nos permite olhar para trás e dizer que não importam as formas ou pessoas, eu construí e sustentei a vida que eu realmente desejei? Essa liberdade fundamental é que é o nosso grande ganho. Quando estamos presos à uma forma, identidade ou profissão, não temos essa liberdade. Somos como água e podemos manifestar qualquer forma, mas todas as manifestações de nossa vida são de certa forma legítimas, pois são possíveis, mesmo as piores.
terça-feira, 25 de março de 2014
As angústias fabricadas
As angústias do mundo são em sua maioria fabricadas. Você acredita em nome, forma, roupa, bens, você acredita em todas essas coisas e sofre por elas...
Comentário – O ser humano é feito disso, só num momento de libertação último é que consegue se livrar de todas essas coisas...
Monge Genshô - É disso que estamos falando, o monastério serve para a pessoa descobrir que a maior parte disso que dizemos, “eu preciso”, é fantasia. Porque, na realidade mesmo, não precisamos. Você precisa porque todos esperam que você tenha carro, casa própria, família, mas quando você está num mosteiro descobre que é possível dormir no mesmo lugar que você medita, é possível não ter quarto, é possível não ter privacidade, é possível não ter seu próprio banheiro.
Comentário – é assim, onde vou morar, vou morar na comunidade budista de Florianópolis, então largo tudo e peço ao monge para dormir no zendo e a comunidade é que me sustenta?
Monge Genshô - É que vocês estão pensando que esse é um modelo para a existência, o monastério, e o mosteiro Zen é diferente do mosteiro católico. Em um mosteiro católico você vai para viver a vida inteira, então é muito mais confortável. Num mosteiro Zen você vai para treinar por um período curto, não se espera que um monge em formação fique mais que dois anos num mosteiro, três anos é o máximo. Ele terá uma vida mais dura no primeiro ano, no segundo ano está mais acostumado e no terceiro já estará cuidando dos outros. É um lugar para descobertas, não um modelo de vida. Se fosse um modelo de vida, o monge teria que ser mendicante e não ter ligação com nada. Por isso a designação “Monge” no Zen está errada. Não se trata de monges verdadeiramente, somos “Ministros do Dharma” ou “Reverendos”.
Quando você vai para o mosteiro, vive o celibato, mas quando sai, casa e tem família e muitas responsabilidades, por exemplo, aqui, se um monge quisesse realizar esse tipo de trabalho, teria que receber dinheiro da Sangha, senão como sobreviveria?
5) Qual a utilidade desse processo todo para a humanidade?
Monge Genshô - Essa é uma excelente pergunta. A humanidade mudou por causa dos mosteiros. Em razão da existência dos monastérios é que a Europa mudou completamente. Os monastérios foram responsáveis por copiar livros, guardar conhecimento, educar, serviram de refúgio, foram as primeiras escolas e inspiradores das universidades. Isso também aconteceu no budismo. Em razão da existência de monges e monastérios, aconteceram estudos filosóficos, surgiu a Universidade Nalanda, na Índia, para preservação do conhecimento, os monges lutavam por paz entre os povos, criou-se na Índia, em razão do budismo, um longo período de paz. Se olharmos para o cristianismo, veremos que os monastérios preservaram a alma do cristianismo. Porque, pelas lutas de poder do papado e guerras internas, o cristianismo já teria desaparecido. O cristianismo ficou refugiado em homens como São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loiola, Santa Teresa D’Avila. Essas pessoas estavam nos monastérios.
7) Voltando àquela questão anterior. Então é mais um treinamento para que as coisas desejadas não sejam tão grandes. Não é que você não deva desejar, não deva querer, mas não precisa ter tanto apego...
Monge Genshô - Tem que tirar o “tanto”. Na realidade pode ficar plenamente liberto disso. Ter um carro é muito bom, não ter, tudo bem também. Não é esse o problema. Não existe um meio caminho nisso. Quando dizemos, “Ah, não me importo tanto com isso”, é porque você se importa sim. Só amenizou, mas se importa. Tem que quebrar a xícara e varrer os cacos, só isso, sem sofrer pela xícara quebrada. Se formos capazes de varrer os cacos de tudo na nossa vida, daí sim, pois não são somente coisas, coisas são mais fáceis. Emoções, apegos, pessoas, são fontes de maior sofrimento e mais difíceis de lidar.
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quinta-feira, 20 de março de 2014
Juntando os cacos
Temos então duas grandes fontes de sofrimento: apegos, principalmente afetos, meu filho está passando as férias aqui comigo, amanhã pela manhã ele irá embora, ontem eu sonhei que ele estava indo embora, então me emocionei. A outra fonte de sofrimento é a aversão, o “não gosto”. É claro que na nossa vida comum, se temos um problema difícil de resolver e você não consegue ficar junto, é melhor não conviver. Mas aí não é a vida dos mosteiros. No caso, fora dos mosteiros, o melhor é evitar os relacionamentos perturbadores. Mas com relação ainda aos apegos, não é porque sofreremos por termos apegos que deixaremos de ter amor. O que temos que fazer é admitirmos que a vida é constituída desses envolvimentos e das consequentes perdas, e aceitar que os afetos vêm e vão, que as coisas surgem e terminam.
Para quem trabalha com pessoas e ouve esses tipos de problemas o tempo todo, acaba aprendendo, pois vem uma pessoa e lhe diz - “Eu tinha um relacionamento, um amor, e agora aconteceu uma separação e estou sofrendo muito”. Sei que o sofrimento é real, mas também sei que em alguns anos ao encontrar essa mesma pessoa e ao lhe perguntar sobre o relacionamento ela dirá, “que bom que acabou, encontrei outra pessoa”. Por isso no Sutra do Coração está escrito que “aquele que atinge a iluminação livra-se de toda dor, agonia e sofrimento”. Sua dor e sofrimento desaparecem, pois sua visão de mundo mudou. É como você gostar muito desta xícara, mas ela cai no chão e quebra, o que deve ser feito? Buscar a vassoura e juntar os cacos. Não existe muita utilidade você lamentar sobre os cacos. Não tem muita utilidade essas coisas que arrastamos. Quando as coisas caem e quebram o que temos que fazer é juntar os cacos.
PERGUNTAS
1) Quais são as causas do sofrimento que o Senhor falou?
Monge Genshô – O apego, a aversão e a ignorância. A ignorância é a falta de compreensão. Conhece as pessoas que fazem escândalo porque quebra alguma coisa? Elas brigam e criam um mal estar tremendo por causa de algo que não tem conserto, esse é um dos aspectos da ignorância.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Por que você está aqui
Monge Genshô – Não. Você já está neste meio em razão de seu carma. Já fez parte de seu caminho. O meio nos ajuda ou atrapalha, porém, você tem uma grande capacidade de escolha. Por exemplo, hoje, em vez de estar aqui você poderia estar num boteco bebendo. Você é livre e escolhe seus companheiros. Nós escolhemos o nosso mundo. Não podemos dizer que vivemos e agimos de determinada maneira porque nascemos em determinado país.
Pergunta – Eu falo até em razão disso mesmo que o Senhor disse, a oportunidade que temos, nessa cidade, nesse bairro e com estas pessoas. Isso é muito raro. Eu moro em uma cidade distante de Florianópolis e as pessoas de lá não têm essa oportunidade.
Monge Genshô – Mas você pode montar um grupo de estudos em sua cidade e propiciar a prática para as pessoas de lá. Vocês podem sentar para meditar e ler textos. Temos grupos assim em várias cidades e estados do país. Em Joinville me mandaram uma foto com o texto: “Sentamos em Zazenkai”. E havia três pessoas. Isso é o Dharma funcionando. Isso é um gesto admirável, entendo bem como é isso, pois em Porto Alegre muitas vezes me sentei sozinho. As pessoas não desejam ir para onde as ilusões lhes são tiradas e sim onde exista uma grande oferta de compensação. Se oferecer milagres então, é certeza de casa cheia. Como o Zen não faz esse tipo de oferta, sempre há poucas pessoas. Nós precisamos de pessoas que facilitem o ensino do Dharma. Não é necessário muita coisa, apenas um espaço com almofadas e muita disposição para sentar, inclusive sozinho. Conta-se que Bodhidharma ficou tanto tempo sentado sozinho em uma caverna que a parede da caverna ficou com a marca de sua sombra.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Como as estrelas no céu de dia
Pode levar muito tempo para dispormos de tamanha força e determinação como Buddha teve. Quem não está aqui é porque não tem marca para estar aqui. Ele pode estar em outro lugar que lhe seja prazeroso. Esse final de semana eu estava em Concórdia realizando um zazenkai em um local muito bonito e no terreno ao lado me disseram que havia uma festa rave. Muitas pessoas não tem carma para estar em um retiro ou zazenkai mas sim em uma rave, podem ingerir vários tipos de drogas, escutar aquele som alto e alucinante e até mesmo arriscar-se a morrer em uma overdose. É por aquele tipo de situação sensual que ele sente-se atraído.
Para sentir-se atraído pelo Dharma é necessário certa marca que não é tão comum. Buddha disse que “os seres são como as estrelas no céu a noite, mas aqueles que procuram o Dharma são como as estrelas no céu de dia”. Quando sentamos como hoje, com dez pessoas aqui na comunidade, costuma-se dizer que é alto nível. Mais de dez pessoas no Zen já é grupo de prática forte. É muito difícil, não é? A pessoa vem e dizemos que para ouvir uma palestra ela tem primeiro que sentar por quarenta minutos de frente para uma parede. É um pequeno teste, porque muitos não retornam por causa do esforço que é pedido, nos tempos antigos para encontrar um professor você tinha que subir montanhas a pé, esperar pacientemente que ele achasse que você merecia sua atenção, não admira que aparecessem alunos excepcionais.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
O Lugar da harmonia
Retiro zen, sesshin, na Sangha de Florianópolis, Morro das Pedras, setembro 2012
Quando dizemos na cerimônia, “tomo refúgio na sangha o lugar da harmonia”, isso é de fato o que a Sangha deveria ser: o lugar da harmonia. Mas a Sangha é feita de pessoas e as pessoas são cheias de egos e defeitos e por causa disso, produzem atrito. Dizemos, então, que a Sangha funciona como um pilão de arroz: batemos no arroz e porque um arrasta no outro, perde a casca. Nós, na Sangha, sofremos atritos; porque sofremos atritos, perdemos nossa casca e porque perdemos nossa casca, podemos nos tornar puros. A Sangha não é o lugar onde a harmonia existe, mas é o lugar onde buscamos ficar de tal forma que a harmonia se crie. Como fazemos isso?
Os preceitos são cheios de regras a esse respeito. Já nos dezesseis primeiros preceitos, existe um que diz: “Não se eleve”, principalmente “não se eleve rebaixando os outros”. Então, quando vemos defeitos nos outros e citamos esses defeitos, automaticamente estamos dizendo que não temos os defeitos apontados no outro. Na verdade, a prática budista significa, para esse preceito, que “eu não vejo defeitos nos outros, sei das dificuldades que as outras pessoas têm, mas não posso ser cego para as dificuldades que tenho”. Por causa disso, quando encontro defeito em alguém, devo procurar me concentrar nas qualidades dessa pessoa e imediatamente devo citá-las: “tal pessoa tem dificuldades, porém, tem todas essas outras qualidades”. Devemos apontar suas virtudes, virtudes que muitas vezes nós mesmos não temos.
O que mais nos atrapalha, a todo momento, é termos um ego, uma vaidade e uma noção de separação. Estou separado dos outros, por causa disso, eu penso que ajo melhor do que os outros. Devo me calar a respeito de todas essas coisas e devo procurar fazer com que as pessoas manifestem suas qualidades. Sobre minhas qualidades devo me calar. Sobre minhas dificuldades, também devo me calar, pois sei que tenho dificuldades e não é útil ficar falando sobre elas, apenas devo tentar me corrigir. O melhor caminho é o silêncio. Calar e agir. Não devemos enxergar, quando os outros apontam alguma dificuldade nossa, um ataque ao nosso ego.
Quando dizemos na cerimônia, “tomo refúgio na sangha o lugar da harmonia”, isso é de fato o que a Sangha deveria ser: o lugar da harmonia. Mas a Sangha é feita de pessoas e as pessoas são cheias de egos e defeitos e por causa disso, produzem atrito. Dizemos, então, que a Sangha funciona como um pilão de arroz: batemos no arroz e porque um arrasta no outro, perde a casca. Nós, na Sangha, sofremos atritos; porque sofremos atritos, perdemos nossa casca e porque perdemos nossa casca, podemos nos tornar puros. A Sangha não é o lugar onde a harmonia existe, mas é o lugar onde buscamos ficar de tal forma que a harmonia se crie. Como fazemos isso?
Os preceitos são cheios de regras a esse respeito. Já nos dezesseis primeiros preceitos, existe um que diz: “Não se eleve”, principalmente “não se eleve rebaixando os outros”. Então, quando vemos defeitos nos outros e citamos esses defeitos, automaticamente estamos dizendo que não temos os defeitos apontados no outro. Na verdade, a prática budista significa, para esse preceito, que “eu não vejo defeitos nos outros, sei das dificuldades que as outras pessoas têm, mas não posso ser cego para as dificuldades que tenho”. Por causa disso, quando encontro defeito em alguém, devo procurar me concentrar nas qualidades dessa pessoa e imediatamente devo citá-las: “tal pessoa tem dificuldades, porém, tem todas essas outras qualidades”. Devemos apontar suas virtudes, virtudes que muitas vezes nós mesmos não temos.
O que mais nos atrapalha, a todo momento, é termos um ego, uma vaidade e uma noção de separação. Estou separado dos outros, por causa disso, eu penso que ajo melhor do que os outros. Devo me calar a respeito de todas essas coisas e devo procurar fazer com que as pessoas manifestem suas qualidades. Sobre minhas qualidades devo me calar. Sobre minhas dificuldades, também devo me calar, pois sei que tenho dificuldades e não é útil ficar falando sobre elas, apenas devo tentar me corrigir. O melhor caminho é o silêncio. Calar e agir. Não devemos enxergar, quando os outros apontam alguma dificuldade nossa, um ataque ao nosso ego.
Nesse momento, devemos nos perguntar: “Quem se incomodou?” “Quem se importa com isso?” Meu orgulho e minha vaidade se importam com isso, por isso me importo e não quero ser criticado. Meu orgulho e minha vaidade são meus grandes inimigos, pois são a manifestação do meu ego, portanto, eles fazem a separação. Se me sinto separado, então, estou prisioneiro do ego, se estou prisioneiro do ego, sou prisioneiro de nascimento e morte. Eu nasço e morro porque tenho um ego. Se eu morrer para mim mesmo, não existe mais ninguém para morrer, me livro da morte. Para perder o medo da morte, devemos perder o medo de ter um ego ferido e um ego que desaparece. Para nos livrarmos da morte, temos que morrer agora. Agora.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
O Colegiado Buddhista Brasileiro

Manifestação do CBB no Templo Busshinji, sobre a perseguição a budistas no Myanmar.
P: O que é o colegiado?
R: Por definição um colegiado é apenas a reunião de um grupo de pessoas que se consideram colegas, irmãos em um determinado interesse. O CBB é uma reunião de pessoas, não de instituições, que assim tem um forum onde podem partilhar seus interesses. O CBB não é um orgão executivo dedicado a fazer seminários, retiros ou quaisquer coisas do gênero, estas são atividades dos centros do Dharma ou outras instituições. Pertencem ao CBB os professores que, por interesse em convivência harmônica desejam se filiar e são aceitos por seus pares. Não pertencer aos quadros do CBB não significa demérito mas simplesmente dificuldade associativa com a diversidade de escolas/pessoas.
P: A cartilha do CBB é um documento doutrinário?
R: A cartilha budista publicada pelo colegiado é um esforço de compatibilização entre as definições de várias escolas diferentes, destina-se ao uso da imprensa e não ao estudo sectário.
P: O CBB representa o budismo brasileiro?
R: Representa a associação dos indivíduos que a ele se filiam. Como estes representam
a grande maioria das escolas e lideram ou participam das instituições mais numerosas, tem um peso que lhe permite algumas ações. Portanto não representa o "budismo" mas sim este conjunto de pessoas.
Monge Genshô
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Ideologias

P: O budismo pode tomar posições políticas ou ideológicas?
R: Creio que a questão aí está nas palavras " budismo" e no conceito de "grupos budistas". O budismo em si não é uma instituição e não se confunde com nenhuma das centenas de escolas existentes nem nos milhares quiçá milhões de grupos diferentes com suas próprias idéias. Grupos que se autodenominem budistas podem ter as mais diferentes posturas e cada budista também pode faze-lo, porém o budismo não pode por definição se envolver com proposições do mundo relativo, as pessoas budistas é que o fazem. Assim minha postura é me recusar a defender ou apoiar no grupo de prática as
discussões que envolvam posicionamentos políticos ou ideológicos. Mas evidentemente outros grupos podem resolver agir diferentemente, isto em nenhum momento deveria ser confundido com o budismo em si, o próprio Buda numerosas vezes recusou-se a sequer responder perguntas que continham tais armadilhas.
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